A arte drag queen para além dos padrões de feminilidade

Grottesca

Precisei desconstruir muitos conceitos até me reconhecer como uma drag queen. Quando descobri minha persona, Grottesca, percebi que sempre a tive dentro de mim. Isso porque, mesmo antes de conhecer a arte drag eu já queria fazer algo além do cover de Marilyn Manson,  artista que influenciou bastante minha expressão artística. 

drag queen
Grottesca
Fonte: Arquivo pessoal

Me lembro da primeira vez  que tive contato com mulheres fazendo drag, foi através de um grupo no Facebook onde elas estavam divulgando suas artes. Até então, me parece que essas  páginas dedicadas a reality shows eram usadas mais exclusivamente por homens gays cis. 

Entre tantas questões que surgem das minhas vivências como drag e como  mulher cis, enfrentei muita intolerância e preconceito fora e dentro da comunidade LGBTQIA+. Além disso, quando se é asiático, esperam de você uma submissão, um comportamento generalizado e reprimido que precisa atender as necessidades de quem colocou esses rótulos em cima de toda uma etnia. 

Também me recordo do momento em que surgiram as declarações da RuPaul sobre mulheres trans e cis não serem legítimas ao fazer drag. Essas afirmações foram ainda mais fortes  por terem sido feitas por uma pessoa que representava a comunidade LGBTQIA+. Falas como essa partem de um lugar de quem não entende a dor de ser uma mulher numa sociedade extremamente patriarcal e machista, tampouco a força que precisamos ter em muitas áreas da nossa vida para lidar com tudo ao mesmo tempo. 

Os ataques foram totalmente gratuitos, os comentários misóginos eram relacionados com nossas partes íntimas, além do argumento de que teríamos “vantagem” por ter partes do corpo que não precisavam utilizar enchimentos ou serem escondidos. Essas afirmações ignoram totalmente corpos trans e desrespeitam toda a luta e sacrifício feitos por essas pessoas para que a comunidade LGBTQIA+ esteja onde está hoje. Felizmente, depois dessas polêmicas o reality show RuPaul’s Drag Race acabou abrindo portas para pessoas trans e mulheres cis participarem, porém elas foram  por muito tempo rechaçadas e tratadas como piada nesse espaço. 

Parece que havia uma obsessão em exigir feminilidade das mulheres cis e trans como se esse fosse um pré-quesito para serem aceitas nesse meio.  Minha drag  representa um lado alternativo  relacionado com a subcultura gótica, a qual também não é uma performance de feminino dentro dos padrões estabelecidos socialmente. Nós, as drags alternativas, recorremos aos nossos próprios espaços e comunidades como forma de encorajamento e apoio do que consideramos belo, profundo e cheio de significado. Trabalhamos  com os horrores de modo mais visceral e contamos  de forma lúdica tudo aquilo que a sociedade fecha os olhos. Além disso, também produzimos performances com experiências de vida que são intensas e introspectivas.

Considerando a historicidade de submissão de mulheres na sociedade, quando falamos em performar feminilidade estamos tentando alcançar o maior número possível de mulheres espalhadas no país . É quando em nossas performances celebramos a multiplicidade de corpos e expressões de gêneros que dançamos uma sinfonia de celebração da vida em suas infinitas possibilidades. Por isso pergunto, por que limitar nossa  visão a apenas uma forma ou outra? É pensando nisso que nunca compreendi as padronizações em uma arte que desestabiliza os padrões sociais e que desafia as expectativas que a sociedade espera de indivíduos LGBTQIA+.

Em relação a isso, existem muitas variações de feminilidades. Em minha vivência como mulher cis e asiática, saliento que temos também outras referências para a arte  drag. Na cultura do Japão, a performance da feminilidade aparece no famoso “Kabuki”, criado por uma mulher chamada Okuni que representava tanto papéis femininos quanto masculinos, com encenações sobre a vida cotidiana de forma cômica. 

drag queen
Grottesca
Fonte: Arquivo pessoal

Meu avô também praticou essa arte.  Em minha percepção como artista, eu não pensava em atrelar essa cultura à minha identidade drag, porém, vejo o quão necessário isso se tornou pra mim com o passar dos anos. Isso porque é uma forma de empoderamento pessoal e de me sentir mais autoconfiante em representar algo que me traz orgulho e me conecta com a cultura dos meus familiares.

Quando fui convidada para participar de um concurso online durante a pandemia, chamado Balbúrdia, essa experiência mudou tudo para mim e pude explorar muitas outras facetas da Grottesca, a qual mesmo após três anos de vida ainda tinha zonas de conforto enraizadas. Toda essa interação me fez desmontar a compreensão  de que a personalidade drag precisa ser pautada em um padrão enrijecido para ser válida, muito pelo contrário. Com isso, os meus processos criativos mudaram a ponto de poder me divertir em contar histórias com terror e humor ácido. A experiência nesse  concurso também me levou a criar Ghaspar, meu alter ego  Drag King, o qual me permite  explorar mais esse lado das masculinidades que até então era um território desconhecido. 

No momento em que compreendi que poderia ser uma representatividade apenas sendo eu mesma, a visão que tinha de arte mudou totalmente. Passei a entender que a arte  não pode ser medida ou classificada, cada expressão tem sua particularidade, seu brilho e é justamente isso que as faz únicas e belas. Não acredito que a arte tenha sido criada unicamente para um tipo de pessoa ou para destruir, mas para expressar aquilo que não podia ser dito em momentos de censura. 

A arte drag nos faz entrar em contato com nossa criatividade e com um mundo introspectivo. Embora no Brasil a cena local seja pouco valorizada, nos fortalecemos como comunidade quando levantamos nossa bandeira repleta de lutas e vivências, representando toda a nossa existência que não será apagada por intolerantes e conservadores. 

Quando grupos de minorias discriminam outras minorias, estão dando um tiro no nosso próprio pé. É exatamente isso o que o conservadorismo quer, nossa desarticulação, já que assim é mais fácil para nos demonizar e deslegitimar qualquer luta e liberdade que temos conquistado.

“As trevas que habitam em mim, saúdam vocês.” 

                                                          Grottesca.

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