Vidas negras, ironia e violência: a insurgência na pele de Sidney Amaral


 

O atleta ou o sonho de Kichute, 2013

O atleta ou o sonho de Kichute, 2013

 

A cada dia, mais notícias do racismo estrutural que marca a sociedade brasileira, invade o noticiário. Podemos citar dois exemplos recentes e emblemáticos: os mais de 80 tiros descarregados pela polícia em um carro, cujo motorista negro levava a sua família a um chá de bebê, e que resultaram na sua morte e a retirada do ar de uma propaganda de um banco público, em que os principais personagens eram negros ou representavam a diversidade dos jovens brasileiros. De que forma a nossa sociedade lida com questões tão cruciais? Como o campo das artes visuais se posiciona a respeito?

Ao pensarmos arte contemporânea brasileira, somos direcionados a manifestações artísticas brancas embebidas de referências norte-americanas e europeias em que, em grande parte, não há espaço para a reflexão e o lugar de fala de corporalidades e narrativas negras dentro da história da arte e da cultura. O que vemos são marcas da invisibilidade a superexposição de mais de 15 milhões de corpos negros sequestrados da África e trazidos para as Américas que persistem até os dias atuais. Corpos que seguem violentados, excluídos, desumanizados por uma política de encarceramento, marginalização e desumanização. Quando procuramos por proposições artísticas que dialoguem com vivências e subjetividades negras e que sejam de fato produzidas por pessoas negras, encontramos a produção de frustração, incômodo, ironia, a denúncia, a destruição de modos de vida, cultura, religiosidades. São formas de identificação, estética, política, social, crenças, vestimentas, relações interpessoais que foram e continuam sendo silenciadas e anuladas por uma sociedade que carrega 400 anos de escravidão de forma omissa e uma herança que segue desumanizando, mais especificamente no Brasil,  uma camada de 64% de uma população que é negra. 

Diálogos (Díptico) 2015 Guache sobre papel Hannemülle 109 x 150 cm

Diálogos (Díptico) 2015 Guache sobre papel Hannemülle 109 x 150 cm

‘’Quem fica a margem? 64% da população brasileira: Os negros.

Na sua empresa, 64% das pessoas são negras?

Na sua universidade, professores e alunos, 64% deles são negros?

Na televisão, nas revistas, a maioria delas estão estampadas pessoas negras?

Em contrapartida, 67% das pessoas que estão presas no Brasil hoje são negras. A cada 23 minutos, 1 jovem negro é morto no Brasil.’’ Glaucia Costa

 

Para pensar e problematizar arte, estética, educação, questões identitárias e subjetividades negras, o artista visual e professor Sidney Amaral nos aproxima de situações contraditórias, violentas de uma sociedade brasileira racista marcada no cotidiano de pessoas negras. A sua produção perpassa, rompe, dialoga com modos de criação bastante particulares que se dividem e se complementam entre escultura-objeto-pintura.

Sidney Amaral, Davi, 2015. Courtesy of Central Galeria de Arte.

Sidney Amaral, Davi, 2015. Courtesy of Central Galeria de Arte.

O artista traz em suas obras o que é do cotidiano, das minúcias ao corriqueiro, da fragilidade a brutalidade, a violência, a delicadeza, as transformações e relações que cria com o fazer artístico e sua experiência enquanto homem, negro, professor. Sidney nasceu em São Paulo, em 1973 e como ele mesmo cita, ”filho de mãe cozinheira e pai gráfico”. Desde muito cedo se mostra curioso e sensível às descobertas e formas de criação que deram origem às suas obras. Em 1990, inicia uma longa jornada acadêmica de graduações e cursos voltados à arte e educação: no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, na Escola Panamericana de Artes, na ECOS Escola de Fotografia. Forma-se em Educação Artística pela Fundação Armando Álvares Penteado (Faap) e também entra em contato com a artista Ana Maria Tavares no curso de desenvolvimento e orientação de projetos artísticos no Museu Brasileiro de Escultura (Mube), atuando enquanto professor em escola pública e artista visual durante toda sua carreira.

Sidney Amaral, ‘Mãe preta (a fúria de Iansã)’. Obra exibida na exposição Histórias Afro-atlânticas, no Instituto Tomie Ohtake.

Sidney Amaral, ‘Mãe preta (a fúria de Iansã)’. Obra exibida na exposição Histórias Afro-atlânticas, no Instituto Tomie Ohtake.

Na produção de Sidney Amaral,  suas esculturas e objetos tridimensionais, seus desenhos e pinturas, retratam assim como o próprio artista cita em entrevistas, ”a ironia e a acidez”, ”a fragilidade e a agressividade”,  com sua sensibilidade e sua capacidade de montagem e desmontagem de um todo e de fragmentos que acabam por tomar outros significados, outras formas de conceitualização. Como as obras ”A Fome e a Vontade de Comer, 2016”,  e as reproduções ou apropriações de chinelos, frigideiras, tesouras e entre tantos outros objetos.

Sua vasta produção de objetos-esculturas se relaciona com lugares íntimos, familiares, sociais, políticos e corriqueiros de sua vivência, com objetos que se tornam inquietantemente reflexivos, frágeis e que se abrem em muitas perguntas, se expressam em diversas possibilidades de respostas por entre suas relações, mas, que ainda assim, ficam nas entrelinhas se deslocando entre o desejo, o sensível, a estranheza, o doméstico, o corpo, as vírgulas, as marcas, as secreções, o sangue.

 

Foi por volta dos anos de 2009/2010 que o artista complementa seus objetos e esculturas com pinturas e desenhos que continuam dialogando com o imprevisível, o íntimo,  passa pelo implícito e contudo reflete questões identitárias étnico-raciais, cruzadas e cortadas pela dor. Pelas palavras do artista:

”(…)a partir da minha auto representação entender quem sou eu nesse mundo. E aí eu começo a trabalhar com várias outras questões, políticas, sociais, afetivas e acaba caindo um pouco pra vários lados” Entrevista de Sidney Amaral, Diálogos ausentes, 2016.]

Em seus desenhos e pinturas, Sidney escancara a violência policial, o encerramento e encarceramento de vidas negras, as condições desumanas aos quais vários segmentos da população negra, sejam elas homens, mulheres, crianças e/ou famílias são constantemente submetidas. Mostra um Brasil que destitui corporalidades negras da condição de Ser-sujeito, jogadas nas periferias, dilúvios, inundações, lixos, em péssimas condições de moradia, educação, trabalho e com uma autoestima, reconhecimento de si e saúde mental extremamente debilitadas.

”Ao ver no meio da tela um homem com uma arma apontada para a cabeça, a primeira coisa que se pensa é que a pessoa representada no quadro quer se matar. Mas não é verdade. Justamente por isso eu coloco o nome de ImolaçãoImolação é aquilo que se faz por uma coisa maior. Você não está se matando por ser um deprimido. Você está se matando porque não quer ser escravo, não quer perder sua identidade, sua liberdade” Sidney Amaral para Nabor Jr., em 2015

É a partir de suas obras que podemos enxergar o quão fundamental é sua contribuição para a educação, cultura e história da arte em um país que esquece a escravização de corporalidades negras se omitindo de qualquer participação, enfatização de práticas e discursos racistas que foram e continuam dizimando essa camada da população. O artista também direciona seu olhar para as crianças negras em desamparo e a importância desde muito cedo em conseguir se enxergar e enxergar seus pares, seus afetos, seus familiares enquanto corporalidades negras.

Infelizmente, o artista faleceu em 2017, nos legando um olhar agudo sobre a presença negra em nossa sociedade. O que aprendemos com esse olhar?

Com as evocações de Sidney Amaral, nos questionamos sobre como podemos pensar racismo e a presença negra na sociedade e no campo educacional brasileiro. As questões trazidas por Sidney Amaral precisam reverberar em todos nós, mais do que nunca.

De que modo as vidas negras ocupam nossas escolas e nossas universidades?

De que modo nossas epistemologias, nossos modos de conhecer e pensar arte e educação são contaminadas de um perspectiva branca e excludente?

De que maneiras nossas aulas de arte (ou de qualquer disciplina) contemplam a representatividade negra da sociedade brasileira?

 

Referências: 

http://galeriapilar.com/artistas/sidney-amaral/wppaspec/oc1/cv0/ab61/pt775

https://artebrasileiros.com.br/arte/artigo/sidney-amaral-entre-a-afirmacao-e-a-imolacao/

https://www.select.art.br/sidney-amaral-e-celebracao-da-frustracao/

http://anpap.org.br/anais/2017/PDF/HTCA/26encontro______ANTONACCI_Celia_Maria.pdf

https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/167861

http://fabianalopes.com/pdf/HarpersBazaarArt_Presencas.pdf

Saiba mais em:

Renata Felinto e Sidney Amaral – O Negro nas Artes Visuais – Diálogos Ausentes (2016) <https://www.youtube.com/watch?v=ODiT3kjCud0>

MASP Palestras | Insurgência, urgência e afirmação na obra de Sidney Amaral | 6.10 <https://www.youtube.com/watch?v=0aqRCaHivVQ>

O vitimismo que mata! | Gláucia Costa | TEDxSaoPauloSalon <https://www.youtube.com/watch?v=K7HOSYxG5Mc>

Precisamos romper com os silêncios | Djamila Ribeiro | TEDxSaoPauloSalon <https://www.youtube.com/watch?v=6JEdZQUmdbc>

Texto e pesquisa: Maria Céu Rocha e Luciana Gruppelli Loponte

Edição e revisão: Maria Céu Rocha e Luciana Gruppelli Loponte

Leave a comment

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>