Artigo | Júlia Lorenz, Rafaela Costa, Kátia da Rosa e Leticia Naitzel, da Geografia e Geologia, relatam estudo realizado com trabalho de campo junto à população local em região dos Andes afetada pelo degelo
*Ilustração: Cássio Almeida/ Programa de Extensão Histórias e Práticas Artísticas, DAV-IA/UFRGS
O projeto “O cenário de segurança hídrica e vulnerabilidade socioambiental nas bacias hidrográficas do Rio Jacuí (Brasil), Rio Vilcanota (Peru) e Rio Santa (Peru)” surgiu do questionamento sobre como as mudanças climáticas afetam as migrações. Seu objetivo é entender de que modo as alterações do clima têm afetado rios que nascem em ambientes de glaciais de montanha, como as regiões da Cordilheira Vilcanota e Cordilheira Blanca.
O degelo e as alterações no clima estão afetando diretamente o modo de vida das populações tradicionais de montanha, e esses impactos estão relacionados à insegurança hídrica e às migrações climáticas. Pequenos aumentos de temperatura podem alterar significativamente o tempo de escoamento superficial em áreas montanhosas, devido ao degelo mais rápido ocasionado pelo aquecimento (AZIZ et al., 2020).
Como já alertado pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, 2023), as áreas de montanha abrigam 10% da população mundial, e a perda de gelo e neve nesses locais pode aumentar os riscos para as pessoas e mudar a quantidade de água disponível. Além disso, se as emissões de gases poluentes continuarem no mesmo ritmo, até 2100 muitas geleiras dessa região (Cordilheira Vilcanota e Blanca) devem sumir. O IPCC indica que os efeitos dessas mudanças ainda não estão totalmente claros. Por isso, entender a perspectiva de quem mora em ambientes de montanha é fundamental. Além disso, as geleiras são muito importantes para a cultura dos povos andinos (Figueiredo et al., 2019).
Conforme Costa et al. (2025), as migrações são atualmente um problema crescente na comunidade campesina de Phinaya, inserida na Cordilheira Vilcanota. A autora identificou, em primeiro trabalho de campo realizado em dezembro de 2021, que os principais motivadores para os deslocamentos são: condições climáticas extremas, diminuição do rendimento da produção de lã de alpaca, deficiências na educação e falta de acesso à comunicação e à eletricidade.
Ainda, as migrações têm acarretado envelhecimento populacional, perda da capacidade produtiva familiar e despovoamento, este último gerando preocupação quanto ao possível início de atividades de mineração e consequente aumento de conflitos, violência, empobrecimento e degradação ambiental.
Para o desenvolvimento das próximas etapas do trabalho, durante julho/agosto de 2025, as estudantes Rafaela Mattos Costa e Letícia Naitzel, da pós-graduação em Geografia (POSGEA), e Júlia Lorenz, da pós-graduação em Geociências (PPGGEO), lideradas pela professora Kátia Kellem da Rosa, fizeram a primeira expedição composta somente por mulheres do Centro Polar e Climático/UFRGS para áreas de montanha. Foram realizadas entrevistas com as pessoas que moram no campo, apresentação dos resultados para a comunidade (Figura 1) e para o Instituto Nacional de Pesquisa em Glaciares e Ecossistemas de Montanha (Figura 2). Além das entrevistas, foram realizadas coletas de sedimentos e feitos voos de drone para coletar imagens da comunidade de Vilcanota, auxiliando no mapeamento da região para entendimento da geomorfologia local.


As novas entrevistas realizadas evidenciam que a comunidade vem se adaptando às mudanças climáticas, sendo que, nos anos de 2024 e 2023, quando foram registradas as maiores temperaturas globais (NASA, 2025), as adaptações se intensificaram: construções com cobertura, migrações, construções de represas, recuperação e conservação das pastagens para a atividade alpaquera e até mesmo a utilização de medicamentos e o melhoramento genético aplicado às alpacas. Destaca-se como resultado principal o aumento do acesso à internet – viabilizado pela reestruturação da praça central e pela instalação de uma rede pública – e à energia elétrica, demonstrando mudanças estruturais importantes na comunidade.
As coletas de dados servem para ajudar a reconstruir o ambiente como era no passado e como está agora com as mudanças. Os próximos resultados para a Cordilheira Vilcanota vão mostrar anomalias na temperatura média do ar, na área de acumulação das geleiras, além de mudanças na precipitação pluviométrica e nival para comparar com os resultados obtidos pelo grupo para a Cordilheira Blanca (Lorenz et al., 2025). Comparar essas duas regiões de montanha ajuda a entender como cada região se adapta às mudanças do clima.
Júlia Lopes Lorenz é doutoranda em Geociências pelo Programa de Pós-graduação em Geociência da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGGEO/UFRGS).
Rafaela Mattos Costa é doutoranda em Geografia pelo Programa de Pós-graduação em Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (POSGEA/UFRGS).
Kátia Kellem da Rosa é docente no Departamento de Geografia da UFRGS e coordenadora do projeto “O cenário de segurança hídrica e vulnerabilidade socioambiental nas bacias hidrográficas do Rio Jacuí (Brasil), Rio Vilcanota (Peru) e Rio Santa (Peru)”.
Letícia Tábita Naitzel é doutoranda em Geografia pelo Programa de Pós-graduação em Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (POSGEA/UFRGS).
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