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Ahebi Ugbabe (1880–1948)

Nascida na comunidade de Umuida, em Enugu-Ezide, na área cultura igbo, atual Nigéria, era filha de pai agricultor e mãe comerciante.

Cresceu em Unadu, com a família da mãe. Integrante de comunidades acéfalas, em que as decisões são tomadas por conselhos de anciãos ou por sacerdotes que representam as divindades ancestrais, quando tinha cerca de 14-15 anos foi obrigada a abandonar a comunidade familiar e fugir para não ser casada à força com a divindade feminina Ohe, para compensar uma infração cometida pelo pai.

Durante a  fuga em território Igala, Ahebi praticou a prostituição para sobreviver, e se tornou negociante, comercializando óleo de palma, cavalos e mesmo escravos, aprendeu a falar vários idiomas, como o Igala, Nupe e Inglês, e teve acesso a diversos círculos sociais, inclusive o dos colonizadores britânicos. Foi com o recurso a tais contatos, e os seus conhecimentos da língua inglesa,  que ela conseguiu, com o apoio de um oficial britânico retornar à comunidade Enugu-Ezize e reivindicar para si o mandato de chefe e depois o título de eze, equivalente a rei.

Ahebi foi a única mulher nomeada subtenente em toda a Nigéria colonial, o que lhe conferiu ainda maior prestígio junto aos colonizadores, e serviu de intermediária no recolhimento de tributos e na imposição de trabalho forçado. Ela soube se cercar de uma aura de misticismo para fortalecer sua imagem como um rei poderoso, pois governou como homem: teve várias esposas, muitas das quais separadas de maridos abusivos, e adotou os filhos delas.

Antes de morrer preparou o próprio ritual funerário para garantir que obedecesse as normas de um  funeral real, com salvas de tiros, sacrifícios de animais e parada musical, e foi sepultada de acordo com os costumes locais destinados ao enterro de pessoas do sexo masculino.

BIBLIOGRAFIA

ACHEBEchebe, Nwando. The female king of colonial Nigeria: Ahebi Ugbabe. Bloomington: Indiana University Press, 2010.

ACHEBE, Nwando.  “And she became a man”: King Ahebi Ugbabe in the history of Enugu-Ezike northern Igboland, 1880-1948. In: LINDSAY, Lisa; MIESCHER, Stephen (Ed.).  Men and Masculinities in Modern Africa. Portsmouth: Heinemann, 2003.

CHUKU, Gloria. Igbo women and economic transformation in southeastern Nigeria, 1900-1960. New York: Routledge, 2005.

CHUKU, Gloria. “Ahebi Ugbabe”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 94-95.

Amelia Seeiso (1902-1964)

Amelia Matsaba Mantsebo Seeiso foi a filha primogênita do chefe Sempe Nkorbe, uma das principais chefaturas do reino de Quthing, no Lesoto, conhecido na época como Basutolândia. Ela também é conhecida como Mofumahali, nome que designa as esposas dos chefes supremos, equivalente a rainha.

Após concluir a educação primária ela foi casada e instituída como primeira-esposa do chefe supremo Seeiso Grifith, de quem teve a filha chamada Ntsebo, e daí em diante recebeu o título de M’a rona, isto é, a “mãe da nação”. Depois da morte do marido (1941) ela determinou que fosse chamada de Ntale, isto é, “pai”, porque o ofício de governo era tradicionalmente considerado masculino.

Ela foi a primeira e única mulher do Lesoto a ocupar o cargo de Chefe Supremo, em uma das mais longas regências femininas da África Austral, pois governou efetivamente o seu povo de 1941 até 1960 em nome do sucessor legal, Constantine Bereng Seeiso, que tinha na ocasião de sua posse apenas dois anos. A ascensão ao governo ocorreu em meio a uma tensa luta pelo poder com o cunhado e seus partidários, e a sua vitória foi decidida e confirmada por um tribunal inglês.

Seu governo foi marcado por uma série de medidas de apoio ao governo colonial britânico. Durante a II Guerra Mundial ela deu suporte local aos europeus, arrecadou fundos de apoio e enviou 21.468 homens para prestar serviços militares de apoio e limpar os destroços de guerra, motivo pelo qual foi criticada por tira-los de suas famílias e enviá-los para morrer nas guerras dos homens brancos.  Em contrapartida, suas iniciativas foram reconhecidas pela monarquia britânica. Durante uma visita ao Lesoto pelo rei Georges VI ela foi agraciada com a Ordem do Exército Britânico (OBE).

Também foram introduzidas uma série de medidas reformistas visando adaptar a sociedade ao mundo moderno que pavimentaram o caminho para a monarquia constitucional que hoje vigora no Lesoto, como o estabelecimento de conselhos distritais (1943), o Conselho Nacional da Basutolândia e a formação de um setor do Tesouro (1946). As campanhas de vacinação, muito impopulares, a o fortalecimento da Igreja Católica, e sobretudo o aumento do deslocamento de pessoas do Lesoto como trabalhadores migrantes nas minas, fazendas e indústrias sul-africanas, mesmo após a introdução do apartheid em 1948, por causa da negligência britânica de desenvolver o Lesoto, foram motivos de crítica ao seu governo.

Isto levou a que, na década de 1950, ela e o seu governo passassem a ser objeto de duras críticas tanto por nacionalistas quanto por monarquistas, que levaram à formação de partidos políticos modernos entre 1952 e 1959, que acabou por levar ao seu pedido de demissão em 12 de março de 1960, quando Constantinus Bereng Seeiso foi considerado legalmente como chefe supremo.         

BIBLIOGRAFIA

EPPRECHT, Marc. “This matter of women is getting very bad”: gender, development and politics in colonial Lesotho. Pietermaritzburg: University of Natal Press, 2000.

GILL, Stephen J. A.. Short History of Lesotho: from the late Stone Age until the 1993 elections. Morija: Morija Museum & Archives, 1993.

MACHOBANE, L. B. B. J. Government and change in Lesotho, 1800-1966: a study of political institutions. London: Macmillan, 1990.

NTABENI, Mary Nombulelo. “Amelia ‘Matsaba’ Mantsebo Seeiso”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 320-321.

Anek Mathiang Yak (séculos XIX-XX)

 Líder política no território situado na atual República do Sudão do Sul.  Nasceu na comunidade Pagok Pathiong Gok Dinka durante a década de 1860. Ainda criança, foi escravizada e levada por negociantes turco-egípcios ao mercado de escravos de Toni, sendo vendida e revendida na cidade de Omdurman, e permaneceu escravizada durante três anos perto de Buri. Como ocorria com outras mulheres nessa condição, foi forçada a passar pela excisão genital e depois entregue a um homem no Sudão do Norte, e aprendeu a língua árabe.  

Com a chegada da era colonial anglo-egípcia, Anek escapou da escravidão e retornou para sua terra natal. Lá ela se casou com um homem chamado Dahl Marol e retomou a vida tradicional Dinka. Com o passar do tempo, ganhou influência junto ao seu povo devido as habilidades adquiridas, e se tornou líder dos Pathiong Gok.

O quartel general anglo-egípcio da região ficava em Rumbek, e ela passou a estabelecer contato com os administradores coloniais, intermediando a presença estrangeira junto ao seu povo. Por isso, ela foi premiada pelos oficiais britânicos com uma espada dourada por “manter a paz”. Ela entrou em conflito com um proeminente líder rival chamado Wuol Athian, que era sacerdote tradicional e líder militar de Agar, outra comunidade Dinka sob a autoridade de Rumbek.

Em uma reunião pública, debateu com ele e o venceu no debate, o que era incomum para uma mulher, e desonroso para um homem Dinka. Isto fez com que outros líderes homens, inconformados, a acusassem de ter ofendido o chefe Wuol Anek ao bater em suas nádegas.  Para evitar um conflito eminente, os oficiais coloniais destituíram-na da chefia, indicando em seu lugar um homem. Ela então abandonou a casa em que vivia na cidade, passando a viver em local incerto. Depois dela, outras mulheres de seu povo vieram a ocupar posições de chefia, com maior frequência do que ocorria entre outras comunidades Dinka.

BIBLIOGRAFIA

BESWICK, Stephanie. Sudan’s blood memory: the legacy of war, ethnicity, and slavery in South Sudan. Rochester: University of Rochester Press, 2004.

BESWICK, Stephanie. “Anek Mathiang Yak”.  In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1,  p. 230.

Caterina Zenab (c. 1848-1921)

Nasceu na aldeia de Kic Dinka, em Gog, no Sudão, onde era filha de Manian e Agol, um chefe local. Foi levada por missionários católicos de Verona para a capital, Cartum, e para Shellal, no Egito, onde foi batizada com o nome de “Caterina” em 1860, e logo se tornou a primeira evangelista do povo Dinka, embora nunca tenha sido formalmente admitida como membro de qualquer ordem religiosa. 

Por sua grande habilidade no domínio das línguas dinka, árabe e italiano, ofereceu substantiva contribuição aos evangelizadores cristãos na preparação de livros de gramática, dicionário e catecismo escritos em dinka. Atuou nas escolas missionárias de Cartum a partir de 1867, casando-se primeiro com o carpinteiro italiano Cesare Ongano e depois da morte deste, em 1875 viveu maritalmente com o explorador austríaco Ernst Marno.

 No período do movimento mahdista, entre 1885-1898, que preconizava uma reforma radical muçulmana e fechou o país aos ocidentais, Caterina sobreviveu em um refúgio para cristãos em Cartum. Depois, prestou assistência às missões católicas do Cairo, onde atuou como intérprete, e posteriormente participou do trabalho missionário junto ao povo Shilluk, na região sudanesa do Nilo Branco.

BIBLIOGRAFIA

JOHNSON, Douglas H.. Divinity abroad: Dinka missionaries in foreign lands. In: JAMES, Wendy; JOHSON, Douglas H.. (Ed). Vernacular christianity: essais on the social anthropology of religion presented of Godfrey Lienhardt. Oxford: JASO, 1988, p. 170-182.

JOHNSON, Douglas H.. “Caterina Zenab”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 240-241.

SANTOS, Patrícia Teixeira. Fé, guerra e escravidão: Uma história da conquista colonial do Sudão (1881-1898). São Paulo: FAP-UNIFESP, 2013

Fatou Khan (c.1880-c.1940)

Mulher não alfabetizada gambiana que se tornou a maior mediadora no protetorado do Gâmbia em 1900. Nasceu na aldeia de Njau, acima do distrito de Salum, por volta de 1880, e pouco se sabe sobre seus primeiros anos, exceto que era de ascendência Wolof.

Seu primeiro casamento foi por volta de 1900 e em 1910 se divorciou do primeiro marido e se casou de acordo com os ritos muçulmanos com J. C. McCallum, um viajante britânico comissionado para a província North Bank da Gâmbia. Fatou usou a sua ligação para exercer controle na liderança da província e teve tanta influência que ela foi apelidada de “Rainha Vitória”.

Fatou ensinou McCallum a gramática e o vocabulário Wolof, que ele utilizou como padrão de referência para o uso dos oficiais da colônia. Fatou protegeu o seu tio, chefe Sawalo Sise, que governava uma comunidade do distrito de Salum, da fúria dos oficiais da colônia fazendo com que McCallum escrevesse relatórios positivos sobre ele, aproveitando-se da sua senilidade.

Segundo parece, McCallum delegou mais e mais das suas responsabilidades para Fatou, que, embora iletrada, era capaz de administrar o distrito através de intérpretes oficiais que liam as cartas oficiais e escreviam respostas em inglês. A única responsabilidade de McCallum era de assinar as cartas que Fatou tinha escrito. Depois de um tempo, McCallum ensinou Fatou a forjar sua própria assinatura, e assim, mesmo que ele não estivesse presente ela enviava correspondências ao secretário colonial em Banjul.

A tradição Popular diz que Fatou morreu em Njau dois anos depois do início da Segunda Guerra Mundial com aproximadamente 60 anos. A carreira dela ilustra as possibilidades de uma pessoa iletrada vir a exercer influência e poder político durante o regime colonial.

BIBLIOGRAFIA

CHEESAY, Hassoum. Gambian women: an introductory history. Banjul: Fulladu Publishers, 2008.

CHEESAY,  Hassoum. “Fatou Khan”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 360-361.

PRICE, J.H. Some notes on the influence of women in Gambian politics. Nigerian Institute of social and Economic Research, Conference Proceeding, 1958.

Gagoangwe (1845-1924)

Mohumagadi (rainha ou mãe-rainha) sucessivamente dos Mmanaana Kgatla e BaNgwaketse – subgrupos do BaTswana no Protetorado de Bechuanalândia, atual Botsuana.  Era filha de Sechele I, que era kgosi (rei, governante) do povo Kwena e se converteu ao cristianismo em 1840 por David Livingstone. Sua mãe chamava-se Mokgokong.  Segundo consta, quando ela era criança, cegou um sevidor do pai, que, para seguir a rera do “olho por olho” permitiu que o prejudicado cegasse sua própria filha. Por isso ela icou conhecida como  “rainha de um olho”.

Gagoangwe casou-se com o seu primeiro marido, kgosi Pulane, em 1875, mas fugiu algum tempo depois com Bathoen I, herdeiro do povo Bangwaketse, com quem se casou formalmente em 1890. Diz-se que, devido a sua devoção ao cristianismo, influenciou o marido a permitir a entrada da London Missionary Society (Sociedade Missionária de Londres em seus domínios.

Seu filho mais velho, Seepapitso, tornou-se Kgosi após a morte de seu pai em 1910, mas o reinado progressista de Seepapitson II terminou em 1916, quando foi assassinado pelo irmão, Moepitso. Para fazer restaurar a ordem, ela assumiu a regência em nome do neto, Bathoen II, o que a levou a tomar assento junto ao Conselho Consultivo dos povos nativos na relação com os colonialistas britânicos.

BIBLIOGRAFIA

ALLEN, Judith Van. “Gagoangwe”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 407.

MATEMBA, Yonah Hisbon. The assassination of kgosi Seepapitso Gaseitsiwe of the BaNgwaketse, 1916-17. Botswana Notes & Records, v. 34, n. 1, p. 25-36, 2003.

PARSONS, Neil. King Khama, emperor Joe, and the great white queen: victorian britain through african eyes.  Chicago: University of Chicago Press, 1998.

Guimbé Ouattara (1836-1919)

Nascida na cidade de Bobo-Dioulasso, em território que atualmente faz parte da República de Burkina Faso. Era a filha mais velha de Diori Ouattara e de Makogo Ouatara, o casal governante da comunidade.  O pai morreu quando ela tinha três anos e seu irmão mais novo o sucedeu, mas sua mãe continuou a desempenhar um papel ativo, representando-o temporariamente. Era de origem étnica diúla (mandinga), praticante do islã.

Na época em que o conquistador Samori Touré ampliava suas conquistas através de Burkina Faso e da Guiné na década de 1880, Guimbé negociou a paz, pela qual a cidade de Bobo-Dioulasso foi considerada aliada. Anos mais tarde, em 1888 por ocasião da conquista colonial francesa, ela manteve contatos diplomáticos pacíficos com o oficial Louis Gustave Binger, amenizando o clima de hostilidade em sua chegada.

Por esta grande habilidade diplomática a princesa Guimbé é lembrada e muito admirada, sendo homenageada com um mausoléu que é constantemente visitado.

BIBLIOGRAFIA

RUPLEY, Lawrence; Bangali, Lamissa; Diamitani, Boureima. Historical Dictionary of Burkina Faso. Lanham; Toronto;  Plymouth: Scarecrow Pres, 2013.

HEBERT, Jean.  Une grand figure de Bobo-Dioulasso coloniale. La princesse Guimbé Ouatara. In:  MASSA,Gabriel; MADIÈGA (Eds.). La Haute-Volta coloniale: témoignages, recherches, regards. Paris: Éditions Karthala, 1995,p. 509-522.

Nancy Tucker (1825-1908)

Integrante de uma poderosa família de comerciantes do sul de Serra Leoa, descendente do oficial inglês John Tucker, que ali se estabeleceu em 1665. No século XVIII, era a mais influente família euro-africana que controlava o tráfico de escravos.

Nancy nasceu na região de Kittam e ingressou nas atividades de comércio na cidade de Bagru, no período de ocupação do país pelos britânicos, quando o tráfico de escravos foi substituído pelo comércio de produtos naturais tropicais, como o cacau.

Ela desempenhou importante papel a serviço dos ingleses em todo o período de ocupação, e foi instalada pelas autoridades coloniais como chefe da cidade de Bagru após a morte do titular, Humpa Rango, do Dodo. Nesta posição, foi responsável pela cobrança de impostos da população, sendo por sua vez atacada por rebeldes e protegida pelos colonizadores, mantendo-se como governadora local até o fim de sua vida.

BIBLIOGRAFIA

DAY, Linda. Gender and Power in Sierra Leone: Women Chiefs of the Last Two Centuries. New York: Palgrave MacMIllan, 2012.

WHITE, Frances. Creole women traders in the nineteenth century. The International Journal of African Historical Studies, v 14, n. 4, p. 626-642, 1981.

Ngalifourou (1864-1956)

Nascida com o nome de  Ngassié, na aldeia de Ngabé. O seu nome, na língua teke, significa “estrela bonita”. Logo na entrada da adolescência, por volta de 1880,  foi entregue em um casamento arranjado ao velho rei Iloo, do reino Teke de Bem, assumindo daí em diante a função de rainha de seu povo, às margens do Rio Congo. Como em outros casos similares, seu nome foi mudado para Ngalifourou, que significa, literalmente, “rainha do poder”.  Ela passou a dividir com o seu consorte a autoridade, tornando-se pessoa proeminente junto ao Conselho de Anciãos.

No momento da chegada dos colonialistas franceses liderados por Pierre Savorgnan de Brazza, ela estabeleceu relações de amizade e aliança, valendo-se do apoio dos recém-chegados para subjugar alguns chefes de família dissidentes.

Após a morte de Illo em 1892 ela assumiu o controle do governo  como Rainha-mãe (Man Ounko), dividindo com o novo rei mas sem depender dele ou ser sua esposa. Desfrutando do prestígio próprio de sua função, a que se atribuía uma forte aura espiritual,  ela  presidia diversos rituais vinculados aos espíritos ancestrais, tornando-se portadora de insígnias mágicas e famosa por seu carisma espiritual.

Para reforçar a sua imagem, ela adotou elementos do uniforme dos oficiais franceses, com inúmeras medalhas que recebeu do governo colonial do Congo-Brazzaville. Como guardiã do exército ela participava de todas  as reuniões do Congo, e enviou ajuda aos franceses durante a II Guerra Mundial, o que lhe garantiu, em troca, diversas condecorações, incluindo a Legião de Honra.

Quando ela faleceu, a cerimônia de enterro recebeu grande atenção dos administradores coloniais, e dela participaram dignitários de diversas outras colônias francesas, do Vaticano e do Congo Belga.

BIBLIOGRAFIA

MOUYANI OPOU, Eugenie. La reine Ngalifourou: souveraine des Téké. Paris: L’harmattan, 2006.

RICH, Jeremy. “Ngalifourou”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 446-447.

VANSINA, Jan. The kingdoms of the Savanna. Madison: University of Wisconsin Press,  1966.

Okwei de Osomari (1872–1943)

Nascida Okwei Afubeho em 1872 na cidade de Osomari, localizada na região do baixo Rio Níger, na atual Nigéria. Pertenceu a uma importante linhagem do grupo igbo. Seu pai, Osuna Afubeho, foi um conhecido guerreiro, além de um príncipe de grande riqueza, proprietário de centenas de escravos, que controlava localmente o comércio e fazia a guerra. Seu avô, chamado Nzedegwu, foi Atamanya (rei) de Osomari, assinou acordos comerciais com os britânicos em 1854 e em 1860 e convidou a missão da igreja católica para sua cidade. O avô materno, Obi Aje, foi um dos filhos de Obi Ossai, rei de Aboh que em 1830 assinou acordos comerciais com europeus.

Aos nove anos de idade Okwei aprendeu com um tia materna a arte do comércio, além de aprender igala, língua oficial do comércio no Delta do Níger. Aos quinze, mudou-se com sua mãe para a cidade comercial de Atani, onde comercializavam vinho de palma, inhame, porcelana e noz de cola. De um primeiro casamento, herdou bens e contatos comerciais que fortaleceu sua posição no comércio ao longo do Rio Níger, e em um segundo casamento (1895), com o herdeiro de uma influente família de mercadoras de Aboh e Onitsha, tornou-se agente da concessionária britânica Niger Company. Com isso ela passou a comprar diversos produtos – tabaco, fósforos, lâmpadas, louças, vasos, álcool –  para distribuí-los a atacadistas e varejistas locais. Além do mais, ela arranjava casamentos de jovens mulheres com negociantes estrangeiros, empresários locais, gerentes de bancos e trabalhadores assalariados. Além do mais, instituiu parceiros comerciais nos principais portos do Rio Niger: Oguta, Ndoni, Brass, Port Harcourt e Warri.

Durante a I Guerra Mundial os produtos derivados da palmeira tiveram baixa no mercado Okwei o que a levou a comercializar tecidos de origem indiana (madras), além de continuar a vender pólvora, marfim, álcool e miçangas de coral. Como já tinha capital e organização suficiente, deixou de comprar dos intermediários europeus e estabeleceu contato direto com as fábricas da Inglaterra. Na condição de agente de empresas estrangeiras incluindo bancos, passou a atuar como agente local de câmbio, o que não agradava os nativos.

Em 1926 ela começou a trabalhar com empréstimo de dinheiro a novos comerciantes, agricultores e piscicultores. Sua taxa de lucro foi tão alta que alguns de seus devedores a processaram. Sua capacidade de adaptação e gerência de negócios variados a mantiveram durante o período da Grande Depressão. Ela soube investir em Onitsha, adquirindo a propriedade de 25 lotes, 24 casas, caminhões de carga e transporte marítimo. Okwei comprou uma casa moderna em sua cidade natal e um carro particular.

Apesar de sua falta de estudo formal, o comércio rendeu lucros e reconhecimento. Ela legou aos filhos os frutos de seu império, o que lhes garantiu posição de poder econômico e influência política na década de 1930. Ela própria teve destacada participação política, como representante da Onitsha Native Court (1912), da Waterside Settlement e da Native Court de Onitsha, junto ao governo colonial britânico.  Em 1935 ela foi coroada como Omu (título equivalente a rainha) de Osomari, tornando-se chefe do conselho feminino cujo trabalho era ajudar o Rei e seus conselheiros a administrar Osomari. Ela tinha o seu próprio palácio e uma equipe de conselheiras que a ajudavam nas disputas de pautas femininas e do mercado de Osomari, além de ser responsável por guardar as tradições e organizar cerimônias e festas.

Por sua enorme influência e prestígio, ela é tida como a mais importante omu da história do povo igbo, sendo lembrada e homenageada em Onitsha, cuja rua principal leva o seu nome.

BIBLIOGRAFIA

CHUKU, Gloria. Igbo women and political participation in Nigeria, 1800-2005. International Journal of African Historical Studies, v. 42, n. 1, p. 81-103, 2009. 

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EKEJIUBA, Felicia Ifeoma.  Omu Okwei of Osomari. In: AWE, Bolanle (Ed.). Nigerian woman in historical perspective. Lagos: Sankore Publishers, 1992, pp. 89-104.

Ririkumutima (+ 1927)

Rainha-mãe do Burundi e líder política. Quando as forças alemãs chegaram ao reino em meados da década de 1890, Mwezi Gisabo, seu marido, deteve os esforços dos oficiais alemães para derrotar seu reino através da força militar, mas aceitou a autoridade alemã em 1903 no Tratado de Kiganda.

Ririkumutima era a esposa favorita de Mwezi Gisabo com quem teve quatro filhos: Karabona, Bishinga, Nduwumwe e Bangura. Possuía grande poder por direito próprio. De acordo com relatos orais, ela interveio em nome de um homem falsamente acusado por membros da corte real e exigiu que o caso fosse julgado pelo conselho real de Bashingantahe, que absolveu o réu.

Depois da morte do rei em 1908, Ririkumutima  exerceu influência pessoal na sucessão que decidiu pela ascensão de Mwezi Gisabo, entronizado como Rei Mutaga, e disputou com um alto membro da linhagem real, o tio do rei, Ntarurega,  pelas principais responsabilidades de administrar o governo do Burundi.

Aproveitando essas dissenções internas, os alemães passaram a apoiar outro governante no Estado de Burundi Kilima, o que fez com que o reino ficasse dividido entre três grupos governantes. Com a morte de Mutaga em 1915 Ririkumutima eliminou outros pretendentes e se aliou aos germânicos, enquanto Ntarurega apoiou o avanço dos belgas. Esse clima de guerra se prolongou até 1917, quando ela morreu em circunstâncias mal explicadas – segundo a tradição, por estrangulamento.

Sua morte favoreceu a nova administração belga e seus inimigos na corte. Ela foi enterrada na floresta sagrada de Mpotsa, com as demais rainhas-mães do Burundi. Sua posição de poder e a excepcional capacidade de manobra e de manipulação sugerem não apenas o poder de mulheres governantas antes do período colonial, mas que algumas delas podiam ser tão maquiavélicas quanto qualquer líder do sexo masculino.

BIBLIOGRAFIA

GAHAMA, Joseph. Le Burundi sous administration belge.  Paris: Karthala, 1983.

NDIHOKUBWAYO, Jean Berchmans; Ndayisenga; Appolinaire. Reflection on the place of women in burundian society. Disponível online: https://www.researchgate.net/profile/Jean_Ndihokubwayo/publication/331284817_Reflection_on_the_place_of_women_in_Burundian_society/links/5c7012af299bf1268d1df807/Reflection-on-the-place-of-women-in-Burundian-society

RICH, Jeremy. “Ririkumutima”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 204-205.

Wangu Wa Makeri (c. 1850–1936)

Nasceu na aldeia de Gitie, no distrito de Kangema, atual distrito de Muranga na República do Quênia.

Era casada com Makeri Wa Mbogo, com quem teve seis filhos, mas se envolveu em relações amorosas com o rei Kaguri Wa Gakure, o chefe supremo de Muranga, que a elevou à posição de chefe local em Kangema – função que desempenharia no período de 1902-1909. Trata-se de um caso único de chefia feminina na sociedade kikuyu, que era eminentemente patriarcal. 

O período de governo de Wangu coincide com o momento de ocupação colonial britânica, e ela passou a desempenhar importante papel como intermediária. Além de coletar impostos, controlar o consumo de bebidas na comunidade e manter a lei e a ordem, ela introduziu os métodos e técnicas modernas na agricultura, saúde e educação. E ainda prestou amplo apoio à entrada de missionários e escolas missionárias no distrito de Weithaga e Kahuhia.

Lembrada nas tradições orais como governanta cruel e tirânica, teria sido forçada a renunciar quando, em uma reunião pública ela praticou a dança da Kibata, que era reservada exclusivamente aos guerreiros. Sua imagem está associada ao domínio colonial britânico.

BIBLIOGRAFIA

MURIUKI, G. A..  History of the kikuyu, 1500-1900. Naiorobi: Oxford University Press, 1974.

MURIUKI, Godfrey. “Wangu wa Makeri”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 152-153.

WANYOIKE, M.W. Wangu wa Makeri. Nairobi: East African Educational Publishers, 2002.

Yaya Migansi (c. 1850–1932)

Princesa daomeana, viveu na corte de Abomé, ao sul da atual República do Benin. O nome Yaya Migansi é um apelido de Houekodé. “Yaya”, da língua yorubá, significa “velha”, e Migansi, no Daomé, era o nome dado à esposa do migan, o mais alto ministro da corte real. Sua mãe, Miagbe, era esposa do rei Glelé, e lhe deu três pares de gêmeos, sendo Houekodé a filha mais velha do primeiro grupo.  Na condição de na  dabo, na língua fongbé, “princesa mais velha”, ela detinha posição de grande prestígio, como responsável pela educação, orientação e preparação para a vida do filho do soberano e seu eventual sucessor.

Após a morte de Glelé em 1889, as pressões dos franceses pelo domínio de Cotonou geraram um clima de crescente tensão com o sucessor daomeano, o rei Benhanzin, que liderou a resistência armada contra os invasores até ser derrotado em batalha no ano de 1892, preso e exilado na Argélia em 1894. Foi neste contexto de conquista militar que Yaya Migansi tomou a frente nas negociações com os franceses em nome da família real para a entronização de um novo rei, chamado Agoliagbo. Respeitada pelos franceses por sua remarcável inteligência e por sua influência palaciana, ela é lembrada com rancor pelos descendentes do soberano deposto, que disputam até o presente momento a continuidade da linhagem dinástica interrompida.  

BIBLIOGRAFIA

BAY, Edna. Wiwes of Leopard: gender, politics and culture in Kingdom of Dahomey. Charlottesville: University of Virginia Press, 1998.

BAY, Edna. “Yaya Migansi’. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 02-03.

Yoko de Senehun (1849–1906)

Pertencente a uma família de alta linhagem do grupo étnico Kpa, do povo Mende, em Serra Leoa. Desde a infância, na comunidade de Gbo, em Taiama, foi iniciada na sociedade secreta de mulheres denominada Sande (também conhecida como Bundu), o que lhe garantiu uma rede de alianças com as mulheres de sua comunidade, e se destacou como excelente dançarina, o que aumentou o seu prestígio pessoal.

Casada sucessivamente com dois importantes chefes de guerra, Gongoima e Gbanya, após a morte deste último, em 1878, assumiu pessoalmente a liderança de seu povo, passando algum tempo depois a ser conhecida como “Mamãe Yoko”, “Madame Yoko” ou “Yoko de Senehun”.

Sua liderança nas décadas de 1880-1890 coincidiu com o período de ocupação colonial inglesa, quando Yoko desfrutou de considerável influência local. Por seu prestígio familiar e sua excepcional capacidade de comunicação e negociação, atuou em diversas situações para o estabelecimento da paz entre ingleses e chefes locais resistentes, obtendo vantagens pessoais e reconhecimento. Promoveu entretenimento e diversão aos oficiais ingleses.  Valendo-se dos contatos com mulheres dançarinas pertencentes a sociedade Sande, promoveu o casamento de muitas delas com oficiais e administradores europeus.  Ao incentivar tais alianças, passou a dispor de uma rede de informação e de apoio, o que fortaleceu ainda mais sua autoridade e prestígio local. Tudo isso levou a que fosse reconhecida pelo poder colonial desde 1884 como “Rainha de Senehun”.

BIBLIOGRAFIA

DAY, Linda R.. “Yoko of Senehun”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 213.214.

EASMON, M. C. F.. Madam Yoko ruler of the Mende Confederacy. Sierra Leone Studies, n. 11, p. 165-168, 1958.

HOFFER, Carol P.. Madam Yoko: ruler of the Kpa Mende confederacy. In: ROSADO, Michelle; LAMPHERE, Louise. Woman, culture and society. Lamphere: Stanford University Press, 1974. 

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