Solidão: impactos e possibilidades de cuidado

Bem-estar | A psicóloga Gabriella Koltermann reflete sobre a epidemia de solidão e destaca medidas para reforçar laços de pertencimento

Imagem: Excerto da obra Solidão, de Iberê Camargo (Crédito: Flávio Dutra/Arquivo JU 24 mai. 2025)

A solidão é uma experiência inerentemente subjetiva. Sentir-se só, inclusive, pode ocorrer estando rodeado de pessoas. Apesar de ainda haver dificuldades de uma definição consensual, entende-se que, mais do que quantidade de relações sociais, o conceito de solidão surgiria da percepção de discrepância entre o nível esperado e o real de conexões sociais significativas.

O fato é que a solidão vem se despontando como alvo de estudos e preocupação no mundo todo, principalmente em países mais desenvolvidos. Reino Unido e Japão criaram, em 2018 e 2021, respectivamente, os ministérios da solidão – tamanha necessidade de ações de saúde públicas coletivas nesse assunto. O termo “epidemia de solidão” atualmente também vem sendo discutido cada vez mais. Em uma rápida busca na base de dados internacional Pubmed pelo termo “loneliness epidemic”, chega-se a um total de 5.418 resultados, sendo 3.945 publicados somente nos últimos 5 anos (72,8%), ou seja, de 2020 até o momento. 

Alguns desses estudos vêm demonstrando efeitos comparáveis entre a solidão o tabagismo e do sedentarismo para o aumento do risco de doenças cardiovasculares e o enfraquecimento do sistema imunológico. Adiciona-se a associação da solidão com questões de saúde mental – entre elas, depressão, ansiedade e sentimentos de desesperança: argumentos suficientes para a preocupação com a temática, enquanto fator de risco à saúde e bem-estar.

Particularmente vulneráveis à solidão estão os idosos, adolescentes, pessoas com transtornos mentais pré-existentes, aquelas que vivem em grandes centros urbanos e grupos que possam sofrer estigmas sociais, como a comunidade LGBTQIA+ e pessoas com deficiência. Os idosos podem estar mais vulneráveis à solidão por fatores como aposentadoria e perda de pessoas queridas, enquanto a solidão nos jovens associa-se à tendência ao isolamento, muito devido ao uso excessivo de telas e mídias digitais – relacionado ao aumento da sensação de desconexão social.

Embora seja uma experiência subjetiva, marcada por fatores psicológicos individuais, a solidão também tem raízes que se entremeiam à cultura e à sociedade. Em editorial da renomada revista científica Lancet, publicado em 2023, foram destacados alguns fatores de risco para a solidão. Entre esses, culturas que priorizam o individualismo em detrimento do sentimento de pertencimento, associado a fatores como preconceitos de diferentes ordens, o que gera desigualdade e reforça os sentimentos de exclusão.

Apesar de silencioso, o sentimento de solidão é um peso que não precisa ser carregado sozinho. No Brasil, há o Centro de Valorização da Vida (CVV), no número 188, atendendo 24 horas, que realiza acolhimentos por chamada telefônica de modo sigiloso e seguro, ou chat e e-mail via site da organização, que pode auxiliar no suporte psicológico nesses casos.

Destaca-se, também, a importância de identificar e oferecer apoio a quem pode estar se sentindo solitário – principalmente idosos e adolescentes/jovens. Para além destes, o fomento a projetos comunitários que promovam inclusão e a programas de apoio psicológico e social podem ser alternativas interessantes para lidar com esse fenômeno crescente, incluindo grupos terapêuticos ou de convivência que fortaleçam o sentimento de pertencimento e compartilhamento de experiências. Promover formas de convivência e o acolhimento na nossa sociedade é cultivar também conexões interpessoais genuínas, saúde e bem-estar em tempos de solidão.   

Solidão (1994). Iberê Camargo, óleo sobre tela. Flávio Dutra/Arquivo JU 24 mai. 2025, Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre.

Gabriella Koltermann é psicóloga (CRP 07/32311) e neuropsicóloga, mestre e doutora em Psicologia (UFRGS) e atua no Colégio de Aplicação da UFRGS.

Quinzenalmente, profissionais de diversas áreas ligados à UFRGS escrevem sobre nutrição, saúde, cotidiano e outros temas ligados ao bem-estar. A seção tem curadoria de Fabiana Tanabe e Stéfani Schneider.


As opiniões expressas nos textos assinados são de responsabilidade de seus autores e não refletem o posicionamento editorial do JU ou da UFRGS.