Artigo | Carla Pastl e Eliane Moro, da Biblioteconomia, refletem sobre projeto que tornou a Biblioteca da União de Cegos do RS modelo de acessibilidade informacional, garantindo autonomia aos usuários
*Ilustração: Mafê Marques/Programa de Extensão Histórias e Práticas Artísticas, DAV-IA/UFRGS
Este artigo tem origem em trabalho de conclusão de curso que analisa a experiência extensionista desenvolvida na Biblioteca da União de Cegos do Rio Grande do Sul (UCERGS), no âmbito do Curso de Biblioteconomia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com o objetivo de promover a acessibilidade informacional a pessoas cegas e com baixa visão. Com abordagem qualitativa, natureza aplicada e método de estudo de caso, a pesquisa baseou-se na observação participante, na análise documental e na produção de anotações de campo.
O diagnóstico inicial revelou barreiras físicas, tecnológicas, comunicacionais e atitudinais que limitavam a autonomia dos usuários. As ações de intervenção, estruturadas em reorganização física, adequação tecnológica e mediação da informação, foram implementadas com a participação ativa dos usuários, em consonância com princípios da educação dialógica e da inclusão como direito humano.
No âmbito da Biblioteconomia, a Extensão Universitária adquire relevância quando articula o acesso à informação com o direito à inclusão, ao tratar de populações historicamente excluídas dos espaços informacionais, como no caso das pessoas com deficiência (PcD) visual no ambiente de bibliotecas. Em dezembro de 2024, a ação de extensão “União de Cegos do Rio Grande do Sul: uma biblioteca inclusiva”, desenvolvida no curso de Biblioteconomia da UFRGS, organizou a Biblioteca Especial para pessoas com deficiência visual, transformando-a em um modelo de acessibilidade informacional. Durante um ano e oito meses, o projeto desenvolveu ações alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU (2015) e ao lema “Nada sobre nós sem nós” (Declaração de Madri, 2002).
A ação extensionista revelou resultados importantes, pois usuários cegos e com baixa visão que antes dependiam de ajuda para localizar livros agora navegam autonomamente pelo acervo da Biblioteca Adroaldo Antônio Duarte. A implementação de sinalização em braille, QR Codes com audiodescrição e a organização completa do espaço físico permitiu que pessoas com deficiência visual conquistassem autonomia na busca do seu livro. Cada prateleira organizada, cada etiqueta em braille identificando a estante representou uma vitória contra a exclusão informacional.
O projeto não se limitou ao processamento técnico do acervo, ele promoveu uma mudança física do espaço e também cultural, em que os próprios usuários participaram ativamente das decisões sobre as mudanças de atualização. A Biblioteca, hoje, possui acervo diversificado incluindo livros em braille, audiolivros, materiais táteis, livros com fonte ampliada e livros multiformato. Observou-se o fortalecimento da autoestima dos usuários, que passaram a sugerir melhorias e avaliar os serviços. O lema “Nada sobre nós sem nós” norteou todas as ações.
A metodologia envolveu observação participante por 20 meses, análise documental e notas de campo. O estudo demonstrou que a acessibilidade vai além de rampas e elevadores, exigindo escuta ativa, diálogo constante e respeito ao protagonismo das pessoas com deficiência. Para viabilizar as transformações, a extensionista buscou qualificação em Tecnologias Assistivas (TAs), aprendeu o Sistema Braille e participou de cursos sobre leitores de tela e audiodescrição no Instituto Benjamin Constant e na Fundação Dorina Nowill para Cegos. Por meio do Programa CAPAGIIC-Saúde 4.0, o Projeto também incluiu a biblioteca como unidade cooperante na Rede BiblioSUS do Ministério da Saúde, ampliando seu alcance institucional.
A experiência extensionista participou em duas edições do Salão de Extensão da UFRGS, recebendo prêmio de destaque na modalidade Educação.
A Biblioteca Adroaldo Antônio Duarte tornou-se, também, referência em inclusão, servindo de modelo para outras instituições, transformando-se em um espaço de acesso e uso da informação e de empoderamento informacional. Os usuários que antes enfrentavam barreiras físicas, tecnológicas e atitudinais agora utilizam leitores de tela, navegam pelo catálogo online e localizam livros de forma autônoma no espaço da biblioteca.
No desenvolvimento do projeto, o tripé universitário Ensino, Pesquisa, Extensão, em conjunto com a Inovação, permitiu circular conhecimentos, criar recursos táteis e digitais a partir das demandas dos próprios usuários e propiciou um laboratório de criatividade e inclusão. Os resultados evidenciam que a extensão universitária, quando comprometida com a transformação social, produz mudanças concretas, e reafirmam o papel da Universidade Pública na construção de uma sociedade mais justa.
A pesquisa comprovou que as TAs, quando combinadas com mediação qualificada, ampliam a autonomia informacional de Pessoas com Deficiência (PcD). O projeto também gerou um Manual de Processamento Técnico, garantindo a continuidade das práticas inclusivas.
A inclusão não é um favor, é direito da pessoa com deficiência. A biblioteca da UCERGS demonstra que, quando a universidade dialoga com a sociedade, todos saem transformados.
O conhecimento deixa de ser privilégio para tornar-se uma ponte para a cidadania e para a justiça social. Na UCERGS, os desafios são constantes, mas na biblioteca a cultura da inclusão já está enraizada. Onde antes havia dependência, hoje impera a convicção de que ler, seja ouvindo um audiolivro ou tocando o livro em braile, é um direito inalienável e deve ser respeitado.
As conclusões apontam que a promoção da acessibilidade informacional vai além de adaptações técnicas, exigindo mudanças culturais, compromisso ético e construção contínua de práticas inclusivas. Recomenda-se a ampliação de projetos interinstitucionais, a formação permanente de bibliotecários e a valorização das TAs como instrumentos de emancipação. A biblioteca, concebida como espaço de mediação crítica e de exercício da cidadania, reafirma sua função pública no fortalecimento dos direitos humanos e na construção de sociedades mais justas e democráticas.
A universidade pública, como espaço de produção e de socialização do conhecimento, tem na Extensão uma de suas dimensões mais potentes e transformadoras, rompendo os muros institucionais e conectando os saberes acadêmicos às realidades sociais, tornando a Extensão uma ferramenta importante para a democratização da universidade e dos saberes que nela são produzidos, demonstrando sua capacidade de inclusão e sua aptidão para responder às demandas da sociedade.
Carla Monego Lins Pastl é estudante de Biblioteconomia na UFRGS.
Eliane de Lourdes da Silva Moro é mestre e doutora em Educação pelo PPGEDU/UFRGS, professora no Curso de Biblioteconomia da UFRGS e no Programa de Pós-graduação em Educação em Ciências (PPGECI/UFRGS). Orientou o Trabalho de Conclusão de Curso que deu origem ao artigo.
As opiniões expressas nos textos assinados são de responsabilidade de seus autores e não refletem o posicionamento editorial do JU ou da UFRGS.
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