Artigo | Viviann Borges, Dulce Ferreira e Pricila Sleifer, da Fonoaudiologia, apresentam revisão de literatura sobre benefícios de um exame para o diagnóstico da migrânea
*Ilustração: Gabriele Anezi/ Programa de Extensão Histórias e Práticas Artísticas, DAV-IA/UFRGS
A migrânea vestibular é um tipo de enxaqueca primária e incapacitante, acompanhada de sintomas vestibulares, como vertigem, náusea e sensação de instabilidade corporal (Sociedade Internacional de Cefaleias, 2019). Estima-se uma prevalência mundial de um a cada 10 indivíduos, estando entre as cinco maiores causas de incapacidade, principalmente em mulheres e na faixa etária entre 30 e 40 anos (Peres et al., 2019).
Ainda não há um consenso acerca dos mecanismos fisiológicos que levam a crises de enxaqueca, porém as teorias mais recentes defendem que pacientes com esse transtorno têm maior sensibilidade a alguns estímulos sensoriais devido a uma hiperexcitabilidade do hipotálamo, tronco encefálico, tálamo e córtex, além do nervo trigêmeo que desencadeia a sensação de dor intensa. Dentre os estímulos sensoriais estão aqueles relacionados ao sistema vestibular, como a movimentação da cabeça e os movimentos oculares compensatórios que ocorrem para estabilizar a imagem na retina e informar ao córtex a posição da cabeça no espaço. Dessa forma, ao perceber o ambiente ao redor em movimento, o paciente pode sentir piora da dor de cabeça ao mesmo tempo que sente uma falta de equilíbrio no corpo.
Pesquisadores realizaram um estudo em 2023 e observaram que os pacientes com migrânea vestibular podem apresentar nistagmo (movimentos involuntários e rítmicos dos olhos) associado à resposta exacerbada do sistema vestibular periférico, inclusive fora das crises. Outro estudo de 2022 também menciona uma alteração nas vias vestibulares centrais, dentre as quais está a via do reflexo vestíbulo-ocular, devido ao envolvimento do tronco cerebral durante a crise.
O reflexo vestíbulo-ocular pode ser avaliado de diversas formas, sendo a mais comum o Teste de Impulso Cefálico (ou HIT, do inglês Head Impulse Test). Um exame, contudo, que tem demonstrado contribuições promissoras em pacientes com migrânea vestibular é o Potencial Evocado Miogênico Vestibular Ocular (oVEMP, a sigla em inglês). Por ser um exame eletrofisiológico, ele permite a avaliação objetiva das vias centrais envolvidas com o reflexo vestíbulo-ocular e um dos órgãos otolíticos (o utrículo), que têm sido associados aos sintomas vestibulares que surgem nas crises desse tipo de enxaqueca recentemente, conforme observamos na literatura. Além disso, é um exame menos estimulante, o que traz mais segurança e conforto ao paciente.
Por isso, nosso grupo de pesquisa realizou uma revisão sistemática de literatura para verificar os principais benefícios em utilizar o VEMP em pacientes adultos com migrânea vestibular. Foram analisados 14 artigos, cujos resultados indicam que pacientes com migrânea podem apresentar ausência de respostas no oVEMP ou maior tempo para observar uma resposta em comparação aos sujeitos sem migrânea.
Além disso, a principal contribuição do exame tem sido o diagnóstico diferencial entre a migrânea vestibular e a Doença de Menière, outra patologia que afeta o sistema vestibular e apresenta sintomas muito semelhantes aos de migrânea.
Outra aplicação interessante é o monitoramento do comprometimento do sistema vestibular para verificar o possível curso da doença e definir tratamentos mais eficazes precocemente. Em geral, pacientes com oVEMP alterado no início do diagnóstico apresentam sintomas mais fortes e duradouros.
Estudar prováveis alterações do sistema vestibular em pacientes com migrânea auxilia a definir métodos de tratamento para esses indivíduos. Em relação ao reflexo vestíbulo-ocular, observam-se alterações importantes que impactam na qualidade de vida desses pacientes, pois uma resposta ineficaz ao estímulo visual e de movimento da cabeça piora o desconforto nas crises. Sugere-se, desse modo, que pacientes com migrânea sejam encaminhados para avaliação vestibular e que o oVEMP seja considerado uma ferramenta complementar nessa avaliação.
Viviann Magalhães Silva Borges é fonoaudióloga pela UFRGS e mestranda do PPG Saúde da Criança e do Adolescente.
Dulce Azevedo Ferreira é fonoaudióloga e doutora em Saúde da Criança e do Adolescente pela UFRGS.
Pricila Sleifer é professora do Departamento de Saúde e Comunicação Humana da UFRGS.
As opiniões expressas nos textos assinados são de responsabilidade de seus autores e não refletem o posicionamento editorial do JU ou da UFRGS.

