Educação de Jovens e Adultos e Educação Física Escolar

Educação em Pauta | Inspirada no legado freireano, a EJA se reafirma como espaço de resistência, emancipação e construção de corpos conscientes na educação brasileira

*Foto: No Centro Municipal de Educação dos Trabalhadores Paulo Freire, a quadra é espaço de encontro, movimento e aprendizado (Crédito: Arquivo dos autores)

A Educação de Jovens e Adultos (EJA) tem cumprido um importante papel na sociedade brasileira desde 1996 na condição de modalidade de ensino da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN), que é garantir o acesso de todas e de todos na Educação Básica. Mas o problema que leva à necessidade de inclusão das pessoas no processo de escolarização e alfabetização que lhes foi negado ao longo da infância e juventude é que, historicamente, a Educação no Brasil é determinada pelas elites dominantes, para cumprir a função de ser instrumento de opressão, como peça fundamental da maquinaria das desigualdades e injustiças econômicas e sociais impostas ao povo, ao corpo do povo brasileiro

A Educação de Adultos já era uma preocupação anterior à LDBEN, no esforço de educadores e educadoras progressistas do início do século XX, com a Educação do Povo. Experiências ricas e desafiadoras como as de Paulo Freire servem de inspiração e de fundamentação para pensar politicamente o fenômeno e a produção de um corpo consciente. E é em sentido oposto à perspectiva de um modelo de educação que se impõe pelo autoritarismo e que separa as pessoas que aprendem do mundo que Paulo Freire se desafia à problematização de um “pensar-se a si mesmos e ao mundo, simultaneamente, sem dicotomizar esse pensar da ação”, por um corpo consciente, que produz uma consciência de si com o mundo para transformá-lo.

É nessa perspectiva da superação de uma consciência ingênua para outra, que é de produção de um corpo consciente, que temos estudado Paulo Freire e Educação Física Escolar. Na tese de doutorado intitulada “Pedagogia da Oprimida: o aprender da Professora de Educação Física pela experiência autoetnográfica inspirada em Paulo Freire” (2024), ocorre a pronúncia do reconhecimento de um corpo que se compreendia representado pela determinação histórica de uma Educação Física que silenciava e negava as experiências e práticas da cultura corporal de movimento da mulher, professora e pesquisadora. O desvelar desse aprender se dá entre o medo da liberdade (as determinações históricas e culturais para o corpo da mulher e, inclusive, da consciência ingênua) e a emergência do corpo consciente da mulher, professora e pesquisadora (a produção de uma consciência crítica de si com o mundo).

Nas disciplinas de Fundamentos da Educação de Jovens e Adultos na Educação Física e de Estágio de Docência da Educação Física da Educação de Jovens e Adultos do Curso de Licenciatura em Educação Física da UFRGS, temos estudado e acompanhado as experiências da realidade dessa modalidade de ensino no Centro Municipal de Educação dos Trabalhadores (CMET) Paulo Freire, em Porto Alegre.

Compreender a produção de um corpo consciente reconhecendo as experiências plurais construídas nas diferentes histórias de vida que se inscrevem na realidade diversa da EJA da CMET Paulo Freire tem sido nosso principal objetivo. Sabendo, contudo, que também os nossos próprios corpos e experiências são mediados pelos saberes e conhecimentos significados no componente curricular Educação Física e na relação com outros corpos e outros componentes curriculares e extracurriculares daquela realidade.

As experiências de professores como Carlos Eduardo Berwanger e Francisco Goldschmidt, da Escola Municipal de Ensino Fundamental Porto Alegre – EPA, escola com atendimento especializado a jovens e adultos em situação de risco social e pessoal, também têm nos possibilitado aprender sobre a cultura corporal de movimento na modalidade de ensino EJA. E, ao dizer isso, estamos reconhecendo as valiosas alternativas didáticas e metodológicas que são construídas por ambos, no sentido de produzir uma educação humanizadora, ou seja, por incluir saberes e conhecimentos dos e das estudantes na formação de um corpo consciente que “grita” por práticas corporais libertadoras e que respeitem suas temporalidades e singularidades de aprender Educação Física. Luciana, Carlos Eduardo (Penna), Francisco e eu acreditamos nessa Educação Física Escolar Crítico-Libertadora, que transforma histórias de vida que escrevem outras histórias com seus corpos em processo de libertação.


Fabiano Bossle é mestre e doutor em Ciências do Movimento Humano pela UFRGS. Professor da Graduação e de Pós-graduação da UFRGS. Coordenador do curso de Educação Física da UFRGS. Pesquisador de Educação Física Escolar e de Paulo Freire.
Luciana de Oliveira Nunes é mestre e doutora em Ciências do Movimento Humano pela UFRGS. Professora da Rede Municipal de Ensino de Porto Alegre – RME/POA. Autora da Tese de Doutorado “Pedagogia da Oprimida”: o aprender da professora de Educação Física pela experiência autoetnográfica inspirada em Paulo Freire.
Carlos Eduardo Berwanger é especialista em Educação Psicomotora pela FAPA. Mestre e doutor em Ciências do Movimento Humano pela UFRGS. Professor da Rede Municipal de Ensino de Porto Alegre – RME/POA.
Francisco Goldschmidt Filho é licenciado e bacharel em Educação Física pela UFRGS. Especialista em Gestão Escolar pelo Centro Universitário SENAC. Mestre em Ciências do Movimento Humano pela UFRGS. Professor de Educação Física da Rede Municipal de Ensino de Porto Alegre – RME/POA.

Quinzenalmente, profissionais e pesquisadores da área de Educação escrevem sobre temáticas que envolvam licenciaturas e experiências de ensino e aprendizagem. A seção tem curadoria de Beatriz Moro, servidora da Coordenadoria das Licenciaturas (Prograd/UFRGS).