Atlas Drag

Régis Amora

Tenho por prática artística primordial borrar fronteiras. Esse é meu gesto mais genuíno. Meu compromisso. Desestabilizar  o olhar a partir de um fazer cultural contra-hegemônico. Há 10 anos me entendo fotógrafo enquanto LGBT inserido no meio da fotografia majoritariamente heterossexual cearense. Nesse tempo pude seguir, vezes com minha parceira de Descoletivo Marília Oliveira, vezes sozinho, realizando (insistindo) em possibilidades de criar e contar nossas próprias narrativas.

Em 2021 lanço Atlas Drag, primeiro fotolivro o qual assino individualmente, pela editora {lp} press. Nele, exercito (des)organizar minha pesquisa  em Arte drag, com enfoque nas escolhas estéticas destes artistas nas últimas décadas. Na publicação, avançamos um pouco mais ou retrocedemos um pouco mais: chegamos ao surgimento do teatro e suas máscaras como referência visual para falar de montação. A linha tênue entre verdade e simulacro e o que está exatamente entre.

Atlas Drag Régis Amora
Livro Atlas Drag
Fonte: Régis Amora

A escolha do nome “Atlas” subverte o que se espera de um: enorme, pesado e catalográfico. Um jogo com o leitor que terá em mãos um livro pequeno, delicado e com aplicação de paetês em sua capa. O design gráfico performa o tempo todo a catarse, o erro, o improviso, a precariedade. A liberdade editorial, inspirada na estética dos zines, exala frames de vídeos do youtube e imagens em baixa definição no passar das páginas.

As possibilidades que se tem em mãos com o suporte livro são infinitas. A mais divertida, por hora, é desafiar o fetiche burguês de entregar um livro caro e de edição luxuosa. O que deve importar, no fim de tudo, é a conexão da obra com o leitor. Borremos mais uma fronteira.

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Atlas drag: um fotolivro-montação das cenas transformistas

Luná Maldita e Tiffany Plazza

Régis Amora convidou a equipe do Grafia Drag para participar de um diálogo sobre o livro Atlas Drag, o qual ocorreu no dia 11 de agosto de 2022, no X Seminário Internacional Curta o Gênero. Em nome do Grafia, estavam presentes Tiffany Plazza e Luná Maldita. É a partir dessa conversa que escrevemos as linhas que se seguem.

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Lançado em 2021, o fotolivro “Atlas Drag” de Régis Amora, apresenta um mapa dos territórios drag e transformistas. Esse livro promove uma imersão nas processualidades drag, mostrando não só montações em cena, como também, incorporando os movimentos simultâneos de montação-desmontação em sua própria forma. Podemos dizer que se trata de um fotolivro-montação, já que essa obra se constrói através da metalinguagem das montações. 

Atlas Drag Régis Amora
Livro Atlas Drag
Fonte: Régis Amora

Ao percorrer as páginas desse fotolivro-montação, passamos por camadas e fragmentos de territórios passados, os quais através do próprio livro são justapostos gerando outras formas de expressão no presente. É nesse sentido que o Atlas-drag não organiza memórias linearmente, mas intervém sobre elas, deixando em aberto rotas de fuga, caminhos que transbordam a própria cena drag mainstream contemporânea. 

Atlas Drag Régis Amora
Atlas Drag
Fonte: Régis Amora

Em meio aos fragmentos das distintas cenas, percebemos aspectos da cena drag local de Fortaleza (CE), do transformismo latino, das female impersonators americanas, as quais se afirmavam antes mesmo da ascensão da estética drag que vemos hoje nas mídias. Assim, através dessa cartografia podemos ser levadas a (re)construir laços de ancestralidade, os quais se estabelecem na medida em que nosso olhar direcionado aos fragmentos do passado também é atravessado por eles. Nesse percurso proposto pelo livro, encontramos olhares, gestos, corpos granulares que persistem no tempo e passam a viver  em relação a nós. 

Atlas Drag
Fonte: Régis Amora

Junto aos distintos espaços-tempo, o Atlas-Drag trabalha com diferentes materialidades como, frames de vídeos do YouTube, materiais de arquivo (documentos e fotografias), fotografias feitas pelo próprio artista, esculturas, rastros de performances, corpos (des)enquadrados, croquis, texturas de tecidos… e é articulando esses elementos que o próprio fotolivro-montação se monta enquanto tal.

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