A ovinocultura da península litorânea do RS

Artigo | Roberta Fogliatto Mariot, docente do ICTA, aponta o potencial de valorização da atividade com a estruturação da cadeia produtiva da carne ovina e o reconhecimento da indicação geográfica

*Ilustração: Ana Carnelossi/ Programa de Extensão Histórias e Práticas Artísticas, DAV-IA/UFRGS

Localizada entre a Lagoa dos Patos e o Oceano Atlântico, a Península Litorânea do Rio Grande do Sul (RS), que inclui os municípios de Palmares do Sul, Mostardas, Tavares e São José do Norte, é caracterizada por ventos intensos, clima ameno e baixa amplitude térmica.

O processo geológico de formação confere a esse território características únicas. Os solos foram formados por regressões e transgressões do mar, resultando no acúmulo de sedimentos permeáveis do mar e da lagoa em subsuperfícies denominadas paleocanais. Esses paleocanais permitem a entrada de sais do oceano e sua ascensão no solo. Como consequência, diversos problemas ligados a salinidade do solo são relatados na agricultura da região e inúmeros esforços são dispendidos para as suas correções.

Em relação à produção pecuária, a salinidade pode ser justamente um diferencial benéfico e de agregação de valor. Em muitas áreas de solo salino desse território há a ocorrência da pastagem nativa do bioma Pampa da Península Litorânea, inclusive com a presença de espécies halófitas. Plantas halófitas são aquelas que toleram grandes quantidades de sal e comumente possuem alta concentração de sódio em relação às demais. Acredita-se que esta seja uma das principais razões para o diferencial da carne produzida na região, já que estudos demonstram que espécies halófitas são uma excelente alimentação para ruminantes.

Essa diferenciação foi inclusive mencionada por Auguste de Saint-Hilaire (1779-1853) para a carne de bovino em seu livro “Viagem ao Rio Grande do Sul”, e está inserida na cultura local. Entretanto, é a carne ovina produzida na Península que possui uma notoriedade na região e vem ganhando adeptos nas demais zonas do estado e do Brasil. 

A pecuária no bioma Pampa permite a manutenção da vegetação nativa e, portanto, a preservação do bioma, além de ser uma alternativa de renda para os produtores, já que a carne de cordeiro é um produto de alto valor agregado.

Vale ressaltar que a economia dessa região tem como pilares principais a agricultura (prejudicada pela salinidade do solo), o extrativismo vegetal, a pesca e a pecuária, que pode ser beneficiada por características únicas desse território, como a salinidade e as temperaturas amenas.

Apesar da notoriedade e da tradição, a ovinocultura não é uma relevante atividade econômica para a região. Segundo estudiosos, a cadeia produtiva da carne ovina da Península Litorânea é desestruturada, assim como a ovinocultura das demais regiões do RS, devido principalmente ao abate e à comercialização informal, também pela dificuldade de encontrar frigoríficos especializados em abates desses animais e a falta de coordenação entre os produtores e os demais elos da cadeia produtiva.

Dados populacionais de ovinos da Península evidenciam esses problemas, demonstrando uma proporção de 95,6% de abate informal e uma redução do rebanho de 33,3% entre os anos de 2012 e 2021. Por outro lado, uma pesquisa sobre o mercado de carne ovina do Brasil e do RS verificou que essa atividade é uma excelente oportunidade de geração de renda para produtores de todos os portes, já que a produção nacional e regional de carne de cordeiro não é capaz de suprir o mercado interno nem o aumento da demanda por esse produto.

A Península conta ainda com importante tradição relacionada à ovinocultura, que é o artesanato laneiro. Apesar de ser considerado um patrimônio histórico e cultural, o artesanato com a lã dessa região está com os dias contados, já que poucos são os artesãos que continuam com esse ofício. A ovinocultura da região, portanto, tem potencial para obtenção de um sinal distintivo como uma Indicação Geográfica (IG). 

Novelo de lã produzido artesanalmente (Fonte: Arquivo pessoal)
Artesã no tear elaborando o cobertor mostardense (Fonte: Arquivo pessoal)

Sinais distintivos protegem um produto da concorrência desleal, principalmente em uma economia globalizada. Marcas coletivas e IGs preservam os recursos naturais e mantêm vivas as tradições locais do “saber fazer”, agregando valor aos produtos.

A necessidade de ser obtida por meio de uma associação e ser um bem coletivo faz desses sinais uma ferramenta de desenvolvimento territorial e rural. A qualidade desse tipo de produto alimentício é muito apreciada pela gastronomia, o que pode ser um atrativo que estimule o desenvolvimento do turismo rural dessas regiões, exercendo assim uma função social e de sustentabilidade.

Atrativos turísticos não faltam para a região. E um deles é o Parque Nacional da Lagoa do Peixe. Criado em 1986 e atualmente gerido pelo Instituto Chico Mendes, a preservação dessa área tem o objetivo de proteger essa joia do nosso litoral, que recebe espécies de aves migratórias que dele dependem para o seu ciclo vital. O parque fica entre os municípios de Tavares, Mostardas e São José do Norte, e é uma extensa planície arenosa localizada entre a lagoa e o mar (Fotos 1 e 2).

Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, para que processos de valorização de um produto local seja bem-sucedido, é fundamental qualificar tanto o produto quanto o seu território de origem. Essa qualificação envolve a identificação precisa das características do produto e dos recursos locais que os distinguem, o que requer análises científicas. Instituições de ensino e pesquisa, como UFRGS e EMBRAPA, são essenciais nesse processo, já que dispõem do conhecimento técnico e dos métodos analíticos necessários para conduzir essa qualificação.

A obtenção de um selo distintivo, com as etapas inerentes ao processo, como a organização e colaboração dos produtores e a formalização da atividade, traria inúmeros benefícios à Península. Esse território abriga atrações turísticas e outros produtos agroalimentares de destaque, como o camarão rosa da Lagoa dos Peixe, capturado por pescadores artesanais; o feijão sopinha, de origem africana, cultivado há mais de 200 anos principalmente por comunidades quilombolas; e o Arroz do Litoral Norte, já reconhecido por uma IG por Denominação de Origem.


Roberta Fogliatto Mariot é professora do Departamento de Ciências dos Alimentos do Instituto de Ciência e Tecnologia de Alimentos (ICTA) da UFRGS.


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