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Violência #emcasa: por que tremem as mulheres? – PARTE 2

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Regina Parra, Por que tremes mulher? 2016, óleo sobre papel,  33 x 46cm . Verso de poema de Castro Alves que descreve o medo de uma mulher escravizada cujo filho pequeno será vendido.
Regina Parra, Por que tremes mulher? 2016, óleo sobre papel, 33 x 46cm . Verso de poema de Castro Alves que descreve o medo de uma mulher escravizada cujo filho pequeno será vendido. Fonte: http://www.reginaparra.com.br/por-que-tremes-mulher

 

No início da quarentena falamos no site do ARTEVERSA sobre medos que nos invadem nesse momento, através do projeto artístico O nome do medo. Quando se trata de modo específico do medo que as mulheres vítimas de violência sentem, é preciso notá-lo como um medo muito difícil de expressar e denunciar.

Por que uma mulher não abandona seu agressor? Muitos devem se perguntar e até mesmo julgar. Mas é preciso considerar sensivelmente que diversos tipos de controles exercidos e os modos violentos, em casos de relações, possivelmente já foram precedidos por manifestações afetivas. Muitas vezes o que as mulheres que são vítimas querem não é abandonar essa pessoa que a violenta, mas livrar-se da violência que esse agressor traz consigo e lhe inflige.

Nesse sentido, as obras da artista paulista Beth Moysés convocam as mulheres a repensarem os ideais românticos do casamento e da família, que muitas vezes torna-se barreira à denúncia da violência. Suas obras dedicam-se a mostrar o avesso das narrativas românticas do casamento, evidenciando o que está ali, debaixo do véu: os espinhos, as marcas, as cicatrizes da violência.

 

Beth Moysés, Mulheres Divididas, 2002. Fonte: Moysés, E. M. C. (2004). Abrigo da memória (Dissertação de mestrado). Curso de Pós-graduação em Artes, UNICAMP, Campinas, SP.
Beth Moysés, Mulheres Divididas, 2002. Fonte: Moysés, E. M. C. (2004). Abrigo da memória (Dissertação de mestrado). Curso de Pós-graduação em Artes, UNICAMP, Campinas, SP.

 

Durante 5 meses, Beth Moysés visitou, semanalmente, uma Delegacia da Mulher, localizada em uma periferia da cidade de São Paulo. A cada visita, realizava desenhos e registrava relatos de mulheres que ali chegavam para denunciar alguma forma de violência sofrida. Os relatos apontam para um quadro que, na maioria das vezes, se estende durante anos até que a mulher decida romper o ciclo da violência. E as razões que as mantém nessa realidade, são diversas e complexas. Há o discurso religioso de que a mulher deve sempre ter paciência e perdoar a violência cometida pelo homem; o desejo de manter a família junta; a falta de amparo econômico e de redes de apoio em caso de separação; o temor de que a denúncia motive uma violência ainda mais grave contra si e contra os filhos

Portanto, são muitos os entraves que dificultam a denúncia da violência doméstica. Por uma infinidade de questões práticas das vias de comunicação, pelos possíveis desdobramentos e consequências, pela forma como serão acolhidas ou julgadas socialmente, por questões psicológicas e culturais. Isso porque as violências dentro do lar são lentamente estruturadas em relações abusivas que vão progressivamente minando os campos de proteção, as bases de segurança da mulher, isolando-as, tirando-lhes as fontes de independência e causando enfraquecimento.

Também, em uma das ações mais conhecidas da artista intitulada “Memória do afeto” ela convoca diversas mulheres a usarem vestido de noiva e caminharem pacificamente nas ruas, despetalando silenciosamente um bouquet de rosas brancas. As mulheres participantes dessa performance, eram vítimas de violência doméstica, com as quais a artista entrou em contato a partir de delegacias e outras associações. No Dia Internacional da Não Violência Contra a Mulher do ano 2000 a caminhada foi realizada em São Paulo com 150 mulheres, repensando, a partir da figura da noiva, a fantasia e o sonho do casamento. Trata-se, não de uma passeata diretamente de protesto, mas de uma caminhada poética. A performance foi refeita, com algumas variações, nas cidades de Madri e Brasília (2002) e em Sevilla (2005). Também, o tema teve diversos desdobramentos em outros trabalhos utilizando-se de vestidos e da figura da mulher noiva.

 

Beth Moysés, Memória do afeto- Madri, 2002, performance, fonte: http://www.bethmoyses.com.br/memoria/madrid/2.htm
Beth Moysés, Memória do afeto- Madri, 2002, performance, fonte: http://www.bethmoyses.com.br/memoria/madrid/2.htm
Beth Moysés, Despierta (mão com coração), 2010, fotoperformance. Fonte: https://murilocastro.com.br/2014-desbordando-corpos-beth-moyses-2511-a-20122014/
Beth Moysés, Despierta (mão com coração), 2010, fotoperformance. Fonte: https://murilocastro.com.br/2014-desbordando-corpos-beth-moyses-2511-a-20122014/

 

De forma sutil e delicada como no trabalho de Beth, ou com muito barulho nos protestos nas ruas como os do coletivo Mujeres Creando, não só podemos falar de violência doméstica a partir da arte, como devemos usar o potencial do campo artístico, seja nos espaços expositivos ou nas ruas, nas escolas, indo até as casas. Seja pelo viés da denúncia, da crítica radical, seja pelos afetos como a solidariedade contra a solidão. A arte de muitas mulheres, nesse sentido, é a palavra engasgada sendo dita, é a pergunta proibida que abala as estruturas, é o grito, é a afirmação de que as mulheres não estão sozinhas, que lutaremos não só para nos mantermos vivas, mas para transformar essa cultura de violência.

 

El machismo
Mujeres Creando, intervenções coletivas no espaço urbano, http://mujerescreando.org/
Mujeres Creando, intervenções coletivas no espaço urbano, http://mujerescreando.org/
Mujeres Creando, intervenções coletivas no espaço urbano, http://mujerescreando.org/

 

É preciso falar, é preciso continuar falando.

Para a artista paulista Regina Parra, cujos trabalhos trazem quase sempre as palavras em contextos abertos, nos quais ela examina as opressões, insubordinações e a resistência, “resistência não é renúncia, mas uma transformação, algo que se dá na criação do inesperado. (…) “. 

 

è preciso continuar
Regina Parra, É preciso continuar, 2018. Letreiro de neon. Trecho inspirado no romance O Inominável, de Samuel Beckett, exposto no Largo da Batata/SP. Fonte: http://www.reginaparra.com.br/e-preciso-continuar

 

Com a obra “É preciso continuar” (2018) Regina expõe, no espaço público de uma praça, o quanto somos vulneráveis e também poderosos. Nessa frase podemos sentir, sob uma série de situações, que nossa força insiste, desiste, insiste.  A artista parece explicitar nosso impulso de resistência e também nossos limites.

Do ponto de vista dos comportamentos sexistas que afetam o corpo feminino e suas insurgências, Regina Parra nos leva a pensar em como nos situamos, construímos presença e afetamos os territórios de tensão, nos quais procedimentos de restrição e estagnação atormentam o corpo com proibição verbal e a obrigação de esconder o que você faz.

Regina Parra, Não Mais Temer, 2019, Pintura de óleo sobre papel e estruturas. Fonte: http://www.reginaparra.com.br/nao-mais-temer
Regina Parra, Não Mais Temer, 2019, Pintura de óleo sobre papel e estruturas. Fonte: http://www.reginaparra.com.br/nao-mais-temer

Como comenta Bernardo Mosqueira, embora suas obras sejam políticas, o que Regina  propõe não são dogmas totalizadores nem respostas completas ao dilemas atuais. E sim, lacunas. Esse vazio, que não é silêncio, mas espaço para pensar, permite que encontremos contextos para suas palavras, nos exigindo uma atitude.

O que nos faz tolerar a opressão? Onde está o ponto crítico da insurgência? Em que ponto a insatisfação pode transformar a imobilidade da subserviência em criações desobedientes? Como a fé no movimento insurgente pode levar a uma transformação nas estruturas de poder? Como é possível construir esse novo sistema, esse novo presente? (Bernardo Mosqueira, no site da artista)

Regina Parra, Manter-se aterrorizada. Tornar-se terrível, ano, Fonte: http://www.reginaparra.com.br/upcoming-exhibitions
Regina Parra, Manter-se aterrorizada. Tornar-se terrível, Fonte: http://www.reginaparra.com.br/upcoming-exhibitions

 

PERGUNTAS PARA PENSAR:

Como podemos tratar este tema a partir da arte na escola?

Através da arte pode-se afetar a estrutura que autoriza a violência contra as mulheres?

A arte deve ser um meio de denunciar?

De que maneira a arte pode potencializar a voz à quem é silenciado?

 

 

Referências

http://www.reginaparra.com.br

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*Os links das fontes das imagens foram incluídos nas legendas

 

Texto e pesquisa:  Diane Sbardelotto, Taís Ritter Dias, Luciana Gruppelli Loponte, Carine Betker

Edição e revisão: Diane Sbardelotto e Luciana Gruppelli Loponte

 

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