Inventar novas relações entre arte, educação e docência

ARTE INDÍGENA CONTEMPORÂNEA, TERRITÓRIOS E PERTENCIMENTO

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Tudo era uma grande aldeia antes de ter fronteira.

(FERREIRA, 2017)

Instalação Entidades, 2021, Jaider Esbell

Este texto continua a discussão sobre arte contemporânea indígena que começamos aqui no site do ARTEVERSA e também presta uma homenagem a Jaider Esbell, artista com quem aprendemos tanto, e que infelizmente partiu precocemente, em novembro de 2021. 

Procurando evidenciar a relação indígena com seu território, e, tentando ainda, como disse o artista, “antes arte do que tarde” (ESBELL, 2020), tomar os artistas indígenas como sujeitos de sua própria narrativa, iniciamos com um trecho escrito por Jaider   para a revista Select onde ele fala de uma reestruturação conceitual da arte indígena diante do sistema contemporâneo: 

Devo dizer que meu atuar ecoa para um sentido da arte que puxamos para nós indígenas em relação ao grande mundo. Fazemos política de resistência declarada com a arte em contexto contemporâneo aberto. Em contexto fechado, ressignificamos nossas estruturas culturais e sociais com arte e espiritualidade em um mútuo alimentar de energias para compor a grande urgência de sustentar o céu acima de nossas cabeças. (ESBELL, 2018)

A referência ao céu que cai sobre nossas cabeças é uma predição xamânica de um apocalipse ambiental e aparece também no livro “A queda do céu”(2010) onde Davi Kopenawa fala de como os Yanomami se relacionam com a Terra.

Em seus relatos durante a caminhada com seus familiares, de Missiones na Argentina até o Rio Grande do Sul, o agente cultural e educador Verá Tupã, indígena Guarani se depara com o dilema de como, em seu próprio território, podia ser impedido de transitar. 

Caminhar é uma prática cultural Guarani. “Nós aprendemos a observar onde pisar”, conta Verá Tupã, sobre o respeito de sua família com o chão em que caminham. No entanto, o andar de seu povo colide com as fronteiras imaginárias e reais dos estados nacionais. Fronteiras inventadas por nós brancos, para segmentar, para se apropriar, vender e explorar esse chão do qual nem todos tem o seu pedaço de cultivar, viver e morrer.

A cineasta indígena Patrícia Ferreira comenta que:

Na cosmologia Mbyá-Guarani, a terra não pode ser vendida nem ser de ninguém. O espaço não pode ser capitalizado. Mesmo que cada família tenha sua casa, esse espaço não pertence a ela, como propriedade, mas como um espaço de partilha com a própria terra.

Em Mbyá-Guarani, não há tradução para a palavra espaço. Lugar seria Rendá ou Retã. Por isso a cidade é Tetã, aldeia é Tekoá e território/territorialidade é Yvy Rupá.  Creio que Tata Rupá chegaria mais perto do conceito de espaço, pois é onde fazemos fogueira. Paisagem também não teria uma tradução, já que o espaço nunca é só físico-material para nós. Paisagem remete a algo que envolve as relações, quer dizer, não sei dizer a diferença entre espaço e paisagem, onde começa uma e termina a outra. O espaço inclui muitas coisas. A paisagem inclui todas as coisas que consigo ver. Jaexa Va’e, que seria tudo o que enxergamos.

(FERREIRA, 2017, p.108)

A arte indígena é, por essência, algo que não se separa da vida. Na contemporaneidade ela é reforçada também como resistência, denúncia e luta pela sobrevivência não só dos indígenas, mas de todas as formas de vida no planeta que os “povos civilizados” tem feito desaparecer.

Que atenção temos dado às tantas mensagens que chegam através das palavras, imagens, manifestações indígenas? O que dizem a nós e ao nosso modo de vida?

Em meio às atuais disputas por propriedade e demarcação de terras dos povos originários do Brasil, como podemos repensar nossas relações com os territórios a partir da arte e das culturas indígenas?

De que modo a arte contemporânea indígena tem tratado das questões de deslocamentos e fronteiras nos trânsitos dos povos entre as aldeias e cidades?

ESPAÇO “PÚBLICO” URBANO

A partir de suas vivências, desde a migração do interior de Alegrete para a periferia da capital Porto Alegre e de seu trabalho na rua como gari, o artista gaúcho Xadalu desenvolve sua poética em arte urbana. Através de lambe-lambes, stencil, stiker art, serigrafia, entre outras formas de arte, ele ocupa o espaço dito “público” da cidade. 

Xadalu se direciona à temática indígena à qual está ligado por suas origens e atuações educativas com a comunidade Guarani Mbyá. Para isso cria variações do seu personagem estereotipado do indiozinho Xadalu que invade muros, paredes, placas de sinalização de Porto Alegre até outras cidades fora do Brasil. Suas intervenções urbanas trazem um caráter transgressor da apropriação da paisagem da cidade de forma considerada “ilegal”. 

No documentário Art System, Xadalu menciona  a “rua como pátio de casa”. Em suas ações, a arte urbana é um elemento para questionar a legalidade da invasão da área indígena. Seu trabalho transita entre essas exposições “não oficiais” a céu aberto, nas ruas, mas também ganha “legitimidade” no sistema das artes adentrando espaços dos museus. 

O artista Xadalu e um de seus Lambes colado junto a outras intervenções urbanas.
Fonte: https://www.extraclasse.org.br/cultura/2017/06/as-areas-indigenas-de-xadalu/
Indiozinho Xadalu colado junto a outros stickers em placa de sinalização em intervenções urbanas.
Fonte: https://arteeculturaifrj.wordpress.com/2016/08/25/tecnicas-da-arte-urbana/stickers-de-xadalu-e-varios-outros-coladores-em-porto-alegre-rs/

ÁREA INDÍGENA

Frequentemente nos deparamos com grupos de indígenas que vendem seus artesanatos nas calçadas de vias dos centros da cidade. Vendo-os confrontados pelas legislações que os inquirem sobre a rua não ser o lugar deles, sendo orientados a voltar para a reserva indígena, Xadalu cria, tal como uma placa de sinalização de trânsito e de alerta, uma demarcação possível para o lugar do índio, qualquer lugar do Brasil: “Atenção! Área indígena”.

Área Indígena”. Cartazes de intervenção urbana na região central de Porto Alegre/RS, de Xadalu.
Sinalização “Área Indígena”, de Xadalu. Exposta no museu junto a artesanatos indígenas.
“Área Indígena”, 2016. Pintura no muro do Cais Mauá, em Porto Alegre/RS, do artista Xadalu feita com colaboração de indígenas. Foto de Cristiano Lindenmeyer Kunze

A inserção da sinalização  “Área indígena” também do muro do Cais Mauá na Praça da Alfândega de Porto Alegre/RS, remete ao local de chegada dos colonizadores portugueses pelas águas. Funciona como um aviso ao colonizador que não para de avançar, um alerta de que aqui, em qualquer lugar, esta é uma área indígena.

Intervenção….. https://www.instagram.com/p/CTAJFKhlrZp/
“Brasil terra indígena” (2020), Intervenção com projeção, de Denilson Baniwa
Fonte: https://revistacontinente.com.br/edicoes/240/desafios-e-surpresas-nas-artes-visuais–em-2020

Com questões semelhantes, o trabalho de Denilson Baniwa desafia seus espectadores convocando-os a rever algumas imagens conhecidas e criar outras histórias, recontando a colonização do avesso, para pensar nas possibilidades do presente que poderíamos viver. 

Denilson é artista, ativista pela causa indígena, cientista e amazonense e, em seu trabalho, essas áreas confluem e se completam. Na obra Brasil Terra Indígena o artista ativista junto ao Coletivo Coletores utiliza projeção a laser sobre o “Monumento às Bandeiras” para recontar de outra forma a história da colonização. Essa obra é veiculada na internet e obtém alcance mundial. 

Aqui a tecnologia é ferramenta não só de colonização dos colonizadores, num ímpeto de retratação e reparação (e daí o potencial provocativo da obra de Denilson) como também de recontar a história e apresentá-la a todos. A própria narrativa como colonização de mentes, que a partir dela confeccionam novas narrativas, narrativas futuras que podem penetrar realidades presentes.

INVASÃO DE TERRAS E CORPOS

Obra “Invasão Colonial: Meu Corpo Nosso Território”, de Xadalu.
Fonte: https://docplayer.com.br/50821632-Xadalu-urban-movement-xadalu-teta-nhemomyi.html

INDÍGENA x ALIENÍGENA

Pé no chão,

pé de ouvido.

Enterra, semente desperta.

Corpo é terra

Ouço a terra. Piso.

Ao alto da terra. Chão.

Morte na terra. Subterrâneo.

Retorno à terra. Caminho.

(Gustavo Caboco)

O jovem artista Gustavo Caboco desenvolve uma roupa que só pode ser vestida coletivamente. Em um dos bordados se lê as palavras em oposição: Indígena X Alienígena.

A partir de seus significados:

Indígena: natural de um país ou localidade, originário da terra, se opõe ao alienígena.

Alienígena: o de fora (extraterrestre), o estranho, desconhecido.

Ouve Wapichana, Gustavo Caboco

Trabalhando com a ideia de retorno, Caboco oferece uma perspectiva voltada ao panorama da trajetória ancestral indígena antes e após a ação colonizadora. Apresentando como avós a terra e o tempo, o artista relaciona a realidade das culturas indígenas com o todo e o consegue por meio de ilustrações, instalações e vídeo performances.

Com uma instalação de diversas obras na 34ª Bienal de São Paulo, Caboco traz a leitura de seu povo, por meio de desenho e animação digital, da história da pedra Bendegó, meteorito que caiu na Bahia e foi encontrado em 1784. Ele esteve exposto como símbolo de resistência quando permaneceu intacto após o incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro, acontecido em 2018. Uma queda do céu que, segundo o artista, é a vovó da terra e que, em seu desenho, contem dentro de si um ser humano. 

Detalhe da instalação Kanau’kyba [Caminho das Pedras] (2020), de Gustavo Caboco 
Fonte: https://www.select.art.br/34a-bienal-a-etica-da-relacao/

Se o Brasil é uma terra constantemente sendo roubada de seus indígenas, na cosmovisão dos primeiros moradores deste lugar, os indígenas é que são da terra. Apropriar-se de um território e ser proprietário dele são ideias e ações do homem branco e seu modo colonial, capitalista, extrativista de pensar a natureza dissociada do ser humano por ele tomada como mera matéria prima.

Pertencer à terra, em lugar de ser proprietário dela, é o que define o indígena. A terra é o corpo dos índios, os índios são parte do corpo da Terra. A relação entre terra e corpo é crucial. A separação entre a comunidade e a terra tem como sua face paralela, sua sombra, a separação entre as pessoas e seus corpos, é uma operação indispensável executada pelo Estado para criar populações administradas. 

[…] 

Só nós mesmos podemos nos representar, ou talvez, só nós podemos dizer que representamos a terra — esta terra. Não a “nossa terra”, mas a terra de onde somos, de quem somos. Somos os Involuntários da Pátria.

( Eduardo Viveiros de Castro) 

Devolver a terra aos seus indígenas ainda não é deixar de posicionar-se como dono dela, numa lógica antropocêntrica. A própria noção de demarcação, tão necessária diante de um extermínio que nunca cessou e que passa cada vez mais diante de nossos olhos, parece ser uma luta a ser feita nos termos do colonizador e seu Estado. A ferida irreversível nas relações culturais com o território é uma dívida que nunca poderá ser paga apenas em hectares e linhas num mapa. 

No desenho de Jaider Esbell, o colonizador é o alienígena no disco voador que pousa nas terras desmatadas para criação de gado.

Longe de um caminho de demarcação e restituição, o Brasil tem avançado em sentido contrário, a uma retomada sistemática e abertamente autorizada pelo governo da invasão que nunca cessou de acontecer, como se pode ver na subtração de espaços equivalentes a 500 campos de futebol devastados para garimpo na Terra Indígena Yanomami, entre os estados do Amazonas e Roraima. Temos visto também o apoio do atual governo de Jair Bolsonaro aos requerimentos de mais de 3 milhões de hectares das terras desse povo, o que se passa também na Terra Indígena Munduruku no Pará onde mais de 12 mil habitantes indígenas se veem obrigados a conviver com altos níveis de contaminação por mercúrio.

Através das manifestações da sua arte, os indígenas têm tentado nos mostrar que, a menos que se possa reelaborar modos de viver para que estes sobrevivam, nada mais sobreviverá.

Quando a arte contemporânea indígena transforma-se numa ação de resistência na qual o conceito de arte indígena se altera para falar conosco, atingindo com amplitude a Bienal de São Paulo e outras grandes exposições, conseguimos ouvir?

Com que olhares e molduras acessamos as imagens produzidas pelos artistas indígenas? Como tentamos territorializá-las, capturá-las ao invés de sermos capturados por elas?

Com as palavras críticas de Ailton Krenak e poéticas de Jaider Esbell, paramos por aqui, por um instante, enquanto docentes e estudantes de arte, para nos deixar percorrer por outros sentidos e concepções de viver.

“A vida não é um garimpo para você prospectar. É um lugar para você experimentar” (Ailton Krenak, 2021)

É que pouco ganhamos ao disputar. É que pouco somamos ao despistar. É que não é nem um pouco elegante enganar, humilhar, trapacear. Talvez, seria mais nobre a paridade; comer, cada um, suas metades. Quando a mesa é posta pronta, há um lado opressor na etiqueta. Quando as regras surgem impostas, alguém marcou por si, e isso ainda é grave. Para onde queremos ir, isso não vai servir. Não serve aos que vem de outra verve. Portanto, tivemos que vir até aqui, e deste ponto em diante, até os outros cantos, os caminhos se fazem por si. (EISBELL, 2020)

REFERÊNCIAS:

34ª Bienal de São Paulo: Faz escuro mas eu canto: catálogo / Elvira Dyangani Ose, Et. al – São Paulo: Bienal de SP, 2021.

Primeiros ensaios: publicação educativa da 34ª Bienal de São Paulo. [curadoria Jacopo Crivelli Visconti] São Paulo: Bienal de SP

KOPENAWA, Davi. ALBERT, Bruce. A queda do céu: palavras de um xamã yanomami. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

MARTINS, Dione, ZIMOVSKI, Adauany, JONER, Carla.(Org.) Xadalu: Movimento Urbano. Urban Movement Xadalu – Tetã Nhemomỹĩ. Porto Alegre: Joner Produções, 2017

E-book disponível em: https://docplayer.com.br/50821632-Xadalu-urban-movement-xadalu-teta-nhemomyi.html

Site Xadalu: https://www.xadalu.com/

Instagram Xadalu: https://www.instagram.com/xadalubrasil/

Sobre Gustavo Caboco: https://www.artequeacontece.com.br/o-retorno-a-terra-de-gustavo-caboco-em-busca-de-suas-raizes/)

Exposição de Denilson Baniwa: https://kinobeat.com/exposicao-denilson-baniwa/ 

Sobre Denilson Baniwa: https://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa628975/denilson-baniwa

Cesar Sanson Povos indígenas. Os involuntários da Pátria (citando Viveiros de Castro): http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/554056-povos-indigenas-os-involuntarios-da-patria

SAIBA MAIS:

Flecha Selvagem (Série de curta-metragens idealizados por Aiton Krenak em suas “Ideias para adiar o fim do mundo”): http://selvagemciclo.com.br/flecha/

Vídeo nas Aldeias (Projeto de cinema): http://www.videonasaldeias.org.br/2009/

Rádio Yandê (1ª Rádio Indígena web do Brasil): https://radioyande.com/

Nelson D (DJ indígena de Música eletrônica): https://instagram.com/nelsondofficial?utm_medium=copy_link

Podcast Nhexyrõ: artes indígenas em rede: https://podcasts.google.com/feed/aHR0cHM6Ly9hbmNob3IuZm0vcy82MTE5OGQ5OC9wb2RjYXN0L3Jzcw/episode/NGQ4ZjM1ZTgtYTk3MC00OGVlLWFkYTgtZTgzZjdiODcwODg3?ep=14

O retorno à terra de Gustavo Caboco: https://www.artequeacontece.com.br/o-retorno-a-terra-de-gustavo-caboco-em-busca-de-suas-raizes/

Demarcação de territórios: https://www.select.art.br/demarcacao-de-territorios/

 “Xadalu e Mburuvixá Cirilo: Cosmovisão, tempo e natureza” (Entrevista): https://www.youtube.com/watch?v=8HIgXphCHH8

VEJA TAMBÉM NO SITE DO ARTEVERSA:

Por que falar das formas expressivas indígenas nas escolas?

ARTE INDÍGENA CONTEMPORÂNEA: olhares e busca de uma professora de artes visuais


Texto e pesquisa: Diane Sbardelotto, Estela Böckmann, Hariel Souza, Luciana Gruppelli Loponte

Edição e revisão: Diane Sbardelotto e Luciana Gruppelli Loponte

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