Artigo | Miguel Garcia e Roberto Verdum, da Geografia, apresentam resultados de pesquisa que investigou o impacto das temperaturas extremas no bem-estar de trabalhadores de Campo Bom
*Ilustração: Fabio Alejandro Viera/ Programa de Extensão Histórias e Práticas Artísticas, DAV-IA/UFRGS
O ano de 2024 foi o mais quente já registrado pela humanidade, com uma temperatura média superficial global que atingiu 1,55 °C (± 0.13 °C) acima dos níveis pré-industriais. Anteriormente, o último relatório sobre o Estado Global do Clima, publicado pela Organização Meteorológica Mundial, já havia indicado que os últimos nove anos (2015-2023) foram considerados os mais quentes já registrados, sendo que 2023 detinha o recorde de temperatura média superficial global, com 1,45 °C (± 0.12 °C) acima dos níveis pré-industriais.
Com o planeta mais aquecido, os eventos extremos de calor se tornaram mais frequentes, intensos e prolongados em várias partes do mundo. Um estudo recente apontou um aumento de 94% no número de dias de ondas de calor em âmbito global, ao comparar as séries de 1986-2005 e de 2013-2022. Além disso, muitos registros têm evidenciado os crescentes impactos do calor extremo sobre a vida das pessoas, como no caso do verão de 2022 na Europa, que foi apontado como o mais mortífero associado ao calor, com cerca de 62.000 óbitos. Essa tendência também é vista quando analisados os dados relacionados ao calor extremo na América Latina. Em um novo relatório publicado pela revista The Lancet, foi demonstrado que a mortalidade por calor na região teve um aumento de 140% quando comparadas as séries anuais de 2000-2009 e de 2013-2022.
Apesar dos dados alarmantes, o assunto ainda é pouco difundido no estado do Rio Grande do Sul, visto que as ocorrências estão mais restritas ao período de verão. Em 2023, um estudo realizado no município de Campo Bom/RS – área de excepcional vulnerabilidade aos impactos do calor extremo no estado – mostrou que a partir do ano de 2010 ocorreu uma intensificação das ondas de calor.
No caso, o município passou a registrar sequências de três dias ou mais consecutivos com temperaturas extremamente elevadas (máximas e mínimas acima de 37,3 °C e 22,7 °C, respectivamente). A isso também se somou uma probabilidade de novas ocorrências, que cresce em 4,3% a cada ano.
Além disso, outra abordagem destacada na pesquisa foram os impactos na saúde e nas condições de trabalho da população exposta. Com base na avaliação de conforto térmico, verificou-se que os trabalhadores estiveram potencialmente expostos aos eventos de ondas de calor ocorridos no município em 2022, com índices de calor que chegaram a ficar acima do recomendado para atividade física por diversos dias. Não à toa, após entrevistar 43 trabalhadores rurais, tivemos 41 (95,43%) que alegaram ter sofrido perda de produtividade durante os eventos, sendo que para 13 (30,23%) isso representou impacto direto na renda.
Outro ponto preocupante é que, dos 18 (41,86%) trabalhadores que relataram sintomas de estresse térmico durante ou após o trabalho, somente 7 (16,27%) buscaram ajuda médica. Entre as pessoas que foram ao serviço de saúde, os diagnósticos recebidos foram de desidratação, câncer de pele, arritmia cardíaca, hipertensão arterial e insolação. Já entre os sintomas daqueles que não foram procurar orientação médica estão cansaço excessivo, mal-estar, tontura, cefaleia, falta de apetite, câimbras, dores no corpo, insônia, falta de ar, sudorese excessiva e desmaio.
Uma avaliação importante destacada pelo estudo é que o conforto térmico tende a piorar gradativamente no turno da tarde, tendo seu ápice entre as 17 e 18 horas. Desta forma, como alternativa, é recomendado que a execução de atividades físicas moderadas e pesadas não sejam realizadas nesses horários para garantir a saúde e a produtividade no trabalho, sendo o turno da manhã o mais indicado devido às melhores condições térmicas.
Outras estratégias que visam proteger a saúde dos trabalhadores durante eventos de calor extremo são importantes de serem adotadas, tais como: a ingestão de água, os intervalos regulares sob a sombra ou em espaços aclimatados, o uso de roupas leves e com boa transpiração, entre outras que sejam capazes de reduzir a temperatura interna do corpo. Essas medidas também podem ser utilizadas por qualquer pessoa que esteja submetida a altas temperaturas.
Portanto, é cada vez mais evidente que as ondas de calor têm sido um problema que atinge progressivamente a população do estado. Nesse caso, a maior vulnerabilidade recai sobre aqueles grupos que não possuem acesso a sistemas de aclimatação fisiológica, por consequência, a população de menor renda e trabalhadores que exercem suas atividades físicas em espaços externos, como aquelas associadas às atividades agrícolas.
Desta forma, a problemática do calor torna-se também de justiça climática. Isso faz com que seja essencial pensarmos estratégias de adaptação climática que levem em conta a realidade das pessoas em situação de maior vulnerabilidade. Por isso, é extremamente recomendado que o planejamento das políticas públicas seja intersetorial e inclua ações coordenadas entre os setores de saúde, educação e desenvolvimento econômico, pois se acredita que assim conseguiremos construir uma sociedade mais justa e resiliente para enfrentar os desafios postos pelas iminentes mudanças climáticas.
Para conhecer todos os resultados da pesquisa, consulte a dissertação Avaliação dos impactos das ondas de calor na saúde e produtividade dos trabalhadores rurais: município de Campo Bom – Rio Grande do Sul, Brasil no Lume.
Miguel Pocharski Garcia é doutorando do Programa de Pós-Graduação em Geografia da UFRGS.
Roberto Verdum é professor do Departamento de Geografia da UFRGS.
As opiniões expressas nos textos assinados são de responsabilidade de seus autores e não refletem o posicionamento editorial do JU ou da UFRGS.

