JR e o sonho de dar visibilidade aos invisíveis


Foto/Reprodução Instagram

Foto/Reprodução Instagram

JR é um artista francês que mantém ocultas algumas informações sobre sua identidade. Em seu website consta apenas o seu pseudônimo e a informação que nasceu na França em 1983. Apresenta-se em público sempre com um chapéu e óculos escuros, reforçando um ar de misterioso. Ao mesmo tempo cria relações entre a sua personalidade e o imaginário que temos de outros artistas, nos remetendo à figura do cineasta Jean Luc-Godard e o artista urbano Banksy. Usa com frequência a denominação de “artivista” e seu principal meio de expressão é a fotografia, com que trabalha desde 2007 e o leva a transitar pelo mundo com seus projetos, criando grandes intervenções fotográficas, em que a ênfase são os rostos e os olhares de pessoas comuns. Sua poética está ligada a estética relacional, conceito desenvolvido por Nicolas Bourriaud em seu livro Estética Relacional (tradução Denise Bottmann- São Paulo: Martins,2009) em que procura evidenciar as produções contemporâneas que levam em consideração muito mais o contexto social de produção da arte do que suas noções de autonomia e individualismo (p.19 e 20). Todas as suas obras são colaborativas e surgem através do diálogo com as pessoas que habitam os lugares em que escolhe produzir suas obras: JR fotografa os moradores de determinadas regiões e cola suas fotografias ampliadas nas paredes das ruas onde essas pessoas vivem, por vezes na fachada de suas próprias casas, como o fez em Visages Villages , projeto feito em parceria com a cineasta Agnès Varda, que resultou em um filme de mesmo nome, lançado em 2017.

Imagem do projeto Visage Villages, disponível em: https://palavrasdecinema.com/2018/01/06/visages-villages-de-jr-e-agnes-varda/

Imagem do projeto Visage Villages, disponível em: https://palavrasdecinema.com/2018/01/06/visages-villages-de-jr-e-agnes-varda/

JR explora o universo da arte urbana, mas sem usar a linguagem habitual do grafitti. Ele lança mão de um modo de produção ainda mais efêmero: utiliza como técnica o cartaz de Lambe (cola caseira e papel sulfite) para fixar suas fotografias em preto e branco nas paredes dos prédios, o que deixa suas imagens suscetíveis a desmancharem-se diante da primeira chuva, ou serem facilmente danificadas pelos transeuntes. Sua arte é acessível, tanto no sentido de produzir algo que está colocado ao amplo acesso das pessoas, veiculada nas ruas e com materiais baratos, mas também no sentido de ser um trabalho não hermético, que evoca a empatia, e isso acontece inclusive por desenvolver projetos que são colaborativos, em que propõem o protagonismo dos participantes.

 Salvador, Brasil. Disponível em: https://www.jr-art.net/projects/inside-out-project-group-actions

Salvador, Brasil. Disponível em: https://www.jr-art.net/projects/inside-out-project-group-actions

Port Au Prince, Haiti. Disponível em: https://www.jr-art.net/projects/inside-out-project-group-actions

Port Au Prince, Haiti. Disponível em: https://www.jr-art.net/projects/inside-out-project-group-actions

Oakland, Califórnia. Disponível em: https://www.jr-art.net/projects/inside-out-project-group-actions

Oakland, Califórnia. Disponível em: https://www.jr-art.net/projects/inside-out-project-group-actions

Caracas, Venezuela. Disponível em: https://www.jr-art.net/projects/inside-out-project-group-actions

Caracas, Venezuela. Disponível em: https://www.jr-art.net/projects/inside-out-project-group-actions

Mais do que rostos impressos em grandes dimensões, JR nos dá a ver histórias de vida, mostrando para os habitantes daqueles lugares a grandeza de quem por ali transita cotidianamente, de quem vive aquele mundo há anos e que antes passava desapercebido. Pela escala monumental que utiliza para impressão de suas fotos, faz com que essas histórias ultrapassem os limites das comunidades onde foram fixadas. Com suas imensas fotografias faz questão de que o mundo olhe para aqueles que são excluídos em nossa sociedade: fotografa pessoas desde as cidades mais populosas do mundo até as que moram em pequenas vilas, uma vez que desenvolve projetos nos mais diversos países e especialmente em zonas de conflito. Suas obras funcionam como uma convocação à vivência em comunidade, a memória de nossa humanidade, com toda a fragilidade e, ao mesmo tempo, toda a potência de vida que essa noção pode conter.

Em seu site, assim como em seu perfil no Instagram, é possível acompanharmos o andamento de seus projetos, dentre eles o “Women are Heroes” em que explorou a questão da invisibilidade das mulheres na sociedade atual. O projeto iniciou em Serra Leoa, passando por outros países da África. Como sequência desse projeto, em 2008, JR veio ao Brasil onde entrou em contato com as mulheres moradoras do Morro da Providência no Rio de Janeiro. A decisão por vir para o Brasil, e especificamente para essa comunidade, se deu após JR assistir uma reportagem sobre o assassinato de três meninos moradores da Providência. As fotografias produzidas foram das mulheres da comunidade que tinham alguma ligação com os meninos: as amigas, a mãe, a avó. JR optou por não mostrar a violência presente naquele lugar, e sim olhar para a comunidade de um modo outro:

como quem quer saber mais sobre quem são as pessoas, quais são seus afetos e quais são os sonhos das mulheres que vivem ali. É um pouco dessas histórias que são evidenciadas ao fotografar os rostos das mulheres moradoras do Morro da Providência: rostos de pessoas que trabalham arduamente, que buscam garantir um mínimo de vida digna, que desejam construir com suas comunidades lugares de paz.

 

Através da obra com as imagens dessas mulheres retratadas como grandiosas, como heroínas, JR provocou a mudança do olhar que o restante da cidade lançava sobre o morro, como o próprio artista diz “A arte muda a forma como vemos o mundo”. Desde 2009, o artista mantém um centro cultural comunitário no Morro da Providência chamado Casa Amarela, onde são desenvolvidos projetos relacionados a arte e cultura, com atendimento direcionado para as crianças e jovens da comunidade.

Woman are heroes. Disponível em: https://www.jr-art.net/projects/women-are-heroes-brazil

Woman are heroes. Disponível em: https://www.jr-art.net/projects/women-are-heroes-brazil

Na busca por mudar a forma como vemos o mundo através da arte, aliado ao desejo de dar visibilidade àqueles que muitas vezes são esquecidos ou vivem as margens da sociedade, JR iniciou em 2011 o projeto Inside Out. Nesse projeto que é colaborativo e em processo, qualquer pessoa ou grupo pode participar, seguindo as instruções disponíveis no site do projeto, que são, basicamente as seguintes: uma pessoa fica responsável por descrever a proposta do grupo, fotografar (formato retrato) as pessoas participantes, e enviar essas fotos para o artista, essas imagens serão impressas pelo artista e reenviadas aos participantes, que deverão providenciar a colagem pública e registros da ação. É um projeto grandioso, que seduz pela proposição da participação coletiva irrestrita e, também, pelo impacto visual que gera nas comunidades/cidades onde as imagens são coladas. Até o momento esse projeto envolveu mais de 260.000 pessoas e segue em expansão, que tal participar? Vamos pensar junt@s sobre como podemos provocar mudanças no nosso olhar sobre aqueles que são esquecidos?

Quem são os invisíveis em nossas vidas cotidianas?
Como podemos dar visibilidade as questões que nos perturbam?
Como pode a arte mudar nossos modos de ver o mundo?

 

Texto e Pesquisa de Carine Betker

Edição e revisão por Maria Céu Rocha e Luciana Gruppelli Loponte

 

Links interessantes:
https://www.insideoutproject.net/en
https://www.jr-art.net/jr
https://www.youtube.com/watch?v=0PAy1zBtTbw&t=9s
https://gshow.globo.com/programas/caldeirao-do-huck/noticia/artista-plastico-jr-
transforma-morro-da-providencia-com-centro-cultural-casa-amarela.ghtml
https://palavrasdecinema.com/2018/01/06/visages-villages-de-jr-e-agnes-varda/
https://www.youtube.com/watch?v=vCCD7vK7KCU
https://www.youtube.com/watch?v=CNzXKEC333c&t=6s

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