“Eu não sou imparcial. Eu estou aqui para fazer uma denúncia”, diz a fotógrafa Isis Medeiros

Entrevista | A fotógrafa mineira acompanha as consequências socioambientais do rompimento da barragem do Fundão, em Mariana, e da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho

*Foto de capa: Isis Medeiros

Eram 15h30 de 5 de novembro de 2015 quando acontecia a maior tragédia ambiental da história do país. Os noticiários logo começaram a mostrá-la, exibindo imagens do município de Bento Rodrigues, distrito de Mariana, que estava submerso em rejeitos oriundos da Barragem do Fundão, da mineradora Samarco. Os rejeitos atingiram o Rio Doce e seus afluentes, tiraram 19 vidas, destruíram distritos e cidades e levaram embora o território, a casa e o trabalho de milhares de pessoas. 

As imagens que nos foram dadas desse dia são, na maioria, fotografias aéreas feitas por helicópteros ou drones que mostram a dimensão da lama. Isis Medeiros, fotógrafa mineira, estava em Mariana logo após o rompimento da barragem. De imediato percebeu como a cobertura pela mídia estava sendo feita e decidiu se engajar em um trabalho de acompanhamento longo da situação.

Por trás da lama, havia rostos, nomes, pessoas e famílias inteiras em processo de perda e dor. A inquietação por ouvir uma perspectiva mais humana dessa tragédia foi o que levou a fotógrafa a ir à procura de outras imagens possíveis e de relatos que mostrassem como se sentiam essas populações. Ao longo dos últimos cinco anos, Isis acompanha os moradores atingidos pela barragem. No mês passado, a fotógrafa lançou o livro 15:30, que conta e denuncia, a partir do trabalho com imagens, o drama experenciado nos territórios atingidos. 

Isis é formada em Design, trabalha com fotografia documental desde 2013, é integrante da fotocoletiva Mamana e uma das fundadoras do grupo “Fotografia pela Democracia” – iniciativa nacional de fotógrafas e fotógrafos que lutam em defesa da democracia e dos direitos humanos no Brasil.

Isis Medeiros (Arquivo pessoal)

Isis, tu fizeste a cobertura fotográfica do desastre de Mariana, que completou cinco anos em novembro. Como foi o início desse processo de fazer uma documentação de longo prazo? 
Eu costumo dizer que Mariana me fez fotojornalista. A partir da minha experiência prática de me aproximar desse território, de acompanhar o processo pós-crime e as próprias comunidades, fui me interessando por um trabalho cuidadoso, mais sensível, voltado a essa questão. O primeiro incômodo que tive quando me aproximei desse território foi perceber como a mídia do Brasil e do mundo estava trabalhando a mineração, porque até então nunca tinha acontecido algo tão grande como foi Mariana.

Me incomodava profundamente a forma como o jornalismo lidava com o assunto – cheguei até a ter embates com jornalistas que estavam trabalhando junto porque eu discordava muito da ética que via ali. Foi quando falei: eu quero fazer isso, quero contar essa história de forma honesta, sincera; quero ouvir as pessoas, entender o que elas estão sentindo, para que eu possa fazer um trabalho mais humano.

Havia um interesse grande em fazer a cobertura muito rapidamente e sair logo. Não era uma forma legal de trabalhar com as pessoas, porque elas estavam ali e tinham acabado de viver um trauma. Tava todo mundo atônito, sem saber o que estava acontecendo

A partir daí, comecei a fotografar e me envolver com essas pessoas. Comecei a ir para os territórios atingidos. Toda vez que tinha uma oportunidade de me aproximar, eu ia – ou pelo Movimento dos Atingidos por Barragens ou pelo Jornal Brasil de Fato, pois à época eu cobria para eles. Mas também estava fazendo meu trabalho paralelo, aquilo que faria de qualquer forma. 

Com essa aproximação ao tema, eu acho que me aproximei também da minha história, porque ir conhecer essas comunidades e ouvir essas pessoas me aproximou daquilo que era um dos meus valores. São pessoas que vivem em comunidade, em território rural, que têm necessidades muito diferentes de quem mora em centro urbano. Elas falavam sobre a perda do quintal, a perda da horta, a perda da subsistência mesmo, do trabalho. Encontrei pessoas que pareciam muito com aquelas que eu convivi na minha infância, porque minha família é de zona rural. Passei minha infância longe da cidade. 

E foi impressionante porque eu não conseguia me identificar tanto com outras pautas na cidade como com essa. Foi a partir de Mariana que comecei a me envolver mais e me interessar também por entender de mineração, compreender onde eu estava me envolvendo.

Entender que é um problema muito maior que o rompimento da barragem. É um problema que vem se arrastando há mais de 300 anos, desde que Minas é Minas, e que por isso não pode ser uma pauta rasa, uma reportagem rasa. Tem que ser com cuidado, com respeito. Tem que pedir licença para entrar… porque estamos lidando também com ancestralidade

Fui acompanhando, o tempo foi passando. Até que rompeu Brumadinho, em 2019. E foi desesperador. Aí arregacei as mangas. Na medida do possível, tenho tentado acompanhar os dois territórios atingidos – que são muitos, na verdade, e não só dois. São dezenas e dezenas de cidades, de comunidades. Foi muita gente atingida. E é importante saber que o problema não acabou, que vai continuar existindo, que a gente não avançou em termos de leis, da discussão sobre barragens. A partir de Mariana, fui entendendo que o buraco é bem maior e bem mais embaixo do que eu esperava. 

Como acontecem os encontros com as pessoas?
Acho que essa é uma das coisas que mais chama atenção. Em Mariana também, mas especialmente em Brumadinho. Tive o feedback das pessoas falando que gostavam de acompanhar meu trabalho porque tocava o lado humano. Não era como as imagens que passavam toda hora na TV, mostrando tudo de cima, a dimensão da lama e onde atingiu. Mas, apesar de ser um crime ambiental que tenha atingido bacias e muitos territórios, as pessoas se sensibilizam muito por histórias. E eu trago essa perspectiva humana, de como as pessoas estão dentro dessa situação, como elas estão enfrentando, o que elas estão sentindo. Acho que isso aproxima as pessoas do assunto. Faz com que elas se coloquem no lugar das outras para entender o que está acontecendo.

Porque ver aquilo de cima é uma coisa, agora você pisar ali é completamente diferente. Infelizmente muita gente cobriu o assunto de dentro de um escritório com ar-condicionado. Quem pisou de fato naquela lama, quem conversou com as pessoas, quem se aproximou daquilo tudo nunca mais vai ser a mesma pessoa. A gente volta muito diferente daquele lugar.

Você passa a repensar tudo na vida. Você vê as pessoas questionando sobre não ter o corpo da própria irmã para enterrar. Do próprio filho. “Eu não sei onde está meu filho”, era o que a gente escutava. E a pessoa vai simplesmente passar a vida inteira sem saber onde encontrar esse conforto. 

Algumas famílias falavam primeiro que tudo que queriam era saber notícias dos seus parentes, do seus filhos. Passados os dias, percebendo que não chegou nenhuma notícia, passam a querer encontrar o corpo. Não encontrando, ficam torcendo para que em algum momento alguém ligue e diga: “A gente encontrou seu filho nas ruas de Belo Horizonte”. Mas daí passa mais tempo, e a pessoa começa a andar na rua da sua cidade procurando o filho como se fosse encontrar. Só que, no fim, tudo que essas famílias desejavam era sentir um pouco de paz, de poder se despedir. E mesmo enterrando o filho, quando conseguem, ainda assim não encontram paz. 

Não tem palavras suficientes para descrever. Eu acho que quando você se envolve em um nível profundo assim não tem como voltar atrás, aquilo vira uma espécie de referência e de marco de vida – do que é viver, do que é a morte, do que é passar por todos esses processos –, mesmo não sendo uma dessas pessoas que foi vítima, que perdeu casa, que perdeu parente.

Fotos: Isis Medeiros

Tu poderias contar como é estar lá, trabalhando com a imagem?
De fato, a câmera intimida muito. A câmera é uma violência. Eu acho que o maior desafio é como fazer isso de uma forma menos traumática, menos problemática para a pessoa que está sendo documentada. Claro que tem aquelas primeiras imagens que você precisa fazer, que é do hard [news], que tem que fazer para garantir que você vai ter aquilo registrado. Mas eu acho que foco muito mais no pós do que na tragédia em si, porque Mariana me ensinou muito isso. Lógico que essas fotos são importantes para denunciar o que aconteceu. Só que elas são utilizadas à exaustão: é lama, lama, lama – e na verdade não é lama, é rejeito, é metal –, que chega uma hora que não faz mais sentido ficar reproduzindo essas imagens. Foi por  causa disso que decidi focar em documentar as pessoas, os sentimentos, o que elas estão vivendo. Fazer a denúncia a partir da voz delas. Eu tento interferir muito pouco tanto no relato quanto na forma de fotografar. 

Por isso tento entrar em contato com o dia a dia mesmo da pessoa. Passar mais tempo com ela para perceber os gestos, como ela se comporta. Tento fazer um trabalho mais documental, menos posado ou encenado. Claro que uma vez ou outra você precisa dirigir mesmo, mas sempre parto da ideia de sinceridade e de diálogo com o fotografado. De construir essa história junto com a pessoa. Eu sempre digo que, se ela não se sentir confortável, tá tudo bem. Sempre pergunto se ela se sente bem. E, em várias situações, pessoas me disseram que não se sentiam à vontade de tal maneira. Então sou muito sincera quando chego para conversar para poder contribuir com a luta delas. 

Eu sempre falo: “Olha, eu não sou imparcial. Eu tô aqui para fazer uma denúncia, para falar sobre o que vocês estão vivendo”. Pergunto e peço que as pessoas me digam o que significa a mineração para elas. Sempre tento instigar as pessoas a contarem como aquilo agride a vida delas – porque é isso que precisa ser dito. Para além do sofrimento, que é algo esperado, é também necessário dizer qual a perspectiva crítica delas sobre o crime.

Foto: Isis Medeiros

Como tu enxergas o papel da imagem na denúncia, nesse posicionamento que é de certa forma político? 
Eu acho que nada melhor que ouvir. Escutar as pessoas que estão passando por isso. Porque entre todo mundo com quem eu conversei – sem exceção, desde o peão da obra que foi contratado pela mineradora à pessoa que trabalha na prefeitura, que está passando na rua, que perdeu um familiar – independentemente de quem seja, não tem uma pessoa que diga: “Ah, realmente, pode ser que tenha sido por acaso”.

Todo mundo tem uma história para te contar de alguma situação que já acontecia antes, de alguma intervenção que a mineradora já tinha feito na vida dessa pessoa, de algum assédio moral, de algum assédio no território. Todo mundo ali já tinha passado informação para funcionários da mineradora em algum momento.

Muitos contam que em dois mil e alguma coisa já entravam na casas das pessoas, já faziam elas assinarem um documento. Já havia um estudo sobre o território. Sabiam o perfil socioeconômico das pessoas. O que elas tinham, o que não tinham, como se comportavam, quem tinha potencial de ser liderança ali. Enfim, esses perfis já estavam sendo traçados. As mineradoras fazem isso de praxe. Em alguns territórios, mais do que outros, porque elas têm interesses nesses territórios todos. 

Então você tem essa denúncia pela boca das próprias pessoas atingidas. Sempre foi difícil, para mim, chegar com meu trabalho de texto e de denúncia e conseguir provar isso – de forma a ouvirem essas pessoas. Para o jornalismo, em via de regra, essas pessoas são só personagens, só preenchem matéria.

Os veículos me diziam: “Ah, mas isso aqui não é uma fonte confiável”. E eu respondia: “Qual a fonte confiável? A mineradora? Essa é a fonte que vocês buscam de referência para ouvir?”. Eles ouvem o Ministério Público, a Defesa Civil, mas não ouvem as pessoas atingidas. Porque essas pessoas são vistas como “menos”, como inferiores, mas elas sabiam coisas dali antes de todos nós.

A comunidade destruída de Bento Rodrigues foi uma das primeiras de Minas Gerais a passar pelo processo de retirada de minério. Essas histórias vão passando para as pessoas. Todo mundo ali tem caso para contar. 

Foto: Isis Medeiros

O que a dimensão do relato, da palavra, representa no teu trabalho? Tem algum que tenha te marcado bastante e que continua ecoando?
Tem vários, claro, mas em cada território tem alguns que marcam mais. Em Mariana, no início, eu tinha muito receio de me aproximar, de entrar direto. Tinha medo de invadir mesmo, de tocar nessas pessoas de uma forma que fosse violenta. Com o passar do tempo, fui criando o meu processo de aproximação e de diálogo.

Ao longo da Bacia do Rio Doce tem duas mulheres que me marcaram muito e que inclusive fazem parte do livro. Uma é de Barra Longa – uma cidade que teve o Centro destruído – e outra mora na foz do Rio Doce, em São Mateus, já chegando no Espírito Santo. São Mateus é uma ilha, e essa mulher que conheci lá é uma pescadora. Perguntei a ela se poderia fazer um retrato, expliquei-lhe o trabalho que estava fazendo, e ela disse: “Sou pescadora”. Se reportava o tempo inteiro ao fato de essa ser a atividade que exercia, e achei aquilo incrível, porque eu nunca antes tinha conhecido uma pescadora. Geralmente a gente ouve sobre pescadores. Começamos a trocar ideias, e ela virou uma pessoa muito próxima. Ela está nas minhas redes sociais, interage comigo quase todo dia.

O que mais mexeu comigo nessas conversas era o que ela dizia: “Eu sou pescadora, eu não sei fazer outra coisa. Eu só sei pescar”. E essa frase ficou na minha cabeça. “Só sei pescar.” Tiraram dela a única coisa que sabia fazer

Já a Simone, que é a mulher de Barra Longa, tinha uma filha recém-nascida à época que rompeu a barragem. A menina está com cinco anos agora e enfrenta problemas de saúde, de alergia, de infecção no estômago, no intestino, e agora está com um problema cerebral por conta do pó do rejeito. Porque a cidade inteira é o pó que secou e que está em suspensão no ar. Então, as pessoas bebem, comem e respiram aquele rejeito. Está na pele, no ar. 

Me marcou também um senhor que mora em Barão de Cocais, uma região ameaçada pelo rompimento de barragem e que a Vale há muito tempo tem interesse de minerar. Teve um momento em que, durante sete dias, anunciaram diariamente que uma outra barragem iria romper em Minas Gerais. Era lá. A imprensa do Brasil e do mundo estava em Barão de Cocais.

Assim que cheguei, eles estavam pintando todas as calçadas de laranja. Todo lugar em que iria chegar a lama eles pintavam de tinta laranja. Era horrível. As fachadas, os postes, os meios fios. Logo que pisei na calçada, encontrei um senhor que virou para mim e falou assim: “Essas coisas que eles estão anunciando aí são tudo bobagem. Isso não vai romper”. Eu falei: “Como assim?”. Todo mundo ali falando que iria romper, e ele dizendo que não. Aí pedi para ele me explicar.

Ele falou que essa região que seria inundada era muito rica em ouro, em pedras. “A igrejinha que tem aqui tem mais de 300 anos”, ele disse. “Eles estão interessados nesse território porque querem tirar o ouro daqui. E debaixo daquela igreja é uma área muito rica. E eles não vão conseguir minerar porque o povo gosta muito dali. Tem cachoeira, tem rio, tem 600 pessoas que moram naquela comunidade.” 

De repente eu já tava tomando café na casa dele, conversando sobre tudo. Por fim, eu já tinha uma história enorme sobre o que estava acontecendo. Passei a maior tristeza tentando oferecer para vários veículos, mas ninguém queria publicar isso porque era uma denúncia muito séria. “Como assim, a Vale tá fazendo isso para criar um terrorismo de barragem?”. Esse termo, inclusive, “terrorismo de barragem”, já é oficializado aqui, porque é uma tática de mineração. Muitas pessoas foram expulsas de suas casas, de madrugada, com sirene ligada, com a ameaça de que romperia a barragem. E essas pessoas nunca puderam voltar. 

Fotos: Isis Medeiros

No mês passado, tu lançaste o livro 15:30, com imagens que fizeste ao longo desses cinco anos em Mariana. Como foi o processo de transformar o trabalho de documentação em livro?
Primeiro teve um trabalho grande de edição, porque inicialmente eram 13 mil fotografias, entre imagens de ato, manifestação, da própria comunidade, das assembleias. Muito material mesmo. Não foi fácil chegar a esse resultado, porque no livro tem 71 fotos – e às vezes sinto um apego às imagens que não entraram. Mas a gente tentou trazer uma história do início ao fim, em que você vai entendendo o passar do tempo com o passar das páginas. Você percebe que o tempo foi passando e que a dificuldade e a tristeza foram aumentando. Isso vem de uma perspectiva de ouvir as pessoas, porque quase todas com quem eu converso dizem que a vida delas piorou com o passar do tempo. Então tento trazer uma trajetória, desde o início do rompimento até os dias de hoje, mostrando como está a vida. 

Tem relatos de mulheres atingidas, tem a abertura do livro com o prefácio que o Ailton Krenak construiu. É um livro de fotografia, então tem pouco texto – mas nesse pouco texto tentei trazer os relatos. Começa com uma liderança indígena e depois trago o que contam as duas mulheres que eu citei, Eliane, de Barra Longa, e Simone, do Espírito Santo. Elas escreveram cartas contando, passados cinco anos do crime, como estão.

Eu sinto que o livro é um pontapé sobre o tema. Ele não traduz tudo o que está acontecendo. Conta uma parte da história. Se as fotografias não conseguem trazer tudo, o livro também não consegue. Ele é só um pedaço. E ele nem se pretende contar tudo, porque é muito denso o tema

Acho que muita coisa vai ser perdida, mas o livro tem esse poder do registro, de não deixar que essa história morra, porque é com a história que a gente faz um futuro diferente. Além disso, uma das negociações que fiz foi de que o livro precisaria voltar para as comunidades. Para mim é muito importante que elas tenham a história delas de volta. Tinha muito a preocupação de não roubar essa história, de não protagonizar, porque não é uma história minha, só minha. Ela me atinge, mas é uma história de muita gente. 

Foto: Ruy Teixeira