Mudanças climáticas | Enchentes de 2024 deixaram marcas emocionais em mães e crianças quilombolas do Estado, demandando políticas públicas que contemplem as especificidades dessa população
*Foto: Na cozinha da casa que foi tomada pelas águas na enchente de 2024, Paula Bernardes Netto, e Lorena, sua filha, vivem no Quilombo Costa da Lagoa, em Capivari do Sul, no Litoral do Rio Grande do Sul (Foto: Flávio Dutra/JU)
Comunidades racializadas, especialmente negras, indígenas e quilombolas, estão sistematicamente mais expostas aos riscos ambientais e têm menos acesso a políticas de mitigação e adaptação. É o que trata o conceito de racismo ambiental, evidenciado pelo levantamento da Coordenação Nacional de Articulação de Quilombos (Conaq), que aponta que todas as 145 comunidades quilombolas do Rio Grande do Sul, distribuídas em 70 municípios, foram afetadas pelas enchentes de maio de 2024, impactando diretamente 17.552 quilombolas.
Em 2023, o estado já havia enfrentado ao menos quatro eventos climáticos extremos provocados por ciclones e chuvas persistentes, que resultaram em cerca de 80 mortes; medidas efetivas de prevenção, no entanto, não foram implementadas. Comunidades quilombolas também relatam danos recorrentes em períodos de chuva intensa, que não se limitam ao grande desastre de maio de 2024.
Ana Paula da Silva, moradora do Quilombo São Roque, em Arroio do Meio, descreve a realidade enfrentada: “Quando chove muita água, ela vem de tudo que é lado, desce pelas valetas e pelas laterais, a estrada vira só buraco. Foi ela que causou tudo aquilo”, afirma, apontando para os deslizamentos de terra ao redor da comunidade.
Já a residência de Francine Martins, moradora do Quilombo Família de Ouro, na Lomba do Pinheiro, zona leste de Porto Alegre, foi invadida pela água duas vezes em 2024. A primeira ocorreu em janeiro e a segunda, em maio. “Quando veio a primeira chuva, alagou tudo. Daí erguermos um muro de pedra nos fundos.”
Com recursos escassos, o muro foi feito sem o aterro adequado e tudo ruiu com a enchente seguinte: “Aí alagou de novo, a gente perdeu tudo da cozinha. Os armários eram de madeira antes”, diz, apontando para os móveis atuais, agora feitos de cerâmica.
Sem a ajuda do governo, uma vaquinha virtual possibilitou a reconstrução. A estrutura do muro foi refeita com aterro e piso novo. “Agora, o que molha é só o pátio. A água não entra mais.”
Mas o medo ficou. Mesmo após as melhorias, Francine confessa que não consegue dormir quando chove. “Fico na sala ou na área, tomando chimarrão e olhando a chuva. É o trauma. Quando a chuva aperta, já começo a recolher brinquedo do Pedro [seu filho], tapete, tudo. Mesmo sabendo que não vai mais alagar, eu recolho. É automático.” O comportamento não é isolado. “Quando começa a chover, o grupo do WhatsApp já ferve: ‘Entrou água aí?’, ‘Tá forte a chuva?’”, conta. A mãe de Francine é sempre a primeira a mandar mensagem.



O receio compartilhado é natural, segundo a psicóloga Juliana Prates, professora do Programa de Pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). “Em uma situação como as enchentes não há como esperar que as pessoas não sintam medo. O medo é um protetor, é ele que nos mantém alertas para agir de forma rápida.”
O problema, segundo a professora, é permanecer nesse estado de forma constante. “Isso desgasta o organismo, afeta o sono, a concentração, as relações. O estado de alerta, se mantido por muito tempo, pode levar ao desenvolvimento de psicopatologias”, pontua.
Uma destas é a ansiedade climática, fenômeno relacionado ao impacto emocional causado por eventos climáticos extremos. “Alagamentos, secas extremas, etc., produzem sintomas de ansiedade nas pessoas. E as populações mais vulneráveis, mais periféricas, são aquelas que estão mais expostas a situações como essas”, afirma a professora.
Quando se pensa em crianças que crescem nesses contextos, os impactos são ainda mais preocupantes.
“Esses efeitos psíquicos, quando prolongados, podem causar diversos prejuízos ao desenvolvimento infantil, afetando a aprendizagem, o bem-estar emocional e vários outros aspectos”
Juliana Prates


Um sentir hereditário
Pedro Martins tinha apenas 10 meses quando deu seus primeiros passos no chão ainda coberto de barro, areia e restos, deixados pela última enchente. Os destroços espalhados pela casa não o impediram. “Era sujeira e saco de roupa pra todo lado, mas ele andava por tudo”, lembra Francine Martins, mãe do pequeno.
Algumas semanas depois da nossa conversa, Francine me mandou um vídeo do Pedro. Chovia há dois dias seguidos na capital gaúcha, e ele, agora um pouco maior, sinalizava estar com medo da chuva – assim como sua mãe. “As crianças absorvem muito das emoções de quem cuida delas. Se a mãe ou o cuidador está ansioso, essa ansiedade acaba sendo transmitida para a criança”, explica Juliana.
Após as enchentes, a psicóloga sinaliza que os adultos vivem, de certa forma, um estresse pós-traumático. “Eles sofrem aquilo que é o efeito de um evento anterior. E, por isso, as chuvas vão trazer toda a recordação do evento traumático que foi vivido”, afirma.
Juliana destaca que, provavelmente, o efeito é maior sobre os cuidadores do que sobre as crianças. “Só que, obviamente, isso vai se retroalimentando. Então, se os cuidadores têm medo da chuva e reagem de forma diferente com as crianças, se sentem tensos, etc., a criança também vai se desenvolver nesse mesmo sentimento. Não necessariamente recordando do evento que aconteceu quando elas tinham 10 meses [idade do Pedro na época], mas recordando essa experiência que é mais recente.”
O Care for Child Development (CCD), ou Cuidado para o Desenvolvimento Infantil, é uma iniciativa conjunta do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e da Organização Mundial da Saúde (OMS), voltada à promoção do desenvolvimento infantil na primeira infância – especialmente nos primeiros três anos de vida. Em 2012, o projeto elaborou um manual de orientações, posteriormente traduzido e adaptado pelo Programa Criança Feliz, que destaca o cuidador como a figura mais importante na vida da criança – responsável por alimentá-la, protegê-la, oferecer afeto, se comunicar e atender às suas necessidades. Na maioria dos casos, esse cuidador é a própria mãe. E algumas delas foram marcadas pelo anseio climático ainda na gravidez.
É o caso de Ana Paula da Silva, moradora do Quilombo de São Roque, grávida de seis meses na época das enchentes de maio de 2024. Embora o quilombo esteja situado em uma área elevada – o que reduz o risco direto de inundações –, o solo encharcou, comprometendo a estabilidade do terreno e provocando deslizamentos de encostas. As estradas que ligam a comunidade ao município também ficaram bloqueadas, deixando os moradores ilhados e dificultando o acesso a serviços essenciais, como saúde e abastecimento.
Houve uma madrugada, após três dias contínuos de chuvas, em que Ana Paula e sua família se viram em uma situação limite. A terra começou a ceder e um poste de luz em frente à casa em que moravam estava parcialmente solto e ameaçava cair sobre a residência.
Ao amanhecer, eles iniciaram uma caminhada de mais de quatro horas por trilhas improvisadas em meio ao mato. O destino: a casa da tia Eliane, localizada em uma área mais segura, na comunidade vizinha, em Palmas. A chegada até lá, porém, foi cercada de obstáculos. “Passamos por porteiras, cercas, onde ficam os animais. Achamos trilhas para conseguir chegar, desviando dos pontos de enchente”, relembra Ana.
A adrenalina era tanta que ela nem sentiu o trajeto. “Eu estava muito preocupada com os morros. Tinha gente chorando por bens materiais, pelos animais, e eu pensava: ‘Deus, só me deixa com a minha filha. Se quiser levar os bens, paciência. Eu trabalho e conquisto de novo. Só me deixa com ela’.” Eles ficaram abrigados na casa da tia, junto de outras 20 pessoas. Lá, enfrentaram a falta de luz e a limitação de água e alimentos. “Todo mundo se tratou bem, mas não era a minha casa.”
Após cinco dias, Ana Paula conseguiu ir para a casa da sogra, no município de Capitão, e ficou lá até que pudesse retornar à comunidade. Hoje, com a pequena Emilly completando um ano, ela reconhece que a situação teria sido ainda mais difícil caso tivesse que fazer a mesma travessia com a bebê nos braços. Desde que a filha nasceu, ela se mantém preparada.
“Sempre tenho uma lata de leite a mais, ou pelo menos, se tem metade, já compro outra. Quando eu sei que a previsão é de muita chuva, né?! Às vezes dá os alertas e essas coisas, e eu não deixo faltar leite nem fralda, tenho muito medo”
Ana Paula da Silva
O medo como um sentimento legítimo
Segundo pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), crianças geralmente desenvolvem até 24 meses a regulação emocional, que se configura na capacidade de expressar emoções básicas, como o medo, de forma mais estável. O que explica a reação de Guilherme Wanschel, hoje com 3 anos, quando começa a chover. “Mesmo que seja uma chuva tranquila ele fica com muito medo. Hoje de manhã mesmo, ele me olhou e falou: ‘Mãe, tá chovendo!’, todo apavorado. Quando fica nublado, já dá pra ver que ele fica mais sensível. Ele puxa a atenção, fica grudado”, conta Liliane Wanschel, também moradora do Quilombo São Roque e mãe de Guilherme, que tinha 2 anos e 6 meses quando a água invadiu a casa em que moravam.
A casa de Liliane, localizada em uma das áreas mais baixas do quilombo, ficou completamente desabitada após as enchentes. “Por um tempo, fiquei na casa da minha mãe. Mas como a casa dela também era área de risco, a gente precisou sair. Aí fomos pra casa do meu irmão. Depois achamos que íamos poder voltar, mas não deu. Acabamos ficando [em um abrigo] no salão da escola”, relata.
A constante mudança de ambientes foi outro fator que impactou Guilherme. Longe dos brinquedos, do espaço familiar e de sua rotina, o menino teve dificuldades para se adaptar. “Não dormia direito, estranhou o lugar. Não tinha as coisinhas dele, ficou tudo pra trás. Só levei algumas roupas, não tinha muito o que fazer.”
Ao todo, a família passou quase 40 dias fora de casa. Quando finalmente voltaram, a realidade ainda era hostil. “A casa estava cheia de barro. Demorou até a gente conseguir limpar, e ainda não tinha água nem luz”, relembra Liliane. E, nesse retorno, Liliane percebeu mudanças no comportamento do filho.
“Ele ficou meio paradinho… Não dá para dizer que foi trauma, mas ficou mais quietinho. Ele se sentia estranho dentro da nossa casa, porque ele já estava acostumado com outra rotina, né? Não era mais ‘a casa dele’. Mas depois… – criança, né?! – foi normalizando”
Liliane Wanschel
A psicóloga Juliana Prates explica que esse tipo de reação é esperado em crianças que vivenciaram traumas relacionados a desastres naturais, especialmente quando continuam expostas às mesmas condições. Nesses casos, a professora destaca que o acolhimento é fundamental. “É preciso reconhecer e aceitar esses sentimentos que as crianças demonstram. Quando a gente está sentindo medo, o que queremos é alguém que nos acolha; é alguém que nos ouça”.
Em crianças muito pequenas, como era o caso de Guilherme, o medo pode se manifestar de formas indiretas, explica. “Para uma criança de 3 anos, que é tão pequena, o que a gente pode observar em termos de expressão de medo, às vezes, é uma regressão dos comportamentos. Era uma criança que não fazia mais xixi, e volta a fazer xixi na cama. Era uma criança que já não chupava mais dedo, e volta a chupar dedo. É uma criança que quer mais colo [como aconteceu com Guilherme]. O fundamental é que a gente possa ter paciência para acolher esse sentimento de elaboração do evento vivido.”
Quando essas reações se tornam persistentes e começam a impedir a criança de vivenciar novas experiências – como entrar na escola, frequentar atividades ou socializar –, a psicóloga sinaliza que é hora de buscar ajuda especializada.
Mas o trauma nem sempre aparece
No Quilombo Costa da Lagoa, localizado no município de Capivari do Sul, vive Lorena Netto, que na época das enchentes tinha 5 anos. Na rua em que morava, a água começou a subir rápido: “Eu e meu marido levantamos tudo até a altura da cintura, imaginando que a água chegaria ali”, conta Paula Bernardes Netto, mãe da menina. Cadeiras, camas, roupas: tudo foi empilhado numa tentativa desesperada de salvar o que fosse possível. Sem saber quanto tempo ficariam fora de casa, a família buscou abrigo temporário em uma residência vazia de um conhecido, em Santa Rosa. Ficaram um mês lá.
A parte de dentro da casa em que moravam, não alagou, mas ficou ilhada. Lorena não demonstrou medo ou trauma com a situação; pelo contrário, encarou tudo como uma grande aventura. “A gente tentava fazer disso algo divertido”, conta Paula. “Colocamos botas e botamos ela e minha mãe num barco, puxamos com o carro até onde dava. Ela dizia: ‘Nossa, tô andando de barco na rua da minha casa!’.”


Hoje, aos 6 anos, Lorena não demonstra medo da chuva nem sentimentos controversos em relação à época das enchentes, diz a mãe. “As experiências, para serem consideradas traumáticas ou não, dependem de como o sujeito experiencia aquele momento. Então, de fato, as crianças podem ter recordações de eventos que são difíceis, que foram difíceis para os adultos, mas que elas perceberam como leves, porque elas recordam outras questões, outras dimensões”, afirma Juliana.
A psicóloga faz um paralelo com a pandemia da covid-19, quando, apesar da gravidade do cenário, muitas crianças lembram daquele período com carinho. “O fato de ficar em casa com os cuidadores pode ter sido percebido como uma época boa, porque eles não tinham escola, ou porque eles estavam em casa, eles podiam brincar o dia inteiro”, explica.


As especificidades da primeira infância quilombola
Tragédias climáticas escancaram a urgência de ações voltadas às populações quilombolas, uma vez que a subsistência dessas pessoas depende do clima. Uma pesquisa coordenada pela Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação do RS e executada pela Emater/RS-Ascar indica que em 58% das comunidades remanescentes de quilombo (urbanas e rurais) do Rio Grande do Sul, há famílias que comercializam sua produção agropecuária. No Quilombo Costa da Lagoa, por exemplo, a produção na pesca foi muito afetada durante as enchentes.
“Teve [ainda] a plantação de aipim do vizinho; estragou tudo. Os porcos, os bichos, soltaram pra não afogar”
Paula Bernardes Netto

Um dos principais temas abordados pela justiça climática é a evidência de que as populações mais vulneráveis – e que menos contribuíram para a crise climática – são justamente as que mais sofrem com seus efeitos. “Para essas pessoas, a natureza não é um pano de fundo, é parte intrínseca da vida”, diz Juliana. Um olhar atento à primeira infância quilombola é um olhar que valoriza os saberes tradicionais, que zela pela natureza. É um olhar que reconhece e enfrenta as desigualdades que marcam de forma desproporcional essas comunidades, seus cuidadores e suas crianças.
Das políticas voltadas para crianças pequenas, há no Rio Grande do Sul, além do programa federal Criança Feliz, uma iniciativa local que se destaca por seu trabalho contínuo há mais de duas décadas: o Primeira Infância Melhor (PIM). Criado em 2003, o PIM é uma política pública voltada ao desenvolvimento integral de crianças de 0 a 6 anos que vivem em contextos de risco social, além de atender gestantes. Em Porto Alegre, o programa atua principalmente com visitas domiciliares semanais a famílias sorteadas em situação de vulnerabilidade. Todas os visitadores da capital são técnicos em enfermagem, e cada um acompanha de 20 a 22 crianças.
Conforme explica a coordenadora do PIM em Porto Alegre, Sônia Silvestrin, o programa busca, por meio de uma série de ações, garantir a igualdade de direitos ao desenvolvimento infantil. “Levamos brinquedos, informações para os pais, promovemos atividades voltadas à parentalidade positiva, incentivando uma infância livre de castigos, livre de violência e com redução das vulnerabilidades.” Além dos visitadores fixos, famílias acompanhadas pelo programa também recebem apoio multidisciplinar, com visitas periódicas de profissionais da saúde, educação e assistência social.
Durante as enchentes, o programa contou com o apoio da ONG Promundo, que atua na promoção da equidade de gênero, justiça racial e fortalecimento das infâncias. Os visitadores de diversos municípios passaram por formações específicas para lidar com o impacto dos desastres climáticos sobre as crianças. “Foram quatro quartas-feiras de curso que habilitaram os visitadores a olharem com mais atenção para as crianças afetadas pelas enchentes”, explica Sônia.
No entanto, desde 2022, o PIM de Porto Alegre não realiza visitas a crianças quilombolas, pois o sistema de sorteio não leva em conta as especificidades étnicas das comunidades. Em outros municípios gaúchos, como Camaquã e Restinga Seca, o atendimento alcança mais de vinte crianças quilombolas.
Conforme explica Marília Bianchini, coordenadora estadual do PIM, há uma preocupação em garantir que os visitadores pertençam às próprias comunidades – indígenas ou quilombolas – para que haja uma atuação mais efetiva e respeitosa com os saberes e a cultura local. A contratação desses profissionais, contudo, assim como ações pensadas exclusivamente para os quilombos, ainda dependem das políticas e condições de cada município.
Esta reportagem recebeu apoio do programa Early Childhood Reporting Fellowship, do Global Center for Journalism and Trauma.





