Inventar novas relações entre arte, educação e docência
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Cenas e imagens da enchente: Memória coletiva do Arteversa

Sempre estivemos perto da água, mas parece que aprendemos muito pouco com a fala dos rios.

Continuamos pensando sobre as relações entre arte e educação, mas precisamos nos ouvir. Foi nesse sentido que o grupo Arteversa trabalhou nesse período: com pausas para a escuta e partilha da vida. Em consonância com o que todos nós passamos e ainda permanece, seja de perto ou de longe, o grupo compartilhou cenas escritas e imagens  sobre os dias vividos durante o período das chuvas e alagamentos aqui no Rio Grande do Sul. As cenas estão disponibilizadas em pequenas galerias que formam um registro da Memória coletiva do Arteversa. 


Era uma quinta-feira, dia 23 de maio de 2024. Quase um mês de chuvas e angústia. Uma pequena trégua e tentamos voltar às reuniões virtuais de trabalho e a escola do meu filho retornar às aulas. Final da manhã e a chuva era muito forte, o mundo desabando mais uma vez. Uma mensagem no celular acende o alerta: era preciso buscar as crianças mais cedo na escola. Saio correndo, pego o carro e me deparo com uma cidade colapsada. A água brota dos bueiros de todos os lugares. As ruas tão conhecidas no cotidiano se transformaram em pequenos riachos. Será que vai dar para passar? Será que vou ficar alagada? Será que entrou água na escola? Quando esse tormento vai acabar? Angústia sem fim. (Luciana)
E a chuva… que não dava trégua, causou no abrigo inúmeras goteiras, além do pavor de distanciar o fim, a hora que a água baixasse e já pudessem voltar pra casa. (Karine)
Acompanhando no celular os pontos de alagamento aumentando, vou conseguir voltar pra casa? Ônibus em horários de pico, só eu e o motorista indo pra zona sul, roda embaixo da água. Na escola, meus alunos brincando: ao invés de o chão é lava, o chão é água. (Lobna)
A sensação de que o resto do país não faz ideia do que passamos, é desolador. Já estamos caindo no esquecimento, das manchetes de jornais dos assuntos na boca do povo. As marcas que ficaram são muitas. Não apenas das linhas do nível da água, que ora como lama ou como lodo registraram sua presença nas casas e prédios das cidades criando a ideia de camadas. Mas foram marcas como feridas, que rasgaram as terras vermelhas e sangraram a serra gaúcha. Falo de marcas como traumas, que nas fotografias de quem não conseguiu salvar seus objetos a tempo, mancham, borram e apagam as memórias de uma vida. São tantas camadas de matéria pútrida como a lama e o lodo, que fedem, incrustados nos móveis e pertences de uma vida como são tantas as camadas podres das negligências políticas. Anos de sucateamento do estado, cidades sem proteção ou projeto de habitação. Camadas de vidas insignificantes, vidas que não importam. Vidas que trocam o seu tempo de existência em trabalho para poder adquirir tudo que agora está regurgitado em montanhas de entulho nas calçadas das ruas. Vidas que adoecem e padecem na tentativa de limpar, reconstruir e voltar a ter algum mínimo de dignidade. Vidas que perderam tudo, absolutamente tudo e que não tem casa para voltar ou família para apoiar, seguem em abrigos a mercê de políticas públicas. Essas que se arrastam e fogem das soluções pelas raízes do problema. (Juliana V.)
A memória é um direito, assim como a verdade. Enquanto o trauma nos provocou um silêncio momentâneo, porque ainda temos procurado as palavras e imagens para narrar o que aconteceu, a tentativa de apagamento parece ser o modo de agir dos desesperados. O negacionismo vem do medo de admitir uma responsabilidade extremamente visível. A água deixou muitas marcas e não há tinta suficiente para nos fazer esquecer. (Diane)
O Rio Grande do Sul inteiro devastado, retrato de uma contemporaneidade completamente distanciada da lógica das florestas, campos, vegetações diversas que estruturam nossos pagos. Olhando de fora, vejo uma sociedade adoecida, descompensada, acelerada, completamente refém de um sistema perverso. Sistema esse que é sustentado pela branquitude, por uma rigidez e completa devastação de nossas ecologias. Externas, internas, movimentos e dinâmicas que equilibram a gente. Somos ensinados a desconhecer nossos próprios ritmos. Não tem como voltar pra escola do mesmo jeito, seguindo as mesmas coisas como se nada tivesse acontecido, pensava comigo. Tivemos algumas reuniões e tentativas de pensar coletivamente. (Valéria)
O Departamento de Pequenos Reparos foi instaurado na minha cabeça nos meses que antecederam a revolta dos boeiros. A desaprendizagem do contato visual com outros seres me impeliu a caminhar com o olhar para o chão nestes últimos meses. A partir de tal hábito, contra o qual luto ainda, luto ainda luto, fui imaginando que nas lajotas soltas e pequenos buracos das calçadas, o pó dourado das técnicas japonesas usadas para consertar as coisas quebradas poderia evitar que mais frestas se abrissem ao abismo que tende a nos engolir, mesmo sem fome, quando sente cheiro de medo. O pânico é um sinal vital quando, se pudéssemos nos ver de fora, seríamos zumbi atropelados na faixa de segurança (qual segurança?). Ainda se mexem, então tem que viver. Embora ele preencha o estômago e se comporte como um semáforo desregulado por uma tempestade, causando bastante acidentes, o pânico se sente como um vazio cheio demais. Um vazio muito espaçoso. A sujeira desse vazio sujo e sem manutenção bloqueia as tampas e aumenta a pressão. Esse vazio disforme e entupido tenta modelar os contornos finos de contenção, com a mesma incapacidade de um muro que fracassa em esconder a linha do horizonte. Ela só estava adormecida e agora sobe, acima dele. A linha de um rio que caiu do céu. Bem avisados estávamos de que o céu iria cair. O Departamento de Pequenos Reparos era um conto sobre o pânico, sendo escrito naquela semana em que a inundação interrompeu a escrita, porque a escrita esgotou-se do imaginário quando a realidade tomou o lugar do inimaginável. (Diane)
Tentei seguir, retornar ao trabalho, ajudar a lavar, limpar e reconstruir alguma coisa. O que estou fazendo enquanto ser humana que pertence e percebe este tempo? O que devo fazer? Sinto que preciso fazer algo, algo que possa ser útil na luta de uma construção diferente e possível, mas como? Não sei, estou tentando escutar o tempo, silenciar minha voz, fotografar o que vejo, desenhar alguma ideia, expor o que penso em aula, dizer de outro modo, sentir o agora…Só sei que preciso me importar, não posso esquecer…(Juliana V.)
Todas as vezes que tento escrever sobre a enchente não consigo. Apago, começo de novo, olhos enchem de lágrimas. Me identifiquei muito com teus escritos da Juliana. A gente se identifica com o que nos toca né. Várias palavras que tu escreveu parece que destravaram aqui dentro. Também quero sempre me importar, apesar de ser doloroso, sei que esse caminho é o único que faz sentido. Dessa vez não vou apagar nada, somente permitir que as mãos escrevam o que meu corpo tem sentido. Num dos dias em que fui auxiliar nos resgates, a primeira pessoa que chegou até mim também era mãe, tinha dois guris, ficaram separados, cada um para um lado. Ela era de Canoas. Não nos conhecíamos, não sabia nada sobre sua história, mas me enxerguei nela, somente no olhar nos entendemos. Começou a contar sobre a água subindo no pescoço e já não consigo por em palavras. Chegavam mais e mais pessoas e eu só pensava em como ajudar tanta gente sem qualquer garantia de poder voltar para casa. “Vai passar” alguém dizia, não é coisa que se diga… no céu relampejava. A chuva não dava trégua. Desse dia lá no início de maio não tem foto, só tem memória. Agora, depois de quase 2 meses, me pergunto como deve estar você e sua família. E tantas outras que tiveram seus sonhos transformados em lama. Como somos pequenos diante de tudo isso… e grandes ao mesmo tempo… (Valéria)
Me voluntariei. Trabalhei ajudando, organizando, dobrando roupas, arrumando quartos, arrecadando e cuidando da logística de doações. Registrei um pouco do que vi, do que pensava, do que sentia. Troquei histórias, muitos abraços, sorrisos e choro. Chorei de tristeza, de vergonha, de impotência, de medo e de pânico. Então enquanto artista e professora tentei seguir com o meu trabalho, com o meu olhar, com a minha arte, com o meu viver. Prometi a mim mesma que nunca esqueceria o que aconteceu. Estar lúcida e de olhos bem abertos para esse tempo tem sido amedrontador. (Juliana V.)
Nos unimos , professoras de artes e ciências e estamos construindo um barco com os 8º anos. Um projeto que está em processo de criação, sem escritas e delongas, no olhar e na palavra dita. Performance, política, cartografia. A ideia é levarmos o barco até a prefeitura, ele estará transportando uma bagagem valiosa: cartas dos alunos endereçadas ao prefeito Sebastião Melo. Estamos tentando não afundar em meio ao caos, buscando respostas por meio e a partir da arte. A utopia existe para que a gente siga caminhando, como diria Galeano… é difícil em meio a tudo que vivenciamos não perder as esperanças, mas é graças às alianças que a arte gera que afirmo com plena certeza que esse barco vai longe. (Valéria)
Logo nos primeiros dias de maio me voluntariei a auxiliar em um abrigo. Era uma maneira de furar a angústia do lugar de ouvinte da tragédia e colocar meu corpo a serviço de alguma forma de acolhida e reparação (quisera eu acreditar nessa última). As histórias vinham de todos os lados. Sobre o que deixaram para trás, o quão repentina foi a subida das águas, a resistência de algumas saídas das residências, até a exaustiva e desgastante espera por resgate. Nessas histórias, as mulheres sempre fizeram frente. Foram as avós corajosas que iniciaram o processo de saída de casa pelo cuidado com a vida. As mães que não deixaram que seus filhos ficassem ou que não descansaram até que tivessem notícias deles. As companheiras que voltaram pra insistir uma vez mais que seus afetos não arriscassem suas vidas ["(...)aí eu pensei… Era o meu amor de 46 anos, eu não podia deixar ele pra trás"]. Mulheres bravas, que muito planejaram seus retornos às casas, ainda antes de qualquer indício dessa possibilidade. Mulheres que agradeciam pelo olhar a todo gesto de cuidado e acolhida que recebiam ou que, por vezes, até baixavam a cabeça um tanto constrangidas de dizer aquilo que precisavam. Quando a água baixou, foram as primeiras a ir e mais uma vez tomar a frente (seja na limpeza, no descarte, ou no que poderia ser feito…). Entre as pessoas voluntárias no abrigo, também se via quase que só mulheres tomando a frente. (Karine)

Edição e revisão: Lobna Essabaa e Clarissa Nunes

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