A Universidade vai conseguir superar Narciso?

Conjuntura | Para Nathan Lima, professor do Instituto de Física, a dificuldade dos acadêmicos de se comunicarem com o público leigo criou um abismo entre ciência e sociedade

*Foto: Flávio Dutra/JU

Nos anos 2000, quando eu era aluno no ensino médio, entrar em uma universidade federal era considerado o melhor que poderia acontecer com quem estivesse acabando o ciclo básico. Havia grande interesse e admiração pelas instituições de ensino superior, sobretudo as públicas. Foi uma surpresa para mim, quase vinte anos depois, quando me deparei com a circulação de discursos (em redes sociais, televisão e jornais) que associavam a universidade a um espaço de desordem, leniência e incompetência.

Esse fenômeno, entretanto, não é uma especificidade brasileira e pode ser compreendido como parte de um movimento mais amplo de ataque às ciências e, principalmente, às comunidades e instituições científicas. Mas por quê? A ciência tem historicamente participado dos processos de transformação social (com todas as consequências positivas e negativas disso). O problema é que essa mesma ciência, ao longo do século XX, tem apontado as limitações e os impactos deletérios de práticas vigentes, reconhecendo, por exemplo, a existência das mudanças climáticas antropogênicas.

Quando o consenso científico não vai ao encontro dos interesses econômicos e políticos, uma série de estratégias podem ser usadas, seja fabricar uma falsa controvérsia, seja atacar as comunidades científicas diretamente.

No livro Mercadores da Dúvida: Como um punhado de cientistas obscureceu a verdade sobre questões que vão do fumo do tabaco ao aquecimento global (Merchants of Doubt: How a Handful of Scientists Obscured the Truth on Issues from Tobacco Smoke to Global Warming), Naomi Oreskes e Erik Conway dão diversos exemplos disso.

Esse problema é tão grave e profundo que, em 2016, o dicionário Oxford declarou pós-verdade como a palavra do ano, usando-a para designar um contexto em que afirmações sem lastro material recebem o mesmo peso e confiança de proposições subsidiadas por evidências. Alguns filósofos e sociológicos da ciência passaram a discutir como essa conjuntura é parte de um projeto político maior (ver, por exemplo, o livro Onde Aterrar de Bruno Latour).

Concordemos ou não com a hipótese de articulação política por trás dos ataques anticiência, o fato é que eles existem. E isso repercute não somente na própria universidade, mas em diversas outras questões, como nas taxas de vacinação e na adesão a diversas políticas públicas. É diante desse cenário concreto que cabe a pergunta: vamos nós, na universidade, conseguir superar Narciso?

O mito de Narciso conta história de um belo jovem que se apaixona por sua própria imagem espelhada em um lago. Seguindo-a, Narciso acaba se afogando. Essa história nos alerta sobre o perigo de ficarmos enebriados com nossos próprios atributos.

A pesquisa acadêmica evoluiu ao longo dos séculos de modo a ter uma forma específica de comunicação. Cientistas, em seu ofício, falam com seus pares, usam revistas especializadas e adotam uma linguagem técnica. Isso tudo é fundamental para que a própria ciência possa se desenvolver de forma rigorosa e rápida.

Por outro lado, tal forma de comunicação criou um abismo entre ciência e sociedade, seja no sentido de trazer os mais diversos campos da sociedade para dentro da ciência (o que por si só já é um universo inteiro de questões que podemos e devemos discutir) bem como de levar para a sociedade o que é produzido e discutido dentro da universidade.

Hoje não basta produzir conhecimento e tecnologia: é preciso mostrar para a sociedade e justificar a importância do conhecimento e da tecnologia que são produzidos. Isso não pode ser feito com as mesmas estratégias de comunicação que a comunidade científica adota para falar internamente. É preciso entender a comunicação contemporânea, seus novos espaços, linguagens e estilos.

Atualmente, as pessoas buscam informações sobre seus problemas no YouTube ou em perfis de profissionais de referência que seguem no Instagram. Se nós não estivermos nesses espaços falando da universidade e da ciência, alguém fará isso no nosso lugar. Assim, hoje, “fazer ciência” passa por produzir a pesquisa em si, mas também por falar de ciência, levá-la à sociedade bem como escutar as necessidades dessa sociedade.

Falar de ciências nas redes sociais é um desafio gigantesco: conseguiremos entender e usar essa nova linguagem ou vamos seguir apenas falando entre os pares e, assim como Narciso, acabar nos afogando, apaixonados pela nossa própria imagem?


Nathan Lima é professor do departamento de Física e do Programa de Pós-graduação em Ensino de Física da UFRGS. Atua como divulgador científico nas redes sociais, onde publica sobre física, história da ciência e educação. É autor do livro Na Busca do Mundo Quântico.

Periodicamente, profissionais de diversas áreas ligados à UFRGS escrevem sobre política, economia, relações internacionais e outros temas relacionados à conjuntura. A seção tem curadoria de Tatiany Lukrafka.


As opiniões expressas nos textos assinados são de responsabilidade de seus autores e não refletem o posicionamento editorial do JU ou da UFRGS.