Artigo | Gregory Cardoso Marmacedo Ribeiro e Élida Pasini Tonetto, da Geografia, fazem análise discursiva dos principais portais que disponibilizam conteúdos escolares
*Ilustração: Bruno Lopes/ Programa de Extensão Histórias e Práticas Artísticas, DAV-IA/UFRGS
O uso da Internet cresce cada vez mais no mundo. No Brasil, o Comitê Gestor da Internet aponta esse aumento principalmente entre o público jovem. Segundo informações desse comitê, o número de usuários de 10 a 17 anos que utilizam a rede para realizar atividades ou pesquisas escolares subiu de 72%, em 2019, para 89% em 2020. E o número de estudantes que realizam seus estudos pela Internet por conta própria passou de 50% para 69% entre 2019 e 2020. Assim, é importante ampliar a compreensão sobre as dinâmicas dos espaços digitais voltados à Educação.
Diante desse contexto, no meu TCC da Licenciatura em Geografia, resolvi pesquisar os portais educacionais que dispõem de conteúdos de Geografia voltados à educação básica, entendidos como constituintes da Geografia Escolar. A abordagem teórico-metodológica pautou-se na descrição dos websites, e sua análise aproximou-se da “noção de discurso de Foucault”, conforme destaca Rosa Maria Bueno Fischer. A seleção dos portais foi realizada com base nos resultados dos buscadores Google e Bing, escolhidos por serem os mecanismos de buscas mais utilizados no Brasil, segundo os dados da Statcounter em maio de 2023. Os três portais identificados nas buscas foram: Brasil Escola, Toda Matéria e Mundo Educação.
Conforme as informações retiradas dos próprios portais, o site Toda Matéria pertence à empresa 7Graus, enquanto os sites Brasil Escola e Mundo Educação pertencem à Rede Omnia. Ambas empresas também são proprietárias de outros sites com alto número de acessos. É possível identificar que existe certa hegemonia entre os sites relacionados ao conteúdo de Geografia Escolar, pois os que mais aparecem nas buscas têm um fator em comum: pertencem a empresas que possuem maiores recursos financeiros e técnicos para impulsionar os seus sites nos mecanismos de busca.
Nos sites das empresas Rede Omnia (Brasil Escola e Mundo Educação) e 7Graus (Toda Matéria) é possível observar, por meio do uso das palavras, a forma como essas empresas concebem a educação. No site da empresa 7Graus, por exemplo, ao se acessar a aba “Produtos” o primeiro item em destaque é a “Educação”, assim podemos observar que a empresa compreende a educação como um produto. No site da empresa Rede Omnia aparece a expressão “satisfação dos nossos clientes”, evidenciando uma lógica na qual os estudantes que acessam os sites da empresa em busca do conteúdo educacional são tratados como clientes.
Quanto às informações sobre os funcionários dessas empresas, a 7Graus conta com uma equipe composta de professores de diversas áreas. Já na Rede Omnia, dos 24 funcionários, apenas dois são professores. É pertinente destacar esse dado, uma vez que essa empresa é responsável por portais educacionais que apresentam conteúdos escolares.
Nos sites estudados é possível observar os dados que mostram o número de acessos que elas recebem. No meio digital, o número de acessos que as páginas recebem pode aumentar ou diminuir o valor dos anúncios exibidos por elas. No site da empresa 7Graus, eles quantificam o número de visualizações recebidas por meio de analogias, como: “Sabias que… o tempo consumido por todos os visitantes da 7Graus em um mês é o equivalente a 850 anos”. No site da empresa Rede Omnia há infográficos muito detalhados, mostrando a quantidade de visitas e o número de páginas vistas pelos visitantes. Essa quantificação é chamada de pageview e é muito importante para o mercado de anunciantes.
Ao navegar por esses portais educacionais, é possível notar uma quantidade excessiva de anúncios publicitários que, em diversos momentos, prejudicam a própria visualização do conteúdo escolar devido à sua sobreposição. Considerando o contexto das análises deste estudo, torna-se ainda mais relevante a famosa frase de Andrew Lewis, um dos desenvolvedores da Microsoft: “Se você não está pagando pelo produto, você não é o cliente; você é o produto sendo vendido”. Nesse sentido, o principal ativo desses portais educacionais é a atenção dos visitantes, capturada durante o tempo de navegação. Essa prática já é adotada há muitos anos pelo rádio e pela televisão, a diferença é que, nos portais analisados, o que está em jogo é o conteúdo educacional.
No contexto desta pesquisa, a simples predominância de anúncios publicitários sobre o conteúdo escolar pode ser considerada problemática. Isso evidencia como o material educativo – neste caso, especificamente os conteúdos geográficos – está inserido em um complexo jogo no qual, permeado por propagandas, serve para gerar lucro, sendo tratado como um produto e seguindo a lógica de um discurso neoliberal.
A pesquisa evidenciou que ocorre uma disputa entre empresas para conseguir melhores posições nos buscadores, na tentativa de obter uma maior exposição na Internet. Dessa forma, compreende-se que o seu objetivo é o lucro, já que se trata de corporações privadas que operam sob a lógica da lucratividade. Essa lógica de mercado pode ser capturada em diferentes enunciados identificados nas análises tanto no uso da palavra “clientes” para se referir aos usuários do site quanto na inclusão da educação na aba “produtos”.
À medida que a educação não é priorizada enquanto um bem comum, entende-se, portanto, que ela se torna apenas uma ferramenta para esses portais, a fim de exibir anúncios, que são expressivos e, muitas vezes, se sobressaem visualmente aos conteúdos escolares. Isso resulta em uma corrida para a monetização dos saberes construídos historicamente. A partir desse olhar sobre os portais educacionais, é possível estabelecer um bom ponto de partida para discutir criticamente as tecnologias digitais nas aulas de Geografia.
Gregory Cardoso Marmacedo Ribeiro é mestrando no Programa de Pós-graduação em Geografia da UFRGS e participa do projeto de pesquisa Geografia Escolar e tecnologias digitais.
Élida Pasini Tonetto é professora da Faculdade de Educação, Departamento de Ensino e Currículo (DEC), Núcleo de Estudos em Educação e Geografia (NEEGeo), e do Programa de Pós-graduação em Geografia da UFRGS. Coordena o projeto Geografia Escolar e tecnologias digitais.
As opiniões expressas nos textos assinados são de responsabilidade de seus autores e não refletem o posicionamento editorial do JU ou da UFRGS.





