Ética de cuidado ambiental e espiritualidade na barra das saias de Sandra Lee
Em 1984, a pensadora brasileira Lélia Gonzalez, expoente do pensamento feminista negro no Brasil, escreveu o texto Racismo e sexismo na cultura brasileira sobre a condição da mulher negra no país, no qual dizia: “o lixo vai falar, e numa boa”. Gonzalez relacionou raça, classe e gênero à condição de descartabilidade e descaso com a qual a sociedade racista e capitalista tratava (e ainda trata) corpos negros, femininos e pobres.
A metáfora do lixo associada à estigmatização e os usos da linguagem para distorcer os sentidos pejorativos sobre o lixo, encontram conexões com as práticas de uma arte educadora porto-alegrense, radicada em Rio Grande, pesquisadora do pensamento africano e afro brasileiro, Sandra Lee dos Santos Ribeiro.
As práticas de Sandra Lee nas artes visuais dialogam com o pensamento de Gonzalez ao utilizar o fazer artístico como um modo de olhar para as valas, as sarjetas e os espaços marginalizados e mal cuidados pelo poder estatal, muitas vezes em regiões habitadas pela população negra de Rio Grande, nas periferias da cidade, e nesses espaços de descaso ambiental, coletar materiais para criação artística.
Ao colher objetos descartados em vias públicas, aterros sanitários e por seus caminhos na cidade, Sandra Lee faz da prática artística um modo de atuar no mundo, alinhando ética, política e sensibilidades ancestrais a partir de sua espiritualidade enquanto mulher de axé, em ações que aliam arte e cuidado com o Planeta Terra.
Seria limitante responder a essa pergunta como quem aponta a direção certa; portanto, apresento alguns caminhos e pensamentos que sua arte me dispara e considero importantes e urgentes para serem partilhados com a sociedade, deixando aberto a outros olhares. Primeiro, a relação entre o meio ambiente e a espiritualidade, algo que faz parte de sua identidade e modo de viver, sensibiliza o olhar para o entorno.
Dessa maneira, Lee se soma a tantos outros e outras líderes comunitários, pensadores, sábios originários e intelectuais ao fazer de sua vida uma obra alinhada com a preservação do meio ambiente por meio de práticas de reciclagem, reutilização e transformação de objetos encontrados pelas ruas do município de Rio Grande. O olhar atento e crítico conduz a artista a uma intervenção cuidadosa e engajada nos lugares por onde percorre e habita.
Um segundo aspecto é a urgência de referenciais como esse para pensarmos formações, tanto acadêmicas quanto sociais, num contexto de crise climática e vivendo em um estado fortemente afetado pelas enchentes no ano de 2024, que nos geraram impactos pessoais, sociais, econômicos, psicológicos e materiais graves. Os gestos de Sandra nos ajudam a pensar como olhar para cenários de devastação, descaso estatal, precariedade e marginalização, e o que podemos fazer a partir deles. Certamente não se trata da resolução de problemas estruturais, mas de um encantamento para o mundo, uma ação crítica e cuidadosa com o planeta.
O terceiro aspecto interessante a ressaltar em suas criações é a articulação do pensamento negro, a arte-educação e a educação ambiental. Nas suas andanças e criações, teoria e prática se encontram com uma postura ética diante do mundo capitalista, racista e patriarcal em que habitamos, no qual vidas são igualmente descartadas e tratadas como lixo.
Quando olha para o lixo e vê a possibilidade de aquilo ser outra coisa, inclusive arte, convida a todos nós a olhar para onde não se considera importante ou digno socialmente, e a tentar perceber algo além do senso comum e da naturalização dos absurdos.
Suas práticas, geralmente oriundas das periferias da cidade, denunciam as injustiças e o racismo ambiental nos bairros negligenciados pelo poder público, mas também instigam a pensar que a beleza, o direito a ela e a imaginação criativa podem nascer de qualquer realidade social. Essas ações encarnam a essência do poema A flor e a náusea, de Carlos Drummond de Andrade, quando o autor narra sobre uma flor considerada feia, ignorada pelos outros, mas que, por mais que possa desagradar o gosto estético da sociedade, ainda é uma flor.
A produção de Ribeiro, tal qual a rosa de Drummond, é essa arte que nasce do que se considera lixo em uma sociedade consumista que tem operado na lógica do descarte de objetos, pessoas, trabalhadores, direitos, vidas humanas e não humanas. Quando o compromisso não é pautado apenas na estética, mas no pensamento e no processo, na transformação dos materiais e no olhar sensível ao nosso redor, podemos ser confrontados com “belezas terríveis”, que nascem e se encontram nas sarjetas do mundo — onde talvez o Estado não olhe com a devida atenção, mas onde também estão muitas escolas, famílias e crianças. O compromisso ético e estético de Sandra Lee com seu território torna seus gestos artísticos em ações de transformação e educação ambiental no cenário de uma cidade portuária que já foi destino de descartes internacionais de lixo.
Nas costuras dos tecidos coletados e cuidados nas ruas da cidade, a arte-educadora aproxima educação ambiental, negritude e estética, como se fizesse com os tecidos escritas de vidas invisibilizadas, assim como Carolina Maria de Jesus fazia na literatura ao tornar os papéis descartados nos lixões de São Paulo suporte para as grafias de sua literatura autobiográfica.
Como aprendizado desses anos acompanhando a artista, acredito que ao questionarmos os nossos olhares para o mundo, podemos ser transformados por pequenos gestos, no banal do cotidiano, capazes de deslocar os sentidos comuns e tornar o mais desprezado em algo importante, como um toque de Rei Midas que a poeta afro-estadunidense Maya Angelou cita em seu poema Eu me levanto.
Segundo as palavras de Sandra Lee no documentário Galeria Odoyá: Olhares Negros para a Arte e Educação, “Aquela sombrinha que vai machucar alguém se transforma em outra coisa, basta saber olhar”. Quando o meio ambiente pede socorro, e enfrentamos crises climáticas em decorrência do descuido ambiental, olhares atentos e cuidadosos para o que não se olha com sensibilidade e ternura, podem nos levar a novas posturas no mundo.
No processo de criação de suas saias, Lee trabalha com o que é considerado feio e questiona, por meio de ações que revelam a ‘terrível beleza’ do que nossa sociedade descarta, beleza essa que nasce a partir de um olhar inconformado e indignado, disposto a cuidar da Terra.
Como desincorporar a naturalização dos absurdos nos espaços escolares?
Como incorporar um olhar ético para a “beleza terrível” nas nossas práticas artísticas e pedagógicas?
Por Paulo Cesar Ferreira da Silva
Mestre em Educação e Doutorando em Educação no Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Membro do ArteVersa – Grupo de estudo e pesquisa em arte e docência (UFRGS/CNPq)
Contato: pauloc-ferreira@outlook.com
Referências:
GALERIA ODOYÁ: olhares negros para a arte e educação. Rio Grande: Paulo Cesar Ferreira da Silva (direção), 2025. Curta-metragem documental. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=_Jtv5bVDyDI. Acesso em: 18 jun. 2025.
GONZALES, Lélia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. Revista Ciências Sociais Hoje, São Paulo, p. 223-244, 1987.https://granrio.emnuvens.com.br/recm/article/view/2146/1186
HARTMAN, Saidiya. Vidas Rebeldes, Belos Experimentos:: Histórias Íntimas De Meninas Negras Desordeiras, Mulheres Encrenqueiras E Queers Radicais. Fósforo, 2022.
JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo – diário de uma favelada. São Paulo: Francisco Alves, 1960.
Ribeiro, Sandra Lee dos Santos. O Grande Louva-a Deus: escrita Adinkra e o enfrentamento de (in)visibilidades (des)pertencimentos. Dissertação de Mestrado. https://repositorio.furg.br/handle/123456789/11381
Zezé Motta. Ainda assim eu me levanto (Maya Angelou). YouTube, 20 nov. 2023. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=nXo0qCUsPy8. Acesso em: 11 jun. 2025.
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Revisão e edição por Luciana Gruppelli Loponte, Clarissa Nunes e Lobna Essabaa

