Prêmios Nobel de Química e Literatura revelam uma Universidade em diálogo com o mundo contemporâneo

Ciência | Pesquisadores da UFRGS comentam o trabalho vencedor do Prêmio Nobel de Química e a obra do escritor que recebeu o Nobel de Literatura

*Crédito: Johan Jarnestad_The Royal Swedish Academy of Sciences

Diante dos anúncios dos prêmios Nobel de Química e Literatura, realizados, respectivamente, nos dias 8 e 9 de outubro, o JU aborda em série especial as pesquisas e os debates críticos realizados na Universidade que envolvem as temáticas premiadas

Susumu Kitagawa, Richard Robson e Omar M. Yaghi foram anunciados em 8 de outubro pela Real Academia Sueca de Ciências como vencedores do Prêmio Nobel de Química de 2025. Os pesquisadores desenvolveram uma nova classe de materiais cristalinos, conhecidos como estruturas metalorgânicas, ou MOFs (Metal–Organic Frameworks). Esse novo tipo de arquitetura molecular contém cavidades em que as moléculas podem fluir para dentro e para fora. “Estruturas metalorgânicas têm um potencial enorme, trazendo oportunidades nunca antes previstas para materiais feitos sob medida com novas funções”, disse Heiner Linke, presidente do Comitê Nobel de Química.

Um dia depois (9 de outubro), o autor húngaro László Krasznahorkai conquistou o Prêmio Nobel de Literatura deste ano “por sua obra convincente e visionária que, em meio ao terror apocalíptico, reafirma o poder da arte”. A crítica americana Susan Sontag coroou Krasznahorkai como o ‘mestre do apocalipse’ da literatura contemporânea, um julgamento a que chegou após ter lido o segundo livro do autor: Az ellenállás melankóliája  (1989; A Melancolia da Resistência, 1998). Nesta obra, em uma febril fantasia de horror encenada em uma pequena cidade húngara aninhada em um vale dos Cárpatos, o drama foi intensificado ainda mais. “Utilizando cenas oníricas e caracterizações grotescas, László Krasznahorkai retrata com maestria a luta brutal entre a ordem e a desordem. Ninguém escapa dos efeitos do terror”, analisa Anders Olsson, presidente do Comitê Nobel.

Ambos os prêmios foram comentados por professores da UFRGS. Na área da Química, segundo levantamento da Pró-reitoria de Pesquisa (Propesq), são desenvolvidas na Universidade atualmente 11 projetos de Pesquisa relacionados à estrutura molecular: modelagem e simulação molecular, ligações químicas, química teórica e outros aspectos estruturais de moléculas. Já nos estudos literários, são 14 projetos de pesquisa em andamento na UFRGS na área de Literatura Europeia, de acordo com a Propesq. 

O papel da Química no enfrentamento das mudanças climáticas

A arquitetura molecular evidenciada no Nobel de Química aponta que, desde os trabalhos pioneiros na década de 1990, os MOFs têm mostrado um enorme potencial em aplicações, como captura e armazenamento de gases — especialmente dióxido de carbono (CO2) e hidrogênio —, armazenamento de energia, catálise heterogênea, liberação controlada de fármacos e purificação ambiental. Pesquisadores têm utilizado essas estruturas para coletar água do ar no deserto, extrair poluentes da água, capturar dióxido de carbono e armazenar hidrogênio. 

Ilustração com os três vencedores do Prêmio Nobel de Química 2025: Susumu Kitagawa (E), Richard Robson (C) e Omar M. Yaghi (D) (Crédito: Niklas Elmehed/Nobel Prize Outreach)

Katia Bernardo Gusmão, professora do departamento de Química Inorgânica do Instituto de Química da UFRGS e presidente da Sociedade Brasileira de Catálise, explica que a originalidade da descoberta está em combinar química de coordenação com design molecular racional, criando sólidos modulares e previsíveis, cujas arquitetura e propriedades podem ser ajustadas pela escolha dos metais e dos ligantes. “Essa abordagem permitiu o surgimento de estruturas com poros grandes bem definidos, capazes de absorver, armazenar ou separar moléculas de maneira altamente seletiva. O impacto desses materiais é particularmente relevante diante dos desafios climáticos globais.” Isso porque muitos MOFs mostram desempenho excepcional na captura e no sequestro de dióxido de carbono (gás de efeito estufa), contribuindo para estratégias de redução de emissões. 

Na UFRGS, o Laboratório de Reatividade e Catálise (LRC) desenvolve pesquisas diretamente relacionadas a essa temática desde 2017. Essas investigações se inserem em um contexto mais amplo de química verde e transição energética, utilizando os MOFs como plataformas versáteis para o armazenamento de energia, ativação molecular e captura de carbono. “Os resultados obtidos reforçam a relevância dos conceitos premiados com o Nobel, demonstrando como a engenharia racional de estruturas metalorgânicas pode ser aplicada a problemas concretos de sustentabilidade e inovação tecnológica”, destaca Katia.

Entre os principais eixos de pesquisa do LRC, destacam-se:

  • o uso de MOFs contendo líquidos iônicos encapsulados em membranas trocadoras de prótons, com potencial aplicação em células a combustível;
  • o desenvolvimento de MOFs bimetálicos de níquel e zinco (NiZn) como catalisadores para a oligomerização de eteno, explorando a influência sinérgica entre os centros metálicos;
  • a investigação de ZIFs (Zeolitic Imidazolate Frameworks) aplicados à conversão de dióxido de carbono em carbonatos cíclicos (contribuindo para a valorização do CO2 como matéria-prima química e mitigação do gás de efeito estufa) e o desenvolvimento de material contendo ZIFs para aplicação em supercapacitores de alta performance;
  • a obtenção de MOFs com ligantes orgânicos funcionalizados para conversão do CO2 e a obtenção de MOFs a partir da despolimerização de PET pós-consumo, em uma abordagem que alia catálise, reciclagem química e economia circular;
  • estudo de novas aplicações em colaborações com outros grupos de pesquisadores da Universidade, entre elas aplicar MOFs em química analítica para análises de traços de contaminantes ambientais e para descontaminação tanto por adsorção quanto por fotocatálise.

Em colaboração com o LRC e o Núcleo de Química Analítica Aplicada (NUQA), o também professor do Instituto de Química Diogo Pompéu de Moraes desenvolve uma pesquisa que utiliza o MOF UiO-66 (rede metal-orgânica de Zr-ácido tereftálico) para a adsorção de ácido p-arsanílico. Utilizado como aditivo químico em rações na alimentação de frangos e suínos, esse ácido ajuda a combater o desenvolvimento de parasitas intestinais em animais que vivem em sistemas intensivos de criação. 

Moraes reafirma que a UFRGS possui pesquisas dedicadas à síntese, caracterização e aplicação de MOFs nas mais diversas áreas da ciência, reafirmando o lugar da Universidade como espaço de produção de conhecimento para a síntese e aplicação de MOFs em processos catalíticos. “As nossas pesquisas apresentam conexão com demandas atuais da sociedade para temas relacionados ao aprimoramento de processos químicos industriais, transição energética, produção de energias limpas e remediação ambiental”. 

Richard Robson inspirou-se na estrutura do diamante, em que cada átomo de carbono está ligado a outros quatro numa forma piramidal. Em vez de carbono, ele utilizou íons de cobre e uma molécula com quatro braços, cada um com um nitrilo na extremidade. Trata-se de um composto químico que é atraído pelos íons de cobre. Quando as substâncias foram combinadas, formaram um cristal ordenado e muito espaçoso. (Traduzido de The Royal Swedish Academy of Sciences com o aplicativo DeepL.com, revisado por Flávio Dutra)
A escrita em movimento como diferencial literário em László Krasznahorkai

Das inúmeras fontes do Instituto de Letras em que o JU entrou em contato para a produção desta reportagem, nenhuma disse ter lido as obras do autor húngaro László Krasznahorkai. Entretanto, dois professores aceitaram fazer uma análise crítica sobre a escolha de Krasznahorkai para o Nobel de Literatura este ano.

Ilustração do escritor húngaro László Krasznahorkai, prêmio Nobel de Literatura em 2025 (Crédito: Niklas Elmehed/Nobel Prize Outreach)

Gerson Roberto Neumann, professor de Literatura e Língua Alemã na UFRGS, reflete que o escritor premiado é pouco conhecido no cenário literário brasileiro, porém esse fato não reduz a importância de sua obra. “A obra do escritor extrapola o cenário húngaro e propõe uma leitura voltada a todos nós, habitantes do planeta Terra”. Neste ponto, Neumann se refere ao deslocamento do escritor Krasznahorkai que, após sair pela primeira vez de seu país, passa a viver em lugares diferentes, onde se ‘alimenta’ para a sua escrita. 

Para o professor, deslocar-se, mover-se é de extrema relevância para o ser humano, pois essa é a possibilidade de ampliar seu campo de visão de mundo. “Apesar de ter optado pelo refúgio, possivelmente um autoexílio, Krasznahorkai escreve sem uma fixidez a um espaço que o caracterize em sua obra. Esse aspecto, a escrita em movimento, ou a escrita sem morada fixa é, para mim, de grande interesse e vejo isso como um critério relevante para a obra de qualquer escritor/escritora ser reconhecida”. 

Krasznahorkai viveu muito tempo no exterior (Berlim, Kyoto e Nova York) e, hoje, se considera um autor sem morada fixa. Robert Schade, professor visitante no Setor de Alemão na UFRGS e doutor em Literatura Comparada pela Universidade de Potsdam, ressalta que o escritor se pronunciou de forma direta e indireta contra regimes autoritários em geral e, em específico, contra a política do primeiro-ministro húngaro Viktor Orban. “É o quinto escritor no século 21 que nasceu em países europeus da Ex-União Soviética ou países sob a influência dela, depois de Kertesz, Herta Müller (2009), Svetlana Aleksiévitch (2015) e Olga Tokarczuk (2018). Todos compartilham experiências semelhantes de regimes autoritários durante ou após o colapso do comunismo”.

Schade diz que não é por acaso que a maioria dos romances de Krasznahorkai se situam em lugares periféricos e sóbrios, como o seu livro mais famoso, Sátántangó (1985; livro adaptado para o cinema por Béla Tarr em 1994). Isso também ocorre nas obras A Melancolia da Resistência (1989), O retorno do Barão Wenckheim (2016), ou o seu penúltimo romance, Herscht 07769 (2021). Esse último romance foi escrito durante uma estadia de Krasznahorkai em Berlim e se refere a um código postal de Kana, uma cidade fictícia na Turíngia, na antiga Alemanha Oriental. No início do romance, que consiste em somente uma frase que se estende por 400 páginas, o protagonista Florian Herscht escreve uma carta à então chanceler da Alemanha, Angela Merkel. 

Na reflexão do professor visitante na UFRGS, segundo Herscht, o apocalipse está próximo. Como remédio, apenas existe a arte, ou seja, a música de Johann Sebastian Bach. “O romance combina partículas realistas (um forte patriotismo, desemprego, lobos que repovoam os territórios, violência e neonazistas), com um certo pessimismo e um humor negro”, analisa Schade, complementando que “o fluxo da literatura de Krasznahorkai é um desafio, mas vale muito a pena entrar nessas águas profundas. Esse é um autor que o Brasil tem que descobrir, seja pelos livros ou as adaptações pelo cinema”. 

Conheça os vencedores do Prêmio Nobel de Química 2025

Susumu Kitagawa, nascido em 1951 em Kyoto, Japão. Doutorado em 1979 pela Universidade de Kyoto, Japão. Professor na Universidade de Kyoto, Japão.

Richard Robson, nascido em 1937 em Glusburn, Reino Unido. Doutorado em 1962 pela Universidade de Oxford, Reino Unido. Professor na Universidade de Melbourne, Austrália.

Omar M. Yaghi, nascido em 1965 em Amã, Jordânia. Doutorado em 1990 pela Universidade de Illinois em Urbana-Champaign, EUA. Professor na Universidade da Califórnia, Berkeley, EUA.

Conheça o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura 2025

László Krasznahorkai, nascido em 5 de janeiro de 1954, Gyula, Hungria. É um grande escritor épico na tradição centro-europeia que se estende de Kafka a Thomas Bernhard, e é caracterizado pelo absurdismo e excesso grotesco.


Nesta edição, o Jornal da Universidade dá continuidade à publicação da série de reportagens especiais sobre as temáticas vencedoras dos prêmios Nobel de 2025. Ao todo serão três reportagens, cada uma contemplando dois dos prêmios:
9/10 – Fisiologia/Medicina e Física;
16/10 – Química e Literatura;
23/10 – Paz e Economia.

A produção da série Nobel conta com a colaboração de Lucas Nogueira da Silva, da Divisão de Apoio à Pesquisa da Propesq.