O reflexo ausente nas fotografias da série “Meu ponto de vista”, de Mariane Rotter

Pinacoteca | Marcelo de Souza Silva, estudante de História da Arte, explora as relações entre autorretratos, identidade e espelhos em conjunto de obras pertencentes à coleção do Instituto de Artes da UFRGS

*Foto: corte de “Meu ponto de vista: check-in”, Unser Haus, 2017/ Mariane Rotter

Quem nunca foi ao banheiro de um restaurante ou shopping e, antes de sair, deu uma espiadela no espelho para ver se o cabelo estava arrumado e a aparência boa? É uma situação tão comum que ninguém sequer pensa sobre ela. Mas esse não é o caso da artista gaúcha Mariane Rotter (Ijuí, RS, 1975), que fez desse momento o motivo principal da série de fotografias Meu ponto de vista, na qual trabalha desde 2002.

Não tem maiores segredos: Rotter simplesmente se posta em frente ao espelho, posiciona o celular na altura dos olhos e bate a foto. No entanto, o que se vê nessas imagens são espelhos que não refletem ninguém, ou apenas parcialmente uma pequena fração da cabeça de alguém. Explico: Rotter tem um metro e trinta centímetros de altura e seu ponto de vista é o de quem, via de regra, não consegue se enxergar nos espelhos desses banheiros de uso coletivo, pois eles costumam ser posicionados nas paredes pela estatura média das pessoas, ficando muito altos para ela.

Meu ponto de vista: check-in, Mamute, 2018. Fotografia, 50×38 cm. Acervo Artístico da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo. Imagem: Mariane Rotter
Meu ponto de vista: check-in, Unser Haus, 2017. Fotografia, 50×38 cm. Acervo Artístico da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo. Imagem: Mariane Rotter

A série tem centenas de fotografias, sendo que a Pinacoteca Barão de Santo Ângelo possui algumas em seu acervo, entre elas: Anotações na Estrada (2021), Mamute (2018), Ocidente (2019) e O Pátio (2021). Embora essas fotos de Rotter nos mostrem pias, torneiras e paredes com diversos tipos de revestimento, seu ponto fulcral são os espelhos.

Presentes em nossas vidas desde a infância, os espelhos cumprem papéis de extrema relevância. Para o psicanalista francês Jacques Lacan (1901-1981), é a partir do reconhecimento de sua imagem no espelho pela primeira vez que a criança começa a formar sua própria identidade. Na história da arte, é comum encontrarmos imagens da deusa Vênus se contemplando no espelho, vinculando-o assim a sentimentos de autoestima e vaidade, um objeto associado à percepção de si mesmo e à consciência da beleza. No mito de Narciso, no entanto, o espelho se transforma em um instrumento alienante, fonte de servidão e paralisia. Hoje em dia, vemos que padrões inatingíveis de beleza podem tornar o espelho uma fonte de angústia e de sentimentos de inadequação.

Em uma das formas atuais mais comuns de retrato, as selfies, a imagem obtida tanto no reflexo do espelho quanto na própria tela do aparelho celular é fixada pelo ato de fotografar, em uma ação na qual o indivíduo procura se representar e identificar. Com isso, a parte do corpo que mais costuma ser fotografada é o rosto, que traz os elementos que sintetizam a identidade social.

Nas fotografias de Rotter, percebe-se que a artista busca o reflexo do seu rosto nos espelhos dos banheiros que frequenta, mas não o encontra. Se o espelho é historicamente esse lugar de autorreconhecimento, de afirmação da identidade e de construção da própria imagem, aqui ele se constitui uma negação, uma interdição física que se desdobra assim em uma exclusão simbólica do espaço social, acompanhada de uma mensagem subliminar que parece dizer: “isso não foi feito para você”.

Mariane Rotter (Ijuí, RS, 1975). Meu ponto de vista: check-in, Ocidente, 2019. Fotografia, 50×38 cm. Acervo Artístico da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo. Imagem: Mariane Rotter
Mariane Rotter (Ijuí, RS, 1975). Meu ponto de vista: anotações na estrada, 2021. Fotografia 30×20 cm. Acervo Artístico da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo. Imagem: Mariane Rotter

Mas Rotter captura o reflexo de qualquer modo, ou seja, ela faz seu autorretrato da forma que lhe é possível. E o que se vê nas imagens são autorretratos sem rosto, apenas com vestígios de um corpo muito precariamente refletido nos espelhos ou até completamente ausente.

Um autorretrato desprovido de feições, que não singulariza sua autora, mas que, embora difuso e indistinto, parece querer nos lembrar de que há um corpo real ali, à margem do espelho, lutando para alcançá-lo e se constituir uma imagem com identidade própria.

Falando sobre seu trabalho, Rotter declarou que seu corpo é a medida do mundo para ela, a medida do seu mundo. E qual é a medida do nosso mundo? Será que ela contempla pessoas com corpos fora dos padrões médios? Todas essas reflexões estão presentes na obra singular da artista Mariane Rotter, uma poderosa síntese visual sobre a violência dos processos de exclusão social presentes até mesmo nesses espaços pelos quais passamos sem dar maior importância.

Mariane Rotter (Ijuí, RS, 1975). Meu ponto de vista: check-in, O Pátio, 2021. Fotografia, 50×38 cm. Acervo Artístico da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo. Imagem: Mariane Rotter

Marcelo de Souza Silva é bibliotecário e aluno do Bacharelado em História da Arte do Instituto de Artes da UFRGS.
Este texto foi produzido para a disciplina Laboratório de Pesquisa em História da Arte II, sob orientação de Alexandre Santos.

Quinzenalmente, estudantes e pesquisadores apresentam obras da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo a partir de diferentes aspectos. A seção tem curadoria de Camila Monteiro Schenkel e Gabriela Motta.