Espaço da Reitoria | Marcia Barbosa e Pedro Costa, reitora e vice-reitor, reforçam a universidade pública como o espaço de produção de um mundo melhor
*Excerto do mural “As Profissões”, de Aldo Locatelli (1958), exposto na Sala do Conselho Universitário, na Reitoria da UFRGS (Foto: Flávio Dutra/JU)
No passado recente, um ministro da Educação, atualmente foragido da justiça, empenhado em atacar a universidade pública, a classificou como espaço de “balbúrdia”. O então presidente da ANDIFES (Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior) não perdeu tempo em responder que “antes a balbúrdia do que a barbárie”, sinalizando que a universidade não pode se render ao ódio, a discursos negacionistas nem se curvar aos dirigentes de plantão, como órgão de Estado que é, compromissado com a sociedade brasileira e seus problemas históricos e estruturais.
Saudamos a postura do professor João Carlos Salles, que retorna agora para um terceiro mandato na reitoria da UFBA como primeiro reitor nomeado sem uma lista tríplice, entulho da ditadura militar que, também no passado recente, abriu espaço para o autoritarismo de quem não suporta a força da ciência, do conhecimento e da razão que circulam na universidade.
Mas a universidade pública segue sendo atacada, tanto de longe, pelas redes sociais, onde a covardia e a mediocridade ganham ares épicos e onipotentes, como recorrentemente dentro das suas próprias instalações. A barbárie chega através de corpos musculosos que sinalizam a precedência da força, do grito e da ameaça sobre o diálogo, a razão e a ética, que são a base e o meio para o necessário e saudável debate democrático das ideias.
O fazer universitário, assentado em ensino (o melhor do Brasil), pesquisa (de nível e reconhecimento nacional e internacional em todas as áreas do conhecimento) e extensão (comprometida com as urgências cotidianas e presente em inúmeros territórios, onde a vida acontece), está e deve estar alinhado às grandes questões do nosso tempo: o enfrentamento das mudanças socioclimáticas, a defesa permanente da democracia como valor ético fundamental de uma sociedade, a valorização das manifestações culturais e interculturais, o desenvolvimento socioeconômico do país e a mitigação das grandes desigualdades e injustiças sociais.
Todas essas tarefas não são feitas unicamente com base na motivação ética de quem trabalha e estuda na universidade, ainda que essa motivação seja seu principal fundamento. A partir dessa posição ético-política no mundo, a universidade atua nessas e em outras questões fundamentais a partir da criação, do desenvolvimento e da disseminação de conhecimento científico, construído a partir de diferentes perspectivas epistemológicas, teóricas e metodológicas, que contemplam as inúmeras demandas sociais e os diferentes campos de conhecimento.
É com base nessa riqueza e diversidade de contribuições que a universidade, no Brasil e no mundo, são instituições autônomas fundamentais para o equilíbrio e para o desenvolvimento socioeconômico e cultural de qualquer país.
Quem ataca a vida universitária, a construção dos espaços de estudo e de trabalho, quem olha e destila seu ódio por essa instituição secular e múltipla pela lente da barbárie, obviamente estreita e limitada pelos preconceitos e negações que a constituem, é incapaz de compreender e reconhecer a contribuição que damos à vida.
Ao mesmo tempo que repudiamos esse tipo de postura, que está sendo devidamente registrada para responsabilizar seus agentes, naquilo que exceder os limites da ética e da Lei, conclamamos a sociedade para conhecer mais a universidade, para nos interpelar, sim, com suas justas demandas, a partir do diálogo respeitoso e democrático que constitui nosso exercício cotidiano.
Sabemos das nossas contradições e ambivalências, assim como todo organismo social vivo que interage com as dinâmicas sociais externas, e queremos ser agentes da construção de um país mais justo, de uma nação mais soberana e de uma vida melhor para todas as pessoas. Quem quiser fazer isso conosco, com base no diálogo e na razão, será sempre bem-vindo e bem-vinda, vai encontrar um espaço próprio para isso, e pessoas com capacidade e desejo de fazê-lo. Já para quem quer fazer e disseminar a barbárie e o ódio, está no local errado. Vai encontrar o rigor da Lei e as portas fechadas. Aqui o conhecimento está construindo um mundo novo e melhor.
Marcia Barbosa é reitora da UFRGS.
Pedro Costa é vice-reitor da UFRGS.





