Orquestras de universidades federais são espaços para formação de instrumentistas de todo o país

Cultura | Além de promover a música de concerto junto à comunidade, conjuntos sinfônicos também realizam pesquisa e executam nomes da música orquestral brasileira

*Por Anna Ortega e Bárbara Lima
*Foto de capa: Arquivo OSN/Divulgação

Chovia no Rio de Janeiro na manhã de um domingo do ano de 2006. O mau tempo preocupou a harpista solista da Orquestra Sinfônica Nacional (OSN), Vanja Ferreira, que se preparava para tocar no que ela considera um dos mais marcantes concertos de sua trajetória na única orquestra pública profissional do país. “Será que vai ter público?”, ela se perguntava ao olhar para o céu cinzento. Para sua surpresa e alegria, o público não só enfrentou a chuva para assistir à orquestra, como estava lá em peso. A sala estava lotada para assistir à harpista e ao flautista Elder Teixeira tocarem o concerto de Mozart para flauta, harpa e orquestra. 

A alegria só não foi maior que a de dez anos depois, em 2016, quando a dupla se reencontrou para tocar o clássico compositor austríaco. Quando chegou a sexta-feira anterior aos tradicionais concertos de domingo de manhã realizados pela OSN, a diretora administrativa à época avisou que os ingressos haviam se esgotado, mas que instalariam um telão no teatro para que o público que não havia conseguido ingresso pudesse assistir. 

A Orquestra Sinfônica Nacional soma uma história que completa 60 anos em 2021. Além do vínculo próximo com a comunidade, o incentivo à música de concerto brasileira e o fomento ao ofício dos músicos sempre foram seus principais pilares. Criada por um decreto assinado pelo presidente Juscelino Kubitschek em 1961, inicialmente estava sediada na Rádio do Ministério da Educação. Somente na segunda metade dos anos 80, a orquestra passou a ser vinculada à Universidade Federal Fluminense (UFF). 

Orquestra Sinfônica Nacional

Para Vanja, harpista na orquestra desde 2003, integrar a OSN é uma satisfação muito grande pela importância que a orquestra tem para o Brasil. “Tive a oportunidade de fazer belos concertos com o grupo de câmara. Tocamos obras importantes, como Introdução e Allegro, de Ravel, As Danças Sacra e Profana, de Debussy, o Quinteto Instrumental, de Villa-Lobos – obra grandiosa e importantíssima do repertório brasileiro.” A instrumentista ressalta o enorme acervo produzido pela orquestra durante as seis décadas. “São verdadeiros registros históricos”, enfatiza.

A OSN, para além dos concertos que realiza a partir dos programas mensais, possui inúmeras gravações de música brasileira. Nos anos 2000, a orquestra fez uma série de registros em áudio e vídeo, como o CD dedicado a novos compositores, o álbum comemorativo pelos 90 anos do compositor Edino Krieger e o CD com sinfonias inéditas de Francisco Mignone e Alceo Bocchin.

O papel das universidades federais como mantenedoras de orquestras, portanto, movimenta a cena musical brasileira – questão essa já abordada em sua perspectiva local, em Porto Alegre, em reportagem publicada pelo JU em setembro. A temática emergiu, assim, a partir da criação da Orquestra do Instituto de Artes da UFRGS (OIA-UFRGS).

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A relação com a cultura brasileira e local

Imagine um teatro lotado em que certa confusão ocorre na entrada porque muitos não conseguem assistir a um concerto. É o que aconteceu com uma apresentação da Orquestra Sinfônica da UFPE. “Os espectadores ficaram inconsoláveis, tivemos até que acionar a segurança. É essa a relevância que temos para a cidade”, relembra Sérgio Dias. O regente reforça a necessidade de se manterem os concertos gratuitos.

“A Orquestra Sinfônica UFPE, assim como eu diria sobre qualquer outra do país, pertence à comunidade. A comunidade tem o direito de usufruir de suas atividades. Parafraseando Milton Nascimento, ‘nós temos que ir onde o público está’. Temos que viajar com a orquestra, ir ao encontro de lugares não centrais”

Sérgio Dias

E foi o que, de fato, o conjunto musical fez. Viajou pelo interior do estado de Pernambuco, juntando públicos que chegavam a quinhentas pessoas. 

Uma das apresentações que marcou a orquestra foi aquela em que tocaram a ópera Leonor, composta por Euclides Fonseca, compositor pernambucano falecido em 1929. A obra só havia sido executada uma vez – e, mesmo assim, incompleta – em 1883. Ela se passa na ilha de Itamaracá e trata da invasão holandesa no litoral nordestino. “Quando apresentamos esse concerto, os alunos estavam absolutamente orgulhosos daquela música tão maravilhosa.” Para o primeiro concerto pós-pandemia, o grupo planeja tocar duas obras inéditas do mesmo músico.

Em outra ocasião, a orquestra apresentou um repertório apenas de compositores pernambucanos da atualidade, incluindo um do próprio Departamento de Música da universidade. “A orquestra sempre mobilizou a comunidade externa. Pernambuco é muito musical. Temos os maracatus, os cavalos-marinhos. Ao incentivar essas orquestras vamos, eventualmente, abrir mais espaço para a difusão da própria música brasileira”, conclui. 

A Orquestra Sinfônica da UFRJ, fundada em 1924, a mais antiga da cidade do Rio de Janeiro, tem um espaço próprio, o Salão Leopoldo Miguez. É nele e em outros diversos locais que a temporada anual é realizada, com uma média de doze concertos e quarto recitais de ópera. As apresentações não se limitam à capital. “Historicamente sempre atuamos para além do ambiente universitário. Fazemos temporadas de concertos e óperas não só em outras salas de concertos do Rio de Janeiro, como no Teatro Municipal, na Sala Cecília Meireles e na Cidade das Artes, mas também em outras cidades, como Niterói, Petrópolis, Campos e mesmo Juiz de Fora, em Minas Gerais”, ressalta o maestro André Cardoso.

A pesquisa e o ensino na formação dos músicos

Um dos focos das instituições federais de ensino, e, portanto, de suas orquestras, é a pesquisa. O resgate de compositores e compositoras nacionais e a formação são parte essencial do trabalho das orquestras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da de Pernambuco (UFPE).

No repertório da UFRJ estão as obras dos famosos compositores Carlos Gomes, Leopoldo Miguez, Alberto Nepomuceno, Henrique Oswald, Villa-Lobos e Claudio Santoro. Mas há, também, obras contemporâneas de mulheres como Marisa Rezende, pianista e compositora fluminense, Roseane Yampolschi, compositora e professora da Universidade Federal do Paraná, Cirlei de Hollanda, compositora, pianista e cantora de coro, e Valéria Bonafé, compositora e pesquisadora. 

A Orquestra Sinfônica da UFRJ adota um modelo híbrido, em que há um núcleo de 47 músicos profissionais concursados que compõe uma orquestra no formato de câmara. A eles se juntam os alunos dos cursos de bacharelado em instrumento, da disciplina Prática de Orquestra, obrigatória por oito períodos. É quando a orquestra ganha o formato sinfônico. Para os estudantes, segundo o regente André, é muito importante poder atuar ao lado de profissionais experientes. “Além dos professores, os técnicos na orquestra orientam e auxiliam os alunos em sua formação.” Os alunos dos cursos de composição e regência também são contemplados. Os estudantes podem compor suas próprias obras e submetê-las em concurso. 

Já a Orquestra da UFPE, relata o regente Sérgio, enfrentou altos e baixos desde a sua criação em 2010 como orquestra de câmara. Foi somente em 2017 que virou um conjunto sinfônico com 70 integrantes, todos estudantes. Sérgio, que idealizou o projeto, inicialmente ligado à Extensão, conta que, devido ao sucesso, eram apresentados quatro concertos anuais. À primeira vista pode parecer pouco, mas, como o professor regente garante, “uma orquestra universitária é diferente de uma profissional”, e complementa: “Nós tínhamos poucos ensaios por semana. O andamento é um pouco mais lento”.

“Sem as orquestras universitárias dificilmente vamos ter boas orquestras sinfônicas profissionais no Brasil. É um lugar de experiência, é um laboratório de repertório e de vivência”, reflete o regente”

Sérgio Dias

Com a institucionalização ocorrida em 2017, a orquestra contava com 70 bolsas concedidas a todos os integrantes. Esse quadro, no entanto, durou pouco. Com os cortes orçamentários, o número de bolsas, considerado elevado em relação a outros departamentos da universidade, foi reduzido. Sérgio, então, achou por bem encerrar as atividades no início de 2019. “Não achei justo apenas alguns alunos terem direito ao benefício. Ainda mais porque os valores eram baixos. Sinceramente, servia apenas para custear o gasto que os alunos tinham com transporte”, lamenta. Qual não foi a surpresa do regente, entretanto, quando, na metade do ano passado, os estudantes pediram para retomar a orquestra de modo voluntário. No início deste 2020, antes da pandemia do novo coronavírus, eles chegaram a ensaiar quatro vezes. “Estamos com 85 músicos, trabalhando a todo vapor. Fiquei feliz pelos próprios estudantes reconhecerem a importância disso!”

“Alguns entram dois, três anos antes de se formar, e a gente vê todo o processo de aprendizado deles. Alguns saem como solistas da orquestra, tocando partes mais complexas do repertório. É um orgulho, uma felicidade”

Sérgio Dias

O regente explica que, na academia, não se pode simplesmente programar obras que gostaria de dirigir. É preciso perguntar e observar o que os músicos podem tocar, porque eles estão aprendendo, e algo escolhido sem levar em conta essa condição pode desestimulá-los. “Cada aluno está em um momento de sua formação, é um desafio. Mas em Pernambuco eles pedem muito obras de compositores nordestinos. A divulgação de compositores locais, sejam eles do passado ou do presente, é importante.” Ele conta que os alunos acabam saindo da orquestra da universidade e indo para as diversas orquestras do país.

“Nós irradiamos músicos para todos os lugares desse Brasil. E alguns até para o exterior. A universidade serve, inclusive, para produzir e renovar o repertório brasileiro de música orquestral”

Sérgio Dias
Uma história em constante renovação

O interesse em entender a trajetória da Orquestra Sinfônica Nacional levou o músico Raul d’Oliveira a escrever uma dissertação de mestrado inteiramente dedicada à história e ao acervo da orquestra vinculada à UFF. Raul é hoje líder do Naipe de Contrabaixos, atuando como músico da conjunto desde 2005. Ele conta que decidiu realizar essa pesquisa para entender melhor o repertório que já havia sido tocado, os músicos que já haviam passado por ali, para, assim, compreender como realizar um trabalho de autogestão, uma vez que desde 2009 a OSN decidiu mudar o formato tradicional em que um único regente atua por um longo período. No lugar, criou uma comissão artística composta por três músicos eleitos pelo próprio corpo musical e trocada a cada dois anos.  

A ideia surgiu para descentralizar a figura do maestro e para proporcionar um processo mais colaborativo, em que o repertório esteja em constante processo de renovação e revisita. Entre os movimentos centrais dessa iniciativa, está sempre o olhar para o que é criado e produzido em território nacional. 

O formato descentralizado permitiu, de acordo com Jefferson Souza, um dos músicos integrantes da atual comissão, que a orquestra pudesse pensar o que gostaria de levar ao público. “A gestão artística da orquestra ser feita pelos próprios músicos atuantes possibilitou que a programação fosse o reflexo do que a orquestra quer tocar, no que a orquestra acredita”, aponta. Atualmente, o grupo tem investido na produção de conteúdos para o ambiente virtual, mantendo as decisões colaborativas e as preocupações sobre a nacionalidade e diversidade do repertório. 

“A gente tem produzido vídeos musicais e conteúdos sobre a OSN. Estamos aproveitando para fazer a orquestra chegar a outros públicos também. Já fizemos programa culinário, programa de entrevista, simpósio de música. Tudo de forma remota”, conta Jefferson.

A orquestra pretende ir além da difusão do que é canônico e dialogar com o contemporâneo. Antes da pandemia, pelo menos uma vez ao ano a OSN realizava o chamado Panorama da Música Brasileira, em que um concerto inteiro era feito com músicas atuais, sendo algumas inéditas. Para Raul, uma das grandes funções da orquestra é justamente abrir espaço para os novos compositores e músicos. Por essa razão, ressalta, o fomento das orquestras profissionais e universitárias deve andar lado a lado.

Apesar de estar vinculada à UFF, a OSN não é uma orquestra universitária, isto é, criada dentro do ambiente da universidade federal. Ainda assim, grupos profissionais e estudantis mantêm uma relação de cumplicidade.

“De certa forma, as orquestras universitárias e jovens se ligam às profissionais. A gente precisa ter o mercado de orquestras profissionais para que os músicos tenham onde exercer seu ofício. E as orquestras profissionais precisam das universitárias para formar seus músicos para que eles cheguem aptos a realizar qualquer repertório. É uma via de mão dupla”

Raul d’Oliveira
Tijolo por tijolo

Quando saiu do Rio de Janeiro para lecionar na Universidade Federal do Piauí (UFPI), o regente Samuel Mendonça não imaginava que teria de ajudar a fomentar a cultura de concerto em Teresina. Segundo o professor, a música orquestral não tem apelo junto ao público piauiense e, pensando nisso, foi que ele consolidou a Orquestra Jazz Sinfônica da UFPI com o propósito de atrair a comunidade.

“Não há cultura de concerto, como tem em Belo Horizonte, por exemplo. Num teatro de quinhentos lugares, não soma nem vinte espectadores aqui. Tenho que correr atrás. Pedi à arquidiocese daqui para que os padres segurassem o público depois das missas para a orquestra se apresentar. Foi muito bom, tocamos em todas as grandes igrejas de Teresina!”

Samuel Mendonça

O grupo, que surgiu em 2013, conta com quarenta integrantes, entre alunos do curso de música, servidores e pessoas da comunidade externa. Conforme Samuel, há muita prática de improviso e de arranjos. “Eu mesmo faço arranjos e tenho um arranjador que escreve muito bem, que é o Everton Salazar. Temos também um compositor chamado Beethoven Cunha, piauiense, que faz muita coisa para jazz sinfônica”, explica. Outra  iniciativa que tem dado certo são os concertos de Natal, realizados nos shoppings de Teresina. “Nesse caso, tocamos compositores americanos, mas, no geral, priorizamos os brasileiros. Tocamos muito samba e muito choro.”

Para Samuel, a resposta do público é muito rica. “Quando levamos um concerto didático para as pessoas, passamos filmes populares e vemos que elas os conhecem, mas não conhecem os instrumentos que formam as trilhas. Tem gente que nunca viu um violino, por exemplo. Levar essa experiência é muito gratificante”, conta.