Porto Alegre me dói, não diga a ninguém: Hegemonias drag e falta de apoio às diversidades artísticas na cidade

Mia The Witch

A cena drag porto-alegrense é reconhecida pelas muitas artistas que performam estereótipos de feminilidade, beleza e luxo. Isto é, diversas artistas que compõem a cena da capital gaúcha usam como base da sua expressão artística signos hegemônicos da estética “perfeita” atribuída socialmente aos corpos das mulheres e demais identidades femininas. Neste caminho, Porto Alegre apresenta um cenário drag baseado em clássicos concursos, como o The Queens e o Top Drag, ambos da também clássica casa porto-alegrense Vitraux Club, que entre as expertises da arte drag, também consideram estética, glamour e opulência como atributos para vencer. Há claramente um tipo específico de drag que se destaca nesses concursos, sendo este relativo às queens de beleza. A exemplo disso, temos como vencedoras do The Queens: Jazzy Jones, Dylan Summers, Rafaela Face, Mona Vipère e Tina Oliver – embora umas mais e outras menos, todas pertencentes à estética hegemônica da beleza feminina. Claro que todas, ao seu modo, entregam outros atributos que justificam suas vitórias no concurso, tais como a qualidade da maquiagem, a performance no palco, figurinos babadeiros. O ponto aqui é observar que, independente disso, todas performatizam atributos femininos de modo hegemônico. 

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Vencedoras do concurso The Queens: Jazzy Jones, Dylan Summers, Rafaela Face, Mona Vipère e Tina Oliver (da esquerda para a direita). Fonte: Instagram das artistas e elaboração da autora (2026).

Oferecendo um diferencial para a cena local, a Workroom Bar parecia adotar uma perspectiva mais inclusiva de abordagens drag. Apesar do seu elenco fixo também ser majoritariamente pertencente à estética da feminilidade, era possível ainda ver certa diversidade drag nos shows apresentados pela casa. Lá, aconteciam espetáculos de drag kings, drag queers e drag monstras, entre outras vertentes da arte drag, que dificilmente são vistas em outros ambientes da cena porto-alegrense. Também realizavam concursos, tendo como principal destaque a Copa do Mundo das Drags (CDMD) – competição que, em suma, apresentava oportunidades para talentos iniciantes ou para artistas sem tanta visibilidade na cena. Em suas quatro edições, os elencos da CDMD carregavam uma variedade considerável de artistas drag, tendo em vista o panorama geral da cena porto-alegrense, a comprovar pelas vencedoras Amy Babydoll, Grida, Myah e Savanah Queen. Embora também incluídas na feminilidade, demonstram uma abertura maior à disrupção à essa estética ou não se limitam a ela – fato que também pode ser entendido através da leitura de que metade dessas vencedoras tem sua identidade de gênero firmada em identidades femininas, dando uma camada maior à crítica do uso da feminilidade em sua expressão drag. A Workroom parecia oferecer uma visão mais ampla da arte drag em Porto Alegre, não se restringindo aos padrões hegemônicos e normatizações que o mercado busca. Infelizmente, o seu fechamento representou uma grande perda na diversidade drag da cidade. 

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Vencedoras do concurso Copa do Mundo das Drags: Amy Babydoll, Grida, Myah e Savannah Queen (da esquerda para a direita). Fonte: Instagram das artistas e elaboração da autora (2026).

Em outubro de 2025, a Workroom Bar fechou suas portas, encerrando as atividades ativas desde 2017. Os motivos alegados foram as dificuldades após as enchentes que aconteceram em maio de 2024, a falta de valorização do público à arte drag e, talvez também pudéssemos cogitar, alguns problemas estratégicos da empresa. Carregando um legado importantíssimo para a cena drag gaúcha, a Workroom teve diversos feitos e causou grande impacto, não só a nível local, como também no país. Diversas foram as atrações nacionais e internacionais que se apresentaram em seu palco, contando inclusive com diversas RuGirls. A própria Michelle Visage, jurada de RuPaul’s Drag Race e melhor amiga da MammaRu, esteve presente e discursou no palco do bar – o que acabou sendo pauta de RuPaul no seu podcast “What’s the Tee?”. A Workroom fomentou a arte drag na cena gaúcha, nos colocando em lugar de evidência entre os cenários drag brasileiros, com diversos especiais oferecidos em parceria com nossas artistas locais e atrações contratadas. De modo geral, a marca ofereceu grandes movimentações da arte drag na cidade enquanto esteve na ativa. Dentro disso, destaco a pluralidade pela qual viam e promoviam a arte drag, acreditando no trabalho de drags que desafiavam as normatividades do mercado.

Para muitos contratantes de Porto Alegre e parte do público consumidor, drag ainda é um movimento artístico pautado na elegância e glamour feminino. Nessa concepção, acredita-se que um bom artista drag deva emular todos os signos de poder, beleza e luxo que são atribuídos socialmente às identidades de gênero femininas. Essa ideia ainda perpassa majoritariamente as competidoras presentes em Drag Race, maior produto cultural na atualidade sobre drag queens, apesar dos tímidos e discretos movimentos para tornar-se um programa inclusivo. Ao encontro disso, sabemos que o reality pauta também as dinâmicas das cenas drag global, uma vez sendo grande influência neste mercado. 

Entretanto, a arte drag não se limita apenas a esses ideais, apesar de termos muitas artistas que, sem problema algum, norteiam suas expressividades artísticas nesta direção. A arte drag atualmente conta com diversas abordagens estéticas e políticas, não se tratando de algo homogêneo. Drag é arte e a arte está na subjetividade de cada artista. Resumir a performatividade drag em mimetização dos signos de feminilidade, em pleno ano de 2026, é recusar-se a caminhar de acordo com o avanço da área. Devido a essa mentalidade que se tem acerca da arte drag, cruzando os interesses capitalistas envoltos nessa indústria, Porto Alegre apresenta uma cena bastante restrita ao que diz respeito às oportunidades que são oferecidas. Os locais que contratam drags já estão se tornando escassos na cidade, comparando com a realidade de anos anteriores – e a maioria dos que restam parece valorizar especificamente um tipo de artista. 

Em contraponto, há um grande potencial, inclusive lucrativo, em apostar em outras abordagens artísticas. Se formos pensar pelo prisma da novidade, do desconhecido, outras vertentes drags representam ineditismo à cena. O trabalho desempenhado por outros artistas drag pode provocar o público em diferentes lugares de questionamentos sociais, baseados em pautas que são igualmente importantes, de modos performáticos e artísticos que são novos para a cena gaúcha. Isso pode causar curiosidade, gerando interesse e resultando nas ações de venda, nesse sentido. Ademais, um local que se comprometa em apoiar a arte drag deve ter um equilíbrio entre suas responsabilidades políticas com essa arte e seus interesses lucrativos. Drag não é apenas uma moeda de troca, um modo de captar mais recursos e dinheiro para os estabelecimentos. Antes disso, é uma forma artística de fazer política. 

Levando em conta a sua diversidade, sair para assistir a um show drag nem sempre precisa ser sinônimo de ver bate cabelo e performances sexies. Porém, talvez seja entristecedor pensar que Porto Alegre apenas se recusa a enxergar isso por ser refém de uma mentalidade que não acompanha transformações sócio-culturais, não estando tão disposta assim para a mudança. Sem dúvida, o cenário da cidade está em constante transformação, e nos cabe trazer inquietações para que as dinâmicas locais realmente sejam transformadoras. Longe de ter uma visão pessimista da cidade, estou apenas trazendo um balanço realista de atividades que conformam parte do quadro porto-alegrense. Com certa esperança, mas sob muita luta política, espero que em alguns anos a realidade da nossa cena seja outra e que possamos celebrar, enfim, toda a pluralidade que Porto Alegre pode ter no âmbito cultural drag. 

Drag monstras e o uso da estética humana:

Reflexões sobre signos não-monstruosos na arte monstra

Mia The Witch

Mia The Witch Grafia Drag

Certa vez, estávamos eu e outra amiga drag monstra em uma socialzinha com outras drags. Fazia muito calor em Porto Alegre naquela noite. Estávamos todas sentadas em um fumódromo, jogando conversa fora. Não me recordo quem foram as artistas que tínhamos assistido performar na tradicional casa Vitraux, aqui da capital gaúcha, mas certamente eram drags belíssimas – nossa cena, sobretudo, é demarcada por drags que personificam os signos de beleza hegemônica feminina, não conformando um local que dê muito espaço para outras abordagens drags. A conversa estava animadíssima naquela madrugada, até que uma das drags presentes na roda, após eu e minha outra amiga nos afirmarmos enquanto monstras, tecer o seguinte comentário: “Eu não acho que vocês são monstras, ser drag monstra é outra coisa”. Incrédula com tamanha petulância, eu indaguei o que, na concepção dela, era ser uma drag monstra, portanto. Foi quando me respondeu que, a partir de seu entendimento limitado, uma drag monstra deveria apresentar uma estética monstruosa que nada se assemelhasse à estética humana. Eu dei um sorriso malicioso e deixei a conversa fluir para outro assunto. Porém, essa conversa frequentemente reverbera na minha mente.

De modo geral, minha colega de cena não estava totalmente equivocada no comentário que fez. Barillo (2020) afirma que drag monstras são artistas que, através da arte drag, buscam por um desmanche dos códigos da humanidade; seriam artistas drags que rompem não apenas com condutas normativas sociais, como também com certos padrões estabelecidos dentro do ofício drag. Se olharmos superficialmente, a leitura que minha amiga fez de nossa estética estaria correta, afinal estávamos performando vários signos da feminilidade humana, além de outros relativos à monstruosidade. Contudo, Barillo (2020) também aponta que as drag monstras estão comprometidas com a monstruosidade não apenas no âmbito estético, mas também conceitual, já que “o monstro força a ruptura das bases, quebrando com estruturas monolíticas” (Barillo, 2020 apud Paleólogo, 2013, p. 2). Desse modo, proponho que para atribuir significação à uma drag monstra não se deve apenas tomar como base o campo visual, como também torna-se fundamental ter um entendimento do que é um monstro e dos elementos que assim o conformam.

Se buscarmos pela origem do monstro, pesquisadores da literatura, tais como Júlio Jeha (2007), afirmam que essas criaturas surgem na mitologia grega e romana, sendo lidas como um aviso contra uma infração do acordo de paz estabelecido entre a humanidade e o divino. O monstro, nessas civilizações, era entendido como um castigo de Deus; um ser abjeto que rompia com as condutas consideradas naturais, estabelecendo o caos na sociedade. Sobretudo, desde sua origem, o monstro representa perigo à humanidade. Portanto, desde a Grécia Antiga, é um inimigo dos humanos que precisa ser combatido. No livro “Da natureza dos monstros”, Luiz Nazário (1998), que é historiador e especialista em cinema, propõe que não é apenas a estética que constitui um monstro: vários outros elementos são importantes para conformá-lo assim. Deixando evidente que esses seres não precisam incorporar todos os elementos que são levantados no seu estudo, o autor os apresenta a partir da vasta possibilidade de características que podem (ou não) integrar os monstros. Dentre esses elementos, os quais engendram uma análise psicológica e física do monstro, o autor elenca a mutabilidade. É exatamente sob tal constituinte que eu gostaria de adentrar.

Monstros

Drácula (1931), Mística dos X-Men, transformação de bruxa em The Witches (1990) e a Cuca do Sítio do pica-pau amarelo (2001)

Conforme Nazário (1998), a mutabilidade diz respeito às metamorfoses que a corporalidade do monstro pode sofrer. Dessa forma, o autor demonstra a ideia de que o corpo desses seres não têm, necessariamente, uma apresentação estática, ou seja, uma forma única, já que “a besta pode-se revelar humana através da máscara” (Nazário, 1998, p. 117). Sobre esse ponto, podemos pensar em diversos monstros conhecidos na cultura pop que, como uma das habilidades que os tornam diferentes dos humanos, migram de aparência: o vampiro Drácula é um morcego que também possui uma versão de aparência humana com presas assassinas; no clássico filme The Witches (1990), as bruxas se hospedam em um hotel sob a aparência de mulheres humanas e, apenas entre iguais, prontas para realizarem uma convenção, revelam sua estética monstruosa original; nas histórias em quadrinhos, a mutante Mística é conhecida por ser uma monstra que pode se transformar em qualquer ser que ela queira, confundindo todos a respeito da sua identidade; a lenda do lobisomem indica que esse monstro é, na verdade, um homem amaldiçoado que se transforma à meia-noite em um ser metade humano e metade lobo; ainda, podendo abrasileirar mais os exemplos, temos a Cuca, bruxa com aparência de jacaré do nosso folclore, que tem o poder de se transformar em uma mulher humana e andar em sociedade sem ser descoberta. Mesmo antes de poder se transformar, a Cuca do seriado infanto-juvenil “Sítio do pica-pau amarelo”, clássico da rede Globo, retrata a jacaré com um longo cabelo loiro e um vestido vermelho – reconhecidos signos de sedução feminina. Vários são os exemplos possíveis. Em todos os que citei, além da habilidade de mutabilidade do corpo, temos outra semelhança: todos esses monstros podem apresentar uma (ou mais) variação de si em um corpo humanoide – humanoide e não humana, pois monstros nunca poderão assumir a identidade humana, podendo apenas representar cópias.

Dado todo esse contexto, parece-me um tanto raso afirmar que drag monstras não são monstras por performaram quaisquer signos de humanidade, sejam eles lidos culturalmente como masculinos ou femininos. Afinal de contas, nenhum dos exemplos citados acima deixa de ser um monstro por apresentar, momentaneamente, uma estética humanoide. O mesmo julgo valer para atribuir significação à performance artística das drag monstras, já que estão não apenas comprometidas com a monstruosidade pelo fator estético, como também no âmbito conceitual. Claro que uma artista que nunca faz uso de uma estética monstruosa não estaria totalmente aliada aos ideais previstos na montação das drags monstras. Essa, por outro lado, já seria uma nova discussão, a qual não pretendo me deter e cometer o mesmo erro que minha colega cometeu: o de ditar regras para o drag alheio. Aqui, me reservo exclusivamente a debater a respeito dos usos de signos humanos na tipologia das drags monstras – algo que, por mais trivial que possa parecer, ainda causa algumas controvérsias.

Conhecido por ser um reality show específico para drags monstras, The Boulet Brothers’ Dragula consiste em uma competição drag pelo título de próximo super monstro mundial. Nenhuma artista que tenha sido escalada para as seis temporadas que já foram ao ar deixa de se considerar uma monstra. Aliás, esse parece ser um preceito básico para fazer a seleção no programa – todas devem se identificar como drags monstras. Portanto, o programa traz uma proposta drag que rompe com os sentidos hegemônicos do que é lido socialmente como o trabalho de uma drag, justamente por adentrar ao campo da monstruosidade. Exemplo disso são as provas extremas que as participantes realizam, envolvendo serem enterradas vivas, comerem vísceras de animais, serem torturadas com agulhas, entre diversos outros casos vistos no reality que, de modo geral, indicam certas irregularidades na semiosfera drag que tensionam os sentidos ali produzidos.

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Em ordem, de cima para baixo, Melissa Befierce, Landon Cider, Louisiana Purchase, Sigourney Beaver, Fantasia Royale Gaga, Aurora Gozmic e Jade Jolie, competidores de “Dragula”

Todavia, em “Dragula”, nem todas as participantes performam, de modo contínuo e exclusivo, signos estéticos da monstruosidade. Se olharmos elementos que compõem o drag feito por artistas que já passaram pelo programa, tais como Melissa Befierce (primeira temporada), Landon Cider e Louisianna Purchase (terceira temporada), Sigourney Beaver e Jade Jolie (quarta temporada), Fantasia Royale Gaga (quinta temporada) e Aurora Gozmic (sexta temporada), entre outros nomes que poderiam ser citados, percebemos que a construção das suas personas não está firmada apenas nos ideais estéticos da monstruosidade. Diversas vezes no reality, vemos performances sob a estética da humanidade, seja a partir do que reconhecemos como signos de glamour e luxo ou da decadência e degradação.

Ao caminho disso, é bem verdade também que algumas dessas artistas mencionadas foram questionadas por suas colegas, durante o programa, a respeito de “não serem monstras o suficiente para ocuparem a vaga na competição”. Sigourney Beaver e Jade Jolie são dois casos de drags que sofreram esses comentários em Dragula. Talvez porque performam signos sociais atribuídos à feminilidade humana aliados a outros da monstruosidade. Em específico, quando falamos de Sigourney Beaver, acredito que o que fundamenta tais comentários é um discurso misógino que, infelizmente, permanece no meio drag. Beaver é uma mulher cisgênero fazendo drag e sua monstra é exuberante, glamourosa e elegante. Vejo claramente influências de monstras como a noiva de Frankenstein, Morticia e Elvira em sua drag. Portanto, questionar o quão monstra é uma mulher que faz drag através de traços da feminilidade humana, aliado a outros da monstruosidade, me parece, no mínimo, interessante quando ninguém questiona o quão monstras são essas personagens que citei e inspiram Beaver, mesmo elas correspondendo muito aos ideais estéticos de feminilidade que convencionamos sócio-culturalmente.

Por outro lado, no caso de Jolie, acredito que o maior contribuinte para sua deslegitimação enquanto uma “verdadeira monstra” estejam nos fatos da drag ter sido uma participante de RuPaul’s Drag Race (temporada 5) e por ter fama em personificar a diva pop Taylor Swift. Drag Race é um reality show responsável por tornar a arte drag em parte da cultura mainstream nos anos 2000, trazendo várias problemáticas consigo, como a padronização estética das drags que, em sua maioria, são extremamente femininas no programa. Tendo isso em vista, confesso que fui uma das pessoas que não entendeu o anúncio de Jade Jolie como participante da quarta temporada de “Dragula”, pois tudo o que se conhecia dela até o momento era que sua drag era uma linda e colorida Taylor Swift. Contudo, ao longo da temporada, Jolie demonstrou o quanto pertencia também àquele universo, apesar dos comentários constantes, tanto de colegas de temporada, quanto de parte da fanbase, dizendo o contrário. Parece haver uma rejeição muito grande por parte das pessoas à liberdade de ora estar mais aliada a uma tipologia drag e ora a outra, não só falando das drags monstras, mas me permitindo fazer um comentário generalista sobre a arte drag em si. Fato este que, na minha opinião, deveria ser encarado de modo positivo, uma vez que demonstra a versatilidade do artista. Afinal, Madonna não criou uma carreira lendária ficando presa ao mesmo gênero musical e a uma única estética – seria entediante.

Meu ponto aqui é questionar, principalmente, esse entendimento de que drag monstras precisam manter uma aparência monstra o tempo todo para serem validadas desse modo. Aliás, mais do que isso, é refutar a ideia de que drag monstras nunca podem se aliar aos signos da humanidade. Primeiro porque, como levantei anteriormente, estudos acerca dos monstros na literatura e no cinema indicam a existência de elementos que os constituem, como a mutabilidade, que dá a habilidade desses seres sofrerem uma metamorfose em sua corporalidade, os concedendo, em alguns casos, uma aparência humanoide. Monstros como Drácula, Mística, Lobisomem e a Cuca não deixam de ser monstros quando estão performando humanidade através da mutabilidade de seus corpos. Eles sempre serão monstros, apesar do uso das características que convencionamos social e culturalmente aos humanos. Segundo porque, como citei anteriormente ao abordar as acusações feitas à Sigourney Beaver, existem diversos monstros na cultura pop que englobam elementos da humanidade em sua aparência e, mesmo assim, permanecem sofrendo a categorização de monstros perante aos verdadeiros humanos.

Assim, acredito que o que possa justificar essa dualidade que podemos encontrar em algumas drag monstras que utilizam ora signos de monstruosidade, ora de humanidade, ou ainda que tenham uma performance artística que mistura ambas as possibilidades, é justamente a ideia de que tais artistas estão compromissadas com a tipologia monstra para além da estética, de modo também conceitual. À vista disso, passamos a entender que vários são os monstros que, seja pela mutabilidade ou pela conformidade de seus corpos, demonstram semelhanças sígnicas aos humanos. Logo, ao vermos uma drag monstra performando uma estética humana, podemos lembrar que diversas bruxas passam por transformações de seus corpos como disfarces entre os humanos; que tantos vampiros têm uma forma física humanoide, além do original corpo de morcego; e que maldições também aprisionam humanos dentro do viés da monstruosidade, como no caso dos lobisomens.

Por fim, acredito que toda a conversa desenvolvida ao longo deste ensaio seria demasiadamente profunda para se ter em um fumódromo de festa com alguém que, em várias outras questões, já se mostrou conservadora e fechada ao diálogo. Acredito que, quando fazemos arte, nem todos vão estar preparades ou vão se sentir agradades com o que iremos servir à mesa: uns podem se fartar, outros podem recusar. Citando as grandes drag monstras Boulet Brothers: “drag é arte, e arte é subjetiva”. Porém, a quem se interessa por drag monstras e sempre se perguntou porque, por vezes, algumas de nós temos uma aparência humanoide, busquei neste texto levantar alguns apontamentos pertinentes que podem nos orientar ao caminho de tais respostas.

REFERÊNCIAS

BARILLO, Maira Lopes. Monstruosidade na montação: a performatividade monstruosa de drag queens, dançarinas burlescas e de voguing fotografadas. Arte da Cena (Art on Stage), Goiânia, v. 6, n. 1, 2020. Disponível em: <https://revistas.ufg.br/artce/article/view/59818>. Acesso em 20 de out.. de 2025.

JEHA, Julio. Monstros e monstruosidades na literatura. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2007.

NAZÁRIO, Luiz. Da natureza dos monstros. São Paulo: Arte e ciência, 1998.

OH MEU DEUS, CRIEI UM MONSTRO: Evah Destruction como uma das minhas inspirações criativas

Mia The Witch (Patrick Nascimento)

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Evah Destruction. Fonte: Instagram da artista.

Quando se trabalha com arte ou qualquer outra forma de criação, é muito importante que se tenha referências e inspirações. Nenhuma criação nasce do nada. Tudo se cria a partir de um repertório de inspirações. Além de drag monstra, eu também sou publicitária de formação. Na minha área, aprendemos que a criatividade não é um dom, mas sim um exercício. Ela pode – e deve – ser estimulada através de certas atividades. Há um processo para a criatividade, muitas vezes, bastante pessoal. O que importa aqui é a retirarmos desse local de dom divino, como se as ideias simplesmente fossem brotar num deleite de talento provindo da mente gloriosa do artista. Toda criação parte de uma boa pesquisa de referências e inspirações. Na arte drag, não é muito diferente. Frequentemente, conversando com amigas que também são artistas drag, consigo observar seus processos criativos e, muitas vezes, me identifico com o modo que criam. Algo que sempre me ajuda é observar as outras artistas de quem sou fã. Não é uma questão de meramente copiar ou reproduzir o que elas fazem, mas ter uma observação atenta aos nuances que me fazem amá-las e tentar traduzi-los aos códigos que configuram e montam a minha própria drag. Dentre essas artistas, algumas que são drags e outras não, está a monstra Evah Destruction. Trata-se da minha drag queen favorita de todos os tempos. Neste ensaio, buscarei trazer reflexões, enquanto artista da mesma plataforma e fã, sobre o que me causa tamanho encantamento no trabalho desempenhado por ela.

Antes de partirmos a um exercício reflexivo, no qual irei me reservar ao direito de fã em ser totalmente apaixonada por Evah, acho coerente apresentá-la às leitoras/es leitores/aos leitores. Evah Destruction é uma drag monstra de 33 anos (9 de maio de 1992), natural da cidade de Bedford, no estado do Texas, Estados Unidos. Atua, majoritariamente, na cidade de Austin, do mesmo estado e país, apesar de ser uma artista com fama internacional e conseguir atuar em diversas cenas ao redor do globo. Sobre sua fama, pode atribuir-se a sua participação na terceira temporada do reality show estadunidense The Boulet Brothers’ Dragula (2019) e também ao seu retorno no spin-off Titans (2022), da mesma franquia. Evah se identifica como uma pessoa não-binária (they/them/she/her) e é reconhecida no meio artístico por ser uma monstra com bastante pêlos corporais, tendo sua branding associada à imagem do lobisomem – criatura humana que se transforma em lobo em noites de lua cheia. Outra figura bastante associada a Evah é o palhaço, uma vez que teve um vídeo viral espalhado na Internet, em 2014, durante uma performance na parada de orgulho da cidade de Atlanta (EUA), em que interpretava a música “That Laughing Track”, do grupo de DJs Crookers, vestida como um palhaço que tinha como característica marcante risadas estridentes e com certo tom de psicopatia, antes de integrar o elenco da terceira temporada de Dragula. Além de drag monstra, Evah também é atriz e está em cartaz no musical “Urinetown: The Musical”.

Adiante a essa apresentação, podemos partir às finalidades deste ensaio. Eu conheci Evah em 2019, a partir de sua primeira participação em Dragula, franquia da qual também sou fã. Conforme a terceira temporada ia ao ar, meu amor por ela ia despontando. Nessa época, eu já era artista drag há dois anos. O primeiro grande fator que me despertou atenção em Evah foi a questão do uso dos seus pêlos corporais como artifício de monstruosidade dentro da plataforma drag. Eu me senti, de imediato, bastante identificada porque nunca escondi meus pêlos. Ao contrário, eu sempre os mostrei nas minhas montações como forma de criar rupturas de sentido dentro do drag. Isso foi algo pelo qual, com dois anos de carreira e em um contexto ainda mais restrito de como se pensava na figura drag, eu sofri retaliações do meio que me deixavam bastante insegura. Na cena em que eu estava inserida, não era visto de bom tom uma drag queen peluda. A depilação não era necessariamente uma regra ao ofício drag, mas se esperava que a artista utilizasse recursos como o uso de diversas meia-calças e blusas de segunda pele que os escondessem, caso ela preferisse os manter no corpo. O resultado de uma montação hegemônica no drag era a ilusão de uma fêmea lisa, sem pêlos. Até o momento em que conheci Evah, pouco tinha me deparado com outras artistas drag que também utilizassem seus pêlos para sua expressão artística. O que sempre me interessou no drag foi ser uma artista de contracultura – mesmo o drag já sendo um movimento de resistência política, criaram-se certas normatividades aos artistas e eu não me interesso por segui-las . Quando percebi que Destruction partilhava dessa escolha estética, me dei conta de que isso era uma partilha ainda mais profunda do que meramente uma questão visual: era uma ideologia, como entendemos e desempenhamos o drag em nossas plataformas. De alguma forma, entendi que o impacto que Evah pretendia era o mesmo ato político que eu buscava alcançar.

criei um monstro Evah Destruction Grafia Drag
Evah Destruction performando. Fotos: Gabriel Gastelum.
criei um monstro Evah Destruction Grafia Drag
Evah Destruction performando. Fotos: Gabriel Gastelum.

Além de ter uma admirável habilidade em se maquiar, transformando-se na monstra que ela é a partir do uso de maquiagens, próteses e diversos outros materiais, Evah também me inspirou a entender a monstruosidade drag através da corporalidade. Claro que sendo uma criatura monstruosa, ela se monta a partir de referências vindas da cultura do horror: lentes brancas, sombras e delineados excessivamente pretos e exagerados, unhas longas e pontiagudas como garras, o uso de sangue ou manchas que remetem a podridão e decomposição, entre figurinos e perucas igualmente sombrios. Entretanto, o estético não é tudo o que resume a monstruosidade em Evah. O modo com que ela se move durante uma performance nos transporta a um universo sobrenatural: ali não está mais uma figura humana, mas sim a representação de uma entidade nefasta. Durante seus atos, é possível observar seu corpo em transe e torções. Existe uma voracidade no modo em que ela se movimenta através de gestos ora bruscos, ora tão suaves que causam pânico. Suas expressões faciais costumam ser bastante demarcadas também: uma besta em fúria; noutras vezes, um semblante maligno e psicótico. O modo com que os lábios, perfeitamente sincronizados com a letra das músicas, se movimentam descontroladamente também produz sentidos de monstruosidade. Através de como conduz seu corpo, o público é convidado a uma viagem sensorial ao medo, agonia e aflição. Nisso, reside meu enorme encantamento pessoal com o trabalho que ela desempenha. Foi assistindo aos seus shows na Internet – porque, infelizmente, ainda não tive a alegria de assisti-la ao vivo – que eu compreendi a potencialidade de transformação do corpo em um dispositivo que aciona sentidos de monstruosidades para além das escolhas estéticas, tais como maquiagens, perucas e figurinos. Acredito que após ver Evah performar, eu passei a entender também qual o tipo de arte performática que me atraía enquanto performer. Assim, busquei entender qual era a monstra que vivia em mim e deixei que ela se manifestasse através do meu corpo também. Aqui, acredito muito em uma manifestação de incorporação do monstro. É como se, a partir da arte, eu entendesse que a Mia se manifesta numa possessão que toma conta do meu corpo. Ao mesmo tempo, não é como se ela vivesse fora de mim quando não estou montada: ela fica de resguardo e toma o controle quando eu preciso manifestar a monstra que vive sob minha pele.

Ainda, existem identificações de outras ordens da minha parte com Evah que, somadas às anteriores, dão força ao sentimento de admiração que sinto por ela. Admiração que, por sua vez, fornece subsídios para que eu veja nela uma referência para a minha arte. Dessas outras identificações, posso apontar que estão associadas a questões identitárias. Assim como Evah, eu também me identifico enquanto uma pessoa não-binária; Evah é assumidamente uma little monster como eu, ou seja, nossa diva pop favorita é Lady Gaga e, mais do que simplesmente ser fã, ser little monster é um lifestyle com valores específicos; Evah é atriz de teatro, e eu sempre tive a vontade de fazer aulas. A partir das várias formas que apresentei neste ensaio, Destruction tornou-se uma grande referência no meu processo criativo. Sinto uma conexão muito forte com o que ela apresenta ao mundo, conseguindo me ver através dela. Acredito que toda forma de drag é política, mas nem sempre fala de uma mesma política. Com Evah, sinto que as conversas que pretendemos estimular através dos nossos trabalhos são muito próximas. Enxergo nela uma potência muito forte, acredito demais no potencial da arte dela e me espelho em quem ela é enquanto artista.

As famílias drags são uma das tradições mais antigas que temos na plataforma. Diz respeito a quando uma drag queen mais experiente acolhe uma drag novata e compartilha com ela não apenas seus ensinamentos acerca de maquiagem, figurinos, performance de palco, mas também seu sobrenome. Assim, tornam-se mãe e filha. A novata é uma eterna pupila da artista experiente, esperando-se que essa tradição seja levada adiante, geração após geração. Assim, uma novata é a mãe do futuro, que levará adiante o legado de sua família drag. Eu não tive uma família drag. Nem fui acolhida, nos meus anos iniciais, na comunidade drag em que estou inserida. Eu era vista como alguém que era fã de drag, uma bichinha que tinha vontade de aprender a se montar, mas nunca respeitada como uma artista em si, de igual para igual. Isso porque eu nunca fui o tipo de drag que era convencional na minha cena, as drags de beleza hegemônica. Eu sempre quis ser uma artista estranha, que rompesse com as ideias binárias de gênero que a minha cena local atribuía ao drag. Dessa forma, não tive família. Costumo brincar que minha mãe drag é o YouTube, local onde aprendi a maior parte das habilidades técnicas que tenho hoje. Porém, mesmo sem ter consciência ou sem querer, fosse sensato dizer que Evah Destruction foi minha mãe. Ou, ao menos, uma das muitas mães que eu tive. A partir da sua arte e do quanto ela demonstra conhecer a si mesma, Evah Destruction me apresentou quem é Mia The Witch também.

Vida longa às rainhas: processos criativos e início da carreira drag

Mia The Witch

Quem acompanha o Grafia há algum tempo e gosta dos meus ensaios, já me conhece e sabe que eu sou drag queen há mais de seis anos. Mas se você está chegando agora, muito prazer! Meu nome é Mia The Witch e eu sou uma queen de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. O caminho para construir minha persona não foi tão simples. Por isso, neste ensaio irei divagar sobre o processo de criação drag, contarei relatos pessoais e darei alternativas para pensar em um possível começo de montação, tendo em vista o desejo de ajudar as manas que estão iniciando e precisam de um norte para começar a sua montaria.

Mia The Witch processos criativos
Mia The Witch na Workroom em 14/01/2024. Foto: Profª Luná Maldita

Primeiramente, acho de bom tom relembrarmos que drag é arte. Portanto, liberte o seu potencial artístico, não o limite. Mesmo que você busque uma estética específica, não feche tanto suas barreiras criativas. É importante que o resultado do seu trabalho tenha sua marca, mas historicamente artistas do entretenimento tem se reinventado aos olhos do público. Podemos pensar em Madonna que, com uma carreira de mais de 40 anos, passou por diversas eras e mudanças de visuais para envolver seu público em novas versões de sua imagem, permanecendo relevante na indústria da arte. Uma das forças de uma drag queen é essa  capacidade de ser várias e, ao mesmo tempo, uma só, criando  montações versáteis. Sendo assim, esteja sempre receptiva a novas perspectivas do seu trabalho. Até porque, a experimentação é um ótimo caminho para que você entenda que artista você é.

Comecei meu processo de montação através dos experimentos de maquiagem em casa. Não tive família ou amigas drags nesse começo, o que diverge com as histórias de muitas queens, mas pode se aproximar de tantas outras. Por isso, o que me guiou para que eu começasse a me montar foram os tutoriais na Internet. Passei a procurar, cada vez mais, por vídeos que ensinassem a maquiagem drag. Não acredito que haja apenas um processo correto dentro da maquiagem artística, mas caso você não conheça nenhum, os tutoriais podem te ajudar até que você encontre o seu próprio. Além disso, você não precisa ter acesso a maquiagens caras para conseguir um bom resultado, mesmo que os tutoriais que você esteja utilizando mostrem tais produtos. Busque, nestes casos, substituir os produtos demonstrados por outros que caibam no seu orçamento. 

A experimentação da maquiagem drag é um começo necessário. Você precisa ter em mente que seus resultados iniciais nem sempre serão aqueles que você pretendia atingir. Aliás, na maior parte das vezes não serão. Maquiagem é algo que se aprende exercitando e, quanto mais você treinar, melhor irá lapidando as suas habilidades. É muito comum vermos queens que admiramos tanto pela mug perfeita relembrando seus anos iniciais de drag, num resultado que demonstra ter passado por uma jornada de aprendizado até chegar no ponto atual. Treinar e não desistir. Durante esses treinos, busque perceber o que está funcionando para você e quais são as suas preferências como artista. Acredito que assim você irá conhecendo aos poucos a drag que habita dentro de você e poderá aperfeiçoar a sua estética.

Quando eu comecei a minha montaria, eu tinha como referência a drag queen Adore Delano. Além de tutoriais da gatinha, eu costumava buscar fotos dela de vários ângulos para que eu pudesse analisar todos os seus traços de maquiagem e ir emulando o que eu conseguia no meu próprio rosto. Não apenas ela, mas a drag brasileira Pandora Yume também era uma referência dos tutoriais que eu utilizava. Aos poucos, realmente fui me percebendo como uma queen alternativa e punk, como elas. Foi só então que eu comecei a pensar em um nome drag. Eu precisava de algo que ressaltasse essa energia gótica e violenta que minha drag evocava em mim. Um dos meus filmes favoritos é o “Pulp Fiction” do Tarantino. Sempre que assisto ele, as cenas de Mia Wallace me deixam intrigada. Uma Thurman, atriz que a interpreta, criou uma atmosfera misteriosa, alternativa e cheia de revolta para essa personagem. De certa forma, sempre busquei ser alguém como ela – por mais caótica que essa afirmação possa parecer. É assim que Mia tornou-se meu nome.

Ainda pensando em Adore Delano como uma das minhas referências, que costumava se intitular como uma drag sereia, meu primeiro sobrenome foi “Acquagurl”. Com o tempo, fui refinando minha persona e entendendo quem eu realmente era como artista. Então, esse sobrenome não refletia mais quem eu era. Por isso, o substituí pelo meu sobrenome atual, “The Witch”, que na verdade nem é um sobrenome, mas sim um título. Adentro esse fato para também te lembrar que nada é imutável. Você pode – e deve – remoldar sua drag em todos os sentidos que quiser, quantas vezes quiser e forem necessárias. O importante é que você se sinta completa como artista e que seu trabalho, como um todo, represente o que você busca expressar no mundo.

É necessário buscar referências concretas  para que possamos nortear nossas criações. Entretanto, cuidado com as projeções. Assim como eu tive Adore, Pandora e Mia Wallace como inspirações, é evidente que eu sou uma pessoa diferente delas: tenho um corpo diferente, condições socioeconômicas diferentes, mente diferente. Não utilize suas referências como uma cópia, buscando tornar-se um clone delas. Em muitos casos, não será possível e você apenas irá se frustrar. Tente extrair das suas referências aquilo que você considera de mais interessante e criar algo novo e único a partir delas, lembrando e inventando quem você é.

Tendo isso em mente, além de buscar referências em outros artistas, sejam drags ou não, meu processo criativo utiliza também músicas, filmes e peças artísticas. Você é uma artista, encare o mundo a partir desse ponto de vista. Tudo pode ser transformado a partir do olhar de um artista. Mas se você ainda está iniciando no processo, o que me ajuda sempre que tenho um bloqueio criativo é dar uma olhada na minha galeria do Pinterest. Artistas de vários segmentos utilizam a ferramenta como material referencial. Procure por palavras chave que expressem o que você busca com a sua criação e tente construir algo novo a partir desses resultados. 

Não há uma receita de bolo para criar uma drag queen. Arte é subjetiva e vem da individualidade de cada artista. Por isso, não há regras na montação drag. Você não é menos artista por ter opções diferentes das que estão num catálogo estipulado para o drag. Não apenas isso, mas a sua individualidade como artista nasce justamente das coisas que ninguém mais está fazendo, apenas você. Busque se expressar através da sua arte da maneira que você entender melhor, respeitando a todes.

Por fim, quero ressaltar que este ensaio não busca ser um guia normativo de como fazer drag. Quero, a partir dele, traçar possibilidades de um começo para artistas iniciantes que possam se sentir perdidas e, muitas vezes, sem saber como se introduzir no rolê. Contando um pouco da minha história, tento ilustrar uma possibilidade de entrada na carreira artística. Porém, você é livre para experimentar outros processos e, inclusive, eu lhe encorajo a fazer isso. 

O importante é que você comece. A montaria drag é um ato político e precisamos cada vez mais resistir e existir. 

Vida longa às rainhas!

Grafia Drag, 2° ano: memórias afetivas, gongação crítica e as potências da arte drag

Luná Maldita

Em outubro, celebramos o segundo aniversário do Grafia Drag. Durante esse período, publicamos 46 textos que falam dos saberes, das estratégias e das vivências de artistas drag e transformistas. No último ano, lançamos 21 ensaios, uma entrevista, dois episódios de podcast e realizamos duas rodas de conversa públicas na Casa de Cultura Mário Quintana. A mais recente novidade no Grafia Drag é a nossa organização enquanto coletivo, que surge do desejo de fortalecer nossas redes e criar alianças para projetos conjuntos.

Foto: Guilherme Martinez. Fonte: Pexels CC

Além dos materiais produzidos pelo nosso núcleo de produção textual, composto por Anubis Blackwood, Gilmar Montargil, Jandiro Adriano Koch, Juana Profunda, Kam Middle Space, Lady Lazzarus, Luná Maldita, Mia The Witch, Pietro Lamarca e Tiffany Plazza, tivemos a colaboração de mais seis artistas ao longo deste segundo ano: Ptera Dactyla, Sandro Ka, Grottesca, Candy Bloom, Ruby Catuaba e Paco Leal.

Mapeando os trabalhos publicados no último ano, identificamos três temas recorrentes. O primeiro deles é o das memórias afetivas nas cenas drag e transformista, que têm sido uma preocupação constante desde o nosso primeiro texto publicado em 2021. O segundo tema aborda questões relacionadas à reprodução de padrões estéticos, corporais e de feminilidade nessas cenas, apresentando uma espécie de “gongação crítica” construtiva. A terceira abordagem trata das potências da arte drag na afirmação das existências minoritárias. A seguir, detalhamos cada uma dessas linhas temáticas.

Memórias afetivas do transformismo

Antes que a notie acabe Sandro Ka
Suzzy Be, Laurita Leão, Everton Barreto, João Carlos Castanha, Sandro Ka, Cassandra Calabouço, Charlene Voluntaire e Gloria Crystal na exposição “Antes que a noite acabe”. Foto: @ocorre.lab

A primeira linha temática que percorre os textos é a das memórias afetivas do transformismo. Chamamos de “memórias afetiva” porque, na relação com as histórias e experiências de artistas transformistas, estamos construindo vínculos afetivos na produção coletiva de subjetividade. Essas memórias não consistem em um arquivo de dados objetivos; elas residem nos corpos, entre os corpos e são criadas na interação entre artistas de distintas gerações que convivem conjuntamente.

Iniciando o segundo ciclo do Grafia Drag, Sandro Ka nos presenteia com o ensaio “Antes que a noite acabe“, no qual o artista apresenta elementos do processo de composição da exposição que dá nome ao texto. Aqui, o foco está em um grupo de artistas com vasta experiência na cena gaúcha: Rebecca McDonald, Cassandra Calabouço, Gloria Crystal, Dandara Rangel, Charlene Voluntaire, Laurita Leão, Maria Helena Castanha, Lady Cibele e Suzzy Be. Parte dessas artistas também se reuniu na roda de conversa “Rainhas da noite: o transformismo gaúcho”, onde compartilharam suas trajetórias artísticas e memórias.

Rainhas da noite Porto Alegre Grafia Drag
Roda de conversa Rainhas da Noite,
com Glorias Crystal, Fabielly Klimberg, Maria Helena Castanha, Laurita Leão e Everton Barreto.
Foto: Arquivo Grafia Drag

Seguindo nessa linha, no ensaio “Ektor Von Hofmeister através das memórias de sua irmã, Dona Leda“, Jandiro Koch dá continuidade ao seu projeto de resgatar as memórias de artistas transformistas gaúchas, como é o caso de Ektor Von Hofmeister, que não apenas deu vida a Sophia Loren, mas também se destacou como renomado estilista, chegando a se tornar um barão. Mantendo o foco nas memórias, o ensaio “Territórios transformistas de Porto Alegre“, escrito pela professora Luná Maldita, apresenta um mapeamento dos espaços frequentados pelas artistas transformistas da capital gaúcha, como a Workroom, o Vitraux e o Mixx Bar.

Na entrevista “Gloria Crystal: uma conversa sobre o transformismo e o movimento LGBTQIA+“, Douglas Ostruca compartilha trechos de uma conversa realizada com a artista, abordando o processo criativo e a participação de Crystal na política. Em “Gilda: entre memórias curitibanas e arquivos da internet“, o pesquisador Gilmar Montargil direciona a atenção para a cena curitibana, resgatando fragmentos da história de Gilda, uma pessoa em situação de rua que realizava intervenções artísticas na cidade.

Transformismo Gaúcho Grafia Drag
Maria Helena Castanha, Lady Cibele, Cleber Farias, Abigail Foster, Fabielly Klimberg e Laurita Leão. Foto: Douglas Ostruca

Esse conjunto de textos abrange uma riqueza de memórias e experiências no cenário do transformismo e do movimento LGBTQIA+, destacando a importância da preservação e compartilhamento dessas narrativas em nossas comunidades.

Gongação crítica

O desenvolvimento de perspectivas críticas em relação às práticas é uma segunda linha temática que percorre diferentes trabalhos publicados ao longo dos últimos 12 meses. Propomos chamar esse olhar de ‘gongação crítica’, como sugere Judith Butler, no livro Corpos que importam: “‘Ler’ [‘gongar’] significa rebaixar alguém, expondo o que não funcionou no nível da aparência, insultando ou ridicularizando” (2019, p. 222). Em nosso uso, em vez de gongar uma pessoa julgando sua aparência com base em padrões normativos, nós trabalhamos a ‘gongação’ como estratégia para expor a reprodução de mecanismos sociais que reforçam preconceitos, machismos e padronizações estéticas. Assim, configuramos uma ‘gongação crítica’ que pode auxiliar na composição de territórios drag e transformistas abertos às diferenças, atentos para os aparatos sociais normativos em operação nesses contextos.

Candy Grafia Drag
Candy.
Fonte: Arquivo pessoal da artista
Grottesca. Fonte: Arquivo pessoal da artista.

No ensaio “A arte drag queen para além dos padrões de feminilidade“, Grottesca desafia os estereótipos na construção do feminino, afirmando as múltiplas variações que transbordam os modelos estabelecidos. Nesse mesmo contexto, em “Quebrar os padrões, afirmar as diferenças: desafios da arte drag“, Candy critica os padrões corporais reforçados nos meios drag, os quais não apenas expõem os corpos gordos ao julgamento, mas também tendem a reduzi-los à comicidade e a personagens vilãs.

Com o ensaio “Por que tão pouco? A arte drag como um lugar de revolta“, Anubis Blackwood ecoa as preocupações de Grottesca e Candy, expondo a intolerância em relação às mulheres cis nos territórios drag. Diante disso, Blackwood defende a revolta na arte drag como uma forma de quebrar rótulos e normas sociais. Essas questões continuam a ressoar em “Feminilidade disruptiva na arte drag: notas de uma mulher-monstra“. Neste ensaio, Tiffany Plazza considera a montação drag como um espaço de experimentação da feminilidade, incorporando a monstruosidade na composição de uma ‘mulher-monstra’. Já Lady Lazzarus, em “Toda forma de drag? A falta de representatividade AFAB em reality shows brasileiros“, chama a atenção para a invisibilidade, não apenas de mulheres cis no elenco de reality shows drag brasileiros, mas de pessoas designadas como mulheres no nascimento (AFAB) de forma mais abrangente.

Anubis Blackwood Grafia Drag
Anubis Blackwood. Foto: PHJUNIORG
Mia The Witch. Fonte: Arquivo pessoal da artista.

Nos trabalhos mencionados até aqui, encontramos o delineamento de uma questão coletiva sobre a inclusão das mulheres nas cenas drag e dos modelos de feminilidade corporeados nesses contextos. Contribuindo para essa discussão, Gabi Coiradas, em “Drag para todes? O machismo que ainda invisibiliza drag kings“, diagnostica o machismo estrutural como um dos fatores que cria barreiras para mulheres na cena drag. Nesse caso, a artista acrescenta outra camada a essa problematização, indicando que a invisibilidade de drag kings também é resultado do machismo estrutural.

Essa mesma temática ainda é abordada sob uma perspectiva diferente no ensaio “O descarte do estranho: a exclusão da diferença na cultura drag“, onde Mia The Witch argumenta que a reprodução de padrões estéticos de beleza promove a exclusão da diferença nos meios drag. Já no ensaio “Drag feminista? Reflexões acerca dos limites entre a arte e o ativismo“, The Witch apresenta fragmentos de uma pesquisa realizada com mulheres feministas para entender como elas percebem a arte drag. As colaboradoras do estudo identificam nas drag queens a reprodução de estereótipos de vivências femininas, sugerindo que a mistura de códigos de gênero seria mais interessante para uma aliança com os movimentos feministas. Relacionado a isso, na roda de conversa “Além do binário de gênero: drag monstras, drag queers e cosmodrags”, Chromatica, Luná Maldita, Mia The Witch e Tiffany Plazza se reúnem para discutir as montações drag que buscam expressões outras para além das performances binárias de gênero.

Coletivo Kings of the Night
Coletivo Kings of the Night
Foto: Arquivo pessoal
Coletivo Grafia Drag
Rolá de conversa “Além do binário de gênero”, com Chromática, Profª Luná Maldita, Tiffany Plazza e Mia The Witch. Foto: Arquivo Pessoal

No ensaio “Quem tem medo de drag queen? Da subversão ambivalente de gênero às potencialidades do fantasiar“, Luná Maldita busca respostas para os ataques de grupos conservadores às drag queens. A professora recorre à Judith Butler para apresentar a fantasia como uma maneira de intervir na construção da realidade. Essas questões também são abordadas no primeiro episódio de podcast do Grafia, “Caça às drags: censuradas no espaço público“, que reuniu Juana Profunda, Tiffany Plazza e Luná Maldita para discutir o projeto de lei HB9, o qual propunha a proibição de números de drag queens e drag kings em espaços públicos no estado de Tennessee, EUA.

Finalmente, ainda dentro do contexto de ensaios com provocação crítica, o ensaio “Para hétero ver: arte e cultura LGBTQIA+ para além da bolha“, de Lady Lazzarus, destaca a importância de artistas drag e transformistas alcançarem públicos heterossexuais, indo além dos espaços restritos aos grupos LGBTQIA+.

Drag Night Show Lady Lazzarus
Espetáculo DRAG NIGHT SHOW, escrito, dirigido e produzido por Lady Lazzarus desde 2017.
Foto: Andressa Magalhães

Nesse contexto, em conjunto os ensaios demonstram que a cultura drag é uma plataforma vital de discussão, questionamento e expressão, com contribuições para diálogos e olhares críticos em relação aos padrões gênero e normas reguladoras dos corpos. Através da iluminação de tais questões, essas análises contribuem para construção de uma arte drag atenta para a reprodução de mecanismos sociais geradores de exclusão e preconceito. 

Potências da arte drag

A terceira linha temática que perpassa os ensaios do Grafia é a afirmação das potências da arte drag. Nesse caso, a artista Ruby Catuaba, no texto “Drag: expressão artística transformadora“, afirma que suas experiências como drag queen e drag king geram transformações em suas vivências pessoais, trazendo-lhe forças para afirmar caminhos que confrontam os padrões cis-heteronormativos. Ao abordar a relação entre o performer e a personagem, Paco Leal, no texto “Performance drag e identidade“, sugere que existe uma tensão decorrente da relação dialética aí estabelecida, a qual pode impulsionar mudanças. Já Tiffany Plazza, em “Para sair da zona de conforto: uma boa competição“, localiza as competições drag como oportunidades para desenvolver habilidades e aprimorar a montação.

Copa do mundo das drags  Workroom
Scarlet Bloom, Myah Michelle, Tiffany Plazza e Ptera Dactyla no concuros “Copa do mundo das drags” da Workroom. Foto: Carla Menna Barreto

Para a artista e pesquisadora Kam Middle Space, uma das potências da arte drag é a inserção em diferentes espaços. Assim, no ensaio “Jaleco e batom: uma jornada de drag, ciência, saúde e autodescoberta“, Space coloca as intervenções nos âmbitos acadêmicos como forma de intensificar as discussões sobre as lutas LGBTQIPN+ nas universidades. Paralelamente a isso, no segundo episódio do podcast Grafia Drag, intitulado “As drags no orgulho e na luta LGBTQUIAPN+“, Mia The Witch, Ptera Dactyla e Professora Luná Maldita se reúnem para discutir as articulações entre a arte drag e as lutas LGBTQUIAPN+, sugerindo que, além de estarem na linha de frente na revolta de Stonewall, as drags atuam como comunicadoras capazes de se expressar em público, superando inseguranças pessoais.

Kam Middle Space. Foto: Arquivo pessoal da artista.
Esmeralda Dip. Foto: Humberto Araújo.

No conjunto dessas contribuições, emergem narrativas que destacam as potências da arte drag na transformação pessoal, nas identidades e nas esferas sociais. Através dessas perspectivas vemos que a arte drag abre caminhos de autoconhecimento e autoafirmação na sociedade, criando condições para desafiar as normas preestabelecidas que reduzem nossas capacidades de agir. 

***

Nesse mapeamento do material produzido pelo coletivo Grafia Drag nos últimos 12 meses, identificamos três linhas temáticas que perpassam diversos textos: as memórias afetivas da cena, a gongação crítica e as potências da arte drag. Embora cada linha tenha sido associada a um conjunto específico de textos, elas não se apresentam como demarcações rígidas, uma vez que frequentemente se entrelaçam no corpo dos ensaios. Portanto, alguns ensaios podem abordar duas ou até mesmo as três linhas de maneira simultânea. Para o futuro, desejamos agregar pessoas de todo o Brasil ao coletivo e investir na criação de projetos para ampliar o alcance dos saberes provindos das montações.

Referências

BUTLER, Judith. Corpos que importam: os limites discursivos do “sexo”. São Paulo: n-1 edições, 2019.

Como citar este texto

MALDITA, Luná. Grafia Drag, 2° ano: memórias afetivas, gongação crítica e as potências da arte drag. Grafia Drag. 2023. Disponível em: <grafia-drag-2-ano-memorias-afetivas-gongacao-critica-e-as-potencias-da-arte-drag>. Acesso em: 23. Out. 2023.

Não me convidaram para a tal festa drag: notas de uma drag monster que não foi bem-vinda por ser estranha

Mia The Witch

Eu comecei a me montar há 6 anos. Nascida da mistura dos meus apreços artísticos e dos muitos rótulos que me puseram na adolescência, como “estranho”, “emo” e “viado”, Mia é uma forma de reivindicar o meu próprio valor que era negado pelos demais; ela é uma das expressões artísticas de Patrick, na qual elu clama pelo autoamor que lhe fizeram abandonar tão cedo.

Sempre me senti uma adolescente esquisita perto dos demais. Era perceptível que a minha exclusão não era apenas uma questão de falta de afinidade, mas que minha aparência e trejeitos tinham grande influência nisso. Pessoas como eu não eram tidas como dignas de receber afeto. Pelo contrário, fomos ridicularizadas e tornadas alvo de piadas. 

Aprender a socializar se torna um fardo quando você sente que não é bem-vindo nos espaços e, infelizmente, quando você é jovem, tende a acreditar no que os outros falam sobre você sem muito questionamento. Enxergar-me pelas lentes dos outros fez com que eu acreditasse por muito tempo em rótulos pejorativos e isso desencadeou não apenas a minha falta de autoestima, como também a depressão que trato até hoje. 

A Mia nasce em um contexto em que eu precisava de algo maior que a vida: um propósito. Ela emerge como um grito seco que rasga a garganta de uma Patrick de 21 anos, já farta de não aceitar quem era. Comecei a abraçar toda a minha estranheza, toda a minha frieza e as minhas questões de identidade de gênero, transformando-as no meu grande potencial através da arte drag. A Mia fez com que eu me reconhecesse como uma pessoa não-binária, confrontando-me ao fato de que eu sempre questionei normas de gênero, porque elas nunca me deixaram confortável na pele em que habito.

Minha visão artística era de que a minha drag deveria ser uma persona sombria, andrógina, assustadora. Lady Gaga tem uma frase na qual me reconheço muito: “eles não podem me assustar se eu assustá-los antes”. Assim, comecei a fazer drag com orçamento baixíssimo, tentando reproduzir looks de queens brasileiras alternativas com as quais eu me identificava, como Pandora Yume. Não só a barba era parte da minha montação, como também os pelos corporais – os quais eu me esforçava para que ficassem à mostra. O fato de eu não aquendar era como eu questionava o porquê de uma persona feminina não poder ter pênis se muitas mulheres – babadeiras – têm. Além disso, o característico cabelo preto e branco de Mia, junto da maquiagem gótica, sempre demarcou o fato de que eu sou uma bruxa. Eu era tudo aquilo que me fizeram acreditar ser, o pior de mim, que acabei transformando no meu melhor a partir da arte como um ato de resistência.

Mia The Witch festa drag
Mia The Witch.
Fonte: Arquivo pessoal da artista

O drag, por muito tempo, ocupou esse lugar em que eu poderia me expressar sem medo de retaliações. Percebi ao longo da prática que o jogo não é bem assim e que, por mais que o ato drag em si seja extremamente político, ele não me protegia do julgamento alheio. Quando falo deste julgamento, não falo apenas do que recebi por pessoas fora da comunidade queer, mas, também, de ataques e microviolências que sofri (e ainda sofro) de outras drag queens. Tenho a percepção de que, com o tempo, fui padronizando a minha drag para agradar os outros: contratantes, festas, locais, público, colegas. Fui fazendo para a Mia o mesmo que sempre fizeram para Patrick: encaixá-la em caixas que me ofereciam como opção e ir me machucando no meio do caminho por não caber totalmente em lugar algum. 

Mais uma vez, estar com um pé dentro de uma caixa, mas o resto do corpo não caber. Fico questionando a mim mesma se a Mia se sente como Patrick hoje em dia. Logo ela, a grande bruxona como nasceu, líder do seu coven, maldita e sombria, rainha poderosa do submundo, símbolo de empoderamento, acabou por se identificar com aquela queerzinha acuada, deprimida, com medo do mundo e se sentindo uma aberração? 

Fazer drag foi perdendo um pouco da sua essência para mim, foi ficando cada vez mais sem graça. Tornou-se mais um dos espaços em que me sinto estranha demais; exótica; precisando de correção ou ajuda. Em seis anos de drag, poucas foram as vezes em que me senti valorizada de verdade por outras artistas. Sem falar nas pouquíssimas oportunidades que surgem para uma performer que não está dentro de um padrão estético normativo do drag.  

O sentimento que me invade é o de injustiça. Não é justo que tirem de mim algo que lutei tanto para construir. Não é justo que o único lugar que me acolheu, na verdade, me rejeita também. Não é justo que tenhamos sempre que corresponder a expectativas normativas da sociedade e dos grupos em que nos inserimos para nos sentirmos amadas e valorizadas.

Esses sentimentos ruins a respeito do drag e a incerteza se eu deveria continuar ainda rondam, volta e meia, meus pensamentos. Ainda estou aprendendo a ressignificar o lugar que a montaria ocupa na minha vida. Tenho buscado ouvir mais o meu coração e voltar a ser a artista que minha criança precisava ter visto. Porém, me sentiria uma tola se lhes escrevesse um texto que romantiza a ideia de que ser quem realmente somos é uma tarefa fácil e que só traz benefícios. 

O cenário drag no qual estou inserida ainda exerce uma grande pressão em mim, no fato de que eu não correspondo com o padrão estético da cena. Eu acabo vivendo em uma dicotomia de pensamentos: o drag importa tanto para mim e eu preciso ser quem eu sou, porém ser quem eu sou não me traz relevância nem espaço e eu não sinto que estão me permitindo crescer como artista.

Cada vez mais tenho questionado o preço que pago em querer tornar a minha montaria em algo “comercial”. Na tentativa de ser notada e ganhar oportunidades de mostrar o meu trabalho, vou me distanciando cada vez mais de quem eu sou. Parece-me que há nisso um perverso efeito de exclusão da diversidade, em que todas as drags que não se montam para ser bonitas e bater cabelo (o que é um trabalho belíssimo para quem se identifica com ele) se questionam se são realmente drags boas o suficiente, até que algumas cedem a este modelo posto. 

O que me encanta como performer é que eu conto uma história com cada um dos meus atos. Convido o meu público a embarcar em uma narrativa monstruosa que só eu poderia lhes contar. Acredito que há um tremendo senso de singularidade no que me proponho a fazer. Contudo, ainda me questiono se eu seria uma drag tão incrível quanto as que dublam com coreografias e servem ao público características de divas pop. Sendo assim, prefiro assumir um papel muitas vezes de mediocridade do meu trabalho e tentar fazer o que elas fazem tão melhor do que eu. 

O mais chocante tem sido perceber que uma vez me invalidando para ocupar um espaço que corresponda às expectativas alheias e consequentemente me sentindo cada vez mais perdida de mim mesma, vou arrancando elogios na cena que jamais recebi fazendo aquilo que realmente me move no drag. Por um lado, sinto-me punida por ser quem sou, por outro, sou aceita em ser o que esperam de mim. Tudo isso acaba me deixando muito confusa e sem saber ao certo que rumo dar a minha carreira.

Entretanto, por meio das tantas dúvidas que demonstrei nesse texto e inquietações reais que afligem meu coração, acredito que vou tecendo uma rede de acolhimento de artistas que se sentem assim ou que têm percepções similares sobre a cena drag de sua região. Eu me sinto perdida, novamente, do mesmo modo que me senti durante a adolescência, sem saber se o correto era tentar me assemelhar ao padrão ou abraçar as diferenças. 

Seria demais ansiar por um cenário drag inclusivo em seus contratos e que pregasse a sororidade entre as artistas com suas diferentes abordagens? Eu só queria poder receber o mesmo acolhimento e oportunidade que as demais, mas sinto que sempre será duplamente mais difícil para pessoas como eu. 

Por fim, precisamos entre nós, as estranhas, criar mecanismos de hackeamento do sistema, porque, até então, não estamos sendo convidadas a fazer parte dessa festa drag. Penso que nossa potência é grandiosa demais para que seja naturalizado o sentimento de que somos inferiores ou que percamos nossos ideais em prol de nos inserirmos no mercado.

As drags no orgulho e na luta LGBTQIAPN+

Podcast Grafia Drag #2

Podcast Grafia Drag

No segundo episódio do podcast Grafia Drag, Mia The Witch, Ptera Dactyla e Professora Luná Maldita falam sobre o mês do Orgulho, com destaque para o papel das drags no orgulho e na luta LGBTQUIAPN+.

orgulho e luta lgbtquiapn+
Foto: Tugce Eerten Barrett
Fonte: Pexels CC

A partir dessa temática, Luná lembra que na revolta de Stonewall que aconteceu nos EUA em 28 de junho de 69, as drag queens assumiram linha de frente na luta. Já Ptera puxa o gancho do orgulho e da autoafirmação, para ela a arte drag ajuda as pessoas a se expressaram,

“(…) tem muita gente que se descobre trans com a drag, né? E eu acho que isso é uma coisa dessa questão, da importância pro orgulho. A drag (…) tem muito dessa questão de empoderamento, de lacre. É muito bom pra gente se conhecer. A gente pega nossas características boas e exalta elas, ou pegamos coisas que queremos ser e exageramos isso”.

Ptera no orgulho e na luta
Ptera Dactyla.
Fonte: Arquivo Pessoal

Ao pensar sobre o papel das drags no orgulho e na luta LGBTQUIAPN+, Mia lembra de um vídeo de Lorelay Fox, no qual a youtuber sugere que a drag queen é uma porta voz da comunidade. Nesse sentido, Mia entende que “a drag queen, através desse encantamento ou dessa curiosidade que ela provoca nos outros através da arte, ela se torna uma comunicadora em prol da comunidade”.

A partir das falas de Ptera e Mia, Luná diz perceber na arte drag estratégias de sobrevivência, isso porque para ela o processo de montação carrega em si uma potência para “deslocar inseguranças e medos, de se reencontrar a partir de um outro lugar (…)”. Quanto a essas inseguranças, a professora defende que, em parte, são efeitos da imposição compulsória do sistema de sexo-gênero binário a todos os corpos, o qual gera traumas já desde a infância. Esses traumas reforçam bloqueios promovendo o envenenamento do corpo por afetos tristes, por vezes, isso ocorre nos primeiros espaços de socialização e formação de uma pessoa, como a família e a escola. Para Luná, isso é uma questão política, mais precisamente de uma micropolítica do desejo.

Luná no orgulho e na luta
Profª Luná Maldita.
Foto: Henrique Cardoso.

Em relação a essas articulações entre arte drag e política, Mia menciona que “só o fato das manas drags encararem esse local de arte que desafia papéis de gênero, muitas vezes indo contra o que a norma diz que a gente deve fazer, usar, vestir, se portar, só aí, já dá todo um cerne do ato político da drag queen também”. Ptera complementa afirmando que a arte drag produz entranhamentos e desconfortos, seja para chocar, para se divertir, ou só para ser bonita mesmo, existe aí um deslocamento do olhar do outro.

Para situar algumas variações nas montações efetuadas no contexto da revolta de Stonewall, Luná recorre ao livro “Mother Camp”, de Esther Newton, publicado em 1972 como resultado de uma pesquisa realizada no final da década de 60. Newton localiza naquelas circunstâncias dois padrões de comportamento entre as artistas female impersonators (imitadoras da feminilidade) da época.

Por um lado, as stage impersonators (imitadoras de palco) tendiam a se restringir aos limites do palco, essa era uma vertente mais profissional, onde havia demarcação rígida entre esse espaço do profissional da arte e da vida pessoal. Então, fora dos palcos, Newton sugere que essas artistas elas nem se comunicavam entre si. Por outro lado, as street impersonators (imitadoras de rua) andavam montadas nas ruas montadas, disputando o espaço público. Assim sendo, Newton menciona que provavelmente quem tomou a frente daquele movimento lá de Stonewall não foram as stage impersonators que eram as artistas mais estabelecidas no momento, mas, sim, as street impersonators que eram mais ousadas e ocupavam um espaço público.

Em vista disso, Mia lembra da roda de conversa com as Rainhas da Noite, realizada pelo Grafia Drag na Casa de Cultura Mário Quintana em 10 de junho de 2023.  Nesse encontro, entre outros tópicos, Laurita Leão e Lady Cibele falaram sobre diferenças de tratamento entre atores que performavam feminilidade apenas no palco e pessoas travestis que não estavam atuando, esse era seu modo de vida, então se colocavam assim publicamente também. Nesse contexto, Cibele comenta que a polícia enquadrava as drags, as atrizes, mas elas eram liberadas, porque performar a feminilidade no teatro, dentro dos limites do palco, era autorizado. Mas, afirmar no espaço público um modo de vida que desloca o sistema de gênero binário, como no caso das travestis, então elas eram presas e passavam por violências.

Mia ainda sublinha que é importante “(..) pensar que, de fato, essa transformação, essa revolução. Ela nunca aconteceu num local pacífico e muita gente teve que realmente e literalmente dar o sangue, sabe? (…) Durante a roda [de conversa] elas falavam muito sobre o quanto elas tiveram que passar para que hoje a gente consiga sair na rua e pegar o nosso uberzinho, como elas falaram, toda montada. E é muito sobre isso, muito sobre a contribuição que elas deram no passado para que a gente consiga hoje fazer esse tipo de coisa e nos sentiremos orgulhosas, sabe? É uma geração dando força para a outra, abrindo caminho para outra”.

Mia no orgulho e na luta
Mia The Witch.
Fonte: Arquivo pessoal

Ptera lembra que embora tenhamos avançado muito nas lutas, ainda tem muito a ser feito, especialmente em um momento político de ascensão de um movimento conservador que reafirma os valores do sistema de gênero binário e se coloca, entre outras coisas, como anti-trans e anti-drag. Nas palavras da artista, “Eu acho que, claro, a gente ainda tem muito chão para correr, né? Essa questão de imagina, de ser crime ser trans, de não poder ser travesti, não poder simplesmente viver, viver como tu é. E é muito louco, né?”.

Como saída para enfrentar essa situação Ptera situa a necessidade de falarmos por nós próprias de “(…) captar a fala, de retornar o poder da nossa própria narrativa na nossa mão e poder escrever”. Além disso, a drag reforça que precisamos valorizar as artistas que estão ao nosso lado, compondo a cena com a gente, em relação com a gente. Diante disso, professora Maldita também diz considerar importante essa dimensão do coletivo, das articulações coletivas,

“Eu estava comentando com a Mia esses tempos que durante o período em que eu estava mais nessa experiência individual, na montação, ficava muito presa em ciladas de inseguranças. E a partir do momento em que eu comecei a me vincular mais com coletivos, com outras pessoas, o próprio coletivo do Grafia Drag. Nossa, isso me ajudou muito, porque a gente passa a estar conectada com as nossas, né? A gente consegue ir além de armadilhas que sozinhas, às vezes a gente não consegue”.

orgulho e luta lgbtquiapn+
Foto: Tarek Mahammed
Fonte: Pexels CC

Em conexão com isso, Luná também afirma que considera a relação com as artistas transformistas e drag mais experientes num vínculo de ancestralidade. Em suas palavras, “(…) acredito que nessa ideia de uma ancestralidade transformista, uma ancestralidade LGBTQIAPN+, isso também tem relação com a fala, são forças que nos atravessa agora, no presente em ato. Então, o que a gente fala, o que a gente vive também é atravessado por essas vivências e experiencias que vieram antes, né?”.

Além desses tópicos as três artistas abordaram outros aspectos do contexto brasileiro, mapeando alguns movimentos e expressões de resistência que se proliferaram pelos subterrâneos da ditadura militar. Esse é o caso da própria arte transformista que por algum tempo foi autorizada pela censura nos limites do teatro, ainda que proibidas de outras mídias como rádios, jornais, revistas e televisão.

Com esse segundo episódio do podcast, Mia The Witch, Ptera Dactyla e professora Luná Maldita deixam suas contribuições para as discussões sobre as conexões e curtos-circuitos entre os movimentos sociais e as drags no orgulho e na luta LGBTQIAPN+.

Drags feministas? Reflexões acerca dos limites entre a arte e o ativismo

Mia The Witch

Há dois anos, realizei uma pesquisa acadêmica no curso de Relações Públicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), para a disciplina de Laboratório de Pesquisa I, ministrada pela professora Elisangela Lasta, que tinha como objetivo compreender se existem implicações entre a arte drag e reivindicações feministas na percepção do feminismo. Para isso, coletei dados de 400 mulheres brasileiras, feministas e não-feministas, através de questionário disponibilizado na internet, conferindo 95% de grau de confiança e 4,9% de margem de erro nos resultados.  

Para elaborar o questionário que fundamentou minha análise, tomei ciência sobre reinvindicações da pauta feminista e os cruzei com atos constituintes da performatividade drag, buscando entender a visão das mulheres sobre tais atos. Dentre os assuntos abordados nas perguntas estão o uso drag de ferramentas como corset e espuma para criar uma ilusão de corpo feminino, a estereotipação de identidades femininas como recurso humorístico de queens comediantes e a performatização de sensualidade de artistas drags.

Através da análise desses dados, consegui compreender que as mulheres feministas não encontram grandes problemas dentro das práticas drags vistas como formadoras dessa performatividade. O uso de ferramentas artificiais em busca da ilusão de beleza hegemônica feminina, de estereótipos caricatos e o explorar da sensualidade não são práticas consideradas pelas feministas como, respectivamente, opressivas, desrespeitosas e nem acreditam que contribuam para o objetificação de corpos femininos. A maioria das feministas não considera que o uso de signos atribuídos socialmente à beleza hegemônica da mulher, feito por drag queens, representa um problema ao movimento feminista, não fazendo diferença a elas a utilização destes pelas drags. 

Contudo, mesmo achando que a estereotipação de corpos e vivências femininas não sejam problemáticas, as feministas acreditam que seja possível constituir expressões drag sem fazer uso dessas ferramentas. Sob sua visão, a mescla de signos entre ambos os gêneros seria uma forma mais interessante para a construção drag, evitando personas essencialmente femininas. Além disso, as feministas acreditam que a expressão drag pode contribuir com o movimento feminista por ser entendida como quebra de estereótipos de gênero, não a reprodução deles. 

Mia The Witch Drag feminista
Mia The Witch
Fonte: Arquivo pessoal

Por outro lado, as mulheres que participaram da pesquisa tecem algumas críticas aos artistas drags. Consideram alguns termos da cultura drag, como fish*, misóginos. Acreditam também que celebridades drag poderiam se posicionar mais acerca de assuntos feministas. Outro problema visto por elas é a resistência em aceitar mulheres, cis ou trans, como artistas drag, uma vez que é uma expressão artística dominantemente masculina e gay. O que entraria em conflito com a causa feminista, segundo elas, são estes fatores que vão além de simplesmente a montação drag, tais como o vocabulário que a comunidade utiliza, como e para que usam sua visibilidade e quem consideram aptos a performar a arte drag. 

Apesar dessa pesquisa já ter completado dois anos de elaboração, ainda se faz importante pensarmos a respeito dos limites entre a expressão drag e as reivindicações feministas. Principalmente quando se detecta, através desse estudo, que o feminismo não estaria simplesmente contra a existência de drag queens como se ouve em conversas informais, sem nenhum embasamento científico. Afirmar isso não é apenas um erro pelo fato de feministas não serem contra, como também porque acreditam que as drags podem ter um papel colaborativo nesse movimento. Há a possibilidade do diálogo entre o movimento e a arte para que ambos se fortaleçam. 

Particularmente, falando sobre minha experiência enquanto uma drag queen não-binária, acredito que a arte drag perpetua ainda muita misoginia estrutural quando, por exemplo, exclui mulheres da possibilidade de serem artistas drags. Ou pior ainda, quando “toleram”, mas acreditam ser “mais fácil” para elas. Se formos recuperar a história da luta feminista, vamos ver que mulheres sempre foram impedidas de acessar os mesmos postos e atingir as mesmas oportunidades que os homens. Essa reprodução valorativa não pode acontecer dentro da cultura drag, pois esvaziaria-se a essência da arte que nasceu para ser uma forma de ruptura dos papéis de gênero. Mesmo sendo uma pesquisa realizada em 2021, vemos que ela ainda é uma pesquisa atual quando a comunidade drag ainda vive em uma realidade parecida com a apontada pelas feministas nesse estudo. É preciso que, coletivamente, dêmos passos adiante e façamos, como artistas que somos, as mudanças sociais que nossa arte promove –  ou, pelo menos, que se propõe na teoria.

*Fish, do inglês, peixe. Faz referência ao cheiro de uma vagina. Usa-se quando uma drag está extremamente feminina.

Como citar este texto

WITCH, Mia The. Drag feministas? Reflexões acerca dos limites entre a arte e o ativismo. Grafia Drag. 2023. Disponível em: https://www.ufrgs.br/grafiadrag/drag-feminista/. Acesso em: 27 Mar. 2023.

O descarte do estranho: a exclusão da diferença na cultura drag

Mia The Witch

Trabalhar com arte no Brasil – especialmente nos últimos 4 anos – não tem sido uma tarefa fácil. É de conhecimento geral que a nossa classe, além de sofrer diversos ataques, não tem recebido muitos incentivos, apesar da importância do papel cultural na formação da cidadania. Com isso, quero dizer que estou ciente sobre o quão desafiador é permanecer como agente da arte em períodos como o que recém passamos: um governo conservador que desde seu primeiro ano de mandato tratou a arte como se fosse um adorno fútil, uma trivialidade que poderia ser cortada do orçamento público sem gerar impactos sociais. 

Quando falamos de arte LGBTQIAP+, precisamos considerar que os estigmas pelos quais passamos, infelizmente, acarretam em ainda mais negligência das políticas culturais para nós. Entretanto, o que eu gostaria de abordar neste ensaio é como essa lógica excludente e estigmatizante promovida pela  heteronormatividade social acaba dificultando a inserção de artistas queers que não atendam a um padrão estético específico dentro da sua própria comunidade.

***

Eu me monto há 5 anos. Comecei minha jornada drag através de experimentos em casa, como um hobbie. Esse lazer foi se tornando cada vez mais frequente na minha vida, até que passei a produzir conteúdos para internet, criando minha persona. Essa persona, como já apresentei em outras publicações aqui no Grafia, diverge de um padrão estético hegemônico. O que me atrai na montação é o diferente. Sou uma bruxa com gosto no horror, no grotesco e peculiar, apesar de flertar com o glamour em muitas de minhas criações. 

Sendo uma pessoa não-binária, não adoto a prática de aquendar porque acredito que representações femininas são plurais e não se limitam à genitália. Também sou uma queen com pêlos corporais: o visual andrógino sempre foi uma das minhas maiores paixões. Essa é a Mia The Witch, uma drag monstra que desafia regras de normatividade impostas dentro do próprio ofício drag. 

Com todo esse tempo dentro da arte, acabei percebendo recentemente em mim o desejo de levar a Mia para fora dos ambientes digitais. Outra grande paixão que me fez começar o drag foi o encantamento que sempre senti pelo teatro. Assim, comecei uma nova jornada em busca de me tornar a performer que eu desejo ser. É exatamente nesse ponto que começou a surgir a problemática que orienta minha incomodação motivadora para escrever este ensaio. Tem sido frustrante perceber que os contratantes de arte drag em nossa cidade, Porto Alegre, ainda não estejam tão abertos e/ou receptivos à arte de queens que não emulem em sua persona um perfil a la Drag Race.

Na minha compreensão, o drag é uma arte plural que deve ser celebrada justamente pela sua capacidade de transformação constante. O ser drag é múltiplo. Não há apenas um modo de se exercer a arte drag, nem deveria existir um modo “correto” de se fazer. Acredito que a formação de nossas personas são processos extremamente íntimos, nos quais revisitamos a nós mesmos em busca dessa identidade artista, para, então, nascermos enquanto drags. Desse modo, como poderíamos julgar errado uma estética drag específica, se os diferentes estilos são resultados das subjetividades e experiências sociais e culturais de cada indivíduo?

O descarte do estranho
Tiffany Plazza e Mia The Witch
Fonte: arquivo pessoal

Confesso não conseguir compreender exatamente o motivo pelo qual existe ainda esse bloqueio no contrato de artistas que tenham abordagens drag alternativas ao padrão estético RuPaul. Posso levantar algumas hipóteses como, por exemplo, a dúvida sobre o potencial artístico, ou, o medo da rejeição do público à proposta do artista em questão. De qualquer forma, acredito que isso pode ser classificado como um preconceito infundado.  Considero que uma forma segura de qualificar o trabalho de um artista é verificando seu portfólio e o avaliando a partir dessas experiências, o que pode ampliar as oportunidades. Do contrário, me parece um boicote à produção artística em sua diversidade. 

Tal qual a sociedade impõe  normatividades sob nossos corpos queers, é necessário perceber os momentos em que adotamos esse mesmo mecanismo social dentro da nossa comunidade. Isso acontece, por exemplo, quando, no lugar de acolher as diferenças, considerando as experiências de rejeição que já vivenciamos, acabamos reproduzindo uma série de normas a serem seguidas, descartando todes aqueles que fogem desse padrão. 

Na minha visão, se nosso mercado local desconstruísse a ideia de que uma drag legítima é apenas aquela que se aproxima da estética RuPaul, haveria maior espaço para que as artistas alternativas fossem contratadas. Isso poderia fortalecer a cena drag porto-alegrense e, quem sabe, poderíamos nos tornar referência nacional na variedade de estéticas drag. Nossa cidade tem espaços incríveis para o desempenho da arte drag, há um público muito interessado em consumir a arte e também há abundância em artistas muito potentes. O que nos falta é parte dos contratantes locais perceberem que há muito mais ganhos apostando na diversidade da cena do que no descarte do estranho.

Nocivamente bela e rica: performances drag e a manutenção cis-masculina de estereótipos femininos

Mia The Witch

Que os artistas drags utilizam como inspiração para suas criações o universo da cultura pop, o qual é recheado de celebridades, não é novidade. Desde a globalização e democratização ao acesso de informações, sobretudo culturais, vemos drag queens se montarem tal qual a indústria construiu a imagem de divas como, Marilyn Monroe na década de 1950, e Madonna nos anos de 1980. 

Drag queens sempre utilizaram, entre outras referências, deusas da mídia para comporem suas personas. Esse fato acaba evidenciando uma fantasia constituinte do ser drag: o desejo de assemelhar-se com a fama. Desse modo, as poderosas beldades de Hollywood acabam ditando maquiagens que funcionam para a época, influenciam como nós nos vestiremos em nossos shows e como iremos estilizar nossas perucas, sob o prisma de fantasiarmos um universo de fama e glamour em nossos trabalhos como artistas.

Estética da fama e os estereótipos femininos

Penso que estamos presenciando uma Era em que a estética é supervalorizada. Estamos obcecados pela aparência física perfeita, investimos desejo em busca da fantasia pela fama, uma vez que nunca pareceu tão fácil obtê-la, afinal, temos todos os canais necessários na palma de nossas mãos. 

Influenciadores de pele macia e cabelos brilhosos, vestindo roupas caras (em parceria com marcas famosas), passam por nossos feeds o tempo todo. Assim, nosso imaginário se preenche com imagens estéticas da fama e do sucesso, somos instigados a desejá-las. Demonstrando isso, vemos o número de cirurgias plásticas crescendo: já somos os líderes no ranking mundial, como aponta estudo recente realizado pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP).

No universo drag, enxergo o reality show estadunidense Keep Up With The Kardashians (2006 – 2021) como contribuinte no estabelecimento das medidas vistas como perfeitas dentro do novo ideal de feminilidade. O reality apresenta o cotidiano das irmãs milionárias Kardashians e Jenner – Kourtney, Kim, Khloé, Kendall e Kylie, apresentando os bastidores da vida das estrelas e suas relações pessoais. 

O programa Keep Up With The Kardashians estreou em 2007 e conta atualmente com 20 temporadas disponíveis, evidenciando o seu total sucesso. Quando aponto o reality como fator na padronização de um ideal de beleza feminina dentro do universo drag, isso diz respeito ao fato das irmãs serem reconhecidas por seu formato de corpo “violão” e seus rostos magros com lábios carnudos, narizes finos e maçãs salientes – os quais são resultados de inúmeros procedimentos estéticos. 

Uma vez que a cena drag utiliza de fenômenos da cultura pop, e, sendo Keep Up With The Kardashians um dos realities de maior sucesso nas últimas duas décadas da televisão, é inevitável perceber sua influência na montaria das manas. Desde o lançamento do reality, temos visto como as percepções de corpos femininos entre as artistas drags correspondem, direta ou indiretamente, à imagem corporal apresentada por Kim e suas irmãs. Esse fato não se limita a execução da maquiagem excessivamente contornada – outra marca do visual Kardashian – mas também pelo uso de enchimentos para alargar os quadris, corselets para afinar ao máximo a cintura e até próteses falsas de seios avantajados. 

Há, ainda, artistas que vão além do uso de mecanismos ilusórios como maquiagem e espuma corporal, na busca desse ideal de feminilidade, e recorrem às cirurgias plásticas. Lábios inchados, narizes enfaixados e silicone nos glúteos são cada vez mais comuns como ferramentas da montação de artistas drag do mundo todo. 

Mia The Witch e os estereótipos femininos
Mia The Witch
Fonte: Arquivo pessoal

Cirurgias plásticas na montação drag

Minha intenção aqui não é demonizar o estilo de vida das Kardashians e muito menos pretendo insinuar como outro artista deve pensar a sua arte. O que busco com esse ensaio é lançar considerações acerca desse fenômeno e problematizá-lo sob o objetivo de refletirmos sobre esse assunto. Não busco necessariamente por respostas, mas sim por indagações. 

Sendo eu uma pessoa não-binária que faz drag, sempre me causou um tanto de desconforto as performances que optam seguir um modelo patriarcal na sua ilusão feminina. Acredito que o artista é um ser livre e deve criar conforme ele se sinta melhor representado pelo resultado do seu trabalho, desde que isso não fira os direitos de outros grupos. O que quero trazer para discussão é o quanto esse padrão vigente de feminilidade que estourou na mídia também graças ao sucesso e fama da família Kardashian, tem impactado a cena drag a ponto de incluirmos em nossas montarias o recurso das cirurgias plásticas. Isso, como se esses procedimentos fossem tão simplórios quanto a nossa usual prática de passar tinta no rosto.

Isso me leva a pensar que a busca por esses padrões de feminilidade podem chegar em patamares não saudáveis, perigosos e, em muitos casos, até fatais. E aqui, é sensato da minha parte salientar que minha opinião não inclui artistas drags que se identificam enquanto mulheres trans, visto que enxergo os motivos pelos quais a população trans recorre a esses procedimentos como uma maneira de buscar por dignidade em quem realmente são. Minha crítica é sobre homens cisgêneros que perpetuam a opressão de gênero em suas montações e, por sua vez, acabam escolhendo se submeterem a uma pressão estética destrutiva – o que, de longe, é uma escolha para mulheres.

Penso que a arte drag é livre, expressiva e divertida. Porém, também considero que deva ser realizada com grande senso de responsabilidade perante nossas escolhas – responsabilidade a qual não enxergo em algumas performances de homens cisgêneros que optam por reforçar diversos estereótipos de gênero que o movimento feminista tanto luta para romper. São questões delicadas de se discutir, visto que em alguns casos são linhas tênues que podem diferenciar algumas opressões da liberdade de expressão, mas que se fazem totalmente necessárias para um avanço social no qual nenhuma pauta precise recuar para proporcionar o avanço da outra.

Quando um homem cisgênero escolhe, para fazer o seu ato drag, sofrer pressão estética tal qual as mulheres sofrem socialmente, evidencia-se uma série de fatores de privilégios sociais masculinos. Primeiramente,  porque as mulheres não optam por sofrer ou não tais pressões: a sociedade sempre lhes impôs de forma normativa. Desde sua criação na família, as mulheres recebem ensinamentos de como devem aparentar, de quais são os locais de bom senso para uma mulher ocupar e uma série de outras regras e limitações baseadas no gênero. 

No caso da realização de cirurgias plásticas, enxergo que homens cisgêneros escolhem ser agentes que trabalham para elevar o nível de tais padrões estéticos, os quais geram uma série de sofrimentos e transtornos na saúde mental de mulheres, consequentemente operando para aumentá-los ainda mais.

De forma mais direta, o que gostaria de trazer para essa discussão são alguns questionamentos como: I) enquanto artistas drags, majoritariamente queers, precisamos recorrer a um sistema patriarcal para desempenharmos as ilusões de feminilidade em nossos trabalhos?; II) artistas drags masculinos cisgêneros estão cientes de que, uma vez se utilizando de signos deste sistema patriarcal que estabelece o que é ser feminino, estão operando como agentes de manutenção de opressões que afetam mulheres há décadas em nossa sociedade?; III) estes mesmos artistas masculinos e cisgêneros vêem que estão colaborando para além da manutenção, também para uma elevação do padrão ideal de feminilidade quando optam por se submeterem a cirurgias plásticas em prol de sua drag aparentar ser bela e rica?; e IV) quais são os limites para que a liberdade de expressão drag não sobrepasse reivindicações da luta feminista? 

Como dito anteriormente, não trago respostas. Contudo, acredito que a reflexão acerca dessas questões seja um passo necessário para que possamos produzir a mudança social que almejamos. Queremos – e deveríamos – viver em um mundo confortável que nos abrigue, mas o nosso conforto não deve ser justificativa para o desconforto alheio.

Nasce uma drag monstra

Mia The Witch

Eu não me recordo a idade exata que eu tinha quando eu conheci uma drag queen, mas certamente foi ainda na infância. Aqui, vale ressaltar que fui uma criança dos anos 1990, sabemos que a época dos fatos tem certo peso sobre eles ao orientar perspectivas sociais. As primeiras drags que conheci foram pela televisão: Vera Verão e Nany People. Lembro de achá-las muito divertidas, sempre sorrindo e fazendo sorrir quem contracenava com elas nas esquetes dos programas que faziam parte. Ao mesmo tempo, eu não entendia muitas das piadas e nem tinha ideia do porquê as pessoas com quem eu convivia (família, colegas de escola, professores, etc.) não gostavam ou tiravam sarro delas. Fui condicionada pelo meio social a esconder meu interesse pelo trabalho delas, mesmo sendo elas tão encantadoras à minha criança. Não era tido como de bom tom gostar de uma drag queen naquele contexto.

Anos mais tarde, por volta de 2014, descobri o trabalho de Lorelay Fox no YouTube. Essa descoberta coincidiu com o período em que eu tinha me assumido como uma pessoa LGBTQIAP+ aos meus pais e amigos. Os vídeos didáticos de Lorelay foram me fazendo entender mais sobre assuntos queers e me dando orgulho de ser quem eu sou – orgulho esse que não existia antes em mim e era ocupado por um sentimento terrível de inferioridade. Lembro que em um de seus vídeos, Fox disse que a drag queen é como uma porta-voz da comunidade LGBTQIAP+; que, através da arte e do encantamento proporcionado pela  drag  ao público, ela se torna hábil de ser uma comunicadora eficaz e abre espaços de diálogo com o objetivo diminuir a exclusão social de pessoas queers. Acho que foi assistindo a  esse vídeo que um estalo se deu em mim e me fez pensar: “Eu quero ser uma drag queen!”.

Aliado a isso, comecei a consumir cada vez mais conteúdos drags e descobri meu amor por RuPaul’s Drag Race. A partir do programa, meu deslumbramento pela arte drag tomou uma proporção ainda maior. Eu via no trabalho daquelas participantes uma ligação muito forte com o que eu queria fazer, mas que desde a infância fui ensinada a abafar em mim. O universo de Drag Race era muito viciante, me cativava de uma forma que eu me pegava em vários momentos do dia me imaginando em vestidos que vi na passarela do programa ou em como eu dublaria músicas que apareceram no show.

Drag Race moldou a ideia da primeira drag queen que eu queria me tornar. Arrisco a dizer que não só a mim, mas como a maioria das drag queens da nova geração. A ideia desse reality show, em teoria, me parecia fabulosa: pegar uma arte marginalizada, dar umas boas modeladas nela e a transformar em uma arte de entretenimento mainstream. Entretanto,

na prática, acredito que a disputa acirrada apresentada por RuPaul acabou criando regras e limitações demais para uma arte que era sobre ser livre para se expressar da forma que sentimos ser a nossa melhor versão.

É necessário reconhecer que o público teve acesso e aprendeu sobre a arte drag a partir desse show, o que evidencia sua relevância para a cena drag contemporânea. Contudo, ao mesmo tempo, esse reality elenca hierarquicamente um tipo específico (ou tipos específicos) de artistas e todos que destoam desse padrão “racer” passaram a ser comparados e inferiorizados por parcela dos fãs do programa, incluindo aí algumas drags que reproduzem esses padrões. 

Por esse caminho, uma drag queen só teria seu valor reconhecido pelo público, mesmo na cidade em que se apresenta, quando se assemelha com o que é visto sobre drag na competição televisiva.  Vejo nesse pensamento um ato de redução das expressões drag, mesmo depois de mais de uma década de programa e suas discretas tentativas de se tornar  um show com linguagens diversas. Isso me incomoda, não me interessa ser uma artista padrão “racer”. 

Mia The Witch drag monstra
Mia The Witch
Fonte: Arquivo Pessoal

Minha estética drag é bem diferente do que habitualmente aparece no show. Enxergo a minha arte como uma forma política de contestar imposições de gênero que me aborrecem desde a minha infância.

Eu sou uma pessoa não-binária. A vida inteira tentaram me encaixar em um lugar duro, desconfortável e cruel em relação ao meu gênero. A Mia nasceu como uma forma de o Patrick explodir essas caixas. Sendo assim, minha drag nunca foi feminina de um modo patriarcal. Enxergo que minhas escolhas estéticas – que são, sobretudo, escolhas políticas – incomodam e tiram o conforto de alguns espectadores. Eu ser uma drag queen com pelos em todo o corpo, que não usa enchimentos corporais e não aquenda faz com que muitos nem me considerem uma drag queen de verdade. Acredito que esse também seja o papel do artista: incomodar; fazer sentir desconforto; tirar a pessoa de um lugar de certezas imutáveis e acolhedoras. 

Apesar de ter uma paixão imensa por referências glamourosas, como a Old Hollywood ou o cenário pop atual com divas como Lady Gaga e Pabllo Vittar, enxergo minha arte como uma expressão de contra-revolta. Tento quebrar essas regras que foram impostas aos artistas drag. Por isso, eu me considero uma drag monstra. 

O dicionário Oxford traz para o verbete “monstro”:

  1. ser disforme, fantástico e ameaçador, ger. descomunal, que pode ter várias formas e cujas origens remontam à mitologia.
  2. qualquer ser ou coisa contrária à natureza; anomalia, deformidade, monstruosidade.

Eu sou a monstra das drags. Sou uma drag que, do seu próprio modo, aprendeu a se incluir como artista num espaço que não se sentia bem-vinda por não se encaixar às “normalidades” próprias a esses lugares. Depois de 4 anos de montaria, estou encontrando quem sou enquanto artista e encorajo a todes que, assim como eu, se incomodam com essas regras, a se rebelarem. A arte é livre. E nós também devemos nos sentir assim. 

Vamos quebrar o CIStema!