ANTÔNIO AUGUSTO BUENO, O ARTISTA DOS ENCONTROS MÍNIMOS COM A NATUREZA


Imagens retiradas da página do facebook do artista (https://www.facebook.com/antonioaugusto.bueno).

Imagens retiradas da página do facebook do artista (https://www.facebook.com/antonioaugusto.bueno).

 

Perambular, caminhar, deslocar-se, observar, coletar, recolher, organizar. Gestos de um artista em disponibilidade com os encontros entre a arte e a natureza. Um flâneur em busca de derivas poéticas pela cidade, que guarda nos bolsos do casaco ou no carrinho de feira aquilo que escapa ao olhar acostumado: sementes, pequenos galhos, cascas de árvores, folhas secas, pedrinhas, frutos de suas coletas diárias.

 

 O artista e seus desenhos de linhas feitos de natureza

Antônio Augusto Bueno tem estado muito próximo das pessoas, crianças, em especial, que frequentam seu espaço de trabalho e local expositivo, o Jabutipê, em Porto Alegre, sul do Brasil. Do mesmo modo, visita escolas e convida as crianças a se inserirem em suas produções, por vezes expostas em museus e galerias de arte, outras compondo espaços urbanos da cidade. Encanta-se em ouvir as crianças falarem sobre seu trabalho, que costuma dizer que é “nosso”. Suas produções suscitam longas conversas sobre meio ambiente e sobre reaproveitamento, mas o que mais interessa ao artista é a percepção das crianças em relação ao que veem e a como nomeiam o que veem. Enquanto elas buscam uma definição das formas que resultam das composições realizadas, o artista enxerga linhas, desenhos no espaço. Para ele, tudo são linhas.

“Os galhos emaranhados, as estruturas das videiras, as cascas de árvores: o que parece caótico tem uma ordem precisa, são desenhos, linhas no espaço”. (Gustavo Tabares, 2018)

'Raspando as cores para o mofo aparecer'' Desenhos do artista.  http://antonioaugustobueno.blogspot.com/

‘Raspando as cores para o mofo aparecer”
Desenhos do artista.
http://antonioaugustobueno.blogspot.com/

Desenhos do artista.  http://antonioaugustobueno.blogspot.com/

Desenhos do artista.
http://antonioaugustobueno.blogspot.com/

Desenhos do artista (https://jabutipe.com.br/).

Desenhos do artista (https://jabutipe.com.br/).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O desenho para Antônio tem um valor especial. Busca recriar o que vê, os desenhos da natureza, em papel, lápis e tinta.

 

“Desenha o que vê desenhado” (Gustavo Tabares, 2018). 

 

 

Dez anos do Jabutipê de Antônio: um desejo tornado realidade pelas mãos do artista

 

Imagem retirada da página do facebook do artista (https://www.facebook.com/antonioaugusto.bueno).

Imagem retirada da página do facebook do artista
(https://www.facebook.com/antonioaugusto.bueno).

 

Em 2008 nascia em Porto Alegre o Jabutipê. Situado em uma antiga casa na Rua Fernando Machado, 195, no Centro Histórico de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Antônio Augusto Bueno deu início ao trabalho de restauração de um espaço que hoje abriga diversas atividades envolvendo arte.

 

“E foi, por pura ironia do destino na Rua Fernando Machado, que meus olhos por um instante pararam na frente de três casinhas. Sem placa alguma de ‘vende-se’, mas com várias pombas pousadas em seus detalhes do começo do século passado e também em fios de luz que sob o céu propunham um possível desenho contemporâneo. Caminhando fotografei sem dar muita importância e sem poder desconfiar que uma daquelas três casas seria hoje o Jabutipê.” (Antônio Augusto Bueno, 2015, p. 18)

 

Imagem retirada da página do facebook do artista (https://www.facebook.com/antonioaugusto.bueno).

Imagem retirada da página do facebook do artista
(https://www.facebook.com/antonioaugusto.bueno).

 

O artista “gestor” e seu Jabutipê. A oferta de um espaço de encontros, proximidades e parcerias, aberto à comunidade e às diferentes ações de produção, exposição, mediação. Local de longas conversas e discussões sobre a produção artística contemporânea atual.

 

“(…) quem sabe agradáveis bate-papos em finais de tarde de alguns premiados sábados, de vem em quando exposições de jovens e desconhecidos artistas, projeções de filmes, cursos livres, oficinas e plantio de ipê amarelo, que assim como as atividades previstas lá em 2008, hoje são viva realidade.” (Antônio Augusto Bueno, 2015, p. 19)

 

 

Jabutipê e Antônio Augusto Bueno por vezes se misturam. Criador e criatura se imbricam, tornam-se identidade única. É no pátio do Jabutipê, espaço aberto à natureza praticamente intacta, que Antônio encontra boa parte de sua produção.

 

“Antônio e Jabutipê são, ao menos em todo este tempo, inseparáveis, indivisíveis, quase iguais.” (Gustavo Tabares, 2018)

 

Há no pátio do Jabutipê um abacateiro, importante objeto de estudo e pesquisa de Antônio, que tem se dedicado a coletar e organizar os gravetos que caem da antiga árvore, armazenando seus caroços e escolhendo alguns abacates para deixar secar. Interessa também ao artista a observação demorada da relação dos pássaros que se alimentam dos abacates e as marcas que seus finos bicos deixam sobre a fruta. Isso tudo vira matéria de sua produção.

 

Com esses materiais, Antônio Augusto Bueno costuma produzir fotos, vídeos, pinturas, desenhos, gravuras, monotipias e objetos. O olhar demorado para essas pequenas cenas pede uma outra relação com o tempo, que não é cronológicao mas é do instante. A possibilidade de experimentar o que esses elementos suscitam, torna o abacateiro do pátio do Jabutipê uma espécie de personagem central do seu trabalho, parceiro incondicional do artista.

O livro Jabutipê, dos irmãos Antônio Augusto e Luis Filipe Bueno pode ser baixado neste link.

 

Projeto Gravetos Armados: uma construção em parceria com a natureza, realizada em espaços formais de arte e em espaços urbanos

Desde 2008, quando inaugurou o Jabutipê, Antônio Augusto Bueno vem desenvolvendo um Projeto chamado Gravetos Armados. O trabalho acontece anualmente e tem sido desenvolvido em diferentes lugares de Porto Alegre e em outras cidades do Brasil e de fora dele. O projeto prevê algum tipo de intervenção do artista em espaços de arte formais ou não formais. Assim, a rua pode vir a ser um local para o projeto acontecer, assim como o Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS). Parte da coleta de materiais que a natureza descarta e vai sendo construído no local escolhido, a partir do que a relação material-espaço suscitar no artista.

 

Imagens retiradas da página do facebook do artista: Gravetos Armados na Pinacoteca Ruben Berta, O tempo das coisas, 2018; Exposição 10 anos do Jabutipê, 2018 (https://www.facebook.com/antonioaugusto.bueno).

Imagens retiradas da página do facebook do artista: Gravetos Armados na Pinacoteca Ruben Berta,
O tempo das coisas, 2018; Exposição 10 anos do Jabutipê, 2018 (https://www.facebook.com/antonioaugusto.bueno).

Imagens retiradas da página do facebook do artista: Gravetos Armados na Pinacoteca Ruben Berta, O tempo das coisas, 2018; Exposição 10 anos do Jabutipê, 2018 (https://www.facebook.com/antonioaugusto.bueno).

Imagens retiradas da página do facebook do artista: Gravetos Armados na Pinacoteca Ruben Berta,
O tempo das coisas, 2018; Exposição 10 anos do Jabutipê, 2018 (https://www.facebook.com/antonioaugusto.bueno).

 

Há ainda, dentro do Projeto Gravetos Armados, como um trabalho experimental, conforme explica Antônio Augusto Bueno, uma produção chamada um outro outono, que dá continuidade a uma série em que o artista realiza desenhos tridimensionais construídos com material orgânico recolhido em suas caminhadas pelas ruas, praças e parques de Porto Alegre. Também esse trabalho acontece em diferentes lugares da cidade e de fora dela, já tendo sido realizado em parceria com uma escola.

 

Para acessar o material informativo e vídeo do trabalho um outro outono, clique aqui.

 

O que podemos aprender com um artista que tem o mínimo, a sobra, o resto como potência de trabalho e produção?

A que exercícios políticos nos convoca Antônio Augusto Bueno ao trazer a sua obra a público e nos convidar a estar com ela, produzir com ela?

 

De que modo o trabalho do artista pode potencializar as aulas de artes e a relação da escola com a possibilidade de pensar a partir e com a natureza, especialmente em tempos de consumismo e desperdício?

Referências
BUENO E SILVA. Luis Filipe; Antônio Augusto. Jabutipê. Porto Alegre: Edição do Autor: 2015.
TABARES, Gustavo. Dez anos do Jabutipê. Antônio Augusto Bueno. Texto da curadoria da exposição Dez anos do Jabutipê. Punta del Este, Uruguay, 2018.
* As imagens que acompanham o texto foram recolhidas do blog do artista, do site e de publicações nas suas redes sociais. Não constam de títulos, nem datas específicas, a não ser o que está identificado.

Para saber mais:

https://jabutipe.com.br/
http://jabutipe.blogspot.com/
https://www.facebook.com/antonioaugusto.bueno

Texto e pesquisa: Deborah Vier Fischer

Edição e revisão: Maria Céu Pacheco Rocha e Luciana Gruppelli Loponte

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