Qual o lugar da arte no nosso mundo? Ana Flávia Baldisserotto e a arte de escutar histórias


Fonte: http://www.coisasqueagentecria.com/ana-flavia-baldisserotto-com-uma-carrocinha-comprando-e-vendendo-historias-anonimas/

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Qual o lugar da arte no nosso mundo? Há arte nas ruas e no contato com as pessoas? É possível a arte criar espaços de escuta e de compartilhamento de histórias de vida?

Perguntas que mobilizam a professora e artista visual gaúcha Ana Flávia Baldisserotto e fazem com que ela acredite e trabalhe cada vez mais na perspectiva da construção de trabalhos coletivos, que acontecem nas ruas, junto às comunidades, e que se ampliam, na medida em que há o acolhimento e a escuta como principais gestos de uma produção que se dá, necessariamente, em companhia. Desse modo, traz à discussão questões emergentes das práticas em arte contemporânea, com base nas ideias de contexto e colaboração.

 

Fonte: https://www.facebook.com/dehistoriasambulantes/photos/.

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Ana Flávia refere o desejo como o que a move a se movimentar como artista e como professora de artes visuais do Atelier Livre Xico Stockinger, do Centro Municipal de Cultura, na cidade de Porto Alegre/RS. Pergunta-se diante do desejo: Por que não?

Entende a arte como lugar da crise, da desacomodação, como aquilo que coloca o pensamento em ação. Para a artista, a arte se faz andando, pensando, fazendo. É um caminho aberto à invenção, algo que dá trabalho, que desestabiliza, pois convive com o não-saber. As aulas de artes, na perspectiva de Ana Flávia, se inserem nesse campo, da descoberta, do movimento e do pensamento.

Fonte: https://www.facebook.com/pg/dehistoriasambulantes/photos/

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O trabalho do artista é não duvidar das suas obsessões, diz Ana Flávia, em conversa com um grupo de famílias e com a equipe pedagógica da Escola Projeto/Porto Alegre, durante encontro de aproximação ao estudo de sua obra, como um projeto de referência, que acontece a cada ano, tendo um artista gaúcho convidado a ser estudado por toda a escola (agosto de 2019)¹.

 

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Ana Flávia Baldisserotto e alguns “carroceiros”, parceiros do projeto “Armazém das Histórias Ambulantes”. Fotografia de Deborah Vier Fischer (Parque da Redenção, outubro de 2019).

 

De acordo com a artista, trabalhar com a arte na rua é criar pontos de contato, é explorar desejos, é não saber ao certo o que e como os encontros acontecerão. É pensar a arte e, no caso da artista, também na relação com a docência, como espaço de liberdade, através de coisas muito simples – contar histórias, sair pela rua à procura de pessoas para conversar, bordar, observar plantas (excertos da entrevista de Bárbara Nickel com a artista, retirado do link: https://www.coisasqueagentecria.com/ana-flavia-baldisserotto-com-uma-carrocinha-comprando-e-vendendo-historias-anonimas/.

Fonte: https://www.facebook.com/EscolaProjeto/photos

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Ana Flávia busca, pelo campo do sensível, pensar em outras formas de arte: pelo afeto, pelo contato, pela proximidade e, em especial, pelas histórias, que transformam a ideia de arte. É um trabalho de afetar e ser afetado, lembra a artista. Sua regra pessoal: dizer sim ao desejo, abrir frestas para dizer sim à vida (excertos do encontro com a artista na Escola Projeto, agosto de 2019). 

Ana Flávia Baldisserotto e alguns “carroceiros”, parceiros do projeto “Armazém das Histórias Ambulantes”. Fotografia de Deborah Vier Fischer (Parque da Redenção, outubro de 2019).

Ana Flávia Baldisserotto e alguns “carroceiros”, parceiros do projeto “Armazém das Histórias Ambulantes”. Fotografia de Deborah Vier Fischer (Parque da Redenção, outubro de 2019).

Arte como um lugar sem borda. Rua como espaço de “desaprendizagem” das formas, lugar de perceber outras coisas (excertos do encontro com a artista na Escola Projeto, agosto de 2019). 

 

 

Pensando nessa perspectiva, três projetos ou propostas têm envolvido a artista intensamente:

ARMAZÉM DAS HISTÓRIAS AMBULANTES ou, simplesmente, “A CARROÇA”

http://www.historiasambulantes.com.br/.

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Oficina em formato de prática colaborativa, que acontece no âmbito do projeto Armazém de Histórias Ambulantes, uma banca de escambo que atua quinzenalmente no parque da Redenção, em Porto Alegre. Os participantes da oficina têm a oportunidade de integrar-se às atividades cotidianas da banca, bem como trabalhar na elaboração de narrativas textuais e visuais suscitadas pela observação e escuta dos narradores de rua, e publicá-las (https://atelierlivre.wordpress.com).

Fonte: https://www.facebook.com/EscolaProjeto/photos.

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Diz no site do Armazém de Histórias Ambulantes, também conhecido como A Carroça, a seguinte descrição do que seria esse “negócio”:

A Carroça ou Armazém de Histórias Ambulantes é uma banca itinerante de escambo que tem como sede uma carrocinha. Atuando nas ruas de Porto Alegre desde 2007, oferece aos transeuntes uma coleção de produtos singulares gerados em parceria com seus colaboradores espontâneos.  A moeda necessária para levar o item desejado é a disponibilidade do interlocutor de contar uma história à/ao atendente de plantão. Os relatos recebidos retornam ao acervo d’A Carroça como novos produtos, gerando uma microeconomia poética, que faz circular fragmentos sensíveis, memórias e ficções anônimas (http://www.historiasambulantes.com.br/nosso-negocio/).

A prática do escambo, ou melhor, da troca, se dá através de duas linhas de produtos, conforme definem os “carroceiros”:

1) cartões postais confeccionados a partir de fotografias descartadas ou fotografias que não deram certo e 2) escritos de gaveta doados ou entregues como pagamento na própria Carroça. Como pagamento, recebemos histórias. As narrativas podem ser orais ou escritas. Sempre temos banquinhos, ouvidos atentos, papéis, canetas e pranchetas esperando pelos clientes na Carroça.  Aceitamos qualquer forma de narrativa: memórias, fragmentos, contos, sonhos, divagações, listas etc. (http://www.historiasambulantes.com.br/nosso-negocio/).

Fonte: https://www.facebook.com/dehistoriasambulantes/photos/.

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ATELIER DE OBSERVAÇÃO ORGÂNICA

Atelier coletivo voltado para a produção de arte e cuidado com a vida onde desenhar, pintar, fotografar, plantar, escrever e pesquisar sobre a vida vegetal se combinam organicamente entre os espaços do atelier de desenho, a área de cultivos do Centro Municipal de Cultura e as praças vizinhas (https://atelierlivre.wordpress.com).

Ana Flávia desenvolve, juntamente com a comunidade, o atelier de observação de plantas, percebendo e trazendo à visibilidade as ervas daninhas – plantas de crescimento espontâneo no meio urbano – como refere, especialmente através do seu estudo “Inço é arte”.

A série Inço é arte faz parte de uma rede de proposições artísticas que trabalha as relações entre memória, cidadania e ecologia. A coleta, observação e estudo das plantas de crescimento espontâneo no meio urbano de Porto Alegre tiveram especial ênfase no trabalho desenvolvido à frente do curso Observação Orgânica, ministrado pela artista entre 2016 e 2017 no Atelier Livre da Prefeitura de Porto Alegre. Este curso surge no contexto de uma colaboração com os moradores do entorno da Praça Lupicínio Rodrigues e com o Ponto de Cultura Território Ilhota, vizinhos ao Centro Municipal de Cultura, que têm cultivado ervas, hortaliças e frutíferas em um movimento espontâneo de autonomia e cuidado com os espaços comuns. Além de trabalhar em ações diretas de observação e documentação das plantas da praça e entorno em desenho, pintura, fotografia e vídeo, o grupo também participa diretamente da expansão dos cultivos através do intercâmbio de conhecimentos e das trocas de mudas e sementes (BALDISSEROTTO, 2017, p. 8).

 

 

O atelier de observação orgânica segue acontecendo, nas quintas-feiras pela manhã, no jardim comunitário do Centro Municipal de Cultura ou em alguma praça da cidade. Ana Flávia recebe alunos, interessados e curiosos para se juntar ao grupo e participar de suas aulas ao ar livre, utilizando, basicamente o desenho de observação e a aquarela.

Fonte: https://www.facebook.com/anaflavia.baldisserotto.

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RODA DE BORDADO INVENTADO – No coração da agulha (ação colaborativa)

Fonte: https://www.facebook.com/110521669029753/photos/a.812625602152686/2453633501385213/?type=3&theater.

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Rodas abertas de bordado livre, voltadas para a produção de toalhas de mesa de grandes dimensões e refeições coletivas em espaços públicos. Circulando entre calçadas, praças, parques, escolas, hospitais, salas de espera, centros culturais e feiras, as rodas de bordado atuam como superfícies de contato e inscrição de fragmentos de fala, mediando processos de conversação e improviso.  Ao acolher e dar suporte à diversidade de vozes que compõem o tecido social, o bordado inventado é uma construção coletiva que coloca em circulação saberes não-hegemônicos e modos de habitar os espaços públicos que se desdobram em questionamentos sobre as noções de autoria, propriedade e bem comum (https://atelierlivre.wordpress.com).

Fonte: http://www.bordadonapraca.com.br/as-rodas-de-bordado/

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Fonte: https://www.facebook.com/anaflavia.baldisserotto/photos?lst=100024981286902%3A100000136767380%3A1578097860

Fonte: https://www.facebook.com/anaflavia.baldisserotto/photos?lst=100024981286902%3A100000136767380%3A1578097860

Um convite tão caro a quem aprecia estar com as pessoas, conversar, produzir algo junto. O bordado como um modo de resistência, um modo de marcar, com linhas, agulhas, mãos e pensamentos, o que vivemos, o que sentimos, no que acreditamos, pelo que vale a pena lutar. O chamado a se inserir no bordado de uma grande toalha de mesa, mesmo sem saber bordar, podendo, nesse caminho, inventar modos de lidar com os materiais à disposição, convoca ao encontro, à conversa, à invenção, ao improviso. Com isso, nasce uma relação horizontal com a comunidade e com a cidade, algo que Ana Flávia não abre mão de construir, tanto que cria seus “ateliers ao ar livre”: A Carroça, a observação orgânica e o bordado inventado. Diz a artista:

O processo de bordar coletivamente Na rua aproxima estranhos, abre espaços de diálogo, troca de saberes e resgate de memórias, estimulando relações de confiança e empatia, favorecendo a formação de vínculos sociais […]. Entrar no território desta conversa implica pensar os sentidos possíveis para a prática artística no mundo contemporâneo em sua imbricação com o espaço público, conceber a possibilidade de inventar novos possíveis e tecer este chão comum de forma compartilhada […]. No vai e vem dos fios da conversa, há sementes que germinam. Flores novas se anunciam a cada estação, e os frutos logo amadurecerão. (http://www.bordadonapraca.com.br/os-frutos/).

O projeto BORDADO INVENTADO NA PRAÇA é uma ação coordenada por Ana Flávia Baldisserotto em parceria com Eliane Bruél, e o coletivo A Carroça, com o apoio dos grupos Contar/Escutar e Observação Orgânica do Atelier Livre  Xico Stockinger da Prefeitura Municipal de Porto Alegre (Centro Municipal de Cultura), conforme consta no link: http://www.bordadonapraca.com.br/

Fonte: http://www.bordadonapraca.com.br/as-rodas-de-bordado/.

Fonte: http://www.bordadonapraca.com.br/as-rodas-de-bordado/.

As rodas de bordado hoje compõem uma rede, que viaja através dos fios (Rede Hilo_Red Fio). Estão na Praça Lupicínio Rodrigues, em Porto Alegre, mas também em outros locais, cidades do estado e do país, e também de fora dele. Os intercâmbios se dão através de encontros com as toalhas bordadas e com a presença de quem as borda, formando uma ação que teve início em junho de 2013, a partir de proposições de duas artistas que se juntaram aos demais projetos de Ana Flávia e deram a ele mais força e vigor: Ana Laura Lopez de la Torre (Uruguay) e Thereza Portes (Belo Horizonte, MG). A rede está composta por mais algumas artistas, entre elas, Eliane Bruél, Janniny Kierniew, Luciene Santos e Rosiane Bechler. 

Há, no trabalho de Ana Flávia Baldisserotto, uma preocupação com o tratamento estético, que diz respeito à produção que nasce na rua e que ganha corpo em diferentes lugares e com diversas pessoas. A ideia de arte que perpassa seu modo de pensar entende o artista como propositor de algo que acontece no encontro. Portanto, todo mundo que se envolve passa, de algum modo, a ser autor. 

A arte, nessa perspectiva, é um trabalho a muitas mãos, é um aprender constante a ser um corpo coletivo, a viver conjuntamente (excertos do encontro com a artista na Escola Projeto, agosto de 2019).

 

 

Fonte: https://www.facebook.com/dehistoriasambulantes/photos/.

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Nos links a seguir, estão alguns textos publicados no Blog da Escola Projeto, que mostram a força do trabalho de Ana Flávia Baldisserotto na escola, independente de faixa etária, formação em arte ou qualquer outro limitador. A arte que se pretende livre é possível em qualquer espaço e para toda e qualquer pessoa:

http://escolaprojeto.g12.br/blog/2019/12/06/ana-flavia-baldisserotto-e-sua-pergunta-que-nao-nos-deixa-calar-por-que-nao/

http://escolaprojeto.g12.br/blog/2019/12/03/uma-manha-de-historias-luz-sombra-e-inventos-na-ilhota/

http://escolaprojeto.g12.br/blog/2019/11/14/a-arte-para-valorizar-os-pequenos-e-importantes-detalhes-da-vida/

 

Para exercitar o pensamento:

O que ou no que a produção em arte de Ana Flávia Baldisserotto pode provocar modificações nos modos de pensar a arte na escola, partindo da ideia trazida pela artista de que arte é liberdade, é pensamento em ação?

A artista nos instiga à busca pelo não-saber e ao convívio com ele, como modo de desacomodar uma determinada relação já instituída pela arte e seu lugar na sociedade e no mundo.

Algumas perguntas para pensar com e a partir da artista: quais seriam os não-saberes das escolas em que atuamos? O que é possível fazer com o que não se sabe? Ou ainda: que perguntas rondam as nossas escolas, que problemas temos e que poderíamos tentar solucionar, ou pelo menos, minimizar, através de ações coletivas, intervenções urbanas e pesquisas com o meio em que a escola está inserida?

 

Mãos (e corpos) à obra:

Que tal criar um projeto que envolva a ideia de coletivo em relação a alguma situação que a escola esteja vivendo e que não tenha respostas e nem caminhos já traçados? Que perguntas poderiam ser feitas? Que encontros seriam proporcionados? O que se produziria a partir daí? 

Como, em grupo e envolvendo também a comunidade, seria possível trabalhar na perspectiva do que não se sabe e do que não há como definir e prever? Quais poderiam ser os ganhos de um processo colaborativo nascido e desenvolvido na e com a escola nessa perspectiva?

 

¹ A Projeto, escola privada de Educação Infantil e Ensino Fundamental I realiza, anualmente, durante um trimestre, o projeto de estudo coletivo da obra de um artista visual do estado do RS, com o objetivo de aproximar as crianças da arte contemporânea, em especial, conhecendo de perto a produção desse artista, que faz uma espécie de residência na escola, através de oficinas, encontros de conversas com a equipe pedagógica, famílias e crianças, e participação na Mostra de Artes Visuais, no final do estudo, em que a escola se transforma em um espaço de arte. O vídeo com a produção das diferentes turmas, que culminou com a mostra, pode ser conferido no site da escola Projeto, no link: https://www.youtube.com/watch?v=8UpHs5gLvXg.

 

Referências

BALDISSEROTTO, Ana Flávia. Observação orgânica, estudos de inço [ensaio visual]. Revista-Valise, Porto Alegre, v. 7, n. 14, ano 7, dezembro de 2017, p. 8-14. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/RevistaValise/article/view/81060/47548. Acesso em 23 dez. 2019.

BALDISSEROTTO, Ana Flávia; BERNARDES, Maria Helena. A estrada que não sabe de nada.  Rio de Janeiro: Editora Confraria do Vento, 2012. 

 

Texto e pesquisa de  Deborah Vier Fischer.

Edição e revisão de Ágda Rocha e Luciana Gruppelli Loponte

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

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