Reprovação nos anos iniciais: diferentes pontos de vista

O medo de reprovar é um sentimento que costuma rondar os estudantes no ambiente escolar. Entre os educadores, o tema é motivo de discussão e parece estar longe de haver consenso. Desde 2010, resolução do CNE (Conselho Nacional de Educação), que estabelece as Diretrizes Curriculares Nacionais, recomenda que não deva haver reprovação nos dois primeiros anos do Ensino Fundamental. Segundo o documento, as três séries iniciais constituem o ciclo da alfabetização e letramento. Ao final dele, quando a criança tiver oito anos, deve estar alfabetizada.

A Secretaria da Educação do Rio Grande Sul justifica a não reprovação dos alunos nos primeiros anos “para evitar que as crianças de seis anos sejam submetidas prematuramente à cultura da repetência e que não seja indevidamente interrompida a continuidade dos processos educativos”. Entretanto, a nova  BNCC (Base Nacional Comum Curricular), aprovada em 2017, antecipa o fim da alfabetização para o final do 2º ano do Ensino Fundamental, quando os alunos têm sete anos. Segundo reportagem do portal G1, o MEC (Ministério da Educação) já estaria estudando a possibilidade de “priorizar” a alfabetização das crianças no 1º ano do Ensino Fundamental. As escolas têm até 2020 para adotar a nova diretriz.

 

Promoção sem conhecimento

Na Escola Estadual Gentil Viegas Cardoso, a orientação de não reprovar nas séries iniciais é entendida como equivocada, pois causa déficit para alunos no final do ciclo de alfabetização, quando há muitas reprovações. A professora Denise Tavares, da turma de 3º ano do Fundamental, conta que recebe estudantes que ainda não estão alfabetizados. Para ela, a orientação do MEC é arbitrária. “Antigamente, se a criança estivesse na 1º série e não atingia os objetivos, era reprovada. Hoje, não. Atingindo ou não, [o aluno] é promovido. Não é uma questão do professor querer ou não passar. Quem já definiu que o aluno já está passado é o governo. O que é um grande erro. [O estudante] queima aquela etapa”, contesta.

A supervisora da escola, Cristina Coelho, questiona a forma como os pais encaram os primeiros anos do aluno no colégio.

 

Os reflexos da não reprovação nos anos iniciais podem aparecer também nos números. Para o vice-diretor, Julio Idiarte, as avaliações do governo precisam ser vistas de forma mais ampla.

 

As consequências de uma alfabetização problemática podem acompanhar o sujeito para o resto da vida. A professora de português dos 2º e 3º anos do Ensino Médio Andreia Guimarães afirma que a cada ano há um déficit maior nos alunos. “A grande dificuldade é na produção textual. Não iniciam parágrafo, nomes próprios aparecem com letra minúscula, não conseguem fazer início, meio e fim de um texto. Há muita dificuldade de interpretar um enunciado, não só no português, mas em outras áreas também.” A educadora acredita que os professores, em geral, baixaram o nível de exigência nos últimos anos devido à defasagem dos alunos. Conforme ela, no Ensino Médio acaba-se tendo que suprir conteúdos que seriam do Fundamental. Como consequência, o aluno sai da escola sem ter aprendido todos os conteúdos previstos.

 

Mudança de métodos

Além das consequências educacionais, a reprovação pode causar frustrações emocionais nas crianças. É o que defende a coordenadora de projetos do Movimento Todos Pela Educação, Thaiane Pereira. Ela é a favor da não reprovação nos dois primeiros anos do Ensino Fundamental e avalia que não adianta repetir o método que já foi ineficiente uma vez. “Mais importante do que reprovar ou não é que as redes de ensino se preocupem em criar programas de recuperação e reforço para essas crianças, tendo em vista métodos de ensino e aprendizagem inovadores”, salienta.

Já a professora do curso de pedagogia da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) Patrícia Camini, que também é a favor da não reprovação no 1º e 2º anos do Ensino Fundamental, ressalta, por outro lado, que é preciso mudar o método para que o aluno possa assimilar o conteúdo. A professora defende uma renovação nas metodologias para que a reprovação não seja o único meio de informar para o governo que a aprendizagem está deficitária.

 

Patrícia também alerta para os métodos de ensino. Segundo ela, o professor precisa ter um vasto repertório de metodologias e ser capaz de identificar qual é a mais eficiente em cada caso. Quanto à falta de importância que os pais dão ao primeiro ano, como relatado pela supervisora Cristina, a professora da UFRGS afirma que a escola tem de orientar os responsáveis sobre importância do primeiro ano de alfabetização. “Muitas vezes, confunde-se 1º ano com educação infantil. A alfabetização seria o que deu para fazer. Não é isso, há metas de aprendizagem e isso precisa ser ajustado.”

Justificar os números ruins da alfabetização brasileira requer uma análise profunda de todos os fatores que influenciam no processo. Não é uma tarefa de simples resolução. É preciso investimento, debate e prática para poder alcançar resultados melhores. O que parece inadmissível é que adultos continuem encarando o simples fato de juntar as letras como um bicho-papão.


Introdução


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FOTO: Rene Almeida/Humanista

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