Booktubers e as bibliotecas públicas

Artigo | Giovana Fagundes, bacharela em Biblioteconomia, propõe o uso de mídias sociais, a colaboração com influenciadores e a oferta de espaços de criação de conteúdo digital para atrair e fidelizar novos leitores

*Ilustração: Aline Rebelo/ Programa de Extensão Histórias e Práticas Artísticas, DAV-IA/UFRGS

Em um mundo cada vez mais digital, os influenciadores literários estão revolucionando a forma como os jovens se relacionam com a leitura. A pesquisa realizada em meu trabalho de conclusão de curso aponta que os Booktubers, criadores de conteúdo que compartilham resenhas e recomendações de livros em plataformas como YouTube, têm papel fundamental na promoção da leitura e podem ser aliados estratégicos das bibliotecas na contemporaneidade.

De acordo com o estudo, os Booktubers utilizam formatos dinâmicos e interativos, como book hauls (apresentação de novos livros adquiridos), resenhas e desafios literários, para engajar públicos diversos, especialmente jovens leitores. Essas práticas tornam a experiência da leitura mais acessível e envolvente, criando comunidades virtuais ativas que trocam experiências sobre diferentes gêneros e títulos. Além disso, o estudo identificou que os vídeos de Booktubers possuem alto grau de engajamento, com milhares de comentários e compartilhamentos, criando uma rede de leitores ativos e conectados que discutem e indicam livros uns aos outros.

Os conteúdos mais populares dentro dessa comunidade incluem análises aprofundadas de livros clássicos e contemporâneos, debates sobre adaptações cinematográficas de obras literárias e até mesmo desafios de leitura, como maratonas literárias. A pesquisa identificou que esses influenciadores também utilizam estratégias visuais e narrativas para manter a atenção dos espectadores, como edições dinâmicas, trilhas sonoras envolventes e elementos gráficos que tornam o conteúdo mais atrativo.

Apesar do impacto positivo dos Booktubers na formação de novos leitores, a pesquisa indica que há ainda uma lacuna na interação entre essas iniciativas digitais e as bibliotecas públicas. Embora muitas das obras mencionadas pelos influenciadores estejam disponíveis nos acervos, ainda falta uma estratégia eficiente de divulgação e engajamento entre essas instituições e o público jovem. O estudo revelou que a maioria dos jovens leitores descobre novos títulos por meio das mídias sociais, mas raramente associa essas descobertas ao acervo disponível nas bibliotecas públicas.

Para solucionar essa questão, proponho que bibliotecas adotem estratégias de comunicação inspiradas nos formatos dos influenciadores digitais. Entre as propostas estão a criação de conteúdos multimídia para apresentar novas aquisições, a promoção de clubes de leitura mediados por Booktubers e a realização de eventos literários presenciais e virtuais. Além disso, a pesquisa destaca que a implementação de espaços interativos nas bibliotecas, como estúdios para criação de conteúdo digital, pode atrair influenciadores literários e incentivar a divulgação desses espaços para um público mais amplo.

A pesquisa também destaca que os leitores conectados a comunidades digitais desenvolvem maior criticidade e engajamento com a literatura. Essa interação reflete-se no mercado editorial, em que livros resenhados por influenciadores frequentemente alcançam altas vendas e despertam o interesse de novos leitores. O levantamento de dados apontou que algumas editoras já reconhecem o impacto dos Booktubers e firmam parcerias estratégicas com esses criadores de conteúdo, enviando lançamentos exclusivos e incentivando a produção de resenhas e vídeos promocionais.

Os influenciadores digitais conseguem criar uma ponte entre a literatura e o cotidiano dos jovens, tornando a leitura um hábito prazeroso e acessível. A relevância dessas interações também é percebida no crescimento do número de clubes de leitura virtuais, que incentivam debates e compartilhamento de experiências literárias. A pesquisa apontou que muitos desses clubes utilizam plataformas como Telegram e Discord para promover discussões diárias sobre as leituras, ampliando ainda mais o alcance e a permanência do interesse dos leitores.

Embora os dados apontem avanços na disseminação da leitura por meio das mídias sociais, há desafios a serem superados. A falta de parcerias formais entre bibliotecas e influenciadores, bem como a necessidade de adaptação das bibliotecas às novas formas de comunicação digital, são barreiras que ainda precisam ser enfrentadas. A resistência de algumas instituições em adotar estratégias de marketing digital, aliada à escassez de investimentos na modernização desses espaços, dificulta a ampliação da presença digital das bibliotecas.

A pesquisa conclui que, para manter sua relevância na era digital, as bibliotecas precisam se reinventar e estabelecer conexões mais sólidas com o universo virtual. O uso estratégico das mídias sociais, a colaboração com influenciadores e a oferta de serviços interativos podem ser a chave para atrair e fidelizar novos leitores. Um exemplo de sucesso identificado foi o de bibliotecas internacionais que implementaram campanhas publicitárias em parceria com influenciadores literários, resultando em aumento significativo do número de visitantes e empréstimos de livros.

Dessa forma, os Booktubers não apenas promovem a literatura, mas também despontam como aliados fundamentais na construção de uma sociedade mais leitora e conectada com o conhecimento. A pesquisa enfatiza que a interseção entre tecnologia, entretenimento e leitura pode ser a chave para garantir que as bibliotecas continuem sendo ambientes de aprendizado e inclusão em um mundo cada vez mais digital.


Giovana Duarte Fagundes é bacharela em Biblioteconomia pela UFRGS e desenvolveu a pesquisa “Influenciadores digitais na promoção da leitura: perspectivas para o fortalecimento das bibliotecas na sociedade”.

O trabalho de conclusão de curso que deu origem a este artigo foi orientado pela professora Priscila Sena.


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