Marianne no Prédio Centenário da Engenharia

Artigo | Bacharela em Museologia, Caroline Machado reflete sobre o único busto feminino, que representa alegoria francesa da República, presente na edificação

*Ilustração: Eliaz Dorneles/ Programa de Extensão Histórias e Práticas Artísticas, DAV-IA/UFRGS

No ano de 2023, ingressei como bolsista de extensão junto ao Laboratório de Design e Seleção de Materiais (LDSM/UFRGS). No mesmo ano, foi realizada a digitalização 3D de cinco bustos presentes no Prédio Centenário da Escola de Engenharia, pertencentes ao Museu e Arquivo Histórico da Escola de Engenharia (MAHEE). Pesquisando sobre as esculturas digitalizadas, observei a ausência de documentação e informações referentes às suas aquisições, fato comum em diversos acervos museológicos de nosso país, além da presença de uma única representação feminina: Marianne, alegoria francesa da República. Ante as várias lacunas informacionais que surgiram durante a atividade extensionista, iniciei uma pesquisa museológica em torno dessa escultura, que se tornou tema de meu trabalho de conclusão de curso no Bacharelado em Museologia.

O Prédio Centenário da Escola de Engenharia é a primeira edificação a compor o conjunto arquitetônico de nossa Universidade. Com sua conclusão finalizada em 1900, foi inicialmente sede da Escola de Engenharia, instituição privada que, na década de 1930, por decreto do governo estadual, veio a integrar, juntamente com outros cursos superiores da capital, a Universidade de Porto Alegre (UPA), dando origem à UFRGS. Os fundadores da Escola de Engenharia seguiam a filosofia Positivista de Auguste Comte, assim como os membros do Partido Republicano Rio-grandense (PRR), que, à época, possuía a hegemonia política em nível municipal e estadual. 

No decorrer de minha pesquisa, busquei compreender os motivos e as formas de aquisição da escultura de Marianne, a partir da correlação com o contexto sociopolítico das primeiras décadas de funcionamento da Escola de Engenharia. A partir disso, acabei constatando uma escassez de representações femininas no período. Fundada em 1896, a Escola de Engenharia teve sua primeira funcionária mulher, Rita da Rocha Montenegro, apenas em 1914, ocupando o cargo de auxiliar ajudante em uma instituição de ensino na qual mulheres eram proibidas de realizar suas matrículas, conforme o Estatuto de 1912. A professora Clarisse Ismério, em artigo publicado em 2016 na Revista Grafía, aponta que a ideologia positivista seguida à época fez com que a educação feminina retrocedesse em relação à emancipação conquistada após a Guerra Farroupilha (1835-1845), limitando as mulheres às atividades domésticas e voltadas para a vida familiar.

Dentre as esculturas pertencentes ao acervo do MAHEE, também se encontram um busto de Auguste Comte, um busto de Júlio de Castilhos (governador pelo PRR quando fundada a Escola e líder do partido), um busto de João Simplício Alves de Carvalho (fundador da Escola de Engenharia e político vinculado ao PRR) e um busto de Flores da Cunha (ex-governador que já possuiu vínculo com o PRR e instituiu a UPA.

Podemos perceber que Marianne é a única escultura desprovida de personalidade, não é uma mulher com papel social para a formação da Escola de Engenharia ou uma das várias donatárias que auxiliaram financeiramente a criação e a manutenção da instituição, mas uma alegoria portando ampla simbologia.

Diferente de outras representações da República, Marianne carrega signos que remetem à liberdade, notadamente o barrete frígio em sua cabeça – símbolo que foi o mascote das olimpíadas e paralimpíadas de Paris em 2024 –, o qual pode também ser encontrado no centro do brasão do Rio Grande do Sul. A popularização de Marianne na França, no período que precedeu a Terceira República, deu-se por meio de bustos, gravuras e esculturas, difundindo-se também nos países republicanos de inspiração francesa.

A escultura de Marianne, objeto de estudo do meu TCC, é de autoria do escultor francês Théodore Doriot, foi confeccionada em gesso e criada em 1879. Embora seja desconhecida a data de entrada desse busto no acervo da Escola de Engenharia, há outra escultura de Marianne localizada no frontão da parte externa; sobre essa, temos documentada sua criação como sendo de 1900, data da inauguração do Prédio Centenário, reforçando a estreita relação da instituição com o PRR e seus ideais. 

Considerando as correlações das esculturas presentes no Prédio Centenário da Escola de Engenharia, assim como de outras quatro estátuas de Marianne identificadas em espaços públicos de Porto Alegre, pude concluir que essa representação da República em específico foi eleita pelos positivistas como um de seus símbolos. A figura feminina, utilizando barrete frígio, foi intencionalmente escolhida para adornar aquilo que se pretendia mostrar para a sociedade como valores positivistas. 

Nesse sentido, o busto de Marianne acaba por ser um reflexo dos ideais dos quatro homens representados nas outras esculturas do Prédio Centenário. Uma República de homens para homens. Para homens brancos pertencentes a um grupo socioeconômico definido. Durante minha graduação em Museologia, sempre houve um tensionamento, pelos docentes, para a importância de aprendermos a criar narrativas embasadas, responsáveis e críticas a partir dos objetos, a fim de buscarmos entender as presenças, mas sobretudo as ausências, existentes nos acervos, e como as trataremos ante as necessidades atuais.

Olharmos para a não representação de todos aqueles que não são homens brancos é necessário para que tal não se perpetue nos acervos que estão crescendo ou se formando atualmente. A Escola de Engenharia teve mulheres de referência, que apoiaram o projeto financeiramente desde antes da colocação da pedra fundamental do Prédio Centenário, mas que são pouco ou nada citadas nas bibliografias já disponíveis.


Caroline Brum Machado é bacharela em Museologia pela UFRGS e mestranda em Design na mesma instituição.

O trabalho de conclusão de curso que deu origem ao presente artigo foi orientado pela professora Ana Celina Figueira da Silva.


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