Pinacoteca | A professora do departamento de Artes Visuais Alessandra Bochio reflete, a partir da obra da artista paraense, sobre duplos digitais e novos modos de olhar
*Imagem: excerto de obra da série EGOSHOT, de Flavya Mutran
Na série EGOSHOT (2009-2018), a artista paraense Flavya Mutran explora a figura do rosto humano a partir de vídeos apropriados do YouTube: são vídeos de pessoas anônimas que se autorretratam diariamente durante alguns anos por meio de fotografias. O acervo da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo adquiriu três imagens da série, todas sem título, medindo 115 x 110 centímetros e classificadas como assemblages digitais. Trata-se de fotografias de longa exposição, em que a artista registra, em uma única tomada, a duração desses vídeos; uma espécie de imagem-resumo, produzida pela sedimentação e pelo acúmulo de muitas camadas.
Em Cinema, vídeo, Godard (2004), Philippe Dubois, ao propor uma noção videográfica de espessura da imagem, nos apresenta a uma ideia de profundidade fundada não na representação do espaço tridimensional na superfície bidimensional, mas na estratificação de camadas, de superfícies que são sobrepostas uma a uma. Essa é a primeira imagem mental que me vem à cabeça ao olhar as imagens de Mutran: as imagino como blocos, espessos, construídos pelo empilhamento de imagens diversas. Talvez seja por isso mesmo que dizem muito além do que elas figuram.

EGOSHOT é uma das séries que integra a pesquisa de mestrado da artista, intitulada Pretérito imperfeito de territórios móveis, realizada no Programa de Pós-graduação em Artes Visuais do Instituto de Artes da UFRGS em 2011. Abrange um período específico da recente história da internet, a chamada web 2.0, que, conforme a artista, trazia como elemento novo, naquele momento, a derrubada das antigas paredes que protegiam o espaço particular do escritor doméstico e seus relatos íntimos.
A web 2.0 refere-se à segunda geração da internet, caracterizada pela interação, pela colaboração e pelo compartilhamento de conteúdos entre os/as usuários/as; diz respeito principalmente ao momento de surgimento das redes sociais, que pretendiam colocar qualquer pessoa como produtora de conteúdo – pelo menos foi isso que nos disseram na primeira década dos anos 2000.
Um sinal daqueles tempos: em 2006, a revista estadunidense Time escolheu você como a personalidade do ano. Isto é, não apenas você, mas todos nós: as pessoas comuns. Na capa da publicação, um espelho refletia a imagem dos/as seus/suas leitores/as; no artigo, a justificativa da escolha era que nós, as pessoas comuns, tomamos as rédeas da mídia global e fundamos uma nova democracia digital. Naquele ano de 2006, os editores da Time estavam ressaltando o enorme aumento na produção de conteúdos feita pelos/as usuários/as da internet.

Até a primeira década dos anos 2000, nos encantamos pelas possibilidades das tecnologias digitais e principalmente da internet; acreditamos de fato que um modo mais democrático de nos comunicar era possível com esses meios. O que estamos observando, contudo, é que de lá para cá ocorreram inúmeras reviravoltas e transformações. A internet foi tomada por um número bastante restrito de grandes corporações de tecnologia e, com isso, a comunicação tem se tornado cada vez menos democrática e mais enviesada. As plataformas de mídias sociais têm cada vez mais ditado o modo como usamos a internet, e os algoritmos têm interferido de maneira bastante contundente na escolha dos conteúdos que consumimos.
De lá para cá, as pessoas comuns têm se tornado a mensagem dos conteúdos que produzem em perfis de lifestyle. A escritora e ativista canadense Naomi Klein tem utilizado o termo doppelgänger para refletir sobre duplos, réplicas ou sósias digitais que vêm povoando nossas vidas por meio de perfis em redes sociais e apresentando pessoas como marcas. Essas marcas são construídas para criar uma percepção positiva de si e tornar-se conhecida, desejada e relevante no mercado da influência digital e, com isso, angariar um número cada vez maior de seguidores/as.
Na era de influenciadores/as digitais, as plataformas de mídias sociais garantem que seus/suas usuários/as tenham à disposição ferramentas para criar e gerir uma marca pessoal, aplicando os princípios do branding corporativos a seus eus particulares. Para autora, a expectativa é que cada vez mais pessoas se definam e se defendam como uma marca sólida e robusta o suficiente para que a própria humanidade se torne menos humana e menos capaz de mudar e evoluir, mesmo se tratando de crises ecológicas e políticas urgentes.
Todo um outro paradigma de produção e consumo está sendo construído e presentificado, de modo que as imagens têm se transformado em um dos dispositivos mais importantes da contemporaneidade; são espaços de projeção, reivindicação e socialização, como nos lembra Giselle Beiguelman em Política das imagens: vigilância e resistência na dadosfera (2021); estão ultrapassando os planos emolduráveis das superfícies bidimensionais e ganhando espessura. Com isso, estão configurando novos modos de olhar e de ser visto.
Ao olhar para as figuras sem rosto de EGOSHOT, vejo os fantasmas eletrônicos e digitais que têm nos assombrado nas timelines das redes sociais: são aparições, resultado do acúmulo de todos os rostos que são presentificados diariamente em nossas telas, que, para além de pessoas, são marcas – duplos, réplicas, sósias coorporativos; são vultos, imagens-borrões, que parecem transitar entre a presença de alguma coisa e a ausência de alguém, entre aquilo que parece real e é apenas informação numérica. As imagens de Mutran apontam aquilo que não estamos enxergando. Não à toa essas imagens não têm títulos.

Alessandra Bochio é pesquisadora e professora do Departamento de Artes Visuais da UFRGS. Coordena o Grupo de Pesquisa Estudo e Práticas feministas na Arte e o Grupo de Extensão Limiar: arte e audiovisual.
Quinzenalmente, estudantes e pesquisadores apresentam obras da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo a partir de diferentes aspectos. A seção tem curadoria de Camila Monteiro Schenkel e Gabriela Motta.





