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diário de uma professora pandêmica

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por nanda mélo
Recifepernambuco

Trezedenovembrode2020

Eu desisto. Des existo. Não quero mais ter meu corpo nesta existência pandêmica ou virtual ou ainda o nome que se queira dar. Tenho pouco tempo aqui, nesta 1 hora de nenhuma sincronia eu poderia estar na praia, poderia ligar pra minha mãe, pra minha vó. Você já pensou? Se minha mãe ganhasse essa uma hora síncrona comigo , ela preencheria cada micro segundo com palavras, gestos ou regras. Mas eu, que da maternidade por ora me afasto, médio boto água nas minhas plantas, tem dia que só tenho medo mesmo e raiva. Sabe? Se eu fizesse um pega ou caminhasse no espaço, assim todo mundo se esbarrando, quem sabe fizesse um jogo pra mostrar que não sabe olhar tranquilo pra plateia, mas a câmera não funciona e eu to no celular da minha mãe professora o meu quebrou, eu cai …e perdi essa parte da atividade. Minha filha, você caiu? Machucou? É só forma de expressão! Profi, eu que vou fazer o protocolo, Eu vi metade do jogo, mas eu não lembro o que ele fez, pode me dizer? E aí eu escrevo sobre o que eu não vi, pra gente pensar sobre o que não fizemos. Pausa. E se eu não chorasse e fosse ver o céu lá fora? E se a gente estivesse naquela sala quente e com ar condicionado barulhento? E se meu diploma garantisse que o outro sentisse e estivesse presente? Presente! “Presente é estar”, me disse outro dia o menino do primeiro ano. 

Vinteetrêsdejunhode2021

Não lembro nenhum vinte e três de junho que eu não estivesse onde nasci. Parto. Partia de Recife para Caruaru. Hoje é dia de fogueira e essa saudade do rito me engasga. Hojédiadefogueira. Hojé. Não era e é preciso sustentar essa narrativa, não passar para o passado o que é o presente festa de viver. Resolvi escrever este diário de uma professora pandêmica quando começaram as atividades síncronas na escola. Ele não foi diário. Foi um caderninho virtual pequeno e quieto rabiscado de suspiros ou gritos quando necessário, quando possível ou quando a lembrança de querer ser em palavra o que a pele sentiuousentia me agitava. Hojédiadefogueira. E talvez por isso, mesmo não havendo expediente e podendo dormir mais, eu acordei cedo como diário.

Vintequatrodesetembrode2020

Eu escrevo para compor com o tempo. Lembro de quando fiquei aqui, esperando o tempo passar. Lembro de quando me disseram que passa. Passa a vontade de fazer teatro, passa essa história de ser artista. Passa! Não passa. O que é de verdade fica, nem que seja perturbando seu juízo, meu juízo, até que eu burle a regra e vá até a praia e mergulhe. E mergulhe em mim, pois é comigo que preciso fazer as pazes, é aqui neste corpo que invento poesia e textos vários, que encontro uma forma de prazer que fica flutuando entre a palavra, o gesto e o que a outra pessoa sente. Essa sou em desde que não deixei passar nenhuma vontade. Desde que acolhi quem sou e vibrei mesmo quando desanimei, desisti, fugi ou me escondi. Não adiante. Vontade é coisa que procura você. É um tormento, um coração que não se deita, uma flecha que só tem um percurso possível e não é o alvo, é o instante do lançamento e a travessia.

PROFESSORAS PANDÊMICAS

Fernanda Mélo <fernanda.meelo@gmail.com>

sex., 23 de out. de 2020 13:55

para Andréa

Oiiieeeeee!

Hoje eu ia justo voltar a escrever no diário porque a aula foi bem interessante. após duas aulas teóricas sobre Encenação no nosso tempo de 1h, eu prometi que hoje teria prática e improviso. Acordei ainda pensando o que escolher, porque jogos muito elaborados tem se mostrado mais difíceis de acontecer com as diferentes formas com que cada pessoa consegue estar presente, sabe? Percebi agora que o diário tá virando carta e tudo bem , vou seguir assim por que falar endereçado tá sendo bem precioso. Saber com quem estou falando né? hahahhaha

Então, após a apresentação dos protocolos (um foi registro escrito contando da aula passada e tb trouxe o glossário Teatro épico e o outro foi um vídeo, onde a menina era a apresentadora do jornal nacional, estava de terninho e fez a nossa aula de notícia e o glossário que ela escolheu foi a palavra Personagem). Ah! Nós inserimos há alguns anos a escrita de um Glossário de termos teatrais , juntamente com o protocolo , que é o espaço de construção da memória das aulas. Nos questionamos se faríamos virtualmente, já que só teríamos 1h (antes tínhamos 2 tempos de 50min) ..mas fizemos a experiência e tem sido bem interessante..principalmente os vídeos e podcasts …

Sabe uma coisa que me angustia o tempo todo? Como incluir as pessoas que não abrem câmera e ter feedback pra saber como elas estão realizando a atividade. Hoje, um menino que eu nunca vi a imagem, porque ele não consegue abrir e etc..me manda no chat: Prof, quando fui girar o braço bati no copo aqui de vidro..Pausamos pra saber se ele havia se machucado e tinha alguém pra ajudar (ficou tudo sob controle, mas fiquei feliz que ele tava fazendo)..e aí me pego refletindo sobre como tudo se torna mais ficcional né? E se fosse mentira essa história? E se ele nem levantou da cadeira? Eu nunca vou saber. E como Encenação é um dos conteúdos do 8º ano, temos conversado bastante sobre as escolhas que uma/um encenadora faz..sabe? é isso!

Voltando ao jogo, após nosso aquecimento em nossos micro espaços, caminhando solitárias por nossos quartos/salas/não sei…dissemos no chat várias possibilidades de expressão facial e no JÁ deveríamos aproximar da câmera , escolher uma e mostrar. E quem estava sem câmera, deveria escrever sobre como estava fazendo..(não houve muito retorno neste momento).

Por último a gente fez um jogo de improviso, no qual deveriam escolher o Onde , faríamos trios e a regra é Fica com a câmera aberta quem tá na cena (mas dependendo a plateia pode abrir tb). E aí tivemos três trios : o primeiro estava numa Casa de zumbis do Minecraft, o segundo grupo estava em Paris e o terceiro estava numa cadeia. O primeiro desenvolveu sua missão procurando armas e diamantes, com todas as pessoas com a câmera e áudio aberto..o segundo grupo eram três meninas , onde 2 estavam com câmera e aúdio e outro só com áudio (indiquei que ela investisse na expressividade da voz e foi muito legal porque parecia que a gente tava vendo ela! – uma coisa meio contação de histórias!) e o terceiro grupo eram policiais numa missão na cadeia, todos com áudio e câmera tb…

Bem, acho que é isso! Depois de um dia de muitas reuniões, preparando Conselho de classe com o 6º ano virtualmente (eu sou supervisora da turma) e aí eles estão preparando o texto avaliativo que será lido no conselho, etc…

Acho que é isso Deta, linda querida! Sigamos com nossas cartas diários semanários não..com essas escritas que começam a nos fiar este tempo juntas.

Vintedenovembrode2020

Hoje me vi dando alguns comandos : presença , inteireza , estar dentro do jogo, compreender a escuta dentro do processo. Jogo: uma pessoa vê materializada as vozes que moram na sua cabeça. Próximo: considerar uma plateia que assiste … considerar que suas ações são com a câmera como se a câmera (jogadora ) fosse esse personagem .. que lugar , que luz , qual figurino? Que frases ? 

Vinteetrêsdejunhode2021

Que educação? Que teatro? Que poesia? Que resistência? Que respiração? Que espaço? Que professora? Que artista? Que voz? Que casa? Que sala de aula? Que retorno? Que escola? Que cena? Que coletivo? Que presença?


Por Nanda Melo – Fernanda da Silva de Araújo Melo (fernandamelo@capufpe.com) :artista/escutadora na educação, contação de histórias, palhaçaria e performance. Mestra em Artes Cênicas (UFRN), especialista em Arte, educação e tecnologias contemporâneas (UnB) e licenciada em Educação Artística/Artes Cênicas (UFPE). Atua no Colégio de Aplicação (CAp) da UFPE desde 2016 no componente curricular Teatro. Pesquisa corpas/os/es e suas performances, tendo criado na Cia. Agora Eu Era (PE) de 2014 a 2018 e atualmente segue atuando de maneira solo e em intercâmbio com outras artistas. 

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