Crescimento econômico sustentado e escolha controversa são destaques dos Prêmios Nobel da Economia e da Paz deste ano

Ciência | Pesquisadores da Faculdade de Ciências Econômicas e do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas comentam os premiados de 2025

*Prêmio Sveriges Riksbank em Ciências Econômicas aponta como novas tecnologias podem impulsionar o crescimento sustentado (Crédito: Johan Jarnestad/Academia Real Sueca de Ciências)

Diante dos anúncios dos prêmios Nobel de Paz e Economia, realizados, respectivamente, nos dias 10 e 13 de outubro, o JU aborda em série especial as pesquisas e os debates críticos realizados na Universidade sobre as temáticas premiadas


A economia criativa e sustentada foi a temática escolhida pela Real Academia Sueca de Ciências ao conceder o Prêmio Sveriges Riksbank em Ciências Econômicas em Memória de Alfred Nobel 2025 para Joel Mokyr, Philippe Aghion e Peter Howitt no dia 13 de outubro. Dias antes, em uma escolha vista como controversa, o Comitê Norueguês do Nobel decidiu conceder o Prêmio Nobel da Paz de 2025 a Maria Corina Machado; o anúncio feito em 10 de outubro a enaltece “por seu trabalho incansável na promoção dos direitos democráticos do povo da Venezuela e por sua luta para alcançar uma transição justa e pacífica da ditadura para a democracia”. 

Ao explicar o crescimento econômico impulsionado pela inovação, o Nobel em Economia deste ano integra três pesquisadores em torno do pensamento de um crescimento sustentado através do progresso tecnológico e da destruição criativa. “O crescimento surge da destruição criativa. Esse processo é criativo porque se baseia na inovação, mas também é destrutivo porque os produtos antigos se tornam obsoletos e perdem seu valor comercial”, explicam os membros do comitê responsável pela premiação.

De acordo com a Pró-reitoria de Pesquisa (Propesq) da UFRGS, a Faculdade de Ciências Econômicas (FCE) desenvolveu 12 projetos de pesquisa nessa área, estando dois em andamento: “Modelos Matemáticos de Crescimento Econômico com Mobilidade Espacial de Mão de Obra, Capital e Tecnologia” e “Mudança estrutural e crescimento econômico: o papel do perfil de inserção externa e dos sistemas nacionais de inovação pós-1990”.

Referente ao Prêmio Nobel da Paz, um entre os mais esperados todos os anos, seis projetos de pesquisa envolvendo a Venezuela foram desenvolvidos pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Escola de Administração e Faculdade de Educação da UFRGS. Também está em andamento a pesquisa “Reformas da administração pública em perspectiva comparada, 1900-2020. Profissionalização de burocracias governamentais na Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, México, Uruguai e Venezuela”, segundo a Propesq.

Destruição criativa no debate para um crescimento econômico inovador e sustentado

A inovação é o epicentro da dinâmica econômica, afirma Glaison Augusto Guerrero, professor na FCE que atua com pesquisas sobre Desenvolvimento e Economia Industrial. Conceito criado pelo economista Joseph Schumpeter no livro “Capitalismo, Socialismo e Democracia” (1942), destruição criativa é o processo de inovação em que novas tecnologias, produtos e modelos de negócio substituem os antigos, impulsionando o crescimento econômico. “Ou seja, destruição criativa é um processo de mutação industrial que revoluciona incessantemente a estrutura econômica de dentro para fora, destruindo incessantemente a antiga, criando incessantemente a nova”, aponta o pesquisador.

Segundo Schumpeter, esse “processo de destruição criativa é o fato essencial do capitalismo” e é “nesse processo que toda empresa capitalista tem de viver”. Dessa forma, o pensador atribui aos departamentos de pesquisa e desenvolvimento (P&D) das grandes empresas oligopolistas o papel de ator principal para o aparecimento de inovações no sistema. “A grande empresa é o motor mais poderoso do progresso econômico. O grande empreendimento é um mal necessário”, complementa Guerrero.

Prêmio Sveriges Riksbank em Ciências Econômicas aponta como novas tecnologias podem impulsionar o crescimento sustentado(Crédito: Johan Jarnestad/Academia Real Sueca de Ciências)

Em sua tese de doutorado, o professor da UFRGS discorre sobre o desenvolvimento tecnológico da indústria de máquinas-ferramenta no Brasil, inferindo que as inovações dessa indústria determinam a competitividade e abrem portas para inovação na indústria manufatureira. “Essa indústria foi o alpha e o ômega da Revolução Industrial da Inglaterra, dos países europeus, dos EUA, do Japão como também da China. Joel Mokyr também destaca tal importância para a Revolução Industrial”.

Atualmente, Guerrero desenvolve pesquisas na UFRGS sobre inovação, mais especificamente sobre a indústria de circuitos integrados (hardware), a mais avançada tecnologia desenvolvida pela humanidade. Para ele, não há dúvida sobre a importância das pesquisas básica e aplicada e do próprio desenvolvimento tecnológico para o desenvolvimento econômico dos países, sendo que, nesse contexto, a universidade se torna um dos berços da pesquisa de excelência.

“Essa conscientização é fundamental. Acredito que o central nesse debate é promover a conscientização sobre a importância da Universidade e o seu papel na P&D na resolução de problemas para a sociedade civil, além de ser esse lugar um dos principais impulsionadores para o desenvolvimento tecnológico e econômico de um país”

Glaison Augusto Guerrero
A escolha equivocada de Maria Corina Machado para a defesa da democracia

Ao aceitar conceder a entrevista para essa reportagem, o doutorando em Ciência Política pela UFRGS Miguel Sosa Vega fez questão de deixar clara a sua visão sobre o Prêmio Nobel da Paz: “Tenho uma análise crítica em relação ao Prêmio e ao papel desempenhado por Maria Corina Machado na busca pela paz na Venezuela. Caso essa perspectiva ainda seja de interesse para o JU, poderia contribuir”. A escolha do nome de Maria Corina Machado para o Nobel da Paz também foi criticada por Rodrigo Stumpf González, professor do departamento de Ciência Política da Universidade e orientador de Miguel. 

Ao anunciar Maria Corina durante o Prêmio Nobel da Paz de 2025, o presidente do comitê a definiu como “uma mulher que mantém acesa a chama da democracia, em meio a uma escuridão crescente”, sendo um dos “exemplos extraordinários” de coragem na América Latina nos últimos tempos. No mesmo dia do anúncio, o Brasil decide não assinar um documento elaborado pelo Foro de Consulta e Concertação Política do Mercosul saudando a líder antichavista.

Maria Corina Machado, laureada com o Prêmio Nobel da Paz 2025 (Imagem: Niklas Elmehed © Nobel Prize Outreach)

De acordo com Rodrigo, a Venezuela vem enfrentando períodos conturbados do ponto de vista eleitoral desde a morte de Hugo Chávez, com um presidente (Nicolás Maduro) contestado e que tem tomado atitudes que levam o país para um caminho autoritário.

“A oposição, porém, tem defendido práticas autoritárias também. Parte de sua fragilidade frente a Maduro é a divisão entre as lideranças da oposição. Assim, Maria Corina não é nem uma líder inconteste de oposição, nem uma campeã da democracia. Não é uma novidade que o comitê do Nobel escolha figuras controversas do ponto de vista político, que não necessariamente chegaram a apoiar um processo real de paz, mas apenas são uma das partes do conflito” 

Rodrigo González

Miguel complementa ao refletir que a figura de Maria Corina tem somado um grande número de seguidores a uma oposição que vinha dividida e desmobilizada desde 2019, e que ficou profundamente fragilizada pelas eleições “fraudulentas” de 2024. Ao longo dos seus 23 anos de trajetória política, foi eleita deputada em 2006 e 2010 e foi candidata presidencial em 2012, quando obteve 3,81% dos votos. Machado construiu uma postura de claro antagonismo em relação à “Revolução Bolivariana”, primeiro contra Chávez e depois contra Maduro. O momento mais radical dessa oposição ocorreu em 2014, com a convocação dos protestos denominados La Salida, que exigiam a saída do governo de Maduro. Segundo as cifras divulgadas pela Procuradoria-geral da República, nessas manifestações 43 pessoas morreram, 486 ficaram feridas e 1.854 foram detidas.

“Esses elementos podem nos levar a perguntar: será que este Nobel representa a paz para a Venezuela? Tudo indica que não. No cenário atual, Maria Corina Machado representa o outro extremo do espectro político do país, e sua eventual eleição parece atender diretamente aos interesses geopolíticos de Donald Trump na região. Em um cenário de extrema polarização e ameaças de guerra, fica claro que a Venezuela precisa de paz e conciliação, e não da amplificação dos extremos”

Miguel Sosa Vega

A fragilidade da democracia na América Latina é enaltecida quando o Nobel da Paz escolhe a personalização. “Se o Nobel da Paz tivesse por objetivo dar apoio à democracia na América Latina, deveria ser dado a algum dos grupos que têm tentado mediar os diversos conflitos regionais”, aponta Rodrigo. “A personalização nunca é boa para a democracia; a Venezuela, como o Brasil, precisa de uma sociedade civil forte, capaz de dar apoio às instituições democráticas, e não de líderes carismáticos, salvadores da pátria”, pondera, reforçando que não acredita que esse Prêmio “ajude a democracia no continente, apenas alimenta as divisões sobre as acusações mútuas entre direita e esquerda de quem é o maior risco para a democracia.”

No âmbito da Universidade, Miguel pesquisa sobre Cultura Política e investiga como os valores democráticos são construídos e transmitidos em contextos sociais específicos – tema que se relaciona diretamente com a atribuição do Nobel à Maria Corina Machado, uma vez em que o Prêmio toca em questões como a concepção de democracia e os mecanismos da sua promoção ou erosão.

O doutorando vê na UFRGS um espaço de protagonismo no debate sobre os rumos da democracia, não apenas no Brasil, mas com relevância internacional. “A Universidade fomenta pesquisas de alto nível que investigam a erosão democrática, a ascensão da extrema-direita e os legados dos autoritarismos, temas que ressoam diretamente na discussão geopolítica levantada pelo Nobel da Paz deste ano. A excelência acadêmica de seus pesquisadores garante que estas não são discussões abstratas, mas análises profundamente enraizadas em evidências, capazes de oferecer explicações sofisticadas para fenômenos como a crise venezuelana e os desafios à democracia liberal”, elucida ele.

Já Rodrigo reforça que a UFRGS é o lugar principal do debate sobre democracia. “O nosso trabalho acadêmico contribuiu para informar a população sobre os riscos reais para a democracia e para o desenvolvimento de uma consciência da importância da cidadania”, finaliza ele.

Conheça a vencedora do Prêmio Nobel da Paz 2025

Maria Corina Machado, nascida em 1967 na Venezuela, país em que a premiada reside no momento. A motivação do prêmio foi “por seu trabalho incansável na promoção dos direitos democráticos do povo da Venezuela e por sua luta para alcançar uma transição justa e pacífica da ditadura para a democracia”.

Conheça os vencedores do Prêmio Nobel de Economia 2025

Joel Mokyr, nascido em 1946 em Leiden, Holanda. Doutor em 1974 pela Universidade de Yale, New Haven (Connecticut/EUA). Professor na Universidade Northwestern, Evanston, Illinois, EUA, e na Escola de Economia Eitan Berglas, Universidade de Tel Aviv, Israel.

Philippe Aghion, nascido em 1956 em Paris, França. Doutorado em 1987 pela Universidade Harvard, Cambridge (MA/EUA). Professor no Collège de France e no INSEAD, Paris, França, e na London School of Economics and Political Science, Reino Unido.

Peter Howitt, nascido em 1946 no Canadá. Doutorado em 1973 pela Northwestern University, Evanston (IL/EUA). Professor na Brown University, Providence, RI, EUA.


Nesta edição, o Jornal da Universidade publica a última reportagem da série especial sobre as temáticas vencedoras dos prêmios Nobel de 2025. Ao todo foram três reportagens, cada uma contemplando dois dos prêmios:
9/10 – Fisiologia/Medicina e Física;
16/10 – Química e Literatura;
23/10 – Paz e Economia.

A produção da série Nobel contou com a colaboração de Lucas Nogueira da Silva, da Divisão de Apoio à Pesquisa da Propesq.