Jaci dos Santos Cordeiro, foi um artista gaúcho nascido em Porto Alegre em 1955 e falecido em 2002. Ainda menino foi verdureiro, engraxate e vendedor de jornal no centro da cidade. Todo tipo de parede era suporte para seus desenhos, gosto que levou a sua cliente de frutas, a professora Christina Balbão, a aproximá-lo do Instituto de Artes (IA) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Com o sonho de ser desenhista, Jaci passou a trabalhar como modelo vivo no Instituto, podendo fazer seus próprios desenhos no intervalo das aulas[1].
Frequentou o Atelier Livre da Prefeitura Municipal de Porto Alegre, na década de 1970, onde fez estágio em gravura com Danúbio Gonçalves. Naquela época tinha 14 anos e se sabe que já aos 16 expôs trabalhos em madeira na galeria do Atelier.

Destacou-se na escultura, tendo na sua trajetória artística uma importante aproximação ao escultor Guma, Gomercindo da Silva Pacheco (1924-2008), que trabalhava como zelador na então Escola de Belas Artes de Porto Alegre, o atual Instituto de Artes da UFRGS. Seu trabalho compreendeu entalhes e esculturas em madeira, pedra-sabão e bronze, algumas vezes em formas semelhantes a totens que foram descritas como figuras enigmáticas e intrincadas. Para o artista, as formas vinham de dentro dele.
Em 1985, ele contava com 15 anos de atividades como artista e com a participação em mais de 30 exposições no Rio Grande do Sul, sendo que em uma ocasião vendeu todas as obras expostas. Pela informação dele próprio, dada a um jornal, sabemos que seus trabalhos estão em alguns estados do Brasil e em países como Itália, Suécia, Alemanha, Canadá, Argentina e Estados Unidos.
No acervo do Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS) há duas obras suas. “O menino das laranjas” (Jaci criança na frente da casa da Christina), de 1984, foi doada ao museu pela família de Christina Balbão. “Banzo” é de 1978 e foi doada pelo próprio artista ao acervo. Davi Nunes (2018) explica que banzo é uma palavra da língua quimbundo “mbonzo” que significa saudade, paixão, mágoa ou os sentimentos de angústia e melancolia dos escravizados africanos saudosos de sua terra de origem e/ou desejosos pela liberdade. Nunes também considera que banzo: “é fim para o começo, embate mentalista introspectivo que move o mutuê, a cabeça, para uma dignidade existencial que se estende além da vida – a ancestralidade. Por isso é força angustiante, uma instância desesperadora, uma dor insubmissa às opressões” (NUNES, 2018).


Sobre a obra “Árvore da Vida”, exposta em 1999 na extinga galeria Casa 26, sabemos que é composta de “crianças que já nascem acorrentadas, imagens revivendo os martírios dos navios negreiros, remetendo à questão do negro”. De nossa parte, acrescentamos que a obra remete à questão do negro, porém a partir do racismo estrutural que constitui a sociedade brasileira.
Às pessoas negras, a sociedade oferece caminhos cheios de violências, privações e apagamentos, o que levou Jaci à detenção. Durante o cumprimento da pena, em 1983, destinava boa parte do dia a dia à escultura e ao seu ensino dentro das atividades terapêuticas lá desenvolvidas. Como escultor e educador naquela instituição, dedicou-se também a esboçar as esculturas que faria no futuro, usando os materiais de desenho e ferramentas levados pelas amizades que tinha no mundo da arte porto-alegrense.
Jaci foi idealizador de uma galeria de arte de presidiários onde houvesse “arte de homens que foram levados pro crime ou que ingressaram por equívocos, armadilhas da vida”. O que de fato aconteceu, chamando-se Galeria Fernando Corona, nome de um escultor, arquiteto, crítico de arte e professor espanhol e estabelecido em Porto Alegre (1895-1979).
Existe pouco material sobre o artista e sua obra e, graças ao Núcleo de Acervos e Pesquisa do Museu de Arte do Rio Grande do Sul, que é responsável pela guarda, documentação, catalogação, organização e gestão dos Acervos Artístico e Documental do museu, foi possível alcançar vestígios do que foi a trajetória artística de Jaci dos Santos Cordeiro. Buscamos dados na internet, usando estratégias de pesquisa que permitissem resultados dos países onde estariam obras do artista, mas não obtivemos sucesso. Ainda que obras componham diversas coleções particulares espalhadas no mundo, é muito difícil acessá-las, justamente por serem mantidas distanciadas do conhecimento público e das elaborações que competiriam à história, à crítica e ao ensino da arte, por exemplo.
Para quem se dedica a educação e artes visuais, é evidente a omissão da vida plena, até dita como obsessiva por arte, que Jaci dos Santos Cordeiro desenvolveu. Segundo Danúbio Gonçalves (s/d), o inquieto e compulsivo “fazedor de imagens” foi um artista “Arrebatado pelo laborioso suor de uma força vital inexistente nos programados estudantes bem nutridos das escolas oficiais”. Uma contundente observação como essa, dita por alguém da relevância de Danúbio Gonçalves, parece não ter sido suficiente para impulsionar produções que aprofundassem os sentidos da obra desse artista negro do sul do Brasil. Com uma insubstituível contribuição à arte gaúcha e brasileira, o sistema da arte parece não ter tido a mobilização necessária para abrir os seus próprios contornos ao reconhecimento da obra de Jaci Cordeiro.
Por um lado, o que há para ser pesquisado a seu respeito é um conjunto de fragmentos esparsos da obra de um artista negro: um arquivo com notícias de jornal, folhetos de exposições e poucas imagens. Por outro lado, o mesmo arquivo é a evidência dos mecanismos de desigualdade social que conformam as instituições, o que esperamos ter demonstrado nesse texto, mesmo que brevemente.
Izis de Abreu, curadora e mestra em História, Teoria e Crítica da Arte, em 2019, escreveu uma carta que nos faz pensar nos efeitos do apagamento das pessoas negras na esfera artística e na vida propriamente dita:
Caríssimo Jaci (Santos Cordeiro)
Escrevo-te num momento muito difícil para nossa gente. Desejava te proporcionar alguma alegria ao informar que coloquei uma de tuas obras em exposição novamente[Exposição Arte em Movimento, no MARGS, 2019]. É apenas a segunda vez que ela é mostrada ao público desde que a criaste em 1978. Achei que seria importante dar-te esse retorno após certo período de apagamento. Já são 17 anos desde que retornaste para o Orum. Mas infelizmente não trago apenas boas notícias.
No último domingo sofremos mais um grande golpe do Estado. Uma família foi fuzilada pelo exército com mais de 80 tiros. Estavam no carro cinco pessoas de uma mesma família. Evaldo, que era músico, morreu na hora. (ABREU, 2019).
O estudo da obra de artistas não brancos deve ser realizado sabendo que existe risco real de desaparecerem como existência e como bem artístico e simbólico. E o incentivo às artes para crianças e jovens não brancos deve ser feito sabendo que, sendo a maior parte pertencente à camada de menor poder econômico, essa pode não ser uma escolha na vida daquelas pessoas.
“Olha ali na janela: como o mundo é grande lá fora!”, disse o artista, em um momento do período em que esteve detido. Alargar as possibilidades de enunciação nas artes visuais e na educação em escolas e instituições de cultura é dizer sim à maior parte da população brasileira e ao que ela produz nas artes. É tornar presentes nas instituições, nas publicações, memória e imaginário o pensamento, a arte e a cultura negra como contribuintes reais ao conhecimento.
[1]A composição desse texto deu-se a partir de arquivos do acervo documental do Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS), composto por uma diversidade de folhetos, notícias de jornal, reportagens de revista. Para manter a fluência, optamos por não incluir detalhes das fontes no texto. Agradecemos à Carla Batista, do Núcleo Educativo do MARGS, pelo apoio.
Referências:
ABREU, Izis Tamara Mineiro de. Carta a Jaci. Disponível em: https://mucb.com.br/fico-pensando-se-algum-dia-deixara-de-ser-eles-e-nos/. Acesso em 20 mar. 2022.
MARGS. Mostra de Esculturas de Jaci Santos. 1986.
MENDONÇA, Renato. Esculturas que libertam. Zero Hora, Porto Alegre, 1º set. 1999.
ZERO HORA. Jovem de 16 anos mostra arte em madeira no Atelier Livre. Porto Alegre, 1972.
______. Três anos de prazo para a realização de um sonho. Porto Alegre, 1984.
______. Os tumultuados caminhos de um escultor até o Presídio Central. Porto Alegre, 1984.
NICOLAIEWSKY, Alfredo. Fernando Corona e o “Documentário fotográfico de esculturas executadas pelos alunos desde a fundação do curso de escultura”. 2017. Disponível em: http://dezenovevinte.net/800/tomo4/index_arquivos/800_IV_an.pdf
NUNES, Davi. Banzo: Um estado de espírito negro. Disponível em: https://www.geledes.org.br/banzo-um-estado-de-espirito-negro/
Texto: Carmen Lúcia Capra, Doutora em Educação, professora do curso de Artes Visuais – Licenciatura UERGS (Universidade Estadual do Rio Grande do Sul).
Revisão e Edição: Luciana Gruppelli Loponte


