Sociedade | Com mais de 630 milhões de downloads e 100 bilhões de matches, Tinder continua presente na vida amorosa das pessoas, mas algumas apontam que se vive uma crise silenciosa dos encontros digitais
*Foto: Pietro Scopel/JU
Era abril de 2021 quando Bibiana Bratti, então com 18 anos, decidiu instalar o aplicativo de relacionamentos Tinder pela primeira vez, instigada pelos relatos de amigas. Para completar seu perfil no aplicativo, Bibiana precisava de uma foto. Em casa, se maquiou, se arrumou e preparou sua melhor pose. Editou a foto e colocou o melhor filtro antes de postar. Pela primeira vez, seu rosto se tornou parte da galeria de milhares de pessoas no mundo que procuravam o amor no meio da pandemia.
Naquele momento, o Tinder tinha a função passaporte. Os usuários podiam colocar sua localização em qualquer país. Bibiana decidiu viver um amor francês, mesmo que não falasse a língua. Com um nível básico de inglês, deu match com vários homens. Sentia-se desejada por eles. As notificações de novas mensagens chegavam. Manteve diferentes conversas durante algumas horas. Unicamente um chamou sua atenção. “Tinha cara de francês”, lembra. Não só achava que ele era bonito, mas conseguiam se entender, conta.
Bibiana avalia essa primeira experiência no Tinder como divertida. Durante os quatro anos seguintes, manteve-se à procura de alguém nesse e em outros aplicativos, como o Bumble. Utilizava uma descrição simples, mas que sempre gerava uma conversa: “Sou jornalista, mas não sei escrever bio de Tinder”. Acessava o aplicativo no momento de ir à faculdade, durante a noite ou quando tinha um tempo livre. Quando a vida ficava muito caótica, decidia desinstalar. Isso aconteceu umas seis vezes, menciona.
A rotina era conhecida. Dava match com 20 pessoas, conversava por mensagens com 10 e só cinco passavam à fase eliminatória seguinte: seguir no Instagram. As conversas continuavam nessa rede social, mas nem todas iam adiante. O contato que sobrevivia, finalmente, virava um date. Nesse momento, os dois corpos virtuais iriam se materializar para descobrir se seriam o amor sonhado, uma relação passageira ou uma grande desilusão.

“Mulher de fases”
Já Leticia Rodrigues teve uma experiência diferente nos aplicativos de namoro. Em cidades menores, decidir marcar um encontro se torna de conhecimento público automaticamente. Por isso, sua primeira experiência nos aplicativos aconteceu quando morava em Sant’Ana do Livramento. Era 2017 e suas amigas recomendaram baixar o Badoo, um aplicativo de namoro.
“Era uma cidade-ovo, pequenininha, a gente marcava os dates para tomar sorvete. Era uma sorveteria da cidade em que todo mundo ia só para encontros, e todo mundo sabia que era para isso. No dia, olhava a pessoa de longe. Se não gostava, saía correndo. Era bem engraçado”
Leticia Rodrigues
Sua experiência mudou quando chegou a Porto Alegre para cursar a pós-graduação. Atualizou sua descrição no Tinder para “mulher de fases”. Na capital, as pessoas mantinham um trato mais direto e marcavam rapidamente encontros em bares, restaurantes ou nas suas casas. Pela primeira vez, Leticia ficou sabendo do verdadeiro significado de convidar alguém para assistir a um filme em casa: “Na capital descobri muitos mundos. Tinha gente que nem queria conversar. Tipo, vem aqui na minha casa – o famoso: ‘Vamos ver Netflix’”, conta, referindo-se a encontros unicamente destinados a sexo.
Por ser uma mulher negra, porém, Leticia também viveu momentos de temor e constrangimento nos encontros, o que relata no romance Amor e ódio – entre os muros da razão. Como explica Leticia, existe um fetichismo que aparece a partir das conversas nos aplicativos: “Para a mulher negra é muito difícil um relacionamento. Tem um fator da colonização: um homem negro tem muito mais dificuldade de se relacionar com uma mulher negra do que com uma mulher branca no Brasil. E do homem branco querendo pegar uma mulher negra. O Instagram é fetichismo total às vezes”.
Com o tempo, procurando se manter mais segura e buscando conhecer realmente o amor, Leticia tentou outros aplicativos. No México, num intercâmbio acadêmico, descobriu o Muslima, um site e aplicativo de namoro para pessoas que procuram se relacionar com homens muçulmanos. Viu que também estava disponível no Brasil e reativou sua conta. Foi nesse aplicativo, em 2018, que conheceu seu esposo: um homem muçulmano natural da África que cursava um mestrado na UFRGS. O amor se estendeu, gerou uma filha, mas tempos depois o relacionamento acabou.
O amor através das mídias e das telas
Durante o doutorado em Comunicação na UFRGS, o pesquisador Ricardo Barbosa Fernandes analisou a participação da mídia digital na configuração do amor em Porto Alegre. Ele explica que o amor contemporâneo, visto como ato devocional, deriva da visão religiosa antiga. Nesse sentido, desde a Grécia até o amor burguês, o amor romântico devocional se coloca no centro do processo e diferencia-se do amor que as pessoas sentem pelos animais, familiares ou amigos.
“O amante é o parceiro com qual você divide práticas sexuais e que, ao longo da história, além da prática sexual, teve troca de afetos e sentimentos. Ele deixa de estar à sombra e passa a estar à luz. Isso vem muito do discurso de Hollywood, do discurso das mídias. A gente lida com isso na sociedade de hoje, com o individualismo superinflado, em que a valorização do eu é muito mais importante que um relacionamento”
Ricardo Barbosa Fernandes
Com o surgimento de novas formas de relacionamentos contemporâneos, os aplicativos passaram a ser um espaço de vivência de um cotidiano sexual e afetivo diferente. Segundo ele, uma primeira separação se dá entre monogâmicos e não monogâmicos. No primeiro caso, quando uma relação se oficializa, o uso dos “aplicativos de paquera”, como ele os categoriza, acaba. Porém, no segundo caso, a formalidade da relação não implica que as rotas dos encontros digitais se interrompam.
Nessa linha, Joaquin Linne, pesquisador da Universidade de Buenos Aires (Argentina) e autor do livro La reinvención del amor: una etnografía de cómo es enamorarse, tener sexo, amigos y/o mascotas en tiempos de Tinder (2025), destaca que o amor passou a ser vivido, a partir das redes digitais, em tempo integral: “A vida em sociedade é mais o que aparece na internet. Muita gente sente atração ou rejeição pelo que o outro faz, diz, escreve e põe na internet”.
A partir disso, como reflete Linne, podem ser vistos dois grandes grupos: os jovens adultos ou millenials, entre 30 e 45 anos, que são os que mais utilizam os aplicativos de namoro; e os centennials ou sub-30. Para os últimos, explica, o mais importante é a liberdade de decidir e viver a vida, de experimentar as novas opções existentes: “Hoje, como sabemos, há muitas opções disponíveis, como o poliamor, relações abertas, trisais, etc. Muitos experimentam e ficam nessas novas opções que há hoje disponíveis. Muitos voam para o plano clássico, mas, em todo caso, parece haver muito mais tempo para provar, para ensaiar, para viajar por diferentes lugares, sejam países, sejam corpos”.
Como exemplo, Ricardo aponta o caso dos coletivos LGBTQIAPN+, que estão procurando ativamente envolvimentos por meio de diversos apps, como Tinder ou Grindr. Dessa forma, as novas mídias se tornam caminhos que favorecem a existência de diferentes formas de relacionamento: “Eu posso afirmar que está todo mundo querendo sexo? Não. É muito mais no lugar do sujeito, do que ele busca para a vida dele, quais são os matizes culturais. Isso vem muito da história de cada sujeito. Nas relações heterossexuais é a mesma coisa”.
Assim, contrariando as posições apocalípticas, que falam do final dos aplicativos, Ricardo observa que muitas pessoas estão se relacionando cotidianamente. O que nunca esteve em debate, porém, é a importância da materialidade, dos encontros e do conhecimento do outro, que continua estando presente: “As mídias participam das cenas relacionais, mas não substituem a presencialidade. A gente ainda tem necessidades conforme precisa da presencialidade para acontecer, para dar longevidade aos relacionamentos”.
O amor como esperança
Cansada de múltiplos encontros que nunca davam certo, Bibiana decidiu narrar essas experiências nos aplicativos. Criou A cidade flerta, um blog e uma página de Instagram na qual reflete sobre as vivências românticas e sexuais da sua geração. Desde o momento dos matchs e as conversas, incluindo as curtidas nos stories, até os encontros falidos, as fantasias reconvertidas em desilusão e o ghosting.
Como ela afirma, após os encontros, começava um processo angustiante no qual se interrogava sobre ela mesma: “Será que não foi legal para ele? Será que eu chamo? Será que eu posto uma foto para ele curtir e tentar conversar comigo de novo? E isso é um processo muito frustrante. Ficava tentando também decifrar o que aconteceu”.
Após inúmeros encontros, Bibiana percebeu que cada novo match a transportava para o mesmo tipo de homem. “Eu achava que não existia mais o homem para mim em Porto Alegre, era uma bolha”, afirma. Começou a se afastar do aplicativo, ao mesmo tempo que suas amigas faziam o mesmo. Começaram a procurar encontros sociais em espaços físicos: clubes de leitura, bares ou simplesmente qualquer lugar no qual boas conversas pudessem acontecer. O importante, porém, continuava sendo a procura pelo amor.
Enquanto escrevia esta reportagem, contei a Bibiana que conheci Luisa, minha namorada, no Tinder, e que, às vezes, esses encontros de aplicativos nos revelam amores genuínos. Ela, por sua vez, me confessou estar vivenciando um relacionamento romântico há algumas semanas. Já Letícia continua na busca por um novo amor. Assim, dentro ou fora das telas dos aplicativos, algumas pessoas, no fim das contas, buscamos sentir que o peso da vida pode ser dividido com aquele a quem queremos chamar de “meu amor”.

*Correções: a legenda da foto de Bibiana Bratti indicava, erroneamente, que ela é estudante de jornalismo, mas ela é jornalista. Também foi corrigida a informação sobre a bio do Tinder de Bibiana. [29/01/26, 11h40]





