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Aline Sitoué Diatta (c. 1921-1944)

Profetisa senegalesa. Nasceu no povoado de Kabrousse, na então África Ocidental Francesa – AOF, em território ao sudoeste da atual República do Senegal. Pertencia ao grupo étnico Diúla, vinculado aos grupos falantes de língua mandinga que habitam o Senegal, Gâmbia e Guiné-Bissau. Geralmente esse povo é integrado por comunidades produtoras de arroz, vinculam-se prioritariamente ao campo religioso muçulmano e também ao cristianismo, mas a maior parte permanece vinculada às crenças tradicionais africanas.

Antes da ocupação colonial pelos franceses, britânicos, e portugueses, os Diúla tinham uma tradição de revelação direta do Ser Supremo, identificado pelo nome de Emitai, e as revelações podiam ser feitas por videntes e vaticinadores homens. Logo após a colonização, na passagem do século XIX para o XX, mulheres videntes ou profetisas começaram a ganhar influência, especialmente entre os Diúla do sul. A maioria delas ganhavam fama por sua capacidade de invocar ou provocar a chuva, extirpar ou proteger suas comunidades da bruxaria ou outras atividades             que afetavam a vida e curar doentes.

Segundo consta, Aline Sitoué teve as primeiras visões do Ser Supremo os vinte anos. Na ocasião ela já tinha um filho, e devido a uma poliomielite era coxa, mas trabalhava em arrozais da comunidade de Kabrousse, que ela deixou para trabalhar como empregada em Dakar.  Na década de 1930, as reiteradas secas afetaram a produção agrícola diúla, e no início da década de 1940, momento da ocupação francesa pelos nazistas, os oficiais e servidores da metrópole passaram a impor o recrutamento forçado (1939-1940), requisição de gado e arroz, que eram essenciais para a sobrevivência local,  e forçar a plantação de amendoim. Tais demandas, associadas aos períodos anteriores de seca, levaram as comunidades Diúla ao esgotamento, gerando grande insatisfação.

As visões de Emitai de Aline Sitoué começaram em 1941 ou 1942, quando ela teve visões do Ser Supremo e a ela foi anunciado um meio de provocar a chuva e acabar com a seca, visões que ela anunciou em Kabrousse. Logo foi construindo um santuário espiritual em Kasila, onde um touro preto foi sacrificado e toda a comunidade foi mobilizada com refeições comuns e danças. Logo outros santuários foram edificados, e novos(as) videntes passaram a celebrar sacríficios e divulgar as visões de Emitai. Apenas variedades africanas de arroz (oryza glaberimma) podiam ser empregados nos rituais, o trabalho e as atividades passaram a ser regrados pelos costumes antigos e a plantação de amendoim deixou de ser estimulada, por não fazer parte da produção agrícola local. As florestas voltaram a ser exploradas em busca dos produtos da palmeira (vinho de palma, ramos, azeite de palma ou dendê), ervas medicinais e palha – atividades importantes desde tempos antigos para os Diúla.

Altamente subversivo em face dos interesses coloniais, o movimento liderado por Aline Sitoué foi condenado pelas autoridades coloniais em 1943, quando ela e muitos de seus seguidores foram presos, julgados e condenados pelo Código de Lei Nativo, conhecido como Indigenat, pelo crime de obstrução das iniciativas da administração francesa. Ela foi sentenciada ao exílio, primeiro em Kayes e depois em Tombuctu, onde veio a morrer de escorbuto em 1944, e sua morte foi mantida em segredo até a década de 1980. 

Após a prisão e a repressão do movimento de Aline Sitoue, outras profetisas surgiram em Zinguichor – na região de Casamance -, e ao norte, na região de Tendouck, quando muitas delas reivindicam sua posição como “Enviadas de Emitai” em continuidade ao trabalho profético de Aline Sitoue.

Desde o fim da década de 1970 o padre Diamacoune Senghor e o Mouvement des Forces Démocratiques Casamançais – MFDC (Movimento das Forças Democráticas de Casamance) reivindicaram Aline Sitoué como uma imagem de Joana D’Arc que sacrificou sua vida para libertar Casamance da domínio colonial. Embora não tenha sido a primeira ou a única a ter visões do Ser Supremo, sua ênfase na revelação direta da mensagem sagrada e o contexto de crise em que ela foi anunciada conferiu grande força a sua liderança e ilustra o papel que a liderança religiosa tem desempenhado ao desafiar a expansão da economia global.

BIBLIOGRAFIA

BAUM, Robert. “Aline Sitoue Diatta”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1, p. 176-178.

BAUM, Robert M.. Aline Sitoué: a Diola woman prophet in West Africa. In: FALK, Nancy Auer; GROSS, Rita M.  (Eds.). Unspoken worlds: women’s religious lives. Belmont: Wadsworth/Thompson Learning, 2001, p. 179-195.

GIRARD, Jean. Genèse du pouvoir charismatique en Basse Casamance. Dakar: Institut Fondamental d’Afrique Noire – IFAN, 1969.

Anek Mathiang Yak (séculos XIX-XX)

 Líder política no território situado na atual República do Sudão do Sul.  Nasceu na comunidade Pagok Pathiong Gok Dinka durante a década de 1860. Ainda criança, foi escravizada e levada por negociantes turco-egípcios ao mercado de escravos de Toni, sendo vendida e revendida na cidade de Omdurman, e permaneceu escravizada durante três anos perto de Buri. Como ocorria com outras mulheres nessa condição, foi forçada a passar pela excisão genital e depois entregue a um homem no Sudão do Norte, e aprendeu a língua árabe.  

Com a chegada da era colonial anglo-egípcia, Anek escapou da escravidão e retornou para sua terra natal. Lá ela se casou com um homem chamado Dahl Marol e retomou a vida tradicional Dinka. Com o passar do tempo, ganhou influência junto ao seu povo devido as habilidades adquiridas, e se tornou líder dos Pathiong Gok.

O quartel general anglo-egípcio da região ficava em Rumbek, e ela passou a estabelecer contato com os administradores coloniais, intermediando a presença estrangeira junto ao seu povo. Por isso, ela foi premiada pelos oficiais britânicos com uma espada dourada por “manter a paz”. Ela entrou em conflito com um proeminente líder rival chamado Wuol Athian, que era sacerdote tradicional e líder militar de Agar, outra comunidade Dinka sob a autoridade de Rumbek.

Em uma reunião pública, debateu com ele e o venceu no debate, o que era incomum para uma mulher, e desonroso para um homem Dinka. Isto fez com que outros líderes homens, inconformados, a acusassem de ter ofendido o chefe Wuol Anek ao bater em suas nádegas.  Para evitar um conflito eminente, os oficiais coloniais destituíram-na da chefia, indicando em seu lugar um homem. Ela então abandonou a casa em que vivia na cidade, passando a viver em local incerto. Depois dela, outras mulheres de seu povo vieram a ocupar posições de chefia, com maior frequência do que ocorria entre outras comunidades Dinka.

BIBLIOGRAFIA

BESWICK, Stephanie. Sudan’s blood memory: the legacy of war, ethnicity, and slavery in South Sudan. Rochester: University of Rochester Press, 2004.

BESWICK, Stephanie. “Anek Mathiang Yak”.  In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1,  p. 230.

Baba de Karo (1890-1951)

Baba de Karo (1890-1951). Também conhecida como Baba Hasetu Dantsoh.  Mulher integrante do povo hauçá da aldeia de Karo,  na então província de Zaria, ao norte da atual República da Nigéria.  Seu pai, Tosho, pertencia ao grupo étnico Kanuri, era um bem sucedido fazendeiro e professor do Alcorão. O trabalho em sua propriedade era baseado na exploração do trabalho escravo, e a prosperidade familiar diminuiu após a proibição da escravidão, no período colonial.  Sua mãe, Fatsuma, era uma mulher muçulmana que vivia isolada e preparava comida e algodão fiado para venda.

Tudo o que se sabe sobre Baba baseia-se em entrevistas que ela concedeu a Mary Smith, a esposa de Michael Smith, um antropólogo social jamaicano que fez pesquisa de campo no norte da Nigéria nos anos 1940-1950. As entrevistas ocorreram entre novembro de 1949 e janeiro de 1950, nas cidades de Giwa e Zaria. Elas foram gravadas em hauçá quase literalmente como ditado por Baba, e mais tarde foram traduzidas e publicadas em inglês como uma autobiografia, Baba of Karo: A woman of the muslim hausa (Baba de Karo: uma mulher muçulmana hauçá) (1954),   com uma introdução por Michael Smith e notas finais elaboradas que ajudam a contextualizar certos episódios e contextos da biografia.

A história de vida de Baba de Karo se confunde com a história das mulheres comuns hauçá de meados do século XIX a meados do século XX, onde se pode entrever as experiências da infância e juventude, genealogia familiar e relações de parentesco. Desde a infância ela trabalhava para ajudar a mãe vendendo comida, aos quatorze anos foi, conforme o costume, entregue em casamento a um parente, Duma Sidi (1904). Após enfrentar oposição familiar, divorciou-se, vindo a se casar em período posterior com Malam Maigari, com Yari Malam Hasan e com Ibrahim Dantsoho, os dois últimos, fazendeiros polígamos.

Ao longo da vida, cuidou das cabras que herdou do pai, trabalhou como fiandeira e vendedora de lenha, prestava assistência nos serviços de parto. Seu depoimento contribui para se conhecer melhor a situação das mulheres comuns no período anterior ao colonialismo e as alterações introduzidas pelos britânicos no período colonial. Com papéis políticos limitados, que não iam além de atuarem como jakadiya, isto é, mensageiras de chefes locais, as mulheres alcançavam alguma notoriedade quando se tornavam magajiya – chefes das dançarinas de Bori ou prostitutas.

O testemunho de Baba de Karon revela igualmente aspectos importantes da vida religiosa, seja aqueles relacionados à continuidade das práticas tradicionais anteriores ao islã, vinculado ao culto do Bori e a possessão por espíritos, quanto ao papel do islã na regulação das relações sociais através do casamento e da definição da sucessão familiar. 

Baba faleceu em 3 de junho de 1951. O registro de sua palavra permite acessar aspectos da vida cotidiana de mulheres comuns, que, não ocupando posições de poder ou de liderança, compartilharam experiências e tradições ancestrais, mesmo em período de inovação e transformação. Ela é lembrada como mulher corajosa, com vontade própria, cujo intelecto e memória afiada levaram à produção de sua biografia.

BIBLIOGRAFIA

COLES, Catherine; MACK, Beverly (Eds.). Hausa women in the twentieth century. Madison: University of Wisconsin Press, 1991.

CHUKU, Gloria. “Baba of Karo”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1,  p. 336-338.

SMITH, Mary F.. Baba of Karo: A woman of the muslim hausa. Yale: Yale University Press, 1981 (or. 1954).

Fatou Khan (c.1880-c.1940)

Mulher não alfabetizada gambiana que se tornou a maior mediadora no protetorado do Gâmbia em 1900. Nasceu na aldeia de Njau, acima do distrito de Salum, por volta de 1880, e pouco se sabe sobre seus primeiros anos, exceto que era de ascendência Wolof.

Seu primeiro casamento foi por volta de 1900 e em 1910 se divorciou do primeiro marido e se casou de acordo com os ritos muçulmanos com J. C. McCallum, um viajante britânico comissionado para a província North Bank da Gâmbia. Fatou usou a sua ligação para exercer controle na liderança da província e teve tanta influência que ela foi apelidada de “Rainha Vitória”.

Fatou ensinou McCallum a gramática e o vocabulário Wolof, que ele utilizou como padrão de referência para o uso dos oficiais da colônia. Fatou protegeu o seu tio, chefe Sawalo Sise, que governava uma comunidade do distrito de Salum, da fúria dos oficiais da colônia fazendo com que McCallum escrevesse relatórios positivos sobre ele, aproveitando-se da sua senilidade.

Segundo parece, McCallum delegou mais e mais das suas responsabilidades para Fatou, que, embora iletrada, era capaz de administrar o distrito através de intérpretes oficiais que liam as cartas oficiais e escreviam respostas em inglês. A única responsabilidade de McCallum era de assinar as cartas que Fatou tinha escrito. Depois de um tempo, McCallum ensinou Fatou a forjar sua própria assinatura, e assim, mesmo que ele não estivesse presente ela enviava correspondências ao secretário colonial em Banjul.

A tradição Popular diz que Fatou morreu em Njau dois anos depois do início da Segunda Guerra Mundial com aproximadamente 60 anos. A carreira dela ilustra as possibilidades de uma pessoa iletrada vir a exercer influência e poder político durante o regime colonial.

BIBLIOGRAFIA

CHEESAY, Hassoum. Gambian women: an introductory history. Banjul: Fulladu Publishers, 2008.

CHEESAY,  Hassoum. “Fatou Khan”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 360-361.

PRICE, J.H. Some notes on the influence of women in Gambian politics. Nigerian Institute of social and Economic Research, Conference Proceeding, 1958.

Nácia Gomes (1925-2011)

Cantora tradicional de finaçon e ícone cultural Cabo-Verdiana. Seu nome de nascimento é Maria Inácia Gomes Correia,  e sua família era da Ilha de Santiago. Também conhecida como Nha Nácia Gomi (Dona Nácia Gomes),  foi uma dentre doze filhos, todos(as) criados(as) nas regras estritas da Igreja Católica. Nunca recebeu educação formal, sendo por isto analfabeta.

Começou a cantar quando tinha entre dez e doze anos. As cantoras de finaçon eram, em sua maioria, mulheres conhecidas como finadeiras, que improvisavam versos sobre eventos das vilas, celebrando festivais rurais, nascimentos, casamentos, dias de santos e batismos ou no acompanhamento de sepultamentos. O finaçon é normalmente cantado como duelo e é uma música muito rítmica e divertida. Também é cantada para apresentar uma pessoa que faz um discurso de forma rítmica enquanto é acompanhada por um grupo de percussionistas. Diferente do gênero similar conhecido como batuko ou batuque, o finaçon não inclui dança.

Nácia Gomes viveu uma vida simples na Ilha de Santiago. Ela serviu como inspiração para gerações mais novas de artistas cabo-verdianos, como Tcheka e Vadu, que retomaram às raízes e identidades africanas. Ela participou de diversos filmes sobre a cultura cabo-verdiana do cineasta Guenny K. Pires.

BIBLIOGRAFIA

LIMA-NEVES, Terza Silva. “Nacia Gomes”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 486-487.

LOBBAN, Richard. Cape Verde: crioulo colony to independente naton; Boulder: Westview Press, 1995.

NOGUEIRA, Gláudia Aparecida. Batuko, patrimônio imaterial de Cabo Verde. Percurso histórico musical. Dissertação de Mestrado, Universidade de Cabo Verde, Praia, 2011.

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