Estudar e trabalhar: desafios da permanência na Universidade

Ampliação nas oportunidades de estudo no Ensino Médio e universitário também aumentou ingresso de pessoas que precisam trabalhar para manter frequência e permanência na universidade. Na imagem, jovens desenvolvem atividades em grupo envolvendo notebooks e computadores

Artigo | Gabrielle Bezerra da Silva, mestranda em Geografia, relata sua experiência ao conciliar a graduação com atividades laborais

*Foto: Pietro Scopel/JU

Ao dar um google na frase “jovens que estudam e trabalham” em busca de dados oficiais, o que mais aparece são matérias e reportagens sobre aqueles que não estudam nem trabalham – os chamados, de forma bastante equivocada, de “jovens NEM-NEM”. Apoiada em estudos do campo das juventudes, prefiro utilizar o termo “SEM-SEM”, como forma de questionar se vivemos, de fato, em uma realidade em que há oportunidades de estudo e trabalho para todas/os. Trata-se de uma discussão necessária (e, para isso, recomendo o texto de Rocha et al., 2020), mas a ideia aqui é falar sobre a situação de um outro grupo: aqueles que dividem o tempo entre estudos e trabalho (e que, curiosamente, não possuem um termo tão popular que os defina).

Como destacam os pesquisadores Helena Wendel Abramo, Gustavo Venturi e Maria Carla Corrochano, a ampliação do acesso ao Ensino Médio e ao Ensino Superior nas últimas décadas permitiu que jovens de famílias historicamente excluídas passassem a ocupar esses espaços. No entanto, a permanência nas instituições de ensino continua a ser um grande desafio, já que muitos estudantes se encontram inseridos – formal ou informalmente – no mercado de trabalho.

Em 2023, o Brasil registrou quase 8 milhões de jovens entre 15 e 29 anos nessa situação, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No caso dos estudantes universitários – dentro e fora dessa faixa etária –, o acúmulo de funções tem um preço: cansaço, sensação de não dar conta, dificuldades de aprendizagem, menor envolvimento acadêmico e, muitas vezes, o abandono do curso. O sonho de ingressar na universidade se mistura com uma preocupação constante: como permanecer nela?

A verdade é que não tenho uma resposta a essa pergunta e, ainda hoje, no mestrado, lido com ela. Minha experiência de conciliar estudos e trabalho se iniciou no Ensino Médio, quando, além da escola, fiz estágios e programas como Jovem Aprendiz. Depois disso, passei a trabalhar em tempo integral, o que acabou adiando por pelo menos três anos o sonho de cursar a Licenciatura em Geografia. Quando finalmente passei no vestibular, a felicidade foi imensa, claro, mas a partir daí novos desafios começaram. No meu primeiro semestre, trabalhava em horário comercial e, saindo da empresa às 18h, precisava chegar ao Câmpus do Vale às 18h30min – ou seja, era impossível assistir ao início das aulas. Muitas vezes, as leituras dos textos e os momentos de estudo ocorriam nos longos trajetos da linha 286 (quando havia lugar para ir sentada). Ao chegar em casa, o ritual era basicamente jantar, tomar banho e ir dormir, antes de recomeçar tudo no dia seguinte.

Considerando a correria dessa rotina, me vi diante de algumas opções: abandonar ou trancar o curso por um tempo, prolongá-lo por vários anos ou largar o emprego, ir atrás de uma bolsa na Universidade e adiantar o máximo de disciplinas que eu podia. Optei/pude optar pela última alternativa e, embora tenha conseguido concluir a graduação em tempo reduzido, foi doloroso passar a receber R$ 400,00 por mês (valor da bolsa até 2023), afinal, é preciso viver em algum lugar, pagar aluguel, alimentar-se, vestir-se, deslocar-se pela cidade, comprar materiais, etc.

Lembro-me também das aulas do turno da noite, de não conseguir assisti-las até o final por conta do horário do ônibus; do cansaço aumentando conforme a semana ia chegando ao fim… Ainda que essa seja uma realidade compartilhada, faz parte dela uma pluralidade de estudantes que se adaptam, à sua maneira, às situações de ensino e trabalho que vivenciam, e cujos percursos são constantemente moldados, transformados, alongados, interrompidos e/ou retomados.

Reconhecer essa diversidade de histórias e trajetórias acaba sendo essencial para a construção de políticas e medidas – dentro e fora da universidade – que mitiguem os desafios da permanência no espaço acadêmico para quem precisa estudar e trabalhar.

Concluir a Licenciatura, ingressar na pós-graduação e conseguir um emprego como professora de Geografia foi a conquista de um grande sonho, apesar de hoje meu tempo ser dividido entre aulas em duas escolas, planejamento e correção de diversas atividades, desenvolvimento de pesquisa no mestrado e outras demandas.

A partir do que venho acompanhando e vivenciando nesses anos, posso afirmar que permanecer no espaço universitário é uma luta constante. A sobreposição entre estudos e trabalho impõe desafios significativos, tornando fundamental ampliar as reflexões sobre seus impactos, sobretudo na busca de condições mais dignas para aqueles que equilibram cotidianamente essas atividades. Enquanto isso, seguimos criando caminhos e estratégias de sobrevivência acadêmica.


Gabrielle Bezerra da Silva é licenciada em Geografia pela UFRGS, mestranda no Programa de Pós-graduação em Geografia da UFRGS (POSGEA/UFRGS) e professora de Geografia na Educação Básica.


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