Artigo | Doutorando em Ciência Política, Miguel Sosa aponta a presença de critérios geopolíticos nas concepções de paz e democracia utilizadas pela instituição sueca
*Ilustração: Giordana Lorandi Pinto/Programa de Extensão Histórias e Práticas Artísticas, DAV-IA/UFRGS
A análise deste artigo, originalmente escrito em novembro de 2025, partia de um contexto de forte pressão diplomática e econômica dos Estados Unidos sobre a Venezuela. No entanto, o período entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026 alterou qualitativamente esse cenário, materializando uma ameaça que até então se mantinha no plano retórico. A incursão militar no território venezuelano feita pela administração Trump 2.0, que culminou na captura e extradição forçada de Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, em violação aberta ao direito internacional, expôs os verdadeiros fundamentos da política estadunidense por trás do petróleo venezuelano, muito além da chamada “luta contra o narcoterrorismo”, cujo saldo imediato inclui a execução extrajudicial de mais de uma centena de pessoas no Caribe durante operações contra supostas “narcolanchas”.
Esse cenário de agressão militar reconfigurou radicalmente o jogo político no qual se inseria a laureada com o Nobel da Paz, María Corina Machado – inicialmente vista como a candidata natural a liderar um eventual “governo de transição” tutelado por Washington. A presidenta interina de Venezuela Delcy Rodríguez (que era a vice-presidenta do país antes do sequestro de Maduro), por meio de um suposto acordo de compromisso com a administração Trump, parece ter garantido a permanência do chavismo no poder, assegurando em troca os interesses estratégicos dos Estados Unidos sobre o petróleo e os minerais do país. O gesto simbólico de Machado ao entregar sua medalha da paz a Trump não foi suficiente para mantê-la como peça central na estratégia norte-americana, que optou por um entendimento direto com o establishment atual.
O prêmio deste ano, outorgado a Maria Corina Machado com base na proclamação do seu “trabalho incansável na promoção dos direitos democráticos do povo da Venezuela e pela sua luta para conseguir uma transição justa e pacífica da ditadura à democracia”, expressa alguns enunciados que precisam de esclarecimento.
Em primeiro lugar, a promoção dos direitos democráticos reporta-se aos direitos políticos consagrados pela ONU em 1976 no Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos, que a Venezuela assinou em 1978. Esse pacto consagra, entre outros aspectos, o compromisso de garantir a participação dos cidadãos nos assuntos públicos em condições de igualdade, bem como o direito do povo venezuelano à autodeterminação.
Em segundo, a noção de transição justa e pacífica apresenta-se como um conceito que pode entrar em contradição com o ponto anterior, não deixando claro o que se entende por justa. Será que o bloqueio econômico e, agora, militar dos Estados Unidos à Venezuela se inclui na categoria de justo e pacífico? Por último, a passagem da ditadura (sendo conveniente para a análise a categoria de autoritarismo híbrido) para a democracia implicaria que é o povo venezuelano quem tem que decidir esse processo e o tipo de democracia que deseja.
É importante aclarar que a Venezuela, outrora considerada uma das democracias mais estáveis da América Latina, com uma trajetória de governos popularmente eleitos de maneira ininterrupta desde 1958, experimentou progressivamente um colapso multidimensional nos últimos anos.
Esse fenômeno tem gerado debates acadêmicos e políticos sobre o momento exato no qual o país deixou de ser uma democracia, junto aos fatores que aceleraram sua crise humanitária, evidenciada em uma diáspora de quase oito milhões de pessoas (ACNUR, 2024).
Embora exista consenso sobre o declínio da democracia venezuelana, persistem divergências sobre o seu ponto de inflexão. O debate centra-se em três momentos cruciais: a proclamação da Assembleia Nacional Constituinte por Hugo Chávez na sua chegada ao poder em 1998; a erosão institucional a partir da ascensão de Nicolás Maduro em 2013, após o falecimento de Chávez; e, por fim, a dissolução de facto da Assembleia Nacional em 2017.
Nesse cenário de ruptura democrática, a figura de María Corina Machado emerge com uma trajetória que é, em si, objeto de disputa. Foi líder de uma oposição antagônica aos governos de Chávez e Maduro, cujo momento mais radical se viveu nos protestos de 2014, conhecidos como “La Salida” – episódio que culminou na sua inabilitação política, impedindo sua candidatura em 2024.
A conexão de Machado com o cenário brasileiro adiciona outra camada à análise, pois a líder venezuelana manteve uma relação estreita com Jair Bolsonaro e o bolsonarismo. Em diferentes ocasiões, ela apelou publicamente por uma intervenção mais dura do governo Bolsonaro na Venezuela, alinhando-se com um projeto político que, internamente, minava os pilares da democracia brasileira.
Essas contradições (expostas pelo Conselho da Paz norueguês) entre luta pela democracia e defesa de uma intervenção estrangeira na Venezuela, exemplificadas na trajetória de María Corina, levantam questões sobre o tipo de democracia que o Nobel da Paz promove.
Parece estar mais alinhado aos interesses geopolíticos de Donald Trump, em um contexto global de radicalização das extremas direitas e de crise do capitalismo, no qual é necessário identificar um “outro” (na lógica amigo-inimigo) para poderem se reafirmar.
Nessa perspectiva, é fundamental questionar também o que representa o prêmio Nobel da Paz para seus galardoados e para os países e causas que encarnam. Pois ele é transmitido como um símbolo de reconhecimento (do ocidente) das lutas, mas não quaisquer lutas, e sim a luta pela liberdade e a democracia. Mas não qualquer democracia, e sim a democracia dos valores ocidentais. Isso quer dizer que a concepção do prêmio tem uma carga implícita que responde a critérios ideológicos e geopolíticos. Neste sentido, o prêmio pode ser visto como uma faca de dois gumes.
Um exame dos laureados com o Nobel da Paz nos últimos anos parece mostrar padrões nesse sentido. Embora se trate de causas legítimas e de figuras corajosas, desde 1998, o prêmio tem distinguido, em alguns casos, dissidentes de regimes antagônicos ao ocidente (como os iranianos Shirin Ebadi e Narges Mohammadi, o chinês Liu Xiaobo e os opositores bielorrussos e russos), bem como esforços de paz que consolidam a ordem liberal internacional (como a União Europeia e o ex-presidente Barack Obama). Essa trajetória contribui para a percepção do Nobel como um instrumento que, para lá do seu valor humanitário, opera com critérios geopolíticos.
Igualmente, o prêmio, embora não deslegitime as lutas individuais, é concedido a partir de um conceito específico de “paz” mais ligado à expansão do modelo democrático-liberal e à contenção de potências e ideologias rivais. Esse selo de aprovação para determinadas lutas de libertação ignora ou marginaliza outras, de igual ou maior transcendência.
O que está acontecendo na Venezuela poderia confirmar a natureza instrumental do prêmio, como evidência de que a “luta pela democracia” que ele reconhece pode ser facilmente subordinada aos interesses estadunidenses, ficando a própria noção de paz relegada a um plano secundário.
Miguel Sosa é doutorando em Ciência Política.
As opiniões expressas nos textos assinados são de responsabilidade de seus autores e não refletem o posicionamento editorial do JU ou da UFRGS.
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