Texto escrito por Rosa Maria Castilhos, professora do departamento de Serviço Social e do pós-graduação de Política Social e Serviço Social da UFRGS e coordenadora do Grupo de Pesquisa Educação, Trabalho e Políticas Sociais.
É isto mesmo! Você já tomou conhecimento dos dados revelados nesta edição de 2018 do Atlas da Violência? Mais do que ler as notícias veiculadas nas mídias sobre os resultados da pesquisa realizada pelo IPEA e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), é preciso fazer o debate sobre este cenário brasileiro. Embora a pesquisa tenha revelações de significativas desigualdades e violações de direitos, não se tratam de novidades estatísticas, pois são realidades cotidianas de significativa parcela da população. Trata-se de um mais estudo que revela o agravamento da violência de toda ordem e que, no período de 2006 a 2016, “alcançou a marca histórica de 62.517 homicídios, segundo informações do Ministério da Saúde (MS)”(p.2). Os pesquisadores construíram e analisaram inúmeros indicadores para compreensão deste processo de acentuada violência no país.
Isso equivale a uma “taxa de 30,3 mortes para cada 100 mil habitantes, que corresponde a 30 vezes a taxa da Europa. Apenas nos últimos dez anos, 553 mil pessoas perderam suas vidas devido à violência intencional no Brasil” (p.3). Tanto que tal taxa, foi comparada como a queda de uma avião todo dia no período de 1 ano no Brasil, o que deixaria perplexa a população com tantas perdas de vidas humanas. Mas no caso das revelações que constam no Atlas, não se tratam de acidentes, mas sim de situações que marcam a desigualdade social que é característica desta sociedade brasileira. E ao que tudo indica o próximo atlas aumentará estes números diante da avassaladora ofensiva capitalista e neoliberal que vem cortando os investimentos em políticas sociais que são direitos dos trabalhadores e trabalhadoras deste país.
Portanto, ler, discutir o atlas pode ser uma estratégia de reflexão crítica nos ambientes de trabalho no SUAS. É preciso trazer o debate para dentro do trabalho para os processos de educação permanente no SUAS. Inclusive trazendo os usuários para esta discussão. Quem sabe nossos planos de trabalho possam se ater nestas situações. Ficam alguns trechos:
Quando analisamos a violência letal contra jovens, verificamos, sem surpresa, uma situação ainda mais grave e que se acentuou no último ano: os homicídios respondem por 56,5% da causa de óbito de homens entre 15 a 19 anos. Quando considerados os jovens entre 15 e 29 anos, observamos em 2016 uma taxa de homicídio por 100 mil habitantes de 142,7, ou uma 4 taxa de 280,6, se considerarmos apenas a subpopulação de homens jovens;
[…] desigualdade das mortes violentas por raça/cor, que veio se acentuando nos últimos dez anos, quando a taxa de homicídios de indivíduos não negros diminuiu 6,8%, ao passo que a taxa de vitimização da população negra aumentou 23,1%. Assim, em 2016, enquanto se observou uma taxa de homicídio para a população negra de 40,2, o mesmo indicador para o resto da população foi de 16, o que implica dizer que 71,5% das pessoas que são assassinadas a cada ano no país são pretas ou pardas;
[…] violência contra mulher, além de analisarmos a evolução dos homicídios por UF, levando em conta também a interação com a raça/cor da vítima, fizemos algumas breves reflexões sobre a questão do feminicídio no país. Uma subseção que começamos a tratar no documento deste ano diz respeito ao grande problema dos estupros no país. Trouxemos dados estarrecedores sobre esse fenômeno bárbaro, em que 68% dos registros, no sistema de saúde, se referem a estupro de menores e onde quase um terço dos agressores das crianças (até 13 anos) são amigos e conhecidos da vítima e outros 30% são familiares mais próximos como país, mães, padrastos e irmãos. Além disso, quando o perpetrador era conhecido da vítima, 54,9% dos casos tratam-se de ações que já vinham acontecendo anteriormente e 78,5% dos casos ocorreram na própria residência;
Entre 1980 e 2016 cerca de 910 mil pessoas foram mortas por perfuração de armas de fogo no país. Uma verdadeira corrida armamentista que vinha acontecendo desde meados dos anos 1980 só foi interrompida em 2003, quando foi sancionado o Estatuto do 5 Desarmamento. O fato é que, enquanto no começo da década de 1980 a proporção de homicídios com o uso da arma de fogo girava em torno de 40%, esse índice cresceu ininterruptamente até 2003, quando atingiu o patamar de 71,1%, ficando estável até 2016.(p.2-5).
Fonte: Atlas da Violência 2018.







