Performa Restinga, arte e afeto em tempos de distanciamento

Artigo | Thiago Pirajira, doutorando no PPG em Artes Cênicas, reflete sobre as limitações e descobertas ao se transpor um curso de teatro para o ambiente virtual

*Por: Thiago Pirajira
*Foto de capa: Arquivo Performa Restinga

O ensino da arte em tempos pandêmicos tem trazido desafios imensuráveis a professores, educadores, oficineiros, mestres e demais trabalhadores artistas que executam a tarefa de dinamização dos conhecimentos. Para artistas da cena, que dependem da troca física presencial, o atual contexto se coloca como um momento de transição, com boas e más experiências. Nesse caminho e nessa direção, o Performa Restinga, um dos cursos que constituem o projeto Mais Restinga, vem desde o mês de julho, em passo e sabores de experimentação, arriscando possibilidades de contato, acolhimento, interação e criação em modo remoto com moradores do bairro.

Os professores-artistas Bathista Freire, Janaina Pelizzon, Rita Spier, Thiago Pirajira e Vika Schabbach – que, em sua maioria, possuem vínculo ativo com a UFRGS – realizaram um extenso trabalho de adaptação do projeto para que ele acontecesse em formato online. Esse foi o primeiro grande desafio, tendo em vista as dificuldades para oportunizar o acesso a todas e todos os participantes de forma equânime. Para tal, foram necessários dois meses prévios de estudos (maio e junho) para mapear o perfil dos inscritos e suas necessidades para acessar a plataforma onde as aulas são realizadas, além de sondar os melhores horários para atender ao maior número de interessados.

Com focos no ensino do teatro e na formação de um grupo de teatro no bairro, o curso que estava previsto para iniciar no mês de março em modo presencial necessitou, com a chegada da pandemia, ser repensado desde a sua concepção. A linguagem teatral, por mais experimental e ampla, ainda assim tem como fundamento o corpo e a relação física com outros corpos a partir da presença e do encontro. Desse modo surgiu o desafio pedagógico central para a realização do curso: como fazer teatro sem o encontro presencial? Uma das desconfianças que se tornou caminho foi rever a linguagem a ser trabalhada.

O segundo estudo realizado pelos professores-artistas foi tomar a performance – que em sua gênese possui definições menos rígidas que o teatro e é, portanto, mais aberta a experimentações – como aposta. A presença física e o encontro, princípios teatrais, abriram espaço para outros pressupostos e degustações. Câmeras de celulares e computadores se tornaram o olhar confidente nas criações de cenas, ambientações e dramaturgias.

A primeira aposta foi dar outros sentidos aos recursos tecnológicos de comunicação, ressignificando-os por meio das possibilidades da performance. Os quadrados por onde os participantes se viam durante as aulas na plataforma Zoom tornaram-se janelas. Janelas de onde podiam ver e serem vistos.

A partir do compromisso coletivo do olhar artístico, professores e alunos desenvolveram propostas de criações de cenas tramadas com o acolhimento, transformando a sala, o quarto, a cadeira e demais objetos e espaços dos lares em palco, cenário e texto dramatúrgico. Uma escolha que até o momento tem se tornado caminho possível para teatralizar. Das janelas dos computadores e celulares se vê a Restinga e o mundo.

Uma escolha sensível para a realização das aulas foi tornar o momento inicial de cada encontro, quando alunos e professores conversavam informalmente sobre o dia a dia na pandemia, parte estrutural da aula: o convívio e os afetos são fundamentais no teatro.

Outra aposta do Performa Restinga foi a aproximação com o romance Quarto de Despejo, da escritora Carolina Maria de Jesus, uma das mais importantes escritoras brasileiras. Na obra, para além do retrato da miséria, se revelam importantes imagens que vêm sendo trabalhadas em aula: a insubmissão da autora/personagem, que através da escrita denuncia as injustiças sociais, desafiando e contrapondo a estrutura vigente, além da intensa e sensível análise das complexidades das populações negras e periféricas.

Carolina tem trazido muitas inspirações a partir da questão elaborada pelos professores: quem são as Carolinas da Restinga? As ressonâncias dessa pergunta têm se tornado o mote criativo para o trabalho final do curso – um experimento performático audiovisual que será lançado em dezembro.

Entre limitações, anseios, esperanças, o curso vem sendo realizado em um território virtual do bairro em que as distâncias promovem afeto e as dúvidas sobre como fazer se tornam desejo de novas experiências. Corpos que performam, que contam histórias pessoais, de suas casas e das ruas da Restinga, se tornaram a fonte criativa do curso, tendo os moradores do bairro como protagonistas: autores, atores, diretores, dramaturgos, figurinistas e iluminadores de suas próprias narrativas. A arte e as possibilidades de ensino da arte no Performa Restinga vem sendo desde então um grande mosaico improvisado na escrita de si e do coletivo. Um diário vivo que a cada encontro, assim como um dos consensos sobre a noção de performance, se atualiza, se movimenta e se recria.

Participantes das atividades do Performa Restinga passaram a utilizar as telas das plataformas de videoconferência como janelas para o desenvolvimento de suas ações de interpretação (Foto: Arquivo Performa Restinga)

Thiago Pirajira é doutorando no Programa de Pós-graduação em Artes Cênicas da UFRGS. É ator, diretor, professor, curador e gestor cultural. Membro do GETEPE/UFRGS- Grupo de Estudos em Educação Teatro e Performance. Diretor artístico do grupo Pretagô, ator e produtor do grupo Usina do Trabalho do Ator e artista co-fundador do Bloco da Laje. É um dos professores do Performa Restinga.