Tag: Regentes

Amelia Seeiso (1902-1964)

Amelia Matsaba Mantsebo Seeiso foi a filha primogênita do chefe Sempe Nkorbe, uma das principais chefaturas do reino de Quthing, no Lesoto, conhecido na época como Basutolândia. Ela também é conhecida como Mofumahali, nome que designa as esposas dos chefes supremos, equivalente a rainha.

Após concluir a educação primária ela foi casada e instituída como primeira-esposa do chefe supremo Seeiso Grifith, de quem teve a filha chamada Ntsebo, e daí em diante recebeu o título de M’a rona, isto é, a “mãe da nação”. Depois da morte do marido (1941) ela determinou que fosse chamada de Ntale, isto é, “pai”, porque o ofício de governo era tradicionalmente considerado masculino.

Ela foi a primeira e única mulher do Lesoto a ocupar o cargo de Chefe Supremo, em uma das mais longas regências femininas da África Austral, pois governou efetivamente o seu povo de 1941 até 1960 em nome do sucessor legal, Constantine Bereng Seeiso, que tinha na ocasião de sua posse apenas dois anos. A ascensão ao governo ocorreu em meio a uma tensa luta pelo poder com o cunhado e seus partidários, e a sua vitória foi decidida e confirmada por um tribunal inglês.

Seu governo foi marcado por uma série de medidas de apoio ao governo colonial britânico. Durante a II Guerra Mundial ela deu suporte local aos europeus, arrecadou fundos de apoio e enviou 21.468 homens para prestar serviços militares de apoio e limpar os destroços de guerra, motivo pelo qual foi criticada por tira-los de suas famílias e enviá-los para morrer nas guerras dos homens brancos.  Em contrapartida, suas iniciativas foram reconhecidas pela monarquia britânica. Durante uma visita ao Lesoto pelo rei Georges VI ela foi agraciada com a Ordem do Exército Britânico (OBE).

Também foram introduzidas uma série de medidas reformistas visando adaptar a sociedade ao mundo moderno que pavimentaram o caminho para a monarquia constitucional que hoje vigora no Lesoto, como o estabelecimento de conselhos distritais (1943), o Conselho Nacional da Basutolândia e a formação de um setor do Tesouro (1946). As campanhas de vacinação, muito impopulares, a o fortalecimento da Igreja Católica, e sobretudo o aumento do deslocamento de pessoas do Lesoto como trabalhadores migrantes nas minas, fazendas e indústrias sul-africanas, mesmo após a introdução do apartheid em 1948, por causa da negligência britânica de desenvolver o Lesoto, foram motivos de crítica ao seu governo.

Isto levou a que, na década de 1950, ela e o seu governo passassem a ser objeto de duras críticas tanto por nacionalistas quanto por monarquistas, que levaram à formação de partidos políticos modernos entre 1952 e 1959, que acabou por levar ao seu pedido de demissão em 12 de março de 1960, quando Constantinus Bereng Seeiso foi considerado legalmente como chefe supremo.         

BIBLIOGRAFIA

EPPRECHT, Marc. “This matter of women is getting very bad”: gender, development and politics in colonial Lesotho. Pietermaritzburg: University of Natal Press, 2000.

GILL, Stephen J. A.. Short History of Lesotho: from the late Stone Age until the 1993 elections. Morija: Morija Museum & Archives, 1993.

MACHOBANE, L. B. B. J. Government and change in Lesotho, 1800-1966: a study of political institutions. London: Macmillan, 1990.

NTABENI, Mary Nombulelo. “Amelia ‘Matsaba’ Mantsebo Seeiso”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 320-321.

Elizabeth Pulane Moremi (1912-1994)

Detentora do título de mohumagadi, equivalente ao de “rainha” ou “rainha-mãe”. Nasceu na comunidade dos povos BaTawana, no Estado Livro de Orange, atual África do Sul. Seus pais eram integrantes do grupo BaRolong, um dos ramos do povo Tswana, em Bechuanalândia, atual Botswana. 

Na sua infância e juventude recebeu formação como enfermeira na Escola de Tiger Kloof, até se casar em 1937 com o bogosi (chefe)  dos BaTawana, que veio a governar este povo com o nome de Moremi III, com quem teve três filhos, um deles, Letsholathebe, o sucessor legítimo.

Após um governo tenso e conflituoso com os britânicos, Moremi III foi assassinado em 1946, mas o seu filho, nascido em 1941, tinha apenas cinco anos, o que levou Elizabeth a assumir o governo como regente. Ela governou até a maioridade do filho, em 1964, demonstrado grande capacidade de negociação com opositores internos, promoveu reformas, criou conselhos representativos locais e foi a única mulher do Conselho Legislativo do Protetorado Britânico.

Em 1963, por sua iniciativa foi construída a Reserva Moremi da vida selvagem, na parte oriental do delta do rio Okavango, uma área protegida contra a caça, que veio a se tornar importante local turístico. Esta iniciativa despertou oposição inicial do protetorado britânico, mas ela contou com o apoio de grupos locais que lhe faziam oposição, como os BaYei, o que permitiu concluir o projeto.

Quando Letsholathebe assumiu a sua função, ela se tornou matrona do Francistown  Teaching College, no Leste de Botswana, e retirou-se para a região de Ngamiland, onde residiu até vir a falecer.

BIBLIOGRAFIA

BOLAANE, Maitseo. Chiefs, hunters and adventurers: the foundation of the Okavango/Moremi National Park, Botswana. Journal of historical geography, v. 31, n. 2, p. 241-259, 2005: https://doi.org/10.1016/j.jhg.2004.12.023

MORTON, barry. The career of Elizabeth Pulane n’ee Seeco Moremi, chief of the Batawana, 1947-1964. Toronto; Atlanta: Emory University, 1994. 

 

Gagoangwe (1845-1924)

Mohumagadi (rainha ou mãe-rainha) sucessivamente dos Mmanaana Kgatla e BaNgwaketse – subgrupos do BaTswana no Protetorado de Bechuanalândia, atual Botsuana.  Era filha de Sechele I, que era kgosi (rei, governante) do povo Kwena e se converteu ao cristianismo em 1840 por David Livingstone. Sua mãe chamava-se Mokgokong.  Segundo consta, quando ela era criança, cegou um sevidor do pai, que, para seguir a rera do “olho por olho” permitiu que o prejudicado cegasse sua própria filha. Por isso ela icou conhecida como  “rainha de um olho”.

Gagoangwe casou-se com o seu primeiro marido, kgosi Pulane, em 1875, mas fugiu algum tempo depois com Bathoen I, herdeiro do povo Bangwaketse, com quem se casou formalmente em 1890. Diz-se que, devido a sua devoção ao cristianismo, influenciou o marido a permitir a entrada da London Missionary Society (Sociedade Missionária de Londres em seus domínios.

Seu filho mais velho, Seepapitso, tornou-se Kgosi após a morte de seu pai em 1910, mas o reinado progressista de Seepapitson II terminou em 1916, quando foi assassinado pelo irmão, Moepitso. Para fazer restaurar a ordem, ela assumiu a regência em nome do neto, Bathoen II, o que a levou a tomar assento junto ao Conselho Consultivo dos povos nativos na relação com os colonialistas britânicos.

BIBLIOGRAFIA

ALLEN, Judith Van. “Gagoangwe”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 407.

MATEMBA, Yonah Hisbon. The assassination of kgosi Seepapitso Gaseitsiwe of the BaNgwaketse, 1916-17. Botswana Notes & Records, v. 34, n. 1, p. 25-36, 2003.

PARSONS, Neil. King Khama, emperor Joe, and the great white queen: victorian britain through african eyes.  Chicago: University of Chicago Press, 1998.

Hatshepsut (c. 1507-1458 a.C.)

Esposa real, regente e mulher-faraó do Antigo Egito. Nasceu na cidade de Tebas, filha do faraó Thutmés I e da rainha Ahmés e pertenceu à 18ª dinastia de governantes, durante o Novo Império ou Reino Novo. Governou no período situado entre 1479-1458 a.C.

Segundo parece, teria vinte e quatro anos quando o pai morreu. Seguindo os costumes em vigor na sociedade egípcia, pelo qual os membros da família real casavam-se entre si, era esposa de seu meio-irmão Thutmés II (1492-1497 a.C.), que sucedeu o pai no trono em um curto período de governo. Este teve como sucessor Thutmés III (1479-1425 a.C.), filho dele e de sua segunda esposa chamada Mutnofret. Como o sobrinho e enteado, ainda criança, não dispunha de condições para assumir as responsabilidades de governo, na qualidade de esposa real Hatshepsut assumiu o poder como regente. Temporariamente, coube a ele o papel de participar dos cultos às divindades.

Já no período de governo de Thutmés II, a rainha adotou o nome de Maatkare, colocando-se como soberana do Egito e adotando os atributos faraônicos, os títulos distintivos e os símbolos da monarquia. Colocando-se publicamente como filha de Amon-Rá, apoiou-se no parentesco divino a esse deus importante do panteão egípcio para fazer reconhecer o seu prestígio, dedicando-lhe monumentos e objetos votivos no Templo mortuário de Djeser Djeseru (“A maravilha das Maravilhas), no complexo monumental de Deil el-Baari, junto ao Vale dos Reis, dedicado aos deuses Amon, Anúbis e à deusa Hator. 

No sétimo ano da regência, ela proclamou-se faraó, passando a governar em nome de Thutmés III e em seu próprio nome, numa co-regência com o sobrinho, até sua própria morte.  Ao que parece, para manter-se nessa nova condição ela contou com o apoio dos sacerdotes de Amon, que ao manterem-se fiéis a ela receberam contrapartidas e favores da governanta. Ela se dedicou à administração interna do reino e à produção de grandes construções, monumentos e obras de representação da ideologia faraônica. Data de seu reinado uma expedição ao reino de Punt, no litoral da atual Somália, idealizada como a “terra do incenso”, cuja viagem é retratada nos alto-relevos de Deir el-Baari.  

Vista como uma das pessoas mais influentes na história egípcia, teve após a morte o seu corpo sepultado no Vale das Rainhas. Ao que parece, todavia, teve seu nome intencionalmente apagado da memória dinástica por Thutmés III. Este teria mandado derrubar suas estátuas e retirar as marcas de suas insígnias dos monumentos, algo aliás frequente na história egípcia antiga. Este viria a adotar outra linha de ação para infundir o seu nome na posteridade, fortalecendo a organização militar e dando início a uma série de campanhas na Líbia, Oriente Médio e Núbia – alargando a influência egípcia até a quarta catarata do Nilo.

BIBLIOGRAFIA

FAIRMAN, H.W.; Grdseloff, B. Texts of Ḥatshepsut and Sethos I inside Speos Artemidos. The Journal of Egyptian Archaeology, v. 33, n. 1, p. 12–33, 1947. Disponível em: https://doi.org/10.1177/030751334703300103

ROEHIG, Catherine; Dreyfus, Renee; Keller, Cathleen. Hatshepsut: from Queen to Pharaoh. Nova Iorque: Metropolitan Museum of Art, 2015.

TYLDESLEY, Joyce. Hatshepsut: the female pharaoh. Londres: Penguin Books, 1996. 

SHIRLEY, J. J. The power of the elite: the officials of Hatshepsut’s regency and coregency. In: Galán, J.; Bryan, B. M.; Dorman, P. F. (Eds.). Creativity and innovation in the reign of Hatshepsut. Chicago: Studies in Ancient Oriental Civilization, 2014.

SOUZA, Aline Fernandes de. A mulher-faraó: representações da rainha Hatshepsut como instrumento de legitimação (Egito Antigo, século XV a.C.). 2010. 173f. Dissertação (Mestrado em História) – Programa de Pós-Graduação em História, Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2010. Disponível em: https://www.historia.uff.br/stricto/td/1368.pdf

Labotsibeni Mduli (c.1858-1925)

Rainha-Mãe e poderosa regente da Suazilândia que promoveu reformas educacionais e reivindicou o direito dos suazi contra a invasão colonial. Nasceu em Luhlekweni, no norte da Suazilândia, próximo da fronteira com a atual República de Moçambique. Seu nome foi dado em homenagem ao seu pai, Matsanjana Mdluli que estava lutando com o povo Tsibeni no Transvaal no momento do seu nascimento. Após a morte do pai ela mudou-se com o tio, Mvelasi Mdluli, para a residência real em Ludzidziu. Nesta ocasião, ficou sob a tutela da rainha-mãe Thandile, viúva do Rei Sobhuza I e mãe de Mzwati II.  Toda essa convivência lhe permitiu aprender bem os costumes da corte da Suazilândia.

Labotsibeni se tornou uma das esposas do rei Mbandzeni (1857-1889), em cujo reinado colonos europeus exigiram uma grande porção das terras dos suázis, incluindo direitos sobre extração mineral. Teve filhos com ele: Bhunu (c.1875 – 1899), Malunge (c.1880 1915) e Lomvazi (c.1885 – 1922) e uma filha Tongotongo (c.1879 1918).

Após a morte do marido, foi rainha regente por trinta anos, e reinou entre 1895- 1899 junto com o filho Bhunu. Ela conteve o avanço dos bôeres sobre o território de seu povo em 1895, e depois negociou com eles e com os ingleses, de modo a garantir a continuidade das instituições de seu povo mesmo que para isso tivesse que se colocar sob o protetorado britânico, como ocorreu no período da Guerra dos Bôeres (1899-1902). 

Por não concordar com diversas atitudes e com o comportamento do filho, a quem considerava insensato, em 1911 ela criou um fundo para fins educacionais que permitisse a criação de escolas e tutores, e forçou o futuro rei Sobhuza II a terminar os estudos em Lovedale, na África do Sul. Mesmo depois de deixar o trono, ela continuou apoiando a educação e a independência da Suazilândia.

BIBLIOGRAFIA

BONNER, Philip. Kings, commoners and concessionaires: the evolution and dissolution of the nineteenth-century swazi state. Nova Iorque: Ca,bridge University Press, 1993.

DLAMINI, Betty. “Labotsibeni”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 453-454.

GININDZA, Thoko. Labotsibeni/Gwamile Mduli: the power behind the swazi throne, 1875-1925. In: KAPLAN, Flora E. S. (Ed.). Queens, queen mothers, priestesses, and power: case studies in African gender. Nova Iorque: New York Academy of Sciences, 1997.

Mentewwab (1706-1773)

Nascida com o nome de batismo Walatta Giyorgis, na região de Qwara, com ascendência real da parte da mãe e do governo local da parte do pai, atuou como rainha regente da Etiópia. Recebeu educação formal de clérigos da rede monástica do santo Ewostatewos e apoiou sua doutrina, futuramente financiando as igrejas de Qwesqwam Debre Sehay e Narga Sellase.

Concubina do negus (imperador) Bakaffa, que governou de 1721 a 1730, teve seu filho Iyasu II, conduzido ao trono com 7 anos de idade, sendo ela coroada como etege, título usualmente dado à esposa oficial do rei. Em 1732 enfrentou uma rebelião que foi controlada com ajuda do seu irmão, Walda Leul, responsável pelas expedições militares.

Governando em Gondar, a capital do reino, no início de cada ano (setembro, no calendário etíope), ela e o rei reuniam os dignitários para a redistribuição das funções oficiais. Para além de Iyasu, Mentewwab teve três filhas, que se casaram com governantes regionais da Etiópia, fortalecendo assim suas alianças políticas.

Ela exerceu um papel importante principalmente nos primeiros nove anos do governo de Iyasu, até que ele se tornasse legalmente autônomo. Com a morte dele em 1755, Mentewwab voltou a adquirir importância com a coroação do seu neto, Iyoas, também criança, mantendo-se diretamente no governo até 1769, quando foi forçada a se refugiar em Gojjam devido a uma revolta do governante da Província de Tigré, Mikael Sehul.

Além do palácio de Gondar, mandou construir o complexo palaciano de  Kuskuam, às margens do Lago Tana, onde também fez edificar uma igreja em homenagem a Virgem Maria. Imperatriz caprichosa, ficou conhecida por vários epítetos de grande valor simbólico O mais conhecido, Mentewab, significa “muito bonita”, mas também era chamada de Walata Giyorgis, “filha de São Jorge” e  Berthan Mogasa “glorificada pela luz”.

BIBLIOGRAFIA

BOSC-TIESSÉ, Claire. “How beautiful she is!” in her MIrror: polysemic images and reflections of power of an eighteenth-century ethiopian queen.” Journal of Early Modern History,v. 8, n. 3-4, p. 294-315, 2004.

BOSC-TIESSÉ, Claire. “Mentewwab”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 201-202.

GUIDI, Ignazio (Ed.). Annales regum Iyasu II et Iyo’as (Annales des règnes de Iyasu II et de Iyo’as) (Corpus scriptorum christianorum orientalium, n. 61-66, Scriptores aethiopici, n. 28-29). Louvain: Louvain Catholic University, 1910-1912.

PANKHURST, R.. An eighteenth century ethiopian dynastic marriage contract between Empress Mentewwab of Gondar and Ras Mika’el Sehul of Tegre. Bulletin of the School of Oriental and African Studies, v. 42, n. 3, p. 457-466, 1979.

Sayyida al-Hurra (c. 1492–1552)

Nome pelo qual ficou lembrada Lalla Aicha bint ibn Rachid al-Alami, governadora da cidade de Tetuan, ao norte do Marrocos, por vezes também chamada de “Sitt al-Hurra”. Era filha de wi Mulay ‘Ali Ibn Rashid, emir de Chefchaouen, e de Lalla Zohra Fernandez, originalmente de Veger, comunidade situada perto de Cádiz, ao sul da atual Espanha, em território do antigo Reino de Granada.   

Embora numerosos historiadores, tanto europeus como marroquinos, tenham notado sua posição eminente como liderança, divergem quanto a sua identidade, alguns considerando-a como governanta e outros apresentando-a como uma “mulher pirata” ou “rainha pirata”.  Todos concordam porém que ela desempenhou um papel de considerável importância nas relações mantidas no Mediterrâneo no início do século XVI. Para os marroquinos ela é considerada como “uma das mais importantes figuras femininas do Ocidente islâmico na era moderna”.

Sua liderança coincide com um momento em que os portugueses encontravam-se em posição de superioridade na luta pela expansão marítima, e ocupavam parcialmente o norte do Marrocos, com domínio sobre Ceuta (1415), Tetun (1437), Tânger e Arzila (1471).  Assim, uma unidade de resistência foi estabelecida em Chefchaouen em torno da família Ibn Rashid, com guerreiros e marinheiros de origem marroquina e de origem andaluza que se organizaram para defender fortalezas e realizar ataques aos ocupantes cristãos.

Foi nesse contexto que em 1529, após a morte de seu marido, que governou Tétuan, Sayyda tornou-se a última pessoa na história islâmica a receber o título “al-Hurra” (Rainha). Ela se destacou pela capacidade de liderança junto aos chefes locais, encorajando-os na luta contra os portugueses, e se aliou ao comandante turco Khair-ed-Din Barbarossa (1470 – 1546), dividindo com ele o controle do Mar Mediterrâneo.  Sua influência diminuiu após a morte de irmão, que governava a cidade de Fez e lhe prestava grande apoio, de modo que em 1542  ela foi afastada do governo de Tetuan após um golpe planejado por seu adversário, Hassan Hassin.

BIBLIOGRAFIA

GIL GRIMAU, R.. Sayyida al-Hurra, mujer Maroqui de origen Andalusi. Anaquel de Estudios Árabes, n. 11, p. 311-320, 2000.

GOZALBES BUSTO, Guillemo. Sit al Hurra, governadora de Tetuan (siglo XVI). In: Actas del Congreso Internacional – El Estrecho de Gibraltar. Madrid: UNED, 1988, v. 2, p. 461-479.

LEBBADY, Hasna. “Sayyda al-Hurra”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 301-302.

Semane Setlhoko Khama (1881–1937)

Mohumagadi (rainha ou rainha mãe) do protetorado de Bechanalândia de BaNgwato, atual Botsuana. Descendia dos BaBirwa e BaSeleka, que eram povos dependentes dos BaNgwato, o povo mais rico, mais numeroso e mais poderoso dos BaTswana. Foi uma líder cristã e educadora.

Em 1900, ela se tornou a quarta esposa de Khama III, kgosi (rei) de BaNgwato, apesar de desaprovação inicial de muitos pelo fato dela não pertencer a uma linhagem real. Semane teve cinco filhos, mas três morreram novos. Os que sobreviveram foram a filha Bonyerile e o filho Tshekedi que depois se tornaria Regente de BaNgwato, de 1925 a 1950, e um líder poderoso na política Colonial de Bechuanalândia.

Em 1907, com a Khama III e a ascensão de Sekgoma II, filho dele de outro casamento, a proeminência religiosa e social de Semane foi desafiada. Contudo, ela continuou vivendo no palácio real e quando o novo rei ficou muito doente ela tornou-se sua enfermeira, sendo muito criticada por adotar os métodos da medicina europeia em vez de recorrer aos detentores dos conhecimentos da medicina tradicional Tswana. Como o rei morreu, ela foi acusada de envenená-lo para que seu próprio filho assumisse o trono.

Com a morte de Sekgoma, em 1925, ela assumiu temporariamente a regência, e trabalhou para promover obstetrícia moderna e medicina. Como diaconisa chefe, tomou medidas para promover a inclusão das mulheres na igreja, treinando mulheres para conduzir as próprias aulas em Serowe e outras vilas de BaNgwato, e na década de 1930 ela liderou as mulheres cristãs para o Movimento de Temperança de Mulheres Cristãs. A iniciativa era para, na continuidade das determinações anteriores do marido, impor a proibição tanto de bebidas alcoólicas europeias quanto da cerveja africana. Na sequência o seu filho Tshekedi também tentou banir o álcool da Província de BaNgwato, fixando a proibição para o seu consumo pelos homens, e de sua fabricação pelas mulheres.

BIBLIOGRAFIA

ALLEN, Judith Imel Van. “Semane Sethoko Khama”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 354-355.

LANDAU, Paul. The realm of the word: language, gender and christianity in a Southern african kingdom. Portsmouth: Heinemann, 1995.

MGADLA, P. T.. Missionary wives, women and education: the development of literacy among the Batswana 1840-1937. PULA Journal of African Studies, v. 11, n. 1, 1997: https://archive.lib.msu.edu/DMC/African%20Journals/pdfs/PULA/pula011001/pula011001011.pdf

Shajarat al-Durr (+ 1257)

Também referenciada como Shaja al-Durr, que em árabe significa “Árvore de Pérolas”. Seu nome completo era al-Malika Asmat ad-Din Umm-Khalil Shajarat ad-Durr, e por vezes aparece nomeada como Umm Khalil, a “mãe de Khalil. Nascida em local incerto, muito provavelmente no atual Turcomenistão, foi levada como escrava para a Síria, onde passou a integrar o harém do sultão a-Salih, da dinastia ayyubida, que governava o Egito desde 1238. Ela se tornou sua concubina favorita, teve um filho dele, e depois se tornou sua principal consorte.

Os historiadores são unânimes quanto a enorme habilidade política de Shajarat al-Durr, e que a mesma já exercesse alguma influência no governo do marido, mas sua influência e domínio político no Egito ocorreu em 1249-1250, quando um exército de cavaleiros cruzados francos, sob a liderança do rei Luís IX, atacou a cidade de Damietta. Com o apoio de generais e ministros de origem turca, conhecidos como mamelucos, ela ocultou a morte do marido, organizou a resistência e infligiu uma derrota ao invasor, que acabou derrotado e o rei francês, aprisionado e depois resgatado.

Com o fim da 7ª cruzada, sua autoridade ficou estabelecida. Com o apoio do general Aybeck ela venceu e eliminou o sucessor do sultão e se proclamou governanta única com o título de sultana, mandando cunhar moedas com a sua efígie e o seu nome como “rainha dos muçulmanos e mãe de Khalil”, fato raríssimo na história dos estados islâmicos. Sua ascensão despertou forte oposição na Síria, entre os membros da linhagem ayyubida, que a contestavam tanto por ser mulher quanto por ter origem escrava. Ela então, por conveniência, se casou com o general Aybeck, que assim foi elevado ao governo do sultanato, e permaneceu com forte influência na corte até o ano de 1257, quando foi assassinada – segundo as tradições orais, pelas mulheres o harém.  

Por sua atuação, ela foi figura chave na fase de transição entre a dinastia ayuubida e a dinastia de sultões mamelucos, que, como ela, eram de origem turca, e controlariam o Egito até o ano de 1516 – quando o país caiu sob domínio otomano. 

No século XX, Sharajat al-Durr se tornaria uma inspiração para as feministas árabes. Em discursos e publicações, figuras femininas excepcionais na história islâmica, como ela, foram lembradas para reforçar o apoio à ideia de que as mulheres deveriam ser educadas e envolvidas na vida pública. Uma das revistas da imprensa feminina egípcia na virada do século XXI traz seu nome, que também é invocado por feministas árabes contemporâneas como a marroquina Fatima Mernissi.

BIBLIOGRAFIA

DUNCAN, David. Scholarly views of Shajarat al-Durr: a need for consensus. Arab Studies Quarterly, v. 22, n. 1, p. 51-69, 2000.

 FARAH, Shoukry. The conservation history of the mausoleum of Shajarat al-Durr. Dissertação de Mestrado (Arte e Arquitetura Islâmica), The American University in Cairo, 2015: http://dar.aucegypt.edu/handle/10526/4537

HUFFAKER, Shauna. “Shajarat al-Durr”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 347-348.

WOLF, Caroline. “The pen has extolled her virtues’: gender and power within the visual legacy of Shajar al-Durr in Cairo. In: GharipourGHARIPOUR, Mohammed; SCHICK, Irvin (Eds.). Caligraphy and archicteture in the muslim world. Edinburgh: Edinburgh University Press, 2013: http://www.academia.edu/download/41008518/GHARIPOUR_11_Proof_1.pdf

Sitt al-Mulk (970–1023)

Princesa da dinastia Fatímida, a dinastia xiita que governou o Egito durante os séculos X-XII. Nascida em al-Mansuriyya, era filha do príncipe Nizar Abu Mansur, que mais tarde se tornou o califa al-Aziz (“o poderoso, glorioso” em árabe), e de uma cristã cujo nome permanece no anonimato. Em 971, sua família transferiu-se para o Cairo, a nova capital da dinastia Fatímida.

Sitt al-Mulk foi criada em grande fausto.  O historiador egípcio al-Maqrizi registrou que ela tinha cerca de 4.000 escravas a seu serviço, mantidas em seu luxuoso palácio. Por sua alta posição na família real Fatímida ela foi proibida de casar, mas gozou de grande influência e poder na vida política da época, tendo desempenhado um papel fundamental na sucessão do califado, quando da morte de seu pai, e mais tarde de seu irmão.

Quando o seu pai faleceu em 996 ela tentou um malsucedido golpe para impedir que seu irmão, al-Hakim, de apenas onze anos, assumisse o califado, mas foi impedida pelo eunuco de seu irmão, Barjawan, que posteriormente assumiu o cargo de primeiro-ministro. Depois voltou a estabelecer uma relação de proximidade com o novo califa. Al-Hakim lhe concedeu terras e uma renda anual de 10.000 dinares. Quando Barjawan morreu ela recuperou sua influência e entrou em conflito com al-Hakim em 1013, e passou a disputar sua autoridade, sendo, entretanto, afastada da corte.

Al-Hakim foi assassinado alguns anos mais tarde, o que recolocou Sitt al-Mulk em posição de vantagem. Por esta razão, alguns cronistas da época a acusaram de envolvimento na morte do irmão, mas não há evidências de que ela tenha sido responsável pelo assassinato.

Como Sitt al-Mulk tinha sido parcialmente responsável pela criação do sobrinho, al-Zahir, ela garantiu que ele se tornasse califa e assumiu a direção do governo como regente, governando até sua maioridade, período em que ela reverteu muitas das restrições religiosas aprovadas por seu irmão, além de realizar uma reforma tributária e econômica no Egito.

BIBLIOGRAFIA

BAKER, Christine. “Sitt al-Mulk”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 404-405.

CORTESE, Delia; CALDERINI, Simonetta. Women and the fatimids in the world of islam. Edinburg: Edinurg University Press, 2006

DAFTARY, Farhad. The ism‘ilis: their history and doctrines. Cambridge: Cambridge University Press, 2007.

Theme: Overlay by Kaira.