Artigo | A coordenadora executiva do Observatório de Comunicação Pública, Ana Javes Luz, avalia edições impressas e online e discute o papel da publicação no âmbito do interesse público
Por: Ana Javes Luz
Foto de capa: Flávio Dutra/JU
O JU completa 23 anos neste mês. São mais de 230 edições abordando temas de interesse público em páginas que circulam dentro e fora da Universidade. Refletir sobre o papel e a importância do JU para a memória da UFRGS, especialmente em tempos de grande desinformação, de questionamento da ciência e de proliferação de notícias falsas, nos ajuda a compreender porque a Comunicação Pública é indispensável para o fortalecimento das democracias – tema urgente no Brasil de hoje.
No livro Comunicação Pública e Política: pesquisa e práticas (publicado pela editora Insular em 2017), a professora e pesquisadora Maria Helena Weber, do PPGCOM da UFRGS, aponta que a Comunicação Pública se dá na circulação de temas de interesse público, favorecendo o debate e a formação da opinião pública. É, portanto, a comunicação esperada nas democracias. Quando bem praticada, oferece as condições para que a sociedade esteja informada sobre o que lhe diz respeito, favorecendo sua escuta pelos tomadores de decisões políticas.
Maria Helena Weber é também fundadora do JU e recorda que a criação do jornal respondeu a uma demanda de comunicação autônoma entre a Universidade e a sociedade, indo além do papel desempenhado por iniciativas tradicionais de comunicação institucional (entrevista concedida ao JU, edição 205).
De fato, consultar o acervo das edições impressas e on-line do JU permite verificar um jornalismo que se pauta dentro e fora dos muros acadêmicos. Temas como os desafios da formação docente, política de cotas ou a necessidade de investimento em pesquisa científica dividem manchetes com maternidade e cárcere, direito à moradia, mobilidade urbana em Porto Alegre ou a crise fiscal do Rio Grande do Sul. Em comum, o conhecimento científico, que qualifica a publicação e oferece informações com credibilidade à sociedade.
O acervo do JU é parte importante da memória da UFRGS, do seu fazer científico e da trajetória que a consolidou como uma das universidades mais importantes do Brasil, de excelência reconhecida dentro e fora do país. Mas faz parte também da memória da comunicação da Universidade.
Observar a evolução dos formatos, desde as edições em preto e branco até as atuais edições extraordinárias online (adotadas durante a pandemia da covid-19), possibilita discorrer sobre os desafios do fazer comunicacional na Instituição. Analisar aspectos como pluralidade de vozes, representatividade e garantia do contraditório, bem como elencar os temas abordados ou silenciados, permite um olhar crítico sobre o compromisso com a autonomia e com o interesse público que justifica o veículo. Tudo isso é possível a partir da preservação das edições e da disponibilização pública desse acervo – apenas parte dele disponível no Lume, o repositório institucional da UFRGS, mas integralmente em formato impresso na Biblioteca Central da instituição.
Andreas Huyssen, estudioso alemão radicado nos Estados Unidos e pesquisador do tema da memória na contemporaneidade, afirma que, “como indivíduos e sociedades, precisamos do passado para construir e ancorar nossas identidades e alimentar uma visão do futuro”. Em seu livro Seduzidos pela Memória: arquitetura, monumentos, mídia (publicado pela editora Aeroplano em 2000), Huyssen destaca que o fortalecimento de uma cultura de memória está intimamente ligado a processos de democratização, de lutas por direitos humanos e de expansão e fortalecimento das esferas públicas da sociedade civil. É com base nesse pensamento que a relação entre Comunicação Pública e Memória se faz visível, e seu debate, necessário.
Nos anos recentes, o saber científico e o papel da Universidade vêm sendo colocados à prova, pelo crescimento de uma rede de desinformação beneficiada pela dinâmica das mídias sociais e pela propagação de notícias falsas. Um exemplo é o recente estudo publicado na revista Cadernos de Saúde Pública, no qual pesquisadores do Instituto Nacional de Comunicação Pública da Ciência e Tecnologia (INCT-CPCT) e da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz) apontam que as fake news têm potencializado o discurso antivacina nas redes sociais. Discurso que foi reforçado pela comunicação oficial do Governo Federal e pela comunicação pessoal do presidente da República. Nesse cenário de dúvidas e de discursos conflitantes, a comunicação pública da Universidade encontra seu lugar de afirmação.
Não se trata apenas de ratificar a importância do saber científico, mas de reconhecer a comunicação desse saber como elemento importante do debate democrático.
Para isso, importam a liberdade de pesquisa, de ensino e a autonomia da comunicação, observando princípios como respeito aos direitos humanos, o combate à discriminação de qualquer natureza, a liberdade de temas abordados e de vozes ouvidas. A universidade pública é o espaço da pluralidade e da liberdade na produção do conhecimento. Sua comunicação deve ser espelho desses valores.
Nos 23 anos do Jornal da Universidade, que saibamos olhar para sua história e reconhecer pioneirismos, acertos, erros e desafios ainda por enfrentar. E que as notícias, reportagens, entrevistas, artigos e fotografias que ocupam suas páginas impressas e digitais possam seguir buscando o interesse público e alimentando a memória sobre a Universidade, as pessoas que a compõem, o conhecimento gerado e sua comunicação para a democracia.




Ana Javes Luz é jornalista, doutoranda e mestra no PPG em Comunicação e coordenadora executiva do Observatório da Comunicação Pública (OBCOMP).





