As vozes que podem adiar o fim do mundo a partir de Ailton Krenak

Ao tomar posse na Academia Brasileira de Letras (ABL) em abril de 2024, Ailton Krenak brincou ao fazer referência ao poema “Eu sou trezentos“, de Mário de Andrade. “Não sou 300”, disse o escritor e líder indígena, ao afirmar que não seria tão pretensioso quanto o modernista. Mas completou que, embora fosse apenas um, era capaz de invocar 305 povos indígenas. Na ocasião, sua fala sintetizou o significado de sua chegada à instituição: eleito em 2023, Krenak tornou-se o primeiro indígena a integrar a ABL em 127 anos de história.

Por onde passa, Krenak leva consigo muito mais do que a própria trajetória. Em suas palestras, entrevistas e livros, estão junto dele vozes, imaginários e línguas que nos relembram que o Brasil não é um país monolíngue. Não por acaso, a oralidade ocupa um lugar central em sua produção intelectual.

Uma das marcas de sua obra é justamente a forma como ela nasce, a partir de falas públicas posteriormente transformadas em texto. “Isso já mostra que é um pensamento que vem da oralidade”, afirma Ana Tettamanzy, professora do Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRGS. 

Ao descrever como surgiu o título de Ideias para adiar o fim do mundo, obra que integra a lista de leituras obrigatórias do vestibular de 2027, Krenak conta – no próprio livro – que estava ocupado com suas atividades no quintal quando lhe trouxeram o telefone com um convite para uma palestra. Em meio à distração com as plantas, ao ser questionado sobre qual seria o tema da sua fala, a frase surgiu no improviso. No dia do evento, chovia forte, e ele achou que não viria ninguém: “Para minha surpresa, o auditório estava lotado. Perguntei: ‘Mas todo esse pessoal está no mestrado?’. Meus amigos disseram: ‘Que nada, alunos do campus todo estão aqui querendo saber essa história de adiar o fim do mundo’. Eu respondi: ‘Eu também’”.

Ele brinca com o leitor. “Isso é uma astúcia de escritor, mas, no caso dele, mais do que uma astúcia literária, é uma prática de um sujeito comunitário”, afirma Tettamanzy. Segundo ela, a obra também carrega a marca de uma autoria que valoriza a palavra dos mais velhos e reconhece o saber ancestral como sua principal referência. Isso faz com que a obra ultrapasse o campo da literatura.

“Um livro como este entra em um debate urgentíssimo sobre a viabilidade da nossa permanência nesta casa comum que é a Terra.”

Ana Tettamanzy
O que Ailton nos ensina?

Para a professora Izabela Leal, do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Pará (UFPA), a atuação de Ailton Krenak como ambientalista é uma de suas facetas mais marcantes. Segundo ela, o escritor tem se colocado de maneira incisiva ao chamar a atenção para a necessidade de repensarmos o tipo de relação que estabelecemos com os demais seres que habitam o planeta.

A professora observa que, até mesmo na ciência, consolidou-se por muito tempo a ideia de dominação da natureza – a noção de que ela poderia ser decodificada e, a partir disso, controlada para servir aos interesses humanos. “É o que a gente vê nos grandes projetos, nas construções de hidrelétricas, como Belo Monte, por exemplo, na utilização dos rios”, afirma.

Na sua avaliação, Ideias para adiar o fim do mundo funciona como uma espécie de tradução voltada aos não indígenas. “Isso que ele vem falando para a gente ele não precisa dizer para o seu próprio povo.” O autor incita a questionarmos determinadas lógicas nas quais a natureza é vista apenas a partir de sua utilidade, convidando o leitor a compreender o mundo por outras perspectivas. 

Ao se comunicar com o público, Krenak utiliza termos em inglês, como delivery e photoshop, além de fazer alusões a personagens populares, como o heroi de ficção científica e aventura espacial Flash Gordon. Para a professora Ana, essa combinação evidencia que, além de literatura indígena, a obra de Krenak é também literatura contemporânea.

“Ele continua mantendo tradições milenares, continua respeitando seus mais velhos, busca manter sua forma de viver, mas isso não significa que ele não possa dialogar com a contemporaneidade”

Ana Tettamanzy

Até porque, para o próprio Ailton, essas dimensões não são opostas, mas complementares – uma ideia que aparece, inclusive, em sua obra Futuro ancestral, publicada em 2022.

A atualidade linguística, conforme explica Ana, aparece ao longo de todo o texto, em que o autor estabelece diálogos com o leitor por meio de comparações e sentimentos que são familiares ao seu público. 

Embora o livro tenha sido publicado antes da pandemia ou enchentes, Krenak já refletia sobre o que se tornaria ainda mais presente nos anos seguintes, como a sensação sucessiva de que vivenciamos múltiplos “fins do mundo”. Diante desse cenário, ele sugere, à sua maneira, outras possibilidades de existência: “Vamos aproveitar toda a nossa capacidade crítica e criativa para construir paraquedas coloridos”, propõe no livro.

“Os paraquedas coloridos são a expansão das subjetividades. Ele propõe que se continue contando histórias para não se render à utilidade das coisas, que continuemos nos relacionando com o que é vivo como interlocutores, agentes de relações, e não como objetos a serem comprados, depredados ou esgotados”

Ana Tettamanzy

Um novo cânone literário

Vemos a presença indígena muito rarefeita na história do país e na história literária – no cânone, que consolida obras ou autores considerados clássicos e importantes numa cultura. Inclusive no primeiro documento que é indicado como o início da literatura brasileira: a carta de Pero Vaz Caminha, “os indígenas estão lá como uma exterioridade, a gente percebe ali uma incompreensão daquele sujeito”, explica a professora Ana.

Essa visão se manifesta na literatura indianista, em que o indígena é retratado a partir de um olhar mítico, associado à natureza e à figura do “bom selvagem”. Como exemplo, a professora cita as obras Iracema e O Guarani, do escritor cearense José de Alencar. Segundo ela, em grande parte dessas narrativas, o indígena aparece sem perspectivas de continuidade ou sobrevivência.

A partir do século XX, a literatura de temática indígena ganha novo fôlego com a literatura indigenista. É o caso de Macunaíma, de Mário de Andrade. Inspirado por uma viagem à Amazônia, o autor demonstra maior atenção à cultura indígena, incorporando elementos de seus costumes e de sua linguagem. Essa abordagem também foi adotada por autores como Oswald de Andrade e pelo antropólogo Darcy Ribeiro.

O que chamamos de literatura indígena, a professora Ana prefere chamar no plural: literaturas indígenas – “porque temos vários povos”, explica ela. Essa literatura surgiu como uma forma de afirmação coletiva, à semelhança do movimento negro, consolidando-se nas décadas de 1970 e 1980. Conforme a professora, seu surgimento está ligado às chamadas escolas da floresta, iniciativas que reuniram antropólogos, educadores e pesquisadores universitários na produção dos primeiros registros escritos de línguas indígenas. “Em meados dos anos 1980, algumas autorias coletivas e outras individuais já começam a surgir. É quando nascem as literaturas indígenas”, contextualiza.

Com a inclusão da obra de Krenak, a UFRGS passa a ter, pela segunda vez, um autor indígena em sua lista de leituras obrigatórias. A primeira foi A Terra dos Mil Povos, de Kaká Werá Jecupé. Na avaliação da professora Ana, a presença desses autores contribui para ampliar o entendimento sobre o que constitui a literatura no século XXI.

“A literatura é, como o mundo neste século, complexa e plural. Sujeitos e coletivos que antes não faziam parte dos cânones, não eram estudados nas escolas nem nas universidades agora ocupam esses espaços”

Ana Tettamanzy

A professora Izabela Leal também destaca a importância da presença de autores indígenas em espaços de produção intelectual e construção de pensamento dos quais esses povos historicamente foram excluídos. Mas mais do que isso, visualiza na inclusão dessas obras em concursos vestibulares um papel pedagógico. “De certa maneira, pensamos numa geração anterior como uma geração já muito contaminada por formas mais rígidas de pensar. A gente espera que essa nova geração ingresse na universidade com uma cabeça um pouco diferente”, tendo as leituras um papel importante na condução desse processo. 

Suzana Takua (Rio de Janeiro, 29/11/2003). Petyngua Rexa, 2026, guache sobre papel, 48 cm X 65 cm

Com o objetivo de ampliar as experiências de leitura, o JU produz, desde 2018, uma série de reportagens em que especialistas destacam aspectos e fazem análises interpretativas das obras indicadas pela Universidade. Acompanha cada texto a criação de artistas convidados que dialoga com a obra e a biografia de autoras e autores. Veja todas as reportagens aqui.