Artigo | Andreas Mendez, Isadora da Silva e Alexandre da Rosa, da Faculdade de Farmácia, refletem sobre a atuação de projeto de extensão que envolve saúde e educação ambiental e o recolhimento de medicamentos vencidos
*Ilustração: Ana Schittler/ Programa de Extensão Histórias e Práticas Artísticas, DAV-IA/UFRGS
Em tempos de COP30 no Brasil – na qual governantes, educadores, cientistas e sociedade civil debateram proposições positivas de fortalecimento da sustentabilidade como base para uma nova convivência global, de respeito à natureza sobrevivente –, os aspectos educativos ambientais continuam sendo premissa para que as reais mudanças em nosso comportamento aconteçam agora e perpassem as gerações futuras (solidariedade generacional).
O equilíbrio ecológico, o saber cuidar e o respeito mútuo em harmonia são sustentadores de comportamentos individuais ou coletivos nas decisões de dia a dia ou numa escala macro, global, que consideram o ambiental premissa de sobrevivência, trazendo à tona atitudes positivas e de respeito integral à natureza (impacto ambiental zero).
A urgência ou emergência climática e os diversos impactos indesejados que observamos nos últimos anos – catástrofes ambientais, como as enchentes ocorridas em maio de 2024, ondas de calor extremo, secas e tempestades – são consequências diretas da degradação ambiental e do descuido do homem com a natureza e a biodiversidade.
O pensar reflexivo ambiental não pode se deter unicamente em pensadores, cientistas e ambientalistas. Deve, sim, desde já, incorporar-se às ações reais de sustentabilidade de grandes empresas, por exemplo, com regulação governamental como forma de cumprimento de metas ambientais que, no mínimo, estanquem os impactos ambientais negativos ora vivenciados.
A sustentabilidade é um debate contínuo, sempre urgente, que deve ser compartilhado com abrangência ampla a todos os setores industriais e aos atores da cadeia de consumo. É dever das empresas que produzem e distribuem, do poder público e do consumidor final minimizar as consequências negativas do descarte inadequado de resíduos e do acúmulo no meio ambiente. Não suficiente, novas propostas de tecnologias modernas, limpas, eficientes energeticamente, e que tragam o máximo aproveitamento dos insumos necessários à produção, com menor desperdício, são bem-vindas e devem ser priorizadas como investimento.
O grande volume de resíduos gerado pela população e pelas grandes empresas, quando não destinado corretamente, acaba gerando impactos irreversíveis à biodiversidade e à saúde pública, incorporando-se de forma cumulativa à rota ecológica de diversas espécies.
A ecotoxicidade é um debate contínuo à ótica ambiental, já que é consequência do descaso dos geradores de resíduos – sociedade civil e empresas – que pensam nas estratégias para destinar os resíduos, mas que em verdade deveriam pensar e agir em estratégias reversas, direcionadas à não geração do resíduo, ou minimização, e à reincorporação dos mesmos à cadeia.
Os resíduos químicos – dentre os quais se enquadram os medicamentos vencidos ou em desuso (sobras) – representam um ponto de atenção, visto que são contaminantes severos do ecossistema. Classificados como resíduos perigosos (Classe l), poluentes orgânicos persistentes acarretam desequilíbrio ecológico, afetando a fauna e a flora circundantes ao entrarem em contato com solos, aquíferos e mananciais, infiltrando-se em águas subterrâneas, e retornando, por vezes, à água de consumo diário, podendo causar intoxicações, acúmulo em tecidos ou mesmo resistência microbiana.
Nesse debate, deve-se ter em mente a questão ambiental como fundamental para o aspecto educativo da população. Atrelar os medicamentos vencidos e sobras às causas ambientais traz a perspectiva de profundidade da informação e convencimento à real mudança necessária à população no manuseio desse tipo de resíduo, garantindo que o descarte correto seja a única opção. Nesse âmbito, o compartilhamento contínuo de informação por meio de canais de fácil acesso promove o pensar racional nos usuários de medicamentos quanto à importância do descarte correto. A educação ambiental estabelece-se como ferramenta de formação e consolidação de comportamentos pró-meio ambiente, essenciais para o futuro próximo, ainda incerto quanto ao que se pode esperar em questões climáticas.
Na Faculdade de Farmácia da UFRGS, o projeto de extensão desenvolvido sobre o descarte correto de medicamentos e a educação ambiental em foco, já estabelecido na rotina da Unidade, evidencia a importância e os benefícios do debate e da conscientização desse tópico, num elo contínuo academia-comunidade, ramificando as reflexões no aspecto proteção ao meio ambiente no dia a dia.
Em pauta extensionista, as reflexões e discussões atreladas a esse projeto, em saídas de campo, atividades em escolas, desenvolvimento de material educativo, sustentam os olhares de saúde e meio ambiente, saúde ambiental, e propiciam experiências únicas, de olhares diversos, sobre como o descarte de medicamentos tem estreita e importante relação com a causa ambiental.
Desde 2019, a coleta de medicamentos vencidos por meio de estação coletora instalada no saguão da Faculdade de Farmácia já propiciou o recolhimento de 460 kg de material, o qual teve registro e armazenamento de acordo com procedimento de gerenciamento de resíduos. O resíduo acumulado é recolhido quinzenalmente, em parceria, por empresa licenciada, responsável pela destinação adequada, ambientalmente correta.
Não se pode deixar de mencionar a experiência vivenciada no período das enchentes de maio de 2024, em que a Faculdade de Farmácia executou ação de extensão direcionada às doações de medicamentos, recepção, triagem e logística geral para sua distribuição a abrigos e outros pontos em vulnerabilidade socioambiental. Nessa ação, aproximadamente 1.238 kg de medicamentos doados foram descartados e encaminhados à destinação final ambientalmente correta. Essa experiência também acresceu em formação à comunidade universitária envolvida, trazendo elos de saúde, meio ambiente e conscientização na racionalidade do uso do medicamento.
No viés educativo, existe a percepção de que as ações educativas do projeto de extensão supracitado e a presença do coletor com identificação visual clara e explicativa têm estimulado a adesão crescente da comunidade acadêmica daquele entorno ao descarte correto, num senso de responsabilidade de todos pela saúde ambiental. Coletores semelhantes já estão presentes em diversas farmácias e drogarias, seguindo o regulatório legal vigente (Decreto 10.388, de 2020), facilitando o acesso à população. Ademais, as Unidades Básicas de Saúde (UBS) podem ser também pontos de descarte, em especial em localizações geográficas mais afastadas de pontos comerciais.
O conhecimento da existência dos coletores e do acesso a todos fortalece a sensação de que se pode fazer algo diferente, colaborativo, consciente, relevante. E saber que um gesto simples contribui para a redução do impacto ambiental, fortalece a economia circular e apoia a logística reversa, reintegrando materiais ao ciclo produtivo e construindo um futuro sustentável.
A educação ambiental é a chave de mudança que emerge em terreno de sabedoria, esperança e solidariedade. As experiências que a Faculdade de Farmácia tem vivenciado nesse debate trazem à tona o amadurecimento das ideias e dos projetos desenvolvidos, num caminho sem volta para proposições de extensionistas, professores, pesquisadores, educadores, aptos a novos horizontes de inovação, quem sabe aprofundando o pensar “verde” real, prático e factível de transformação e consolidação em produtos, serviços, ações de rotina. Que seja em natureza viva, salutar e em harmonia!
Andreas S. L. Mendez é professor da Faculdade de Farmácia da UFRGS e coordenador do projeto de extensão “Descarte correto de medicamentos e educação ambiental em foco”
Isadora Sanson da Silva é aluna de graduação na Faculdade de Farmácia da UFRGS e bolsista de extensão do projeto “Descarte correto de medicamentos e educação ambiental em foco”
Alexandre Machado da Rosa e farmacêutico, gestor ambiental e compõe a equipe do projeto de extensão “Descarte correto de medicamentos e educação ambiental em foco”
As opiniões expressas nos textos assinados são de responsabilidade de seus autores e não refletem o posicionamento editorial do JU ou da UFRGS.
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