Claudia Andujar – o lugar do outro


Claudia Andujar nasceu na Suíça em 1931, mudou-se para os EUA durante a segunda guerra mundial, após perder quase toda a sua família e casa-se com Julio Andujar, refugiado espanhol, no ano de 1949, em Nova Iorque. Pouco tempo depois se separam e em 1955 Claudia chega a São Paulo e vive com sua mãe. Em suas viagens pelo Brasil e América Latina, fotografa e pública suas imagens em revistas nacionais e internacionais como Life, Look, Fortune, entre outras.

Claudia Andujar acompanhou de perto a construção da Galeria que leva o nome dela. Foto de Rossana Magri

Claudia Andujar acompanhou de perto a construção da Galeria que leva o nome dela. Foto de Rossana Magri

A fotógrafa entra em contato com os índios pela primeira vez em 1958, durante visita à Ilha do Bananal, terra dos Karajá, e algumas dessas imagens foram publicadas pela revista Life. Em 1967 colabora com a revista Realidade junto a George Love, seu segundo marido. Em 1971, inicia contato com os Yanomami numa matéria especial para a revista Realidade, na Amazônia.

Em 1978, é expulsa do território indígena pela Funai, retorna a São Paulo e organiza um grupo de estudos em defesa da criação de uma área indígena Yanomami. Este foi o primeiro passo para fundação da ONG missão pela Criação do Parque Yanomami, CCPY (hoje Comissão Pró-Yanomami). Claudia assume a coordenação da campanha pela demarcação desta terra indígena, o que finalmente ocorreu em 1992.

Claudia Andujar pintada por índia Yanomami, Roraima, 1976. Foto: Carlo Zacquini

Claudia Andujar pintada por índia Yanomami, Roraima, 1976. Foto: Carlo Zacquini

Andujar ficou mundialmente conhecida pela sua vasta produção de imagens fotográficas dos índios
Yanomami. Além disso, seu nome está indissociavelmente ligado a luta pela demarcação de território desse
povo. Sua obra fotográfica é considerada fortemente engajada, pois caracteriza-se por um tipo de “recorte” da
realidade do povo, dos trabalhadores, pobres, crianças, em suma, das minorias ou “deserdados da terra”, tirando-os
de sua existência anônima para o centro da imagem.

 

“Sem dúvida, minha fotografia é marcada pelo meu passado. Um passado de guerra, um passado de minorias.
Isso é algo que não só me preocupa, mas me perturba. É parte da minha vida. Me interesso muito pela questão
da justiça e das minorias que estão tentando se afirmar no mundo, mas se deparam sempre com um dominador
que procura apará-las. Mas existe também um outro lado, que é a estética, o equilíbrio, presente nas minhas
imagens. Nem sempre o lado social pode se juntar ao lado estético. Eu sofro por isso. Quando consigo juntar as
duas coisas, me sinto aliviada. (Andujar in Persichetti, 2000, p.15)”

 

O foto-jornalismo de Andujar aproxima o social e o estético, pois a partir do encontro com os Yanomami, relaciona a sua própria trajetória a desse povo, convivendo e registrando de perto, produzindo imagens singulares (de uma maneira bem particular e poética) do cotidiano deles, passando a conhecê-los e defendê-los por mais de trinta anos. As imagens produzidas por Andujar revelam a busca por sua própria identidade, um olhar bastante pessoal, unindo sua intenção documental a uma atitude estética muito apurada.

CLAUDIA ANDUJAR Yanomami, c.1971-1977 Amazonia (in Andujar, 1998) Acervo do Autor

Yanomami (série A Casa), 1974-2002

 

 

A série “Marcados” foi elaborada a partir de fotos feitas por Andujar para os cadastros de saúde utilizados pelas equipes de vacinação da região, com vistas a proteger os índios da dizimação por doenças até então desconhecidas por eles, como sarampo e poliomielite.

“Marcados“, 2006.

 

Em 2015, o Instituto Inhotim inaugurou sua 19ª galeria permanente, dedicada ao trabalho da fotógrafa Claudia Andujar, o pavilhão de 1.600 m² é o segundo maior do Parque e exibe mais de 400 fotografias realizadas pela artista entre 1970 e 2010 na Amazônia brasileira e com o povo Yanomami.

 

Yanomami visita galeria com fotografias de Cláudia Andujar (Foto: William Gomes/Instituto Inhotim     Yanomami visita galeria com fotografias de Cláudia Andujar. Foto de William Gomes/Instituto Inhotim

Yanomami visita galeria com fotografias de Cláudia Andujar. Foto de William Gomes/Instituto Inhotim

David Kopenawa visita a galeria de Claudia Andujar com companheiros Yanomâmi

David Kopenawa visita a galeria de Claudia Andujar com companheiros Yanomâmi

 

A obra da artista nos faz pensar sobre a relação entre ética e estética, sobre uma possível atitude estética que podemos ter diante do mundo e das pessoas, por mais diferenças que elas apresentem em relação às nossas crenças e verdades. Como vemos os outros diferentes de nós? Como nos posicionamos no mundo a partir das verdades que acreditamos? Você já se colocou no lugar de outro hoje: um aluno, um professor, uma mulher desconhecida, um índio, um estrangeiro?

Vídeos sobre a artista:

 

Referências:

http://www.galeriavermelho.com.br/pt/artista/49/claudia-andujar

http://povosindigenas.com/claudia-andujar/

http://www.inhotim.org.br/blog/inhotim-inaugura-galeria-claudia-andujar/

http://ims.com.br/ims/visite/exposicoes/claudia-andujar

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