Alô, alô, marciano Aqui quem fala é da Terra Pra variar, estamos em guerra Você não imagina a loucura (Rita Lee, Roberto de Carvalho)
Ser um espectador de calamidades ocorridas em outro país é uma experiência moderna essencial, a dádiva acumulada durante mais de um século e meio graças a esses turistas profissionais e especializados conhecidos pelo nome de jornalistas. Agora, guerras são também imagens e sons na sala de estar. As informações sobre o que se passa longe de casa, chamadas de ‘notícias’, sublinham conflito e violência – “Se tem sangue, vira manchete”, reza o antigo lema dos jornais populares e dos plantões jornalísticos de chamadas rápidas de tevê – aos quais se reage com compaixão, ou indignação, ou excitação, ou aprovação, à medida que cada desgraça se apresenta.
(Susan Sontag, Diante da dor dos outros, 2003, p. 20).
Sim, estamos em guerra. Sim, sempre estivemos em guerra. Sempre há alguma guerra em algum lugar. Mas, desde fevereiro de 2022, quando o mundo ainda tenta se despedir de uma pandemia de mais de dois anos, a humanidade se vê exposta a um novo conflito de dimensões planetárias: a guerra da Rússia contra Ucrânia. No radar, o risco de uma terceira guerra mundial, destruição, morte, ameaças nucleares, fuga massiva de ucranianos do país, fake news.
As imagens de guerra e destruição invadem o noticiário, entram na nossa sala, nossos celulares e computadores. Depois de um tempo, parece que nos anestesiamos com essas imagens, que começam a fazer parte do cotidiano. Quais guerras nos comovem? Os massacres quase diários em comunidades e favelas brasileiras? As guerras na Europa? As guerras nos países subdesenvolvidos?
Neste texto trazemos três artistas que, de algum modo, tematizam a guerra a partir de imagens fotográficas, as manipulando ou não, ficcionando a partir delas: Sophie Ristelhueber, Ugur Gallen e Tammam Azzam. Afinal, toda imagem de guerra é ficcional e espetacularizada, ou não?
Sophie Ristelhueber (França, 1949) não fotografa pessoas: as fotos, em sua maioria, são de paisagens e o resultado das intervenções feitas pela humanidade nessa paisagem. Por isso, as imagens podem parecer solitárias e, talvez seja exatamente essa a ideia. Imagens solitárias, como os refugiados de guerra se sentem: sozinhos no mundo, desolados. Não há ninguém para pedir ajuda.
Seja em enormes painéis, mostrando a gravidade e o peso das imagens ou em inúmeros pequenos quadros que se destacam e tomam toda parede, dando tanta informação que passa a ser cansativo. Inúmeros pequenos lembretes dos efeitos da guerra, tal como nós recebemos nas mídias digitais e televisivas.
Em seus trabalhos, Ristelhueber desestabiliza nossa noção de espaço em suas fotografias, atentando principalmente para texturas e plasticidade das marcas deixadas na terra, nas construções e nos corpos por onde a guerra e outras intervenções passaram. Existe também um cuidado com o objeto fotografia: sejam fotos impressas em papel comum e fragilmente emolduradas, fotos fixadas diretamente na parede sem intermédio de uma armação ou moldura, fotos pequenas e confeccionadas em um estrutura que as dá destaque, fotos em quantidade massiva que cobrem paredes, fotos gigantes que tomam a arquitetura da galeria, fotos que conversam com o entorno, fotos que não parecem organizadas para uma exposição, fotos de corpos em escala maior que a natural, etc.
Ristelhueber confronta seu próprio ponto de partida ao abandonar as técnicas de reportagem e documentação que ela possivelmente utilizava enquanto trabalhava na imprensa. Ela se desloca, em corpo e em perspectiva, para capturar o resultado de uma fisicalidade bruta e ao mesmo tempo subjetiva e intangível. Ao abandonar a técnica, ela nega a resposta ao espectador, ela nega a documentação e a explicação. Mesmo que esteja explícito na imagem, seu trabalho nos conduz a dúvida, nos faz questionar o que estamos a observar. Nesse nosso tempo, em que nos imaginamos civilizados, não deveria ser esse também o nosso questionamento ao nos depararmos com a crueldade da guerra?

Eleven Blowups #5, 2006; Impressão a cores prateada montada em alumínio, emoldurada; Imagem: 110 x 133 cm; Edição de 3 exemplares; Cortesia da Galeria Jérôme Poggi, Paris 
Dead Set, 2001; Impressão pigmentada montada em alumínio; Imagem: 90 x 135 cm; Edição de 3 ex + 1 AP; Cortesia da Galeria Jérôme Poggi, Paris 
Arménie, 1989; Impressão a cores prateada montada em alumínio e emoldurada; Moldura: 50 x 60 cm; Edição de 3 ex + 1 AP + 1 HC; Cortesia da Galeria Jérôme Poggi, Paris
A artista se interessa em perseguir como nós, seres humanos, destruímos, criamos ruínas. Ela não vai a lugares de conflito como repórter de guerra, mas como uma artista que tem a preocupação de registrar as cicatrizes, ação humana de destruição, a ação do tempo no ambiente. Com suas fotos realistas, produz ficções, com interesse em pensar na oposição entre destruir e construir, já que podemos pensar que, se podemos destruir é porque continuamos construindo.

O ritmo das imagens e das informações na contemporaneidade é acelerado. As imagens estão por aí, e coisas como autoria e veracidade dos fatos podem acabar se perdendo no caminho. No Brasil sabemos bem disso, as fake news invadem as mídias, nossas casas e com frequência não sabemos em quais imagens e informações podemos confiar. A arte, por outro lado, muitas vezes usa do poder da manipulação e da distorção como ferramenta para causar impacto, para refletir, para brincar e para criticar. Como é o caso de Uğur Gallenkuş, um artista digital Turco, de Istambul. Grande parte de suas obras são divulgadas através do seu perfil no Instagram (@ugurgallen). Em entrevista dada para Museum Week Magazine em outubro de 2021, ele diz que sua intenção através de seu trabalho é conscientizar as pessoas dos problemas existentes ao redor do mundo. Explica que as imagens que passam nos noticiários e na mídia não necessariamente tocam as pessoas que não estão inseridas naqueles contextos, e que tem intenção, ao justapor essas imagens, de fazer com que essas imagens passem a afetar as pessoas. Ele comenta: “Como seres humanos, nós não entendemos os problemas que vemos nos noticiários e ocorridos ao redor do mundo, e o que as pessoas que sentem esses problemas passam. Porque isso não acontece com a gente. Nos meus trabalhos, eu uso pessoas, figuras e objetos do cotidiano para fazer eles nos tocarem mais. Apenas dessa maneira nós conseguimos entender e empatizar com o que aconteceu. Nós conseguimos entender o valor do que nós temos. Ou nós podemos demandar o que não temos. Com os meus trabalhos, minha intenção é fazer as pessoas sentirem empatia com os problemas ao redor do mundo. Através dessa empatia, eu acho que nós podemos minimizar esses problemas.” (Ugur Gallen em entrevista a Museum Week Magazine, tradução livre).

Editorial Photo Description: A Syrian boy sits on a barrel of a destroyed tank. Syria, 2015. 2012. (https://ugurgallenkus.com/products/seasaw)
Essa brincadeira com a justaposição de imagens que Uğur Gallenkuş realiza em suas produções causam um grande impacto visual. As imagens das realidades escolhidas e apresentadas por ele muitas vezes se encaixam simetricamente, causando mais impacto ainda. Ugur Gallen quer trazer através da visualidade, um momento de reflexão a respeito das diferentes vivências existentes ao redor do mundo, enfatizando as tragédias como guerras, desastres naturais, violência e pobreza. Apesar desse exercício ser importante, são necessárias observações. Ainda nessa entrevista, o artista diz “… eu uso essas fotos , uso a dualidade como minha ferramenta e crio colagens combinando o que é e o que deveria ser”. Reparemos nas escolhas normalmente feitas pelo artista: de um lado uma tragédia, imagens de terror, guerras que ocorrem em países orientais ou na áfrica ocidental, pessoas não brancas sofrendo por variados motivos, longe de um contexto europeu ou norte americano. De outro lado, imagens com tons claros, ambientes super organizados e limpos, pessoas (normalmente de pele branca) sorrindo, se divertindo, trabalhando, etc. Quando o artista cria essas dualidades e afirma que um lado é “o que é” e outro é “o que deveria ser”, o que significa?
Devemos cuidar, ao fazer essas justaposições e comparações, para não acabar universalizando realidades e vivências com princípios eurocêntricos, colonizadores e racistas. Isto é, existem diversas leituras possíveis para o trabalho de Uğur Gallenkuş. A maioria das matérias e textos de fácil acesso na internet realizam uma leitura no sentido de que o artista faz uma crítica às relações de poder, aos opressores em relação aos oprimidos, como uma forma de denúncia a diferença, escancarando as realidades através de suas colagens. Porém, em sua fala, o artista acaba indo em outras direções. Ao falar em “cotidiano” como uma coisa única, por exemplo, é contraditório com sua própria produção. Ao afirmar que “Como seres humanos, nós não entendemos os problemas que vemos nos noticiários e ocorridos ao redor do mundo” o artista acaba deixando passar algumas questões.
Devemos nos perguntar: quem não se afeta pelas imagens de tragédias, pobreza e violência? Por que? Por que algumas imagens passam batidas, despercebidas, entendidas como comuns e outras causam grandes comoções? Quais imagens são essas?
Tammam Azzam, artista sírio, constrói imagens com fragmentos. As obras são coloridas e, o primeiro aspecto não é fúnebre, mas o contexto da imagem pode ser. Isso leva o expectador a se demorar em frente a obra para decifrar a imagem, o que lembra um pouco a artista francesa Sophie Ristelhueber.
Em ambas as séries que escolhemos para este texto, Azzam trabalha com colagem: em uma delas a fragmentação é tanta que todas as figuras de uma composição são construídas aos pedaços. Na outra série de colagens, ele concatena diferentes sentidos, faz comparações a partir de obras de arte consagradas no ocidente sobre os escombros de guerras invisíveis para a grande maioria da população mundial. As figuras são distinguíveis, mas novamente estão reunidas pela estranheza e contraste entre elas. Com essa série, o artista, refugiado sírio, faz uma crítica ácida a guerra, a capacidade de destruição e construção humana, ao tratamento e atenção que as guerras têm, a depender de sua localização geográfica e dos interesses em jogo.
Saiba mais sobre o artista neste vídeo:

Tammam Azzam, Colagens, 140×140 cm, colagem em papel sobre suporte, 2018 
Tammam Azzam, Colagens, 120×160 cm, colagem em papel sobre suporte, 2016 
Tammam Azzam, Colagens, 180×180 cm, colagem em papel sobre suporte, 2018 
Tammam Azzam, Syrian Museum, Mona Lisa, fotomontagem, pintura em acervo, PA edição de 5, 2013 
Tammam Azzam, Syrian Museum, Matiss, fotomontagem, pintura em acervo, PA edição de 5, 2013 
Tammam Azzam, Syrian Museum, Klimt, Freedom Graffiti, fotomontagem, pintura em acervo, PA edição de 5, 2013
“Nós” – esse “nós” é qualquer um que nunca passou por nada parecido com o que eles sofreram – não compreendemos. Nós não percebemos. Não podemos, na verdade, imaginar como é isso. Não podemos imaginar como é pavorosa, como é aterradora a guerra; e como ela se torna normal. Não podemos compreender, não podemos imaginar. É isso o que todo soldado, todo jornalista, todo socorrista e todo observador independente que passou algum tempo sob o fogo da guerra e teve a sorte de driblar a morte que abatia outros, à sua volta, sente de forma obstinada. E eles tem razão.” (SONTAG, 2003, p. 104)
E é isso que esses artistas tentam nos dizer sobre a guerra e nossa capacidade infinita de destruição, mas também de criação. O que aprendemos sobre guerra a partir dessas imagens criadas, recriadas e manipuladas? Como nos posicionamos diante dessas imagens? Quais as guerras que nos interessam, nos comovem, nos importam?
Referências :
SONTAG, Susan. Diante da dor dos outros. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
SOBRE Sophie Ristelhueber:
imagens: http://galeriepoggi.com/fr/artistes/oeuvres/3361/sophie-ristelhueber#oeuv-33
https://www.erudit.org/en/journals/cv/2010-n85-cv1519926/63716ac.pdf
https://www.whitechapelgallery.org/events/sophie-ristelhueber-talk/
http://blokmagazine.com/between-war-and-rave-ukrainian-art-after-the-2013-revolution/
Sophie Ristelhueber – Documenting Traces of War | TateShots
https://jeudepaume.org/evenement/sophie-ristelhueber-la-guerre-interieure/
Mars, Scars, Borders. The Art of Sophie Ristelhueber by MARC MAYER
https://www.ufrgs.br/arteversa/desafios-da-arte-contemporanea-para-a-educacao-praticas-e-politicas/
SOBRE Uğur Gallenkuş
Site oficial: https://ugurgallenkus.com/ )
Trabalho principal: livro de colagens “Parallel universes of children” https://ugurgallenkus.com/pages/about-the-book
videos de exposições: https://www.medioq.com/XX/Unknown/185356075281201/Arzu-Tunca-Publishing
Entrevista: https://museum-week.org/magazine/2021/10/18/5-questions-for-digital-artist-ugur-gallenkus/
https://fotografia.folha.uol.com.br/galerias/1619956688000169-colagens-de-ugur-gallenkus
SOBRE Tammam Azzam:
imagens: https://www.tammamazzam.com/tammam-azzam-collages-2016/2019
https://www.instagram.com/tammamazzam/
GUERRA! Na Arte de Tammam Azzam
REIMAGINE: Global Conversations — Rebirth & Hope with Pouran Jinchi and Tammam Azzam
Texto e pesquisa: Hariel Souza, Lobna Essabaa, Luciana Gruppelli Loponte, Diane Sbardelotto
Revisão e edição: Hariel Souza e Luciana Gruppelli Loponte






