Espaço da Reitoria | Marcia Barbosa e Pedro Costa pontuam os desafios e as conquistas de mais um ano de gestão, defendendo uma Universidade Pública, Gratuita e de Excelência
*Excerto do mural “As Profissões”, de Aldo Locatelli (1958), exposto na Sala do Conselho Universitário, na Reitoria da UFRGS (Foto: Flávio Dutra/JU)
Com a chegada da primavera, nos colocamos a tarefa de avaliar a passagem de mais um ano, de uma caminhada marcada por desafios, mas também por avanços que reafirmam a força e a capacidade de transformação da UFRGS. Foi um ano em que nossa Universidade mostrou visão, coragem e, sobretudo, resiliência para assumir seu papel diante dos grandes desafios do nosso tempo.
Mais do que sediar o primeiro Congresso Internacional Antifascista, a UFRGS foi parte ativa de sua construção. Fizemos uma escolha clara: em um mundo em que o extremismo avança e ameaça a democracia, a Universidade não pode silenciar. Ficar calado diante do autoritarismo é ser conivente. A UFRGS continuará sendo espaço de liberdade, pluralidade, conhecimento e defesa da democracia, como determinado pelo seu Estatuto e no exercício da autonomia que lhe concede a Constituição Federal.
Também ampliamos nosso olhar para a sociedade. Mapeamos a extensão e preparamos o caminho para os Territórios da Extensão, consolidando a presença da UFRGS em diferentes regiões e reafirmando que uma Universidade Pública, Gratuita e de Excelência pertence à sociedade e deve estar a serviço dela.
Em um cenário geopolítico que impõe tarifas e ameaça setores estratégicos do Estado, a UFRGS responde com conhecimento, formação e presença regional. Levamos para Caxias do Sul o Câmpus Serra. Inicialmente, os cursos de Ciência de Dados, Psicologia, Administração e Engenharia Industrial irão consolidar uma Universidade Pública, Gratuita e de Excelência, comprometida com o desenvolvimento da região e com o futuro do Rio Grande do Sul.
Diante da emergência climática, a UFRGS também escolheu não se esconder. Escolheu agir. Temos a responsabilidade de formar recursos humanos, produzir conhecimento de fronteira e transformar ciência em políticas públicas capazes de proteger a sociedade. Buscamos recursos da Finep e, nos próximos meses, iniciaremos a construção do Centro de Gestão de Riscos Climáticos e Ambientais/Centro de Ciências Atmosféricas e Oceânicas, no Câmpus Litoral Norte.
Mas não esperamos pela construção de uma sede para começar a trabalhar. As ações do Centro já são realidade. Promovemos o curso de Justiça Climática, qualificando professores da educação básica de escolas localizadas em regiões de risco climático e profissionais da Defesa Civil. Realizamos seminários sobre Emergência Climática e Ambiental, reunindo pesquisadores de diferentes áreas para discutir clima, meteorologia, deslizamentos, resiliência, saúde e justiça social.
Dessas iniciativas nasceram novas colaborações e uma rede de conhecimento que levou a UFRGS a coordenar seis (6) dos 11 Centros de Referência Internacional em Estudos Relacionados às Mudanças Climáticas (CRIECs) aprovados pela Fapergs, estando presente em todos eles.
Hoje as decisões sobre a abertura ou não de nossos espaços na ocorrência de eventos extremos são apoiadas por análise científica do Comitê de Assessoramento Técnico de Emergência Climática, que sustenta o Protocolo Climático, o primeiro entre as universidades gaúchas. Como a própria ciência, esse protocolo está em permanente aprimoramento e utiliza um modelo meteorológico desenvolvido pela Universidade. Já estamos negociando para que esse conhecimento também possa apoiar as decisões da Defesa Civil do Estado.
Ao mesmo tempo, enfrentamos de frente a crise orçamentária que atinge a UFRGS e as demais Universidades Federais. No final de 2025, o Congresso cortou cerca de 8,5 milhões de reais do nosso orçamento para 2026. Nossa resposta não foi aceitar o corte, mas lutar e cobrar do Governo Federal a recomposição dos recursos, inclusive por meio da redução das emendas parlamentares. Em janeiro, os recursos retornaram, acompanhados de um corte de 10 bilhões de reais em emendas.
Sabemos, porém, que o desafio permanece. Por isso, ampliamos a discussão sobre a necessidade de investimento público em educação, ciência e tecnologia. Defender a Universidade é defender o futuro do país. E, ao mesmo tempo que lutamos por um orçamento público adequado, reconhecemos que a UFRGS precisa ampliar sua capacidade de captar recursos próprios. Hoje, sem essa capacidade, não conseguimos sequer financiar integralmente o custo do Restaurante Universitário. Nesse sentido, propusemos um novo fluxo para as interações acadêmicas, atualmente em análise no Conselho Universitário, abrindo novas possibilidades de parceria com a sociedade e de geração de recursos para sustentar e fortalecer nossa Universidade.
A primavera chegou trazendo a renovação da vida. Para nós, ela também traz um chamado: não é hora de recuar. É hora de manter a visão, a coragem e a resiliência para continuar construindo a UFRGS que o Rio Grande do Sul e o Brasil precisam.
Apesar das ameaças, somos uma Universidade que não se cala diante do autoritarismo, que não se omite diante da emergência climática, que não abandona sua comunidade diante das dificuldades orçamentárias. Uma Universidade que produz conhecimento, forma pessoas, transforma a sociedade e projeta o futuro.
Nossa visão é a ciência.
Nossa coragem é a democracia.
Nossa resiliência é a consciência.
Marcia Barbosa é reitora da UFRGS.
Pedro Costa é vice-reitor da UFRGS.





