Atividades como professor visitante

            De agosto de 2023 à fevereiro de 2024, Prof. Leandro R. Pinheiro desenvolveu atividades como professor visitante no Centre de Recherche sur les Liens Sociaux [CERLIS], junto à Université Paris Cité. A estadia em Paris foi dedicada a estudos de contraste entre as experiências escolares de jovens no ensino médio na periferia de Paris e Porto Alegre/RS, sob o intuito de qualificar a metodologia de pesquisa do projeto Juventudes e experiências da educação: da individuação às reflexividades, coordenado na Faculdade de Educação da UFRGS.

            As atividades desenvolvidas pelo professor incluíram o acompanhamento de aulas na Université Paris Cité, nas áreas de Sociologia da Educação e de Sociologia das Juventudes, e na École de Hautes Études en Sciences Sociales [EHESS], aceca da situação econômica e política na América Latina. Também foi realizada pesquisa em lycée professionnel na periferia norte de Paris, onde o professor teve a oportunidade de observar aulas e entrevistar jovens-adolescentes.

            Compôs o conjunto de atividades ainda, o diálogo com pesquisadores na França e na Itália, dedicado à discussão sobre a condição juvenil das classes populares e sua relação com a instituição escolar. Pretendemos publicar essas conversações como entrevistas, de modo a dar acesso à comunidade interessada.

Escrevo diante da janela aberta

[Imagem: William Turner]

Escrevo diante da janela aberta.
Minha caneta é cor das venezianas:
Verde!… E que leves, lindas filigranas
Desenha o sol na página deserta!

Não sei que paisagista doidivanas
Mistura os tons… acerta… desacerta…
Sempre em busca de nova descoberta,
Vai colorindo as horas cotidianas…

Jogos da luz dançando na folhagem!
Do que eu ia escrever até me esqueço…
Pra que pensar? Também sou da paisagem…

Vago, solúvel no ar, fico sonhando…
E me transmuto… iriso-me… estremeço…
Nos leves dedos que me vão pintando!

Mário Quintana

Um novo projeto…

Linguagem dos Pássaros – Martha Barros – 2021

O projeto Juventudes e experiências da educação: das relações entre individuação e reflexividades dá continuidade e procura expandir problematizações desenvolvidas na interface entre as áreas de ‘Sociologia das Juventudes’ e ‘Sociologia da Educação’, tendo localidades de periferia urbana como loci para diálogos de pesquisa e extensão.  Temos nos dedicado a estudar processos de individuação e de identização entre jovens e, neste ínterim, temos estabelecido, ainda, interlocuções específicas sobre os consumos culturais, as práticas artísticas e esportivas e sobre a habitação da instituição escolar. As informações já sistematizadas nos permitem aventar que a escolarização compõe os processos de individuação juvenil desde uma relação tensa entre jovens e instituição, de forma que os indivíduos tendem a agenciar tempos e atividades organizacionais na produção de sentidos próprios à permanência na escola, em articulação a saberes de outros espaços de ação.

Então, elaboramos esta proposta sob o propósito de compreender como as experiências construídas pelos jovens no campo da educação, entre práticas escolares e não-escolares, constituem os processos de individuação juvenil em contextos de periferia urbana, enfatizando-se as dinâmicas reflexivas e participativas instigadas. Para tanto, seguiremos trabalhando com as contribuições de Danilo Martuccelli no que tange à análise da individuação latino americana, agregando discussões de Luc Boltanski sobre as formas de reflexividade. Pretendemos trabalhar com diferentes técnicas em campo, incluindo grupos de discussão, questionários e entrevistas narrativas individuais.

Estamos trabalhando, além disso, para articulação com diferentes pesquisadores, de orientandos de graduação e pós-graduação a colegas professores de outras universidades. Esta pesquisa busca, assim, tomar a consolidação de inferências construídas ao longo de cerca de dez anos de incursões a diferentes localidades de periferia na capital gaúcha, para contextualizar estudos sobre a atuação juvenil em espaços educativos, ampliando o escopo urbano de investigação e, ademais, discutindo as potencialidades políticas das práticas educativas frente a cenários de desigualdades sociais diversas.

Se eu conversasse com Deus…

Se eu conversasse com Deus
Iria lhe perguntar:
Por que é que sofremos tanto
Quando viemos pra cá?
Que dívida é essa
Que a gente tem que morrer pra pagar?

Perguntaria também
Como é que ele é feito
Que não dorme, que não come
E assim vive satisfeito.
Por que foi que ele não fez
A gente do mesmo jeito?

Por que existem uns felizes
E outros que sofrem tanto?
Nascemos do mesmo jeito,
Moramos no mesmo canto.
Quem foi temperar o choro
E acabou salgando o pranto?

Leandro Gomes de Barros

O menino que carregava água na peneira

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.

A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.

A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.

O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.

A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.

Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.

Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.

No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.

O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.

Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.

A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.

Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!

[Manoel de Barros]

Barrilete de colores…

Paleta de Colores, (1927 – 1929) Frida Kahlo.

Barrilete de colores
Que se mese, que se ofrece, que se escapa con el viento
Y que está en cada momento suspendido como ola
En el aire con su cola y que gira viene y va
Me saluda a mi al pasar

Vuela, vuela barrilete de colores
Se la vida, se la música y amores
Regalame un poquito de aire fresco
Y que siembre en mi alma luz y flores

Barrilete de colores
Que se mese, que se ofrece, que se escapa con el viento
Y que está en cada momento suspendido como ola
En el aire con su cola y que gira viene y va
Me saluda a mi al pasar

Vuela, vuela barrilete de colores
Se la vida, se la música y amores
Regalame un poquito de aire fresco
Y que siembre en mi alma luz y flores

Para volar, un barrilete
Que gira y gira, un barrilete de colores

Para volar, un barrilete
Que gira y gira, un barrilete de colores

Que gira y gira, un barrilete de colores


[Magdaleta Fleitas]

Se eu conversasse com Deus…

Se eu conversasse com Deus
Iria lhe perguntar:
Por que é que sofremos tanto
Quando viemos pra cá?
Que dívida é essa
Que a gente tem que morrer pra pagar?

Perguntaria também
Como é que ele é feito
Que não dorme, que não come
E assim vive satisfeito.
Por que foi que ele não fez
A gente do mesmo jeito?

Por que existem uns felizes
E outros que sofrem tanto?
Nascemos do mesmo jeito,
Moramos no mesmo canto.
Quem foi temperar o choro
E acabou salgando o pranto?
[Leandro Gomes de Barros]

E-book ‘Movimentos sociais, sujeitos e processos educativos’

O GT 03 da ANPEd – Movimentos Sociais, sujeitos e processos educativos – disponibiliza e-book para download gratuito. O trabalho traz uma antologia do Grupo de Trabalho, com organização de Elmir de Almeida, Leandro R. Pinheiro, Luís Antonio Groppo e Mirela Figueiredo dos Santos Iriart.

No prefácio, Maria Antônia de Souza afirma que a obra trata da sociedade a partir dos movimentos sociais, dos seus sujeitos e dos processos educativos nele construídos, sendo composta de partes que instigam o leitor a viajar pelo cenário de origem do grupo, os problemas nele debatidos e os interlocutores nacionais e internacionais. “É um livro que nos faz pensar em esperança, pois contém textos que dizem de práticas sociais, ações coletivas, movimentos sociais que lutam pela conquista e manutenção de direitos, além de revelar que há uma dinâmica social que resiste à política antidemocrática. Diz de sujeitos que denunciam o Estado protetor dos interesses empresariais, que lutam por políticas públicas e, especialmente, pelo reconhecimento da própria existência.”

O e-book está disponível no site da Pedro & João Editores.

Defesas de mestrado no PPGEDU

Prezades colegas,

Listamos aqui datas e horários das sessões de apresentação das pesquisas (qualificações e defesas finais) do Grupo de Pesquisa em Socialização, Estratificação e Trajetórias Juvenis e Educacionais (GESET/CNPq), coletivo Enunciar Cotidianos, previstas para 2022. As sessões poderão ser acompanhadas em MConf/UFRGS – Enunciar Cotidianos.

  • Juventudes e ação política: coletivo ‘Fogo no Pavio’ e prática educativa – Karoline Bitello [Qualificação de projeto] – 18/07, 14h.
  • Juventude negra e escola pública: identificações em estudo de caso – Caroline Seixas [Qualificação de projeto] – 19/07, 9h.
  • Socialização juvenil em escolas de samba comunitárias – Vitória Sant’Anna Silva [Defesa de dissertação] – 28/07, 14h.

Em Breve:

  • Educação social na FASE: o diálogo com jovens e a apropriação de práticas culturais – Caroline Seixas.
  • Lesbofobia nas periferias: narrativas de ativistas online – Camila Liebgott.


As pessoas que duvidam

Mangue, de Di Cavalcanti

Gosto das pessoas que duvidam,

das pessoas que tanto ouvem

seu coração balançar.

Gosto das pessoas que dizem

e que se contradizem

sem se denunciar.

Gosto das pessoas que tremem,

que, às vezes, não parecem

capazes de julgar.

Gosto das pessoas que passam

meio em seus “calçados”

meio de parte, ao lado.

Amo sua pequena canção

mesmo se eles passam por idiotas.

Gosto daqueles em pânico,

aqueles que não são lógicos;

bem, não como é preciso

aqueles que, com suas correntes,

mesmo que isso não nos incomode,

fazem um ruído de sinos.

Aqueles que não terão vergonha

de não ser mais, no final das contas,

que faltas do coração,

por não ter sabido dizer

“livrai-nos do pior

e mantenha o melhor”.

Amo sua pequena canção

Mesmo se eles passam por idiotas.

Gosto das pessoas que não se atrevem

a se apropriar das coisas

e ainda menos das pessoas.

Aqueles que não querem ser

mais que uma simples janela

para os olhos das crianças.

Aqueles que, sem bandeira,

daltônicos da alma,

ignoram as cores.

Aqueles suficientemente “comuns”

para que nunca a história

lhes preste honras.

Amo sua pequena canção

Mesmo se eles passam por idiotas.

Gosto das pessoas que duvidam

e gostariam que nós as deixássemos

em paz de tempos em tempos,

e que não as fustiguemos

quando passeiam

seus outonos à primavera.

Que lhes digamos que a alma

faz mais belas chamas

que todos esses tristes traseiros.

E que nós lhes agradecemos

Que lhes digamos, lhes gritemos

“obrigado por ter vivido,

obrigado pela ternura…”

[Les gens qui doutent – Anne Sylvestre]