Conjuntura | Fernando Martini, de Relações Internacionais, indaga sobre o futuro da União Europeia em um contexto de guerras, discordâncias internas e perda de protagonismo global
*Foto: Bandeiras dos países membros da União Europeia, em frente ao Parlamento Europeu, em Estrasburgo, na França (Crédito: Denis Lomme)
A noite de 18 de dezembro de 2025 ficou marcada pelas decisões emitidas ao fim da última reunião do Conselho Europeu de 2025, nos oferecendo um recorte que expressa de forma paradigmática o posicionamento do bloco frente a importantes questões. O momento atual, em que a política internacional se mostra bastante instável, pode ser interpretado como um teste substantivo à coesão da União Europeia, no qual se colocam em questão não apenas a capacidade de resposta do grupo a choques sucessivos, mas também o caminho que ele irá percorrer em sua marcha histórica.
Mais do que buscar respostas nos discursos políticos, sempre encobertos por interesses eleitorais e jogos ocultos, duas decisões da cimeira nos oferecem importantes elementos de análise: a aprovação de prover um auxílio financeiro para sustentar o esforço de guerra ucraniano e o adiamento da assinatura do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul.
A demora da assinatura do acordo comercial com o Mercosul expôs dissensos entre os interesses internos dos membros da União Europeia, evidenciando a existência de tensões e assimetrias relevantes e problemas na coesão do bloco. Especialmente no setor agrícola, foram registradas intensas reações políticas e sociais, com destaque para manifestações na França, que temem que o acordo não seja favorável a seus interesses.
Embora o adiamento tenha elevado temporariamente o grau de incerteza sobre o desfecho das tratativas, a névoa da indefinição foi rapidamente dissipada com a aprovação do acordo pelo bloco nos primeiros dias de janeiro deste ano, ainda que a postergação tenha frustrado as perspectivas de que o acordo fosse assinado ainda em 2025 durante a presidência do Brasil no Mercosul, uma vez que as tratativas foram fortemente impulsionadas pela atuação da diplomacia brasileira e pelo envolvimento direto do presidente Lula.
Em paralelo, a dificuldade ainda maior de sustentar o esforço de guerra na Ucrânia tende a produzir desgastes políticos e orçamentários significativos, o que sempre é um elemento que aumenta pressões domésticas por gastos públicos prioritários para cada país. É possível perceber um grande esforço em manter a aparência de coesão do bloco, que se vê envolvido com problemas bastante complexos, como baixo crescimento econômico, divergências profundas com os EUA, o espectro de uma ameaça russa e a reemergência de partidos de extrema-direita.
Uma leitura que pode ser feita é que, após ser excluída de diversas tratativas de paz da guerra pelos EUA, a Europa busca retomar um protagonismo estratégico, muito embora reste a dúvida de até onde poderá ir e se possui as capacidades necessárias para tanto.
É uma decisão no mínimo arriscada. Ao destinar 90 bilhões de euros (584 bilhões de reais) em ajuda a Kiev, por meio de um empréstimo a ser pago somente após a quitação de uma indenização futura por parte da Rússia e sem incidência de juros, pairam dúvidas sobre como tal financiamento será feito. Por certo, se essa decisão não fosse tomada, a situação ucraniana, que já é bastante difícil, experimentaria um grave revés. São estimados mais de 100 bilhões de euros somente para que a Ucrânia não colapse nos próximos dois anos. E, para completar o cenário desanimador, os prognósticos do campo de batalha também não são nada positivos.
A aprovação da ajuda financeira está longe de constituir uma prova de coesão e força do bloco, desvelando questões extremamente delicadas, que vão além da evidente incerteza sobre a capacidade da Ucrânia em honrar a dívida. Um aspecto relevante é que a decisão não contou com a unanimidade de seus Estados-Membro. República Checa, Eslováquia e Hungria não subscreveram a decisão, abdicando do direito de veto desde que não se comprometessem economicamente com o suporte. Após a reunião, o presidente húngaro Viktor Orban, já conhecido por seu posicionamento crítico em relação ao apoio europeu à Ucrânia, emitiu uma forte declaração. O líder da Hungria afirmou que a decisão promovia o financiamento de uma preparação de guerra da Europa contra a Rússia.
Outro aspecto importante é que a decisão foi pela adoção de um plano alternativo, em uma construção arranjada que permitiu recursos extremamente urgentes às necessidades da Ucrânia. Inicialmente, a proposta era de utilização dos ativos russos congelados, linha de ação liderada pela Alemanha. No entanto, essa estratégia esbarrou nos temores sobre as possíveis consequências legais do confisco e a perda da credibilidade do sistema financeiro europeu – especialmente por parte da Bélgica, que detém a maior parcela dos valores. Há, além disso, um receio de que a Rússia possa retaliar caso sejam utilizados esses ativos.
Esse conjunto de decisões sugere um quadro de grave instabilidade, particularmente em um contexto no qual a extrema-direita, amparada por discursos nacionalistas, amplia seu espaço político no interior da União Europeia e nos governos nacionais. As fissuras internas se tornam indisfarçáveis, a pressão pelo rearmamento cresce e o risco de escalada permanece latente, indicando um período distante de qualquer calmaria. Diante desse cenário turbulento, fica a pergunta: para onde vais, Europa?
Fernando Speggiorin Martini é mestrando em Estudos Estratégicos Internacionais pela UFRGS. Integra o Grupo de Estudos Amazônicos e Pesquisas em Relações Internacionais, na UFRGS, e faz parte do Grupo de Estudos e Pesquisas em Psicologia Política, Políticas Públicas e Multiculturalismo, na USP. Também é pesquisador associado do Instituto Sul-Americano de Política e Estratégia, o Isape.
Periodicamente, profissionais de diversas áreas ligados à UFRGS escrevem sobre economia, política, relações internacionais e outros temas relacionados à conjuntura. A seção tem curadoria de Tatiany Lukrafka.
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