Artigo | Doutoranda em Sociologia, Bibiana Poche Florio aponta a importância da adaptação cultural e da comunicação clara quando se adotam novas tecnologias
*Ilustração: Maria Eduarda Pacheco (@afrokilljoy)/@histpraticart)/Programa de Extensão Histórias e Práticas Artísticas/DAV-IA/UFRGS
A série “Silicon Valley” (2013-2019), da HBO, já acabou há algum tempo, mas segue bastante atual em diversos episódios. Em junho de 2016, foi lançado o episódio nove da terceira temporada, chamado Daily Active Users (em português, usuários ativos diários), e nele conseguimos ver alguns desdobramentos atuais do que se tem chamado Transformação Digital (TD). A partir desse episódio e de uma visão de usuários comuns, procuro debater a seguir as mudanças culturais requeridas pelas inovações e novas tecnologias.
Primeiro, vale dizer que “Silicon Valley” é uma sitcom que possui personagens baseados em grandes nomes da inovação do Vale do Silício e tem seu enredo em torno de uma startup fictícia, a Pied Piper, que busca seu lugar ao sol no ramo. Desse modo, a Pied Piper é uma ilustração relevante dos caminhos que uma startup trilha, com seus momentos de sucesso – por exemplo, quando recebe seu primeiro grande investimento – ou pontos de crise – como ter seu CEO e fundador sendo retirado desse cargo (depois de algum tempo conseguindo retornar).
No episódio Daily Active Users, da terceira temporada, a startup, depois de várias idas e vindas, conseguiu alcançar uma elogiada versão de pré-lançamento (versão beta) e acaba de divulgar seu aplicativo para o grande público. Parece ser um grande sucesso, pois, em certo momento, chegam a 500.000 downloads. No entanto, existe um problema: mesmo com esse elevado número, seus usuários diários giram em torno de 20 mil pessoas. Ou seja, as pessoas instalam o programa mas não o utilizam. O que isso significa? Por que a versão beta foi elogiada e no dia a dia não se tornou um sucesso real?
A questão principal é respondida na sequência: a versão beta foi enviada para colegas e conhecidos engenheiros, isto é, aqueles que conseguem utilizar o programa são pessoas altamente capacitadas. Não é o usuário comum. A pessoa comum não quer nem tem tempo de compreender a grandiosidade por trás das inovações trazidas pela startup – sobre compressão de dados. Cotidianamente, as pessoas não têm interesse se a startup ganhou um prêmio aqui ou ali. Para elas usarem, elas precisam ver algum valor no que se está acessando.
Isso também é demonstrado na série na cena em que um grupo focal, com pessoas comuns e diversas, explora o programa Pied Piper e prontamente as pessoas dizem ser complicado demais. Em um momento de frustração, o fundador e CEO, que observava tudo por um espelho falso, interrompe o grupo focal para explicar às pessoas o quão inovador é o produto. Na cena, ele precisa de um quadro branco, um certo tempo e um tira-dúvidas aprofundado para que as pessoas ali finalmente compreendessem o que estava sendo proposto. A partir desse momento, a direção da startup percebe que precisa explicar com mais afinco seu produto para o consumidor final (leigo), procurando investir em workshops e mídias no geral.
Assim, o programa Pied Piper contribui massivamente com processos de digitalização, mas nem por isso é popular entre as pessoas. Com esse exemplo, podemos ver como a chamada Transformação Digital é difícil na prática, como inovações sem pessoas reais utilizando não parecem fazer muito sentido e como as mudanças culturais têm sido cada vez mais necessárias para o uso de tecnologias.
O tema Transformação Digital está cada vez mais presente no ambiente de negócios, sobretudo quando se tem debatido cotidianamente as potencialidades de novos processos associados à Inteligência Artificial (IA). O exemplo de Pied Piper é simbólico para se pensar como existe, por vezes, um descompasso entre empresas de tecnologias e seu público-alvo, sobretudo aqueles de larga escala. Em termos tecnológicos, existem inovações surgindo no mercado digital todo o dia. As inovações sem pessoas reais as utilizando estão, contudo, fadadas a ficarem nichadas ou a desaparecerem.
As inovações associadas aos processos digitais têm sido exigentes com as pessoas comuns. As mudanças culturais ocorrem, mas não sem antes haver resistência, má vontade e, por que não, algum tipo de coerção no ambiente de trabalho (“esse software inovador que deve ser usado a partir de agora… somos uma empresa que inova”, pode vir a ser a fala de diversos CEOs). Claro, existe um mercado fortemente competitivo e a Transformação Digital, enquanto jargão, tem sido um diferencial relevante para empresas que querem ser percebidas como coerentes com o seu tempo.
No entanto, existem mudanças culturais demandadas pelas novas tecnologias que vêm pressionando pessoas comuns a se adaptar. Em suma, as pessoas leigas necessitam cada dia mais absorver novos conhecimentos a fim de utilizar as novas tecnologias. Só que, vale lembrar, as pessoas são seres reflexivos, e essa tradução do conhecimento em prática diária não ocorre de forma automática. Há acomodações e processos de convencimento indispensáveis.
Assim, de maneira leve e cômica, Pied Piper nos ajuda a enxergar as lacunas nas maravilhas prometidas pela Transformação Digital, lembrando que, mesmo em um mundo de alta tecnologia, as pessoas continuam sendo fundamentais para o sucesso desses processos. É fundamental prestar atenção tanto a quem vai usar as tecnologias quanto às próprias soluções desenvolvidas.
Bibiana Poche Florio é doutoranda no Programa de Pós-graduação em Sociologia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e participa do “Grupo de Estudos da Inovação” (GEI/UFRGS/CNPq). Possui interesse em Estudos da Inovação, Inovação em Saúde, Transformação Digital e Sociologia Econômica. Tem como hobby apreciar produções audiovisuais e literárias.




